VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Cenas Indisciplinadas: A emergência do debate na ABRALIC
Iris Hoisel (UFBA)

Em linhas gerais, a proposta deste simpósio é desenvolver uma reflexão sobre a atuação político-pedagógica dos profissionais da área de letras tendo em vista as demandas do presente, especialmente no que diz respeito à dupla exigência de um saber especializado, vinculado à estrutura moderna da universidade, e de um saber plural, vinculado às solicitações de um mercado ávido por diferentes produtos culturais. Dentro dessa proposta mais ampla, pretendo percorrer, menos como cartógrafo e mais como aviador, um território que, sob a nomenclatura de uma disciplina específica do campo dos estudos literários, a Literatura Comparada, "capitaliza as insatisfações com os limites disciplinares tradicionais" 1. Trata-se do vastíssimo e irregular terreno da ABRALIC, tal como se apresenta em seus congressos.

Na ocasião em que foi fundada a ABRALIC, 1986, o campo dos estudos literários já havia passado por uma série de transformações promovidas inicialmente pela intervenção de algumas correntes teóricas como o estruturalismo e pós-estruturalismo franceses que abriram as portas da reflexão acadêmica para a ação perturbadora de alguns acontecimentos do cenário cultural brasileiro no final da década de 70 e início da década de 80, segundo periodização de Silviano Santiago, no ensaio "Democratização no Brasil - 1979 - 1981" 2. Dentre os acontecimentos que moveram essas transformações destaco alguns determinantes para a definição de uma dominante política e cultural no campo dos estudos literários, ou seja, para a emergência da crítica cultural nesse campo. São elas: 1) o deslocamento das adesões partidárias para adesões micro-políticas, resultante da fragmentação das esquerdas; 2) o deslocamento dos objetos estéticos de uma condição insular para uma condição de mediador cultural; 3) o inter-relacionamento entre a esfera da política e as esferas da arte, da cultura e do cotidiano; 4) a abertura do cenário político para as diferenças culturais e para os segmentos minoritários da sociedade. Tais acontecimentos, na medida em que vão se tornando mais evidentes no interior das diversas instituições do saber letrado, acirram o debate disciplinar.

As transformações no cenário cultural mais amplo refletem no espaço mais restrito das produções acadêmicas desde os primeiros anos da década de 80 (é o que pode ser observado na tese de Raquel Esteves Lima "A crítica literária na universidade brasileira" 3 e em algumas referências usadas por Santiago em seu texto sobre a democratização cultural) não é surpreendente imaginar que já no primeiro congresso, em 1988, a ABRALIC apresente os traços significativos do debate disciplinar que ganhará contornos nítidos no quinto congresso, Cânones e contextos , e que será formalizado pelo temário do sexto congresso: Literatura Comparada = Estudos culturais?

Surpreendente, todavia, é a pouca legibilidade de traços que sinalizam a irrupção dos acontecimentos de tamanho potencial de intervenção no cenário acadêmico, nas comunicações do 1º Congresso, sediado em Porto Alegre, sob a presidência de Tânia Franco Carvalhal. É pouco representativo, por exemplo, o número de comunicações que transbordam os limites disciplinares tradicionais dos estudos literários e se aproximam do campo hoje identificado como Estudos Culturais ou, mais freqüentemente no Brasil, como crítica cultural. Menos expressivo ainda é o número de comunicações que se debruçam sobre a problemática disciplinar dos estudos literários face às transformações acima mencionadas. Apenas uma, proveniente de uma universidade norte-americana, promete abordar o caráter multidisciplinar da Literatura Comparada, a dimensão cultural do comparativismo contemporâneo e seu investimento em diferentes linguagens estéticas e nos discursos minoritários.

O temário do 2º Congresso, sediado em Minas Gerais, sob a presidência de Eneida Maria de Souza - Literatura e Memória Cultural - expressa a coexistência entre os saldos ou heranças de vertentes críticas imanentistas e os renovados impulsos de contextualização. Dá-se, na conjugação dos termos 'literatura' e 'memória cultural' uma ultrapassagem tanto do confinamento na textualidade, quanto do cânone estético, o que possibilitou uma maior diversificação dos temas, o incremento das abordagens contextualizadas cultural e historicamente e a multiplicação dos objetos. Enquanto o tema da intertextualidade determinava um perfil em que predominavam as abordagens voltadas para aspectos textuais, o tema da memória cultural - que sem dúvida significava, à época, um passo para a institucionalização das transformações que vinham ocorrendo no campo dos estudos literários - funcionava como um convite a pensar a literatura na sua dimensão mais ampla da cultura. Ainda assim, as propostas de leituras contextualizadas representavam uma minoria pouco significativa em relação ao total de títulos de comunicações, apesar da força de sua atuação pontual e perturbadora no cenário da crítica contemporânea.

O 3º Congresso aconteceu na ocasião em que a diretoria da ABRALIC esteve sob a presidência de Silviano Santiago, em 1992. A associação de dois fatos relativos a esse evento sinaliza, de antemão, o direcionamento que se pretende dar às apresentações, são eles: a escolha do tema Limites e do convidado para abrir o Congresso e também para fomentar as discussões disciplinares iminentes, Fredric Jameson - nome àquela altura bastante expressivo na cena, ainda incipiente no Brasil, das reflexões sobre a pós-modernidade. Vale ressaltar que o tema - vago se pensado fora de qualquer contexto - aliado ao cenário acadêmico e cultural emergente, envolve-se em uma rede de significados: limites entre literatura e cultura, limites entre alta cultura e cultura de massa, limites entre saber erudito e saber popular, limites entre centro e periferia, limites entre modernidade e pós-modernidade. Observa-se, nesse congresso, um aumento do número de comunicações envoltas em questões próprias dos estudos de dominante política e cultural: tais como identidades culturais e étnicas, pós-colonialidade, pós-modernidade e globalização. Destaco um título pelo pioneirismo temático no espaço da associação e pela vinculação que dele se pode estabelecer com uma vertente dos Estudos Culturais norte-americanos, os Queer Studies. O título "Explicando o ambíguo: máscaras e sinais em três obras homoeróticas" 4 (dentre as quais estão Guimarães Rosa e Marcel Proust), parece deslocar a ambigüidade, enquanto padrão estético definidor da literariedade, para mergulhá-lo numa vinculação micro-política.

No 4º Congresso, o aumento do número de participantes, associado à crescente circulação de uma produção crítica contemporânea no Brasil, resulta na visível proeminência das abordagens que privilegiam temas pungentes no cenário cultural, o que, certamente, prepara o terreno para o congresso seguinte que apresenta, no temário Cânones e contextos , uma provocação. Com o tema Literatura e Diferença , o 4º Congresso foi sediado em São Paulo, sob a presidência de Benjamin Abdala Júnior e vice-presidência de Leyla Perrone-Moisés, nomes identificados, no cenário da crítica literária, apesar da flagrante diferença entre as respectivas vertentes de trabalho, à ala mais resistente ao conjunto dos últimos acontecimentos no terreno dos estudos literários. Isso nos leva a pensar que a irrupção dos acontecimentos e das mudanças nos congressos não está submetida aos locais de organização e aos diferentes posicionamentos dos membros das diretorias desses eventos.

O tema do 5º Congresso da ABRALIC é o barril de pólvoras do debate disciplinar e reuniu em uma Associação de grande porte estudiosos de diversas proveniências, num momento da crítica literária em que o consenso estava longe de ser uma possibilidade. Cânones e contextos, em que pese sobre o seu título a suspeita de que pode ter sido proposto como uma tentativa de pacificação, promoveu uma catarse intelectual de pesquisadores que puderam aproveitar o convite do temário para expor suas inquietações - e suas divergências - diante dos acontecimentos no terreno da crítica literária. É importante destacar a escolha de Homi Bhabha para abrir o evento como marca significativa da consolidação do novo paradigma crítico no Brasil.

Duas comunicações devem ser mencionadas pelas repercussões que provocaram no cenário intelectual. Luiz Costa Lima e Leyla Perrone-Moisés, nas intervenções intituladas "O comparatismo hoje" e "A crítica literária hoje" 5, apresentadas numa mesma mesa desse evento, questionam, de forma veemente, os paradigmas críticos contemporâneos. A avaliação negativa, de ambos, da crítica contemporânea provocou os ânimos de muita gente e produziu respostas quase que imediatas que convulsionaram o evento, além de ter estimulado, em seqüência, contra-argumentações como a de Wander Melo Miranda (UFMG), no artigo "Projeções de um debate" 6, publicado em 1998, na Revista Brasileira de Literatura Comparada ; e a de Eneida Maria de Souza, no artigo "A teoria em crise" 7, publicado na mesma revista.

As inquietações acentuadas pelo temário Cânones e contextos e expostas nos debates em 1996 foram formalizadas, dois anos depois, na equação Literatura Comparada = Estudos Culturais? , tema do 6º Congresso, sediado em Florianópolis, sob a presidência de Raul Antelo. Nota-se que a subversão formal do temário, apresentado na equação, não se restringe ao tema geral. Em inúmeras mesas temáticas, encontram-se os termos do título separados pelo sinal gráfico @, marca da contemporaneidade, da sociedade da informação, das novas formas de sociabilidade e da difusão das novas tecnologias da comunicação, que promoveram uma série de transformações na produção, circulação, recepção dos objetos estéticos, tema estudado em muitas comunicações desse evento.

Além de ter propiciado o diálogo ou embate de grande número de trabalhos, assinados por pesquisadores das mais diversas procedências, que investigam, discutem ou avaliam as relações entre a Literatura Comparada e os Estudos Culturais, o tema proposto ampliou o espaço da Associação para as políticas minoritárias e para as reflexões sobre pós-modernidade e globalização.

Destaco aqui, como exemplo, pela sua enorme popularidade a mesa "Vidas Viadas, estéticas bichas" 8, que não conseguiu acolher a todos os congressistas interessados em assisti-la no espaço físico reservado para a sua apresentação, na ocasião do 6º congresso. A associação entre 'vida' e 'estética' conjuga o lugar da demanda e o lugar do saber, o que resulta da democratização dos espaços acadêmicos que vem ocorrendo desde a década de 70 do século passado e que exigiu a reconfiguração das antigas abordagens críticas e o deslocamento do lugar do intelectual, enquanto sujeito autorizado que, de fora do corpo social, conhece e decide sobre as necessidades culturais mais prementes na sociedade.

É nesse ponto que proponho aterrissar do sobrevôo pelos seis congressos, para fazer um balanço, observando a indissociável relação entre ampliação dos limites disciplinares, multiplicação dos objetos, acirramento do debate e o fator aumento das demandas no interior desses eventos (em número e diversificação). O progressivo aumento do número de participantes nos congressos da ABRALIC é conhecido. Do primeiro ao sexto congressos os números variaram de cerca de 150 participantes para cerca de 700. No 7º Congresso, sediado em Salvador, soma-se 1300 inscritos e no 8º, sediado em Minas Gerais, 1800 inscritos.

Essa relação entre demanda e intervenção nos campos do saber foi pensada por Ítalo Moriconi em seu ensaio "Qualquer coisa fora do tempo e do espaço (poesia, literatura, pedagogia da barbárie)", publicado nos Anais do 6º Congresso. Destacam-se, no referido ensaio, os saldos positivos de uma primeira onda de massificação do ensino superior empreendida ironicamente pela ditadura militar preocupada em conciliar uma situação interna de regime fechado com uma política externa de desenvolvimento e expansão do país. A democratização do ensino superior no Brasil é marcada por um enorme contingente de alunos que não compartilham a experiência cultural letrada das elites. Essa nova população nos cursos de Letras - antes destinados a moças de classe média alta que aperfeiçoavam seus conhecimentos de línguas estrangeiras ou refinavam seu conhecimento letrado - contribui para impor à área novos objetos culturais, como música e cinema, e novas questões teóricas, como as hierarquias e exclusões implícitas na avaliação crítica fundada no valor estético. Segundo Moriconi:

Com a concretização de estruturas e instituições massificadas de produção e transmissão do saber, o acervo humanístico tradicional, assim como suas múltiplas competências, técnicas e disciplinas, não é socializado, ou seja, não é efetivamente transferido para as grandes maiorias, a não ser, nos melhores casos, como uma espécie de verniz que se confunde com lazer e entretenimento. (...) O que acontece, ao contrário, é que a massificação leva para dentro do sistema universitário grupos sociais até então alijados, apresentando as características de uma emergência social de tipo revolucionário, que, praticamente, obriga à elaboração de novos modelos de gestão do saber. É a própria natureza do saber que muda, tornando-se mais diretamente ligado à práxis cotidiana, mais diretamente vinculado às questões de poder nos planos macro e principalmente micro. 9

 

O que se destaca, portanto, é a relação direta entre a massificação das instituições de ensino superior e a produção de novos modelos de gestão do saber. Esse processo que comumente assusta determinados grupos de intelectuais preocupados com o apagamento da chama iluminista pelo sopro dos bárbaros, talvez seja a única via pela qual o estatuto de pós-disciplina possa alcançar o seu "sentido forte" que, segundo Eneida Leal Cunha, consiste na capacidade de "transformar a insatisfação com os limites disciplinares em efetiva intervenção não só nos modos de produção e circulação do conhecimento, como na própria compreensão do que seja o conhecimento produzido, e até nos próprios objetos do conhecimento - enquanto vida, dor, alegria, carência, desejo, interdição, violência" 10.

A condição de pós-disciplina deve associar, portanto, ao sentido epistemológico um caráter político e pressupõe o deslocamento do lugar do intelectual como porta-voz das aspirações populares para devolvê-lo ao corpo social afim de lançá-lo à condição de estabelecer "alianças eficazes" com outros grupos sociais, segundo Eneida Leal Cunha, "com aqueles - aquilo - que muitas vezes elegemos, à distância, como nossos objetos de interesse intelectual".

Se, como vimos, a demanda é um fator determinante na transformação das instituições do saber - universidades, disciplinas, associações de pesquisadores -, lanço e deixo em aberto algumas questões sobre mudanças atualmente em curso nas universidades brasileiras: as atuais políticas de democratização do saber empreendidas pelo governo, como o projeto "Universidade para todos" e a política das cotas para afro-descendentes e alunos egressos de escolas públicas nas instituições de ensino superior, podem ser comparadas à onda de massificação do ensino empreendida pela ditadura? O que de positivamente diferente a nova política de democratização do acesso à universidade pode ter em relação à política anterior de aumento do número de vagas? Esses projetos de democratização do ensino universitário poderão definir os rumos da condição pós-disciplinar?

 

CUNHA, Eneida Leal. Além dos limites disciplinares. A Tarde , Salvador, 8 jul. 2000. Caderno Cultural, 4.

SANTIAGO, Silviano. "Democratização no Brasil - 1979-1981: Cultura versus Arte". In: ANTELO, Raul et al. (Org.). Declínio da arte, ascensão da cultura . Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1998. p. 11-23.

LIMA, Rachel Esteves. A crítica literária na universidade brasileira . 1997. 323 f. Tese (Doutorado em Letras - Literatura Comparada) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

3º Congresso ABRALIC: Limites, 3., 1992, Niterói. Contraponto : boletim semestral da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Niterói: ABRALIC, 1992.

5º Congresso ABRALIC: Cânones e contexto, 5, 1996, Rio de Janeiro. Anais do Quinto Congresso ABRALIC . Rio de Janeiro: ABRALIC, 1997.

MIRANDA, Wander Melo. Projeções de um debate. Revista Brasileira de Literatura Comparada , Rio de Janeiro, 1998, n. 4, p. 11-17.

SOUZA, Eneida Maria de. A teoria em crise. Revista Brasileira de Literatura Comparada , Rio de Janeiro, 1998, n. 4, p. 19-29.

6º Congresso ABRALIC: Literatura Comparada= Estudos Culturais?, 6., 1998, Santa Catarina. Caderno de resumos . Santa Catarina: ABRALIC, 1998.

6º Congresso ABRALIC: Literatura Comparada= Estudos Culturais?, 6., 1998, Santa Catarina. Anais . Santa Catarina: NELIC, 1999. 1 CD-ROM

CUNHA, Eneida Leal. Literatura Comparada e Estudos Culturais: ímpetos pós-disciplinares. In: ANDRADE, Ana Luiza et alli (org.). Leituras do Ciclo . Florianópolis: ABRALIC; Grifos, 1999. p.104-105.