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O fim das ilusões
Eneida Maria de Souza (UFMG)

O título é apocalíptico, mas o texto, não. Como pessoa interessada e entusiasta de tudo aquilo que significa mudança nas idéias e no pensamento crítico da atualidade, seria um contra-senso investir contra o presente em favor de valores perdidos do passado. Ou de fechar portas para uma possível crença no futuro, mesmo que os grandes relatos tenham sido colocados entre parênteses ou tenham sido abolidos do discurso contemporâneo. Não é esta a minha proposta de leitura do fim das ilusões. O que pretendo trazer para o debate é a sensação de estarmos divididos entre um pensamento teórico capaz de entender os complexos acontecimentos da contemporaneidade - e aceitá -los como sintoma da queda de parâmetros - e a posição assumida pela classe intelectual universitária, voltada para a prática selvagem desses mesmos princípios.

Na busca de explicações plausíveis para o presente, a valorização de um passado sem brechas ou rasuras complica e falseia a lembrança, com vistas a reter apenas o que a memória soube guardar de bom. Essa posição se apresenta também de forma equivocada, ao reforçar o poder da experiência pessoal como trunfo e condição de sabedoria. A descrença no poder legitimador das instituições, e no caso específico, da universidade, hoje desvinculada de seus princípios fundadores, é um dos mais fortes argumentos para a compreensão dos paradoxos que regem as atitudes do intelectual pós-moderno. Ao lado da diluição do controle exercido pelo poder institucional e estatal, são também nuançadas as normas morais do indivíduo, que deixam de ser ditadas ou impostas pelo espírito nacional da modernidade, a família ou a Igreja, lugares antes reservados à preservação da lei e da conduta. A lógica do efêmero e do provisório, a flexibilidade das opiniões, o gosto pelo espetacular e a inconstância das ações e mobilizações sociais redesenham o traçado contemporâneo, seja no campo artístico, literário, cultural e político. As diferenças de atuação e de atualização dessas mudanças operacionais conforme o campo é o que produz o caráter ambíguo e paradoxal do presente. Ou nas palavras de Christine Buci-Glucksmann, no seu livro Esthétique de l'éphémère ,

(...) Ce n'est pourtant qu' avec le passage historique d'une culture des objets et des permanences à une culture des flux et des instabilités mondialisés que l'ont voit se développer un nouveau type d'images "post-éphémères", que j'ai appelées images-flux. Véritable signe de société, l'éphémère n'est-il pas devenu une nouvelle modalité du temps à l'époque de la mondialisation? Éphémère des familles à géométrie variable, éphémère du travail de plus en plus "flexible" et menacé, éphémère des vies et des identités qui perdent leurs repères fixes, tout révèle une sorte d'accélération du temps qui déracine les stabilités, en occultant la limite extrême de l'éphémère, la mort. Comme si cette conscience de l'éphémère était devenue la perception d'un social précaire et sans projet, celui d'un "temps mondial", au sens de Zaki Laïd, marqué par la fin des "grands récits" et par une "logique de l'instantanéité" et de l'éternel présent, et suscité par des nouvelles technologies et la perte du sens lié à la mondialisation." 1

 

O conceito de efêmero é interpretado na sua dimensão ambivalente, por contemplar tanto a arte quanto a existência, a cultura de massa e as novas tecnologias. Retomar os surgimentos diferenciados do efêmero cultural e ponderar sobre as suas fragilidades e esquecimentos, suas distorções e equívocos, possibilitam o tratamento dado ao valor estético e ao comportamento ético da vida cotidiana. A compressão do tempo implica a concepção de um tempo flexível e veloz e de uma consciência efêmera e frágil em relação ao mundo, "numa sociedade sem proteção e sem luto (a morte abstrata e asséptica no hospital), onde se celebra o presente e as aparências com o intuito de desfazer as realidades". 2 Na dimensão escondida e recalcada do efêmero, se articula, contudo, a travessia da morte, que desestabiliza a hierarquia das coisas, por se constituir como o limite do efêmero. Interessa à autora ponderar sobre o trânsito do conceito, sobre a diferença entre a estetização do cotidiano pela mídia e aquela produzida pela arte e a literatura, reconduzindo a discussão para a esfera pública e a política. Embora discorde em parte da hierarquia estabelecida quanto à estetização das diferentes manifestações culturais, considero de fundamental importância a ponte estabelecida entre arte e existência, pois é a partir desse raciocínio que desenvolvo o meu argumento. Ampliaria, contudo, a passagem do conceito de efêmero na arte e na existência para outro domínio, o da crítica cultural.

Assim, no lugar de se proceder a simplificações apocalípticas ou apologéticas que são feitas dos tempos atuais, é necessário analisar os paradoxos e reavaliar o que se apresenta como valor positivo ou negativo. Como tentarei mostrar neste ensaio, os princípios responsáveis pela liberação do sujeito pós-moderno - o hedonismo, a comunicação mais eficaz através da informatização, a diluição das fronteiras de gênero, as flutuações de sentido, a relatividade, a democratização da moda, do gosto, dos discursos - deverão ser relidos hoje na sua dimensão contraditória, levando-se em conta a alternância entre teoria e prática. Uma interpretação unívoca da pós-modernidade, como é feita pelos seus detratores, tomando como base esta ou aquela vertente negativa, nada acrescenta à discussão, constituindo-se apenas como voz dissonante. A argumentação deveria ser orientada de forma a ponderar sobre a articulação entre o excesso e a falta, o preço pago pelas conquistas individualistas, a modernização e a barbárie.

Não pretendo, portanto, subestimar o papel da mídia como uma das promotoras dessa estetização cotidiana do efêmero, produtora de valores pós-moralistas e individualistas, como assim é ela considerada por muitos dos defensores do retorno aos princípios racionalistas e permanentes da sociedade. A perda de referências oficiais permitiu certa liberação individual, pelo acesso da população a uma economia de mercado que desvirtuava o bom gosto da classe média alta, propondo uma gama de escolha variada e heterodoxa. Responsabilizar o mercado ou este ou aquele veículo de informação pela transformação gradativa dos direitos de cidadania em direitos de consumismo, pela singularidade de comportamento e pela estandardização da opinião pública consiste na reiteração de uma prática conservadora e elitista.

O homem sem qualidades, uma dos mais contundentes temas que marcam o início do século XX - dominado pelo spleen e pelo desencanto das personagens do romance moderno - é retratado na obra de Musil como sinal de uma época fadada a registrar a fragilidade dos vínculos entre os sujeitos. Não é sem razão que a precariedade e o desconforto do homem moderno estejam vinculados à questão identitária, à necessidade de perceber o desvirtuamento dos valores e da convivência do eu com o seu "estranho" outro. Baudelaire, também reputado como um dos mais significativos representantes da estética moderna, pautada pelos conceitos de efêmero, transitório e fugitivo, reforça a genealogia desses princípios que se prolongam até a pós-modernidade. Mas tanto o spleen da personagem de Musil quanto o baudelairiano - este caracterizado por um "efêmero melancólico", que se sustenta pela alegorização do ego e da alienação de si -, se distinguem do "efêmero cósmico" da atualidade, pela sua leveza e positividade. Ainda nas palavras de Buci-Glucksmann, o "efêmero cósmico" se diferencia do "efêmero melancólico", pela transformação do peso existencial e plástico em leveza positiva, creditada à herança legada por Nietzsche ao século XX: "Un éphémère sans mélancolie, qui retravaillerait, dans le précaire et le fragile, les strates du temps, ses paysages, ses visages et ses imaginaires, au point de donner toute sa portée à cet "espace vibrant" dont rêvait Matisse. Comme le disait Edgar Poe: "Notre avenir est dans l'air". 3

É a partir dessa premissa de Edgar Allan Poe que poderemos pensar a situação do intelectual nos tempos atuais, uma vez que o declínio do Estado-nação, como instância primária de auto-reprodução do capitalismo, tem esvaziado a missão social da universidade moderna. Bill Readings, em estudo sobre a universidade, reforça os preconceitos ligados aos estudos culturais, por estes promoverem o esvaziamento da noção de cultura, considerando ser essa noção indissociável do conceito de identidade nacional. Desprovidos de um conteúdo específico, tanto o modelo cultural moderno quanto o disciplinar estariam igualmente a caminho da extinção, da mesma forma que o intelectual formado dentro desses modelos e atuando na universidade sofre com o declínio da instituição na esfera pública. As afirmações de Readings são esclarecedoras para o que pretendo discutir, principalmente porque o argumento proposto se choca com o meu:

Por outro lado verifica-se, dentro da universidade, a recente ascensão da quase disciplina de "estudos culturais", que promete construir um novo paradigma para as humanidades, quer unificando as disciplinas tradicionais (argumento de Anthony Easthrope), quer substituindo-as (argumento de Cary Nelson) como o centro vivo da indagação intelectual, restaurando a missão social da universidade. Surpreendentemente, talvez, devo adiantar que essas não são necessariamente boas notícias. A idéia dos estudos culturais parece-me surgir num momento em que a noção de cultura deixa de significar algo vital para a universidade como um todo. As ciências humanas podem fazer o que lhes aprouver com a cultura, podem realizar estudos culturais, porque a cultura não mais importa como uma Idéia para a instituição. E juntamente com a cultura se vai o herói da história, o intelectual individualizado, capaz de corporificar metonimicamente o processo de aculturação através do qual o sujeito chega à autocompreensão como um erudito sujeito da cultura. Para dizer de outra maneira, não é mais possível para um sujeito individual pretender "corporificar" a vida do espírito- o que tem implicações relevantes para a pesquisa e o ensino das humanidades. 4

 

A perda da incorporação do sujeito à cultura registra a perda do seu valor de representação junto à própria instituição, mas de forma diferenciada desta evidenciada por Readings, pois não mais se credita ao sujeito uma categoria universalizante e muito menos erudita. Esses princípios sofrem mudanças que vão do negativo ao positivo, uma vez que a universidade tem passado por transformações substantivas para se impor na sua atual conjuntura. A baixa credibilidade das instituições, o retrocesso da cultura letrada, a crise da escola como lugar de redistribuição simbólica e o pequeno espaço reservado à questão da arte nas agendas culturais compõem o quadro desta comunidade imaginada com a qual se convive. No entanto, os pontos positivos referentes à diluição da imagem plena do sujeito alcançam conotações negativas, uma vez que o individualismo se aguçou, uma espécie de reação contrária ao seu apagamento, sem contudo disfarçar o lugar de uma falta e de uma carência. O excesso narcisista promove a convivência do sujeito com seus fantasmas, em que a luta pelo poder engendra a competição desenfreada no meio institucional. São medidos e pesados os papers apresentados pelos pesquisadores em congressos e similares, o que resulta na proliferação de profissionais inseridos na feliz conjunção entre lazer e trabalho, com vistas a se tornar um profissional respeitado e produtivo.

Embora seja mais transigente com a mudança do intelectual em especialista (o especialista dos campi), situação condenada por vários estudiosos, entre eles Beatriz Sarlo ( Cenas da vida pós-moderna ), Russel Jacoby ( Os últimos intelectuais ), Bourdieu ( Homo academicus ), pois a mudança implica a perda da atuação social, acredito que o que mais pesa é a neutralidade valorativa por parte dos intelectuais. Ao se entregarem ao exercício do relativismo cultural como forma de aceitação das diferenças e de banalização da qualidade, torna-se mais difícil aceitar a corrida aos congressos como forma de atualização curricular. Falta debate, é precária a troca de pontos de vista e de perspectivas críticas, inexiste um confronto teórico entre os pares, sem que a questão pessoal seja privilegiada. O ocaso do intelectual crítico se explica pela diferente postura que assume hoje diante do apelo cultural e político. Ignorar a função distinta que desempenha na sociedade é alimentar o sonho de ainda persistir a figura do intelectual moderno, com ideais coletivos de mudanças. O especialista deveria então atuar de acordo com a fragilidade existente nas instituições, dividindo as preocupações com seus pares, sem cair no individualismo e na reclusão ideológica. Desapareceram, é verdade, os líderes e as personalidades carismáticas, razões pelas quais é preciso buscar saídas diferentes das anteriores, com vistas a uma participação conjunta da comunidade intelectual.

Edward Said, em Representações do intelectual expõe a idéia do intelectual como "um crítico vulnerável que está à margem" , e Homi Bhabha, em "O compromiso com a teoria", afirma se situar "nas margens deslizantes do deslocamento cultural", com o objetivo de perguntar qual a função de uma perspectiva teórica comprometida". 5 Nessa perspectiva, procura-se resolver os impasses da relação conflituosa entre o discurso teórico e o político, assumindo-se o exercício da negociação, em Bhabha, e a defesa dos mais fracos, em Said. Esses autores se impõem como referência obrigatória dos estudiosos das políticas pós-colonialistas, demonstrada nas notas de pé-de página de grande parte da obra crítica de nossa comunidade acadêmica. A citação funcionaria, dessa forma, como respaldo teórico para a legitimação de determinadas condutas éticas, mas o que se constata é a contradição entre ação e discurso, entre teoria e prática, entre sujeitos da escrita e sujeitos da realidade.

Não resta dúvida de que o trajeto acadêmico e institucional de profissionais atuantes no período pré- neoliberal, ou seja, antes das modificações processadas na universidade a partir da década de 1990, se traduz em etapas lentamente vencidas, por meio de um processo de hierarquização e simbolização dos lugares ocupados. Mesmo que o sujeito se revele na sua relativa autonomia, o discurso próprio e o esforço individual não se desvinculavam do diálogo contínuo com o outro, nem se afastavam do relacionamento embora conflitante com a comunidade. O gesto isolado, a prática individualista ou o corporativismo representam o avesso de um perfil acadêmico, o qual deveria se primar por uma abertura ideológica mais produtiva, para o razoável sustento das relações institucionais. Na reviravolta neoliberal, a universidade ganha de um lado e perde de outro, o que, facilmente, consegue-se verificar na atualidade. O desvirtuamento das funções do professor universitário e o atual desequilíbrio instaurado no corpo institucional se traduzem ainda na distorção da ascensão funcional, no momento em que a universidade ignora o sentido desses rituais acadêmicos.

Um exemplo poderia ser lembrado, quando a instituição se comporta de maneira omissa por ocasião dos concursos para professor titular, interpretando-os não mais como reconhecimento da comunidade de um investimento pessoal e institucional do candidato, mas invertendo os seus princípios básicos, ao considerar esses concursos como de ingresso e de início de carreira. O incentivo à participação de profissionais externos à instituição demonstra a falta de projeto acadêmico e político, causada pela gradativa desestruturação das instituições. O império do efêmero, transportado da arte, da teoria para a vida prática, se atualiza por tornar provisório qualquer título, uma vez que este não depende de ter o sujeito uma história pessoal e profissional vinculada à universidade.

Em outros casos, a quebra das fronteiras pessoais e da hierarquia dos valores torna-se tão saudável, que se concede ao professor aposentado e com alta titulação, aproximar-se dos recém-doutores, competindo com os mesmos e concursos públicos, graças ao paradoxal e mágico apagamento do passado acadêmico na instituição de origem, ao fazer tabula rasa dos princípios éticos e sociais antes defendidos. Acreditar na efemeridade e na falta de hierarquia dos discursos; na constante reformulação de seus pressupostos; no empenho de democratização das condições de trabalho e na possível articulação simbólica entre teoria e prática, obra e vida, não seria uma das possíveis saídas para o intelectual de nossos dias?

O processo de interiorização do intelectual contemporâneo corresponde ao seqüestro da participação coletiva, ao mesmo tempo que exige o reconhecimento do outro para se legitimar perante o grupo. A satisfação imediata dos desejos contribui para que sejam desvalorizados os princípios abstratos de cidadania em benefício dos pólos de identificação de caráter particular, com vistas a alimentar felicidades privadas, uma espécie de experiência que se esgota no presente. São, portanto, afastados, qualquer vínculo mais próximo com o outro, tornando-se a convivência profissional marcada pelo apagamento gradativo do afeto e da naturalidade. Mas as relações sociais, ao assumirem tanto a impessoalidade quanto a cordialidade, vivenciam o paradoxo de permitir aos sujeitos de desempenhar tanto o papel de atores quanto de espectadores nesta encenação.

Na dissolução dos fundamentos da cultura tal como esta era concebida pela modernidade, rompe-se igualmente com a noção de um saber universal e eurocêntrico, partindo-se para o multiculturalismo e a abertura para a esfera do provisório e do efêmero, agora entendidos no seu campo teórico e crítico. Rompidas as barreiras disciplinares e dos discursos, pela instauração de uma possível democracia dos gostos e dos valores, o comportamento do intelectual na universidade se manifesta ainda dentro de parâmetros éticos ligados à própria ausência de hierarquias em todos os níveis discursivos. A esperada conjunção entre teoria e prática - a coerência entre as idéias e os atos - deveria se apresentar como posição a ser assumida pelos intelectuais, entendendo ser o conhecimento a ponte para que sejam exercitadas os variados tipos de conduta ética.

"Notre avenir est dans l'air" , a frase de E. A. Poe talvez nos sirva de alerta para se refletir sobre a lógica do efêmero que perpassa os tempos atuais de forma mais brutal e comovente. Pensar com leveza em alguma mudança traz ainda um pouco de consolo.

 

BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Esthétique de l'éphémère . Paris: Galilée, 2003. p. 17.

BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Esthétique de l'éphémère . Op. cit., p. 60.

BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Esthétique de l'éphémère . Op. cit., p. 73.

READINGS, Bill. Universidade sem cultura? Rio de Janeiro: Eduerj, 2002, p. 25-26.

Cf. SAID, Edward W. Representations of the intellectual . Nova York : Panthéon, 1994.p.xviii.; BHABHA, Homi. O compromisso com a teoria. In: O local da cultura. Belo Horizonte:Ed. UFMG, 1998.p. 46.