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Diálogo e aclimatação: “L’enfant” de Victor Hugo e “A criança” de Castro Alves
Maria Cláudia Rodrigues Alves (UPM/USP)

A poesia “L'enfant” 1, de Victor Hugo, escrita em 1828, serve, declaradamente, de inspiração ao poeta Castro Alves para sua composição “A criança” 2, de 1865. A utilização de um trecho de “L'enfant” como epígrafe de “A criança”, indica de imediato a fonte francesa. Esse fato poderia constituir-se mera referência, como acontece freqüentemente quando nossos românticos utilizam o recurso da epígrafe, porém, o corpo do poema brasileiro também apresenta claras correspondências com o poema francês, instaurando o diálogo e confirmando a afinidade literária. Muitos poderiam ver aí um plágio. No entanto, a tarefa do comparatista é justamente cotejar os poemas, buscando não somente os pontos de diálogo, as alusões sutis ou declaradas, mas também as diferenças, desveladoras da originalidade do produto do intertexto. Neste trabalho, propomos uma primeira leitura comparativa que evidencia elementos temáticos comuns aos poemas. Observemos pois, as duas composições e as motivações dos autores, começando pelo poema-base francês:

XVIII
L'ENFANT

O horror ! horror ! horror !
SHAKESPEARE. Macbeth.

Les Turcs ont passé là. Tout est ruine et deuil.
Chio, l'île des vins, n'est plus qu'un sombre écueil,
Chio, qu'ombrageaient les charmilles,
Chio, qui dans les flots reflétait ses grands bois,
Ses coteaux, ses palais, et le soir quelquefois
Un choeur dansant de jeunes filles.

Tout est désert. Mais non; seul près des murs noircis,
Un enfant aux yeux bleus, un enfant grec, assis,
Courbait sa tête humiliée;
Il avait pour asile, il avait pour appui
Une blanche aubépine, une fleur, comme lui
Dans le grand ravage oubliée.

Ah! Pauvre enfant, pieds nus sur les rocs anguleux!
Hélas! pour essuyer les pleurs de tes yeux bleus
Comme le ciel et comme l'onde,
Pour que dans leur azur, les larmes orageux,
Passe le vif éclair de la joie et des jeux,
Pour relever ta tête blonde,

Que veux-tu? Bel enfant, que te faut-il donner
Pour rattacher gaîment et gaîment ramener
En boucles sur ta blanche épaule
Ces cheveux, que du fer n‘ont pas subi l'affront,
Et qui pleurent épars partout de ton beau front,
Comme les feuilles sur le saule?
Qui pourrait dissiper tes chagrins nébuleux ?
Es-ce d'avoir ce lys, bleu comme tes yeux bleus,
Qui d'Iran borde le puits sombre ?
Ou le fruit de tuba, de cet arbre si grand,
Qu'un cheval au galop met, toujours en courant,
Cent ans à sortir de son ombre ?

Veux-tu, pour me sourire, un bel oiseau des bois,
Qui chante avec un chant plus doux que le hautbois,
Plus éclatant que les cymbales ?
Que veux-tu ? fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux ?
-Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
Je veux de la poudre et des balles.

8-10 juin 1828.

 

Por mais de quatro séculos, os turcos dominaram a Grécia (1430-1832). Movimentos revolucionários surgiram por volta de 1800, mas uma revolução independentista foi efetivamente empreendida a partir de 1820. A Europa progressista encontrava-se, então, bastante sensibilizada pela causa grega. A França, por exemplo, acolheu crianças gregas fugidas da guerra. Houve uma verdadeira onda helenista. Em 1824, o escritor Chateaubriand leu em sessão da “Chambre des Pairs” uma carta escrita por um jovem de quinze anos, originária de Missolonghi, local onde pereceu Byron nesse mesmo ano, lutando pela independência grega. O pintor Eugène Delacroix pintou e expôs, também em 1824, “ Scènes des massacres de Scio: familles grecques attendant la mort ou l'esclavage ” (figura 1), que tornou um símbolo:


(Figura 1)

 

Décimo oitavo poema dos 41 que compõem a obra Les o rientales , publicada em 1829, “L'enfant”, escrito em 1828, faz parte, e nasce, em plena efervescência do “Renascimento oriental”, da confluência dos fatos relatados acima. No prefácio de Les Orientales , Victor Hugo justifica suas opções estéticas. Mais do que inserir-se na moda orientalista de então, em seu prefácio, Hugo ilustra a doutrina da “arte pela arte”:

L'auteur de ce recueil n'est pas de ceux qui reconnaissent à la critique le droit de questionner le poète sur sa fantaisie, et de lui demander pourquoi il a choisi tel sujet, broyé telle couleur, cueilli à tel arbre, puisé à telle source. L'ouvrage est-il bom ou est-il mauvais? Voilà tout le domaine de la critique. Du reste, ni louanges ni reproches pour les couleurs employées, mais seulement pour la façon dont elles sont employées. A voir les choses d'un peu haut, il n'y a, en poésie, ni bons ni mauvais sujets, mais de bons et de mauvais poètes. D'ailleurs, tout est sujet; tout relève de l'art; tout a droit de cité en poésie. Ne nous enquérons donc pas du motif qui vous a fait prendre ce sujet, triste ou gai, horrible ou gracieux, éclatant ou sombre, étrange ou simple, plutôt que cet autre. Examinons comment vous avez travaillé, non sur quoi et pourquoi.

E ainda:

Si donc aujourd'hui quelqu'un lui demande à quoi bom ces Orientales ? qui a pu lui inspirer de s'aller promener en Orient pendant tout un volume? que signifie ce livre inutile de pure poésie, jeté au milieu des préoccupations graves du public et au seuil d'une sesion? où est l'oppotunité? à quoi rime l'Orient?...Il répondra qu'il n'en sait rien, que c'est une idée qui lui a pris; et qui lui a pris d'une façon assez ridicule, l'été passé, en allant voir coucher le soleil.

 

O próprio poeta oferece a seus críticos o caminho de leitura de seus poemas: o olhar. E se por um lado, Les Orientales é considerada uma obra visual, na qual sobejam as técnicas picturais; por outro lado, não podemos negligenciar em “L'enfant” a epígrafe emprestada ao Macbeth de Shakespeare, que nos sugere igualmente a cena teatral. Observemos, pois, como Victor Hugo conjuga, no poema, pintura e teatro.

Inicia-se o poema pela descrição do cenário da ilha de Chio, arruinada após a passagem dos otomanos. O primeiro verso já anuncia a situação: Les Turcs ont passé là. Tout est ruine et deuil . O poeta contrasta presente e passado, opondo a paisagem então apocalíptica, sombria, resultado da passagem de bárbaros selvagens, a uma paisagem idílica anterior à invasão turca. A imagem de uma ilha de parreiras, com alamedas e bosques, cujas construções abrigavam habitantes alegres e cultos, transformada em rochedo infértil, contrapõe prosperidade e esterilidade na primeira estrofe. O início da segunda estrofe reforça o cenário infecundo inicial: Tout est désert . O tempo está suspenso, não há sinal de vida. No entanto, em meio ao caos descrito, destaca-se a figura de uma criança. Só, humilhada, com os pés descalços, lágrimas nos olhos, a criança tem por companhia apenas uma flor, uma rosa: os dois únicos indícios de vida na paisagem descrita. Tal qual em um quadro, surge luminosa e contrastante a presença de uma criança loira de olhos azuis e da flor branca, símbolos de pureza, em meio a uma paisagem caótica, de cores sombrias, atraindo a atenção do observador/leitor, comovendo-o. Vale salientar que uma criança loira jaz sobre o ventre de uma mulher no quadro de Delacroix.

Uma vez estabelecido o cenário no qual ocorreu a ação, a passagem do invasor, o sujeito lírico, até então mero observador da cena, parece surpreender-se com a existência de um sobrevivente e ao interpelar a criança, coloca-se, de certa forma, em cena também. Ao tentar consolar a criança, o sujeito lírico a questiona de forma singela, contrapondo à realidade do cenário de morte, elementos plenos de lirismo que representam a vida, como pássaros, frutas e flores. A resposta da criança é chocante: ao pedir pólvora e balas, ela recusa as ofertas do domínio do prazer, da satisfação pessoal em prol do coletivo, tornando-se símbolo da esperança grega, de reconstrução daquela nação. Pólvora e balas são os elementos necessários para a retomada da ação, se nos referirmos ao cenário teatral estabelecido por Hugo. São também os elementos necessários para que outro quadro seja pintado: o da reconquista da dignidade, da liberdade grega. A resposta da criança, figura cândida em princípio, porém corrompida pelo sofrimento, é o elemento surpresa do poema, construído a partir de opostos: paz/guerra, felicidade/tragédia, opulência/infertilidade, inocência/crueldade, claro/escuro, tal qual os contrates de sombras e luzes de Delacroix. Observemos então, como os mesmos recursos são utilizados por Castro Alves, em um contexto distinto.

A CRIANÇA

Que veux-tu ? fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux ?
Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
Je veux de la poudre et des balles.
Victor Hugo ( Les Orientales )

Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.

É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.

Tu choras, porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso – a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir...pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
- Amigo, eu quero o ferro da vingança.

Recife, 30 de junho de 1865.

 

O poema “A criança”, escrito em 1865, figura na obra inacabada do poeta baiano Os Escravos , na qual também podemos encontrar “O Navio Negreiro”, “A Canção do Africano”, “A Mãe do Cativo” dentre tantas peças que compõem uma verdadeira lira do cativeiro, projeto tão caro ao poeta.. Há no poema de Castro Alves uma abordagem diferente da de Victor Hugo, como se fosse uma continuação da cena hugoliana. O poema se inicia com o questionamento do sujeito lírico à criança: Que tens criança? A criança de Castro Alves já se encontra ali, em primeiro plano, no cenário estático que será descrito em seguida: a estrada de areia sob o sol ardente, o vento morno, lavrador sonolento sob a sombra do palmar. Contrapondo-se ao cenário declaradamente grego de Victor Hugo, surge uma paisagem exótica não identificável em um primeiro momento no poema brasileiro. Seria a África, seria o Brasil?

Ao iniciar seu poema exatamente com a questão final de Victor Hugo, Castro Alves utiliza sua epígrafe como uma introdução. O trecho do intertexto compõe um novo texto. Dessa forma, seu poema pode, formalmente, ser mais curto, condensado, ir direto ao assunto, sendo assim incisivo e marcante.

A criança de Castro Alves está, em sua tristeza, chorando, tão imóvel e reflexiva quanto a paisagem descrita. É esse elemento que surpreende o sujeito lírico, a falta de mobilidade numa criança, reforçada pelas metáforas da segunda estrofe: uma alvorada em sombras, uma ave sem cantar, um veado descansando. Todos os elementos, em sua imobilidade, nos remetem a cenas de possíveis de um quadro, no qual opõe-se igualmente luzes e sombras. O sujeito lírico indaga o motivo da tristeza da criança, recurso idêntico do poema francês, elencando elementos da natureza, na terceira estrofe, para desvendar, na quarta e última estrofe, um fato do passado recente, que é a morte da mãe da criança pelo açoite. Somente nesse momento, revela-se que a criança é negra. Há no poema brasileiro um efeito duplamente impactante. Não se trata apenas de uma criança. Trata-se de uma criança negra. Sem nenhum pudor, utilizando o mesmo jogo de opostos que Victor Hugo utilizou, Castro Alves aclimata o poema francês à realidade brasileira. Transforma a criança loira em criança negra, completando estética e socialmente o jogo de opostos: luz-branca/sombra-negra. Em sua infância destruída pelo sofrimento, a criança de Castro Alves deseja, em vez de pólvora e balas, a vingança. Os poetas não descrevem apenas cenas externas, mas revelam a “paisagem interna” das crianças, símbolos tanto da injustiça, quanto da esperança. Nesse momento, o conceito de “infância” passa por sensíveis transformações. Dessa forma, o poeta brasileiro coloca-se igualmente no rastro de tantos autores que enfatizaram as terríveis condições de vida das crianças no século XIX, em especial na Europa, resultado, entre muitos motivos, do desenfreado desenvolvimento industrial (lembremo-nos de Charles Dickens, por exemplo).

Castro Alves denuncia uma tragédia nacional, a violência de seu tempo, assim como Hugo denunciou a tragédia da guerra grega. Ele busca, com sua poesia, a comoção dos brasileiros, como fez o francês sensibilizando seu leitor à causa grega. Esclarece-se, então, a possível ambigüidade sobre a localização do cenário. Deliberadamente, o poeta brasileiro indicou sua fonte estrangeira pela epígrafe e pelo questionamento, deu-nos falsas pistas, para trazer-nos a nossa dura realidade, mostrando-nos que em sua poesia, à la Hugo , o cenário não retrata uma paisagem oriental, exótica, distante. A cena se passa no Brasil, no século XIX. O poeta brasileiro indica seu percursor, Victor Hugo, homenageando-o, mas faz igualmente prova de extrema consciência tanto estética como social. Castro Alves demonstra ser um intelectual engajado com sua arte e com seu tempo, sua própria realidade. A realidade da criança negra brasileira, órfã e humilhada, é a da vergonhosa escravidão. Ambas poesias, à sua maneira, denunciam e condenam a violência e exaltam a liberdade, porém, muito antes de Caetano Veloso e Gilberto Gil declararem que “o Haiti é aqui”, Castro Alves diz aos brasileiros: “A Grécia é aqui !”.

 

HUGO, Victor. Oeurvres Complètes . Paris: Gallimard, 1997. V.1, p.577-707.

ALVES, Antônio de Castro. Obra completa . 2 a Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1997. P. 209-309