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A Questão Cosmogônica em Frankenstein de Mary Shelley
Lilian Cristina Corrêa (UPM)

O interesse pela origem da vida sempre foi um fator intrigante em toda a história da humanidade, ora em simples forma de curiosidade diante do enigma da existência, ora de maneira mais concreta, através de experiências e tentativas de criação. De fato, tal sede de sabedoria faz sentido em vista dos conhecimentos científicos e literários, baseados em descobertas. Assim, percebe-se que o homem sempre buscou novas formas de criar vida, ou mesmo de aprimorá-la.

Nesse contexto, Mary Shelley apresenta Frankenstein ou O Prometeu Moderno , narrando a trajetória de um jovem que descobre o segredo da criação da vida a partir da matéria inanimada, criando um ser que, mais tarde, jura-lhe vingança e, ao mesmo tempo, provoca no leitor um certo encantamento ao deparar com o mosaico que constitui a narrativa.

Frankenstein apresenta um quadro narrativo que foge do habitual, com uma seleção de cartas que precedem as narrativas de Victor Frankenstein e de sua criatura e que também concluem a obra. Tais cartas, escritas pelo Capitão Walton, apresentam um apelo diferente ao leitor – apelo tal escolhido propositadamente pela novelista. Shelley optou por não começar sua história com a construção da criatura, visando os leitores de sua época que, em 1818, julgariam tal narrativa como, no mínimo, improvável.

Assim, ao invés de iniciar a narrativa a partir de seu evento principal, Mary Shelley abre sua obra com as missivas de Walton: um homem racional, culto, tido como um narrador confiável e que dá ao leitor a segurança de que precisa para aceitar a história que lhe será contada através de um segundo narrador, Victor e de um terceiro, o monstro. Em outras palavras, Mary Shelley adota a forma das narrativas encaixadas e acaba criando, ao mesmo tempo, um clima de suspense na narrativa, que é iniciada com a busca pelo desconhecido e também registrando os primeiros indícios da idéia de cosmogonia a ser introduzida no desenrolar dos fatos.

Essa busca é o argumento que se repete nas três narrativas emolduradas no decorrer da obra: a busca de Walton pelo reconhecimento e pela fama, a busca de Victor Frankenstein pela habilidade e pelo sucesso científico e, finalmente, a busca da criatura pelo reconhecimento de seu criador (como responsável por sua existência) e por uma companheira. Os atrativos da busca estão, na verdade, atrelados à idéia da glória no caso de Walton e de Victor. O que Walton deseja é ser tão famoso e respeitado quanto os autores das obras que sempre cultuou:

(...) aqueles poetas cujas efusões arrebataram minha alma e me elevaram aos céus. Também me tornei um poeta e por um ano vivi num paraíso de minha própria criação; imaginei que também eu poderia obter um nicho no templo consagrado aos nomes de Homero e Shakespeare (...) 1

 

Walton, em sua juventude, pretendia ser poeta, mas diante do fracasso substituiu tal desejo, já na vida adulta, com a busca pelo desconhecido. O aspecto divino da autoria em ambas as formas (como poeta ou explorador) vem de encontro à sua reação perante Victor, a quem considera um andarilho, um presente divino para livrar-lhe da solidão do Ártico – alguém a quem aprendeu a admirar – Walton só desconhecia que seu amigo tinha aspirações bem mais divinas que as suas.

No que tange a Victor, o aspecto divino relaciona-se ao científico. Inicialmente, o cientista envolve-se pelo aspecto natural da ciência, atraído pelos escritos dos grandes mestres que sempre buscaram o poder e a imortalidade:

A filosofia natural foi o gênio que governou meu destino; (...) Quando eu tinha treze anos fomos todos em excursão ao balneário perto de Tonon; a inclemência do tempo obrigou-no a passar um dia confinados no hotel. Foi onde por acaso encontrei um livro de Cornélio Agrippa. Abri-o com indiferença; a teoria que ele tenta demonstrar e os maravilhosos fatos que ele relata logo transformaram esse sentimento em entusiasmo. Uma nova luz parecia ter nascido em minha mente (...) 2

 

Victor deslumbra-se ante as possibilidades oferecidas pela ciência e busca um conhecimento ainda maior lendo Paracelso e Alberto Magno – o primeiro, cientista que acreditava na alquimia como chave para a cura de doenças e o segundo, teólogo e filósofo. Quando adulto, Victor se candidata ao estudo de Química Moderna e Medicina ficando, mais uma vez, deslumbrado com as aulas de seus mestres, principalmente o Sr. Waldman de quem se torna discípulo – a partir daqui seu destino passa a ser traçado, visto que a curiosidade científica leva-o a buscar todo o conhecimento que julga necessário para criar a vida e proporcionar-lhe a notoriedade.

A narrativa de Victor tende a convencer o leitor, e também Walton, de suas boas intenções no sentido de fazer uso da ciência como fonte de pesquisa na criação de seres, evitando a doença e até mesmo a morte. Assim, no romance, a necessidade de pensar na morte é parte relevante dos estudos de Victor, visto que ele acredita que somente através da morte é possível recriar a vida e é nesse contexto que se cria a imagem mítica do criador, que busca o aparentemente inalcançável, desafiando a mágica da vida.

Por fim, surge o resultado do trabalho exaustivo de Victor: a criatura; mas, quando depara com o objeto de seus esforços ele foge, amedrontado, deixando tudo para trás, abandonando sua criação sem nenhum tipo de apoio. É nesse ponto que se inicia a terceira moldura da narrativa, com a criatura relatando a Victor, posteriormente, toda sua trajetória até que fosse possível reencontrá-lo – parece interessante ressaltar que a descoberta da fonte da vida foi mantida em sigilo por Victor, que somente referiu-se à criatura em duas circunstâncias: quando tenta alertar a polícia do suposto assassino que estava à solta e quando de seu relato a Walton.

Um outro aspecto que deve ser levado em consideração é o fato de a criatura não ter um nome – durante toda a obra Mary Shelley menciona a personagem como criatura ou monstro , deliberadamente deixando-o anônimo, para enfatizar o fato de que não pode ser classificado como humano. Sua criação constitui uma subversão das leis naturais e o resultado final é a imagem do terror, de tudo o que é negado pela Humanidade – essa negação fica igualmente evidente quando consideramos a total ausência de Victor no aspecto paternal: primeiro por ter abandonado sua própria criação e depois, por também referir-se a ela como monstro, culpando-a por todos os crimes que aconteceram.

Victor simplesmente apaga de sua memória o ato do abandono e culpa o monstro pelos crimes (a morte de William e a condenação de Justine) sem saber o que de fato ocorrera. Quando do reencontro criador/criatura arrepende-se, mas não completamente; promete ao monstro uma companheira para depois destruí-la e é nessa destruição que sela o destino de toda sua família e o seu próprio, visto que o monstro prometera aniquilar a todos, caso seu pedido não fosse atendido.

Neste ponto a narrativa enfoca apenas criador e criatura, perseguidor e perseguido. Os papéis se invertem: Victor passa a perseguir o monstro, que deixa rastros porque quer ser encontrado, desde que faça seu criador passar pelos mesmos infortúnios que passou – nesse ponto, Victor é salvo pela embarcação de Walton e é nesse espaço que os três narradores se encontram, cada um em sua busca, no mesmo lugar: o Ártico. A importância de tal localização parece perfeita, como que um retrato da realidade dos narradores: à margem da sociedade, com as geleiras simbolizando tal distanciamento e, ao mesmo tempo, o limite de suas buscas, o fim das jornadas, a morte.

A morte de Victor surge como o início da purificação: no caso do monstro, a impossibilidade de continuar a perseguição ou de, algum dia, obter o perdão e, no caso de Walton, a certeza de que aquilo que busca está dentro dele mesmo: a verdade – e é em busca dessa verdade que Walton justifica a importância das cartas para sua irmã, prometendo colocá-la a par de todos os acontecimentos relevantes da exploração e, mais especificamente, relatando a história contada por Victor, sem mesmo alterar suas palavras.

Entretanto, no que diz respeito à morte de Victor é possível encontrar controvérsias – em The Essential Frankenstein 3, Leonard Wolf levanta uma hipótese diferente: a de que não há no romance de Mary Shelley nada que realmente comprove a morte do cientista, além de suposições. O autor menciona que a morte de Victor parece envolta em uma rede de ambigüidades, dando ao leitor uma impressão de inconsistência – de fato, o leitor tende a acreditar na palavra do Capitão Walton, quando este menciona a morte de Victor, para logo depois ver-se comovido pelo depoimento do monstro, arrependido e sofredor diante da morte daquele que o criara.

E é através do mesmo narrador que o leitor toma contato com a promessa do monstro de cometer o suicídio, dando fim à sua cruel existência – sabe-se que pretende construir uma pira funérea para deixar-se consumir pelo fogo, talvez uma tentativa de purificação e, logo depois de relatar tal fato a Walton, sai do navio e desaparece em meio as geleiras sem, contudo, dar a certeza de sua morte, visto que o romance aí termina.

Ainda assim, por mais ambíguas que possam parecer, as mortes de Victor e do monstro finalizam não somente suas próprias buscas, mas também a de Walton, que retorna à Inglaterra. O que parece mais fantástico na narrativa, contudo, é o efeito criado pelos depoimentos do monstro, que criam no leitor a idéia de compaixão e não de ódio – deixando evidente o fato de que o único culpado por todas as tragédias foi o próprio Victor, como menciona Roger Shattuck em Conhecimento Proibido. De Prometeu à Pornografia:

(...) Jovem e desconhecido, Frankenstein busca a fama, única salvação possível em seu mundo sem fé. Atira-se à tentativa fanática de criar vida humana, ato tradicionalmente reservado a figuras divinas. Bem-sucedido, encontra a perdição. Frankenstein é também responsável por quatro homicídios. “Aprenda comigo”, diz ele a Walton, “quão perigosa é a aquisição de conhecimento, e quanto o homem que acredita que sua cidade natal seja o mundo inteiro é mais feliz do que aquele que aspira tornar-se maior do que sua natureza permite.” Mas Frankenstein na verdade não quer dizer isso (...) 4

 

O que, na verdade, Victor quer dizer é que está arrependido por não medir as conseqüências de seu experimento, por querer ser tão ou mais poderoso que o próprio Deus e é nesse ponto que surge a interpretação do mito na obra.

Com base nesse contexto narrativo podemos notar que são várias as referências de Mary Shelley a figuras e lendas mitológicas, bem como a outros textos, como menciona Louis James:

O livro é um palimpsesto de subtextos, incluindo a Bíblia, obras de Ésquilo, Milton, Coleridge e Shakespeare. Frankenstein sacia sua sede de criação de vida lendo Paracelso, Cornélio Agripa e Alberto Magno. Igualmente, o Monstro estabelece identidade própria ao travar (precocemente) conhecimento com as Ruínas dos Impérios, de Volney, com o Paraíso Perdido, de Milton, com as Vidas, de Plutarco, com as Lamentações do jovem Werther, de Goethe, bem como com as histórias ouvidas de Felix e da família De Lacey. Ao dirigir-se ao seu criador, o Mosntro brada: “Eu deveria ter sido vosso Adão!”, para logo depois comparar-se a Satã. A Natureza intertextual do romance é assinalada em seu próprio subtítulo: “O moderno Prometeu”. 5

 

Frankenstein apresenta a polêmica do mito da criatura perfeita sob o ponto de vista de que o homem está sempre em busca de descobertas, mas por vezes acaba tornando-se escravo de suas conquistas. A criatura de Victor Frankenstein foi corrompida pela sociedade: o monstro era uma figura grotesca que aprendeu a sobreviver através da observação e foi isolado pelo povo que o temia e atacava – ele era mau porque todos eram violentos com ele; era rejeitado até mesmo por seu criador e, por isso, julgava justo vingar uma existência tão desgraçada: apresentava iniciativa e personalidade forte, tanto quanto Victor.

Na verdade, o monstro foi uma criatura perfeita até que tomasse contato com a sociedade e desse encontro abstraísse que representava o avesso do ideal imposto pela Humanidade. É exatamente nesse contexto que o monstro cresce ante os olhos do leitor, passando a ter mais importância que Victor, seu criador e mais importância que a própria novelista, Mary Shelley.

Por mais que sejam estudadas e elaboradas conjecturas com relação à evidente existência da noção de mito na obra, parece impossível evitar a premissa de que o próprio monstro constitui um mito. O primeiro aspecto que comprova tal fato é o de que o nome Frankenstein é comumente usado em referências ao monstro e não ao seu criador e, conseqüentemente, Mary Shelley tornou-se praticamente inexistente diante de tal realidade, como também aconteceu com outros renomados escritores, como Bram Stoker, cuja obra, Drácula , acabou ficando marcada na posteridade muito mais do que seu autor. Segundo Jean-Jacques Lecercle em Frankenstein: Mito e Filosofia : “A criatura eclipsou o criador: em nosso caso duas vezes, pois se o monstro eclipsou Victor, eclipsou também, completamente o escritor que o concebeu.” 6 Mais do que ocultar seus criadores, Frankenstein apresentou versões diversas, tanto em outras obras literárias como no cinema, tornando-se obra popular e também sendo apresentada em outras formas, como programas de rádio, histórias em quadrinhos, todas de enorme sucesso, mas que nem sempre obedeceram a narrativa original. Segundo Lecercle, há uma explicação para isto:

(...) Frankenstein seria um grande mito moderno, que faz vibrar uma corda no ponto mais profundo de nossa natureza humana, que logo se tornou intemporal e se livrou das contingências históricas de seu nascimento, assim como Victor Frankenstein tenta se livrar de sua criatura recém-concebida. Mas, como todos sabemos, a criatura volta e persegue seu criador. A conjuntura histórica não se permite ser esquecida (...) pois em sua própria formulação ela não escapa de um paradoxo: o mito é intemporal, porém moderno. Contrariamente à maior parte de nossos mitos, sua origem não é popular (...) 7

 

É essa contradição entre ser intemporal, mas moderno que faz de Frankenstein um mito tão rico, sugerindo tantas possibilidades de estudo. Conclui-se, então, que os mitos têm uma alma – cada versão do mito da criatura perfeita oferece uma solução à época em que surgiu; solução jamais satisfatória e, portanto, sempre recomeçada.

Assim, se o mito está fundado sobre uma fantasia, esta é dupla: fala ao mesmo tempo de um movimento para adiante e de uma relação com o saber. Contudo, a fantasia que existe no interior do mito é contraditória e instável: o movimento de avanço pode ser progresso ou queda e a relação com o saber, progressiva ou regressiva, otimista ou diabólica.

Sempre haverá uma contradição quanto ao desejo de perfeição, pois o homem nunca estará satisfeito com o que tem: às vezes renega o passado com vistas ao futuro, outras vezes utiliza o passado como ponto de partida para a solução de seus anseios – em suma, a criatura perfeita nunca será completamente perfeita, pois sempre haverá o que aperfeiçoar entre negações e aceitações da vida.

O que parece certo é o desejo do homem de ser um demiurgo, desejo tal que surge como que para elevá-lo a uma posição superior à das outras criaturas, pois tem o poder da criação, que deixa de ser divino para ser científico e comprovado, não apenas acreditado: o homem ainda tem a necessidade de ver para crer, comprovar que é auto-suficiente até para criar outros homens que, na verdade, serão um alter-ego, uma projeção de seu criador, com proporções gigantescas – já que o próprio criador não conseguiu atingir a perfeição, essa busca será constante e infinita.

Enfim, talvez seja essa a melhor explicação para a necessidade da existência de uma criatura perfeita para cada momento da história da humanidade, sendo que criador e criatura formam sempre um, encontrando-se em constante mutação, servindo de base para outros criadores e outras criaturas, até o homem descobrir ser ele mesmo a criatura perfeita.

 

SHELLEY, Mary. Frankenstein . São Paulo: Ed. Ática, 1998, p. 20.

Ibid.pp. 43-4.

WOLF, Leonard. The Essential Frankenstein . Los Angeles: Plume, 1995.

SHATTUCK, Roger. Conhecimento Proibido. De Prometeu à Pornografia . São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.92.

JAMES, Louis. Frankenstein's Monster in two traditions in BANN, Stephen. Frankenstein: creation and monstrosity . Londres: Reaktion Books, 1994, p. 79.

LECERCLE, Jean-Jacques. Frankenstein. Mito e Filosofia . Rio de Janeiro: José Ol ympio, p. 11

Ibid. p. 12