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Viagem e morte em Peregrinação de Barnabé das Índias, de Mário Cláudio
Dalva Calvão (UFF)
A Morte é uma viagem e a viagem é uma morte .
BACHELARD 1
Em um dos seus sentidos mais corriqueiros, dentro do amplo leque polissêmico que a contém, a palavra viagem equivale ao próprio percurso existencial, tempo decorrido entre o nascimento e a morte, a que todos, irremediavelmente, estamos submetidos. A esta viagem, tão certa quanto imprevisível, sucede a outra, a viagem que se abre ao mistério, no espaço post-mortem . É exatamente isto que Barnabé, protagonista do romance de Mário Cláudio, ouve de Paulo da Gama, nos momentos que antecedem a morte deste, em um convento da Ilha Terceira, nos Açores, para onde, premido pelo estado de saúde do irmão, Vasco da Gama conduzira o navio que restara da aventura:
“[...] por concluída se dá a viagem, irmãos, que a destino diverso desta jamais conduz a jornada, e para ela a agulha de todo o Norte se orienta, e não há júbilo, nem cólera, nem paciência, que esta verdade de nós alcance iludir, e quedai-vos por isso na paz, irmãos, até o Juízo iluminado pela Sagrada Eucaristia.” 2
Amparado em sua fé, o capitão da nau São Rafael confiava na existência de um novo caminho a seguir, conferindo uma explicação ao mistério e justificando a morte pelo retorno ao mundo. Sua morte estaria, assim, enquadrada numa perspectiva previsível dentro do pensamento dominante no contexto em que ele se incluía, no qual, para o que ia morrer restava a esperança de um retorno triunfal à vida e, para os que sofriam a perda, o consolo de honrar o que se fora, cultuando sua memória, como exatamente fará Vasco da Gama em relação ao pranteado irmão, conseguindo, com ricas famílias holandesas da ilha, tudo o que faltava ao convento onde se abrigavam, para que se pudesse realizar “com a pompa requerida, o funéreo arraial.” ( PBI , 266) Assim, numa “câmara ancha”, o corpo de Paulo da Gama é velado por entre “negros damascos”, que revestiam as paredes iluminadas por tochas ( PBI , 265/266), num cenário digno da grandeza de sua condição e da tarefa heróica que acabara de realizar, e capaz, ainda, de suavizar os remorsos e a dívida de gratidão do irmão mais novo e mais poderoso que, entretanto, ocupara o lugar destinado, por todos os méritos, ao irmão mais velho.
Tudo isto parece conformar-se a uma concepção de morte em que, na verdade, o que continua a estar em evidência é a vida, o que permanece no tempo e no espaço do vivido e do conhecido: ao morrer, espera-se a ressurreição da morte; ao chorar o morto, celebram-se as glórias ou lamentam-se as falhas daquilo que ainda pertence ao mundo. Perfeitamente compreensível dentro das limitações humanas, esta atitude pode remeter-nos ao que Blanchot, ao analisar as relações entre a literatura e a morte, chama “morrer bem”:
Morrer bem significa morrer com decência, coerente consigo mesmo e no respeito dos vivos. Morrer bem é morrer em sua própria vida, voltado para ela e de costas para a morte, e essa boa morte indica mais delicadeza para com o mundo do que deferência pela profundidade do abismo. 3
Entretanto, a própria história de Paulo da Gama narrada no romance parece apontar para uma outra forma de enfrentamento da morte, não mais a conformada aceitação de sua chegada e a confiança no Dia do Juízo como recompensa do modo como se viveu na terra, mas a coragem de desafiá-la, numa espécie de medição de forças e de empenhamento dos próprios limites, que resultarão em uma inevitável mudança na relação com a vida. Ao contrário do irmão - da infância à velhice atormentado por um imenso medo que, reprimido, marcará tanto a sua arrogância quanto a sua insegurança -, Paulo da Gama, desde muito cedo, parece ter aprendido a conviver com seus fantasmas: durante a adolescência, e depois de duras experiências familiares, mergulha numa espécie de loucura mansa, concretizada na obsessão que o faz enfrentar, sem explicações plausíveis, as ondas do mar, “numa cisma de morte e redenção, a grandes braçadas nadando contra os redemoinhos funestos da Praia Nova.” ( PBI , 28). Desta fase teria vindo a desconfiança em relação a ele, a fama de sua fragilidade física e mental, motivo pelo qual, aparentemente, teria sido ele impedido de assumir o comando da viagem, embora fosse para isto o mais preparado. Mas, possivelmente, daí também teriam vindo algumas das outras marcas que o faziam diferente do irmão, mais próximo dos outros, mais humano – um homem que, por haver passado por uma experiência relacionada à morte, parecia estar mais preparado para olhar a vida, o que facilitará seus contatos com os marujos da nau São Rafael, ligados ao capitão por laços de respeito e afeto. Entre tais marujos inclui-se Barnabé que, de modo especial, sob o comando de Paulo da Gama sente-se protegido, estabelecendo com ele, em seu íntimo, uma certa cumplicidade.
Esta cumplicidade será, por outro lado, favorecida pelas próprias experiências de Barnabé que, até mesmo com maior intensidade, também vivencia o mergulho na morte e no desconhecido, redimensionando, em conseqüência disto, sua relação com a vida e, portanto, sua relação com a morte. Para Barnabé, o anônimo menino judeu da aldeia de Ucanha, ao norte de Portugal, a viagem para as Índias começa como uma espécie de libertação dos desacertos anteriores de sua vida. Mais que isto, a viagem é a possibilidade de estar longe de Portugal em época de expulsão de judeus e de perseguição a cristãos-novos que, como ele, no íntimo mantinham viva a sua crença original. À medida que o dia da partida se aproxima e, sobretudo, durante a travessia marítima, a viagem passa a se revestir para ele de outros e mais amplos significados, emoldurando-se numa intensa dimensão simbólica, na qual a presença da morte passa a ter um papel fundamental, muito além da simbologia inicial de que toda viagem contém em si a experiência da morte, por ser, inevitavelmente, partida, afastamento, ausência.
Se mesmo para o homem atual, com seu conhecimento e sua tecnologia, o mar será sempre um fascínio carregado de mistério, para o homem do século XV, naturalmente, o aventurar-se sobre as ondas constituía um desafio que exigia impensáveis esforços de coragem. Fonte de inúmeras ameaças, reais e imaginárias, o mar, “na Europa do começo da Idade Moderna” como lembra Jean Delumeau, era “por excelência, o lugar do medo” 4. Portanto, embarcar para as Índias significava, como talvez nenhuma outra ação significaria, defrontar-se com o medo, arriscar-se a morrer. E logo Barnabé entrará em contato com as duras experiências da vida a bordo de uma caravela, protagonizando dois desastres que acabam por lançá-lo às margens da morte.
O primeiro acidente é o naufrágio que acontece ainda na costa atlântica, em decorrência das gigantescas ondas que varrem o convés, causadas pela aterrorizante presença da tromba marítima: o fenômeno, mencionado na epopéia camoniana – com a qual, torna-se desnecessário lembrar, o texto de Mário Cláudio amplamente dialoga - é aqui descrito com riqueza de detalhes a partir da desordem e do desespero que tomam conta da tripulação, em suas tentativas para manter a salvo a nau São Rafael, de onde, em determinado momento, “de roldão foi projetado o de Ucanha” que, em segundos, “volveu à tona, e cobrou fôlego, e reimergiu, e não atinava com luzeiro, nem com chamamento, e era numa salina catadupa que se despenhava, e encharcavam-se-lhe os pulmões, sem remissão o sugando a fundura.”( PBI , 171) Afastado o perigo, dominado enfim o navio, encontra-se Barnabé a flutuar, à espera de socorro, “iluminado por essa placidez que substitui a inicial travessia dos territórios da morte.” ( PBI , 173) Acontecera-lhe que, após as palavras de uma prece milenar vindas da mais funda memória de sua infância judia, surgira-lhe à frente um anjo, por ele identificado à imagem de São Rafael que figurava na proa do barco, e libertara-o das aflições do afogamento, afirmando-lhe que ele vencera “a inicial das provações” com que Deus o quisera experimentar, e anunciando-lhe “futuros combates” de onde ele também sairia triunfante, já que não havia bastado “descer por uma vez às trevas do extermínio a que sujeita ficou a condição do homem.” ( PBI ,173)
Abandonando a conotação religiosa num sentido mais estrito, o que se delineia desta passagem é a simbologia da morte como experiência iniciática, é a viagem à morte – ou a uma espécie de morte - e o regresso dela como condições para uma renovação interior, travessia por dentro de si mesmo, a fim de que se possa ser capaz de entender o mundo e os homens, desvendando-lhes novas dimensões do mistério em que se constituem, adquirindo, ainda, um certo poder que prefigura o convívio com o que se acredita sobre-humano e eterno. Variados rituais de iniciação, em variadas culturas, carregam exatamente esta idéia de “fazer morrer” para que se permita o acesso a outras paragens do conhecimento: “A morte iniciática [...] representa a morte aos olhos do mundo, enquanto superação da condição profana.[...] É um rito de passagem, que simboliza o nascimento de um novo ser” 5. Não será, pois, sem motivos que, depois de seu afogamento, Barnabé se transforma, adquirindo maturidade e sabedoria, uma comunhão maior com as coisas e uma aproximação maior com os outros, que toleram seus alheamentos como geralmente se tolera “a suave doideira que se apodera dos santos.” ( PBI , 177)
A experiência de regresso da morte se repetirá, quando, já no Índico, são as naus colhidas por fortíssima tempestade, durante a qual uma imensa viga desaba sobre Barnabé, deixando-o ensangüentado e sem sentidos, encharcado pelas ondas que invadem o barco. Novamente convoca-se o fantástico e reaparece o anjo que o recolhe e o conduz a um emblemático vôo, por paragens de mistérios e revelações. E as palavras que o anjo vai murmurando ao que mais uma vez vivenciara a morte, para dela se libertar, remetem, novamente, à idéia de iniciação, de mítica ultrapassagem de limites internos, para a possível abertura a outros reinos que não os materiais:
“agora te visito, Barnabé, para que compreendas, e te despojes das algemas que te ferem os pulsos, e se te desvende o que para além das dunas do medo se situa, e atravessaste a morte de novo, e te alimpaste das chagas que te atormentavam, porque está morto o que vive, e vivo está o que morre, e transpuseste as fronteiras que submetem as criaturas, e por todos os quadrantes do Universo viajarás [...] e não serás tu quem permanece, mas O que me enviou, e perante o Seu trono descansarás da jornada, e às Índias verdadeiras aportastes, pois que sempre se alojaram elas nos ocultos de ti, e de tamanha riqueza te revestes que nenhum reino te ultrapassará [...].”
( PBI, 200/201 )
Como na compulsiva natação do jovem Paulo da Gama, as duas “mortes” de Barnabé nas águas do mar evocam relações inconscientes do homem com o desconhecido, com um lado obscuro e ambíguo a que se poderá ter acesso através de experiências simbólicas, que se excluem do campo do racional e que podem funcionar como “a passagem de uma porta que dá acesso a outro lugar.”6. Como lembra Bachelard, “o salto no mar reaviva, mais que qualquer outro acontecimento físico, os ecos de uma iniciação perigosa, de uma iniciação hostil. É a única imagem exata, razoável, a única imagem que se pode viver, do salto nodesconhecido.”7 Porém, deste salto, desta espécie de morte, como vimos, poderá resultar uma forma particular de se relacionar com o mundo e, especialmente, com a morte verdadeira, atitude que estaria em clara oposição à idéia já mencionada de “morrer bem”, segundo Blanchot, mas que manteria semelhança com outra idéia do mesmo pensador, a de “poder morrer”. Para Blanchot, poder morrer é, tendo plena consciência de sua condição mortal, fazer desta consciência a justificativa da própria vida: não negando a morte, mas, ao contrário, tendo-a sempre como presença irrecusável, o homem pode se preparar para ela, sem a necessidade de consolo do que ultrapasse seu mistério, mas na justificativa da vida em seus limites estreitos:
A morte, no horizonte humano, não é o que é dado, é o que há a fazer: uma tarefa, de que nos apoderamos ativamente, que se torna a fonte de nossa atividade e de nosso controle. O homem morre, isso não é nada, mas o homem é a partir de sua morte, liga-se fortemente à sua morte, por um vínculo de que ele é o juiz, ele faz a sua morte, faz-se mortal e, por conseguinte, confere-se o poder de fazer e dá ao que faz seu sentido e sua verdade 8.
O que resulta das dramáticas experiências de Barnabé parece ser justamente esta atitude de “poder morrer”: tendo, por duas vezes, morrido para a consciência do mundo, ninguém, como ele, estará tão ciente da sua condição mortal e tão apto a reavaliar a vida e a vivê-la de forma mais plena, conferindo-se, como diz Blanchot, “o poder de fazer” e dando ao que faz “seu sentido e sua verdade”. Os seu atos, a partir daí, revestem-se de uma espécie de iluminação, realizados em estreita comunhão com os outros e com a natureza, em perfeita valorização da vida, no que ela tiver de mais comovidamente humano, e numa subjetiva e mágica convivência com os que, já mortos, reiteram a fragilidade da matéria de que somos feitos. Assim é que, na viagem de volta, vamos surpreendê-lo a evocar o espírito de quatro companheiros mortos durante a aventura marítima e que, segundo sua compreensão, a ele se manifestam sob a forma de pombas que pousam na amaruda da nau: a cada um ele se dirige, a relembrar os motivos variados de suas mortes, num diálogo em que, mais uma vez, depreende-se, ao mesmo tempo, a aceitação da morte e a afirmação da vida.
No entanto, muito antes deste apaziguado diálogo com os mortos da viagem, Barnabé já se sentira, mais que solicitado, assombrado por outro e mais antigo morto, que, algumas vezes, voltando do mistério onde penetrara, vinha perturbar seu sono ou sua vigília: refiro-me a André Mendes, o companheiro da infância, nadador que, ao contrário de Paulo da Gama, acaba tragado pelas águas, não do mar, mas do rio de Ucanha, embora este rio, como o espectro do afogado ensinará a Barnabé, adquira características que o aproximam da imensidão do mar, já que “não tem foz [...] e que se estreita, quando pensamos ter chegado ao sítio onde termina, e forma outros cursos, e cada qual em outros vários se espalha, e será assim por infindável tempo até ao Juízo Final.” ( PBI , 61) A morte e o fantasma de André permeiam várias passagens da narrativa, adquirindo especial significado não apenas como elemento antecipador das posteriores experiências de morte de Barnabé, mas também como elemento deflagrador de uma certa predisposição deste para a intimidade com a presença da morte.
Por tudo isto, creio podermos confirmar a natureza desta viagem às Índias recriada por Mário Cláudio como uma viagem que “exprime um desejo profundo de mudança interior, uma necessidade de experiências novas, mais do que um deslocamento físico”, 9 identificando-se, assim, às viagens simbólicas que constituem o núcleo de variados mitos em variadas civilizações, retomadas, com tanta freqüência, pela literatura de todas as épocas. No livro de Mário Cláudio, a viagem, a peregrinação - com toda a carga mítica deste termo - é, afinal, a viagem “em direção ao centro” 10, num redimensionamento de valores históricos e humanos em que assume o lugar principal o desconhecido marujo, transformado depois em mendigo, exilado das glórias do mundo e, no entanto, muito mais integrado à vida do que o histórico capitão que comandou a esquadra e que, no livro, tem sua importância empalidecida, por não ter vivenciado as experiências viscerais que deram a Barnabé uma certa forma de domínio sobre o medo e sobre a morte. Como afirma o próprio Mário Cláudio: “[este] é um romance de crença, de alguma religiosidade, de alguma espiritualidade, em que, de facto, o que está em causa é a viagem que nós próprios fazemos interiormente, e sobretudo a viagem que fazemos em torno do problema da morte. É fundamentalmente a afirmação de que o cabo das Tormentas, ali e em cada um de nós, é a morte.” 11
Para finalizar, resta lembrar que todas estas idéias estão já contidas na própria epígrafe do livro, trecho de um documento cistercience do século XIII, em que a morte é invocada “através de manifesta polaridade”, como já lembrou Maria Theresa Abelha 12, em sua constituição dialética, que lhe permite ser, entre outras coisas, “abismo da perda, para atingir a salvação”. Se, como quer Compagnon, “a epígrafe representa o livro [...], infere-o, resume-o”, 13 Mário Cláudio não poderia ter sido mais exato em sua escolha, sugerindo, de imediato, ao leitor, o caminho a ser seguido para a travessia da viagem narrada.
1 BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 77.
2 CLÁUDIO, Mário. Peregrinação de Barnabé das Índias . 2. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1998, p. 257. As próximas citações de passagens do romance virão indicadas apenas pelas iniciais PBI , seguidas do número da página.
3 BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 97.
4 DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente - 1300-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1996., p.41.
5 CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 16.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001, p. 506.
6 Idem, ibidem.
7 BACHELARD, Gaston. Ob.cit., p. 172.
8 BLANCHOT, Maurice. Ob.cit., p. 93
9 CHEVALIER e GHEERBRANT. Ob. cit, p.952.
10 Idem, ibidem.
11 CLÁUDIO, Mário. A oculta viagem de Vasco da Gama (entrevista). In: Expresso. Lisboa, 04/07/1998.
12 ALVES, Maria Theresa Abelha. A peregrinação iniciática de Barnabé das Índias. In: Anais do 6º Congresso Internacional da AIL . CD - ROM . UFRJ, Rio de Janeiro, 1999.
13 COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996, p. 80