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A construção de Lisboa através das notícias jornalísticas em “O ano da morte de Ricardo Reis”
Josiele Kaminski Corso (UFSC)
Estas coisas que escrevo, se alguma vez as li antes, estarei agora imitando-as, mas não é de propósito que o faço. Se nunca as li, estou-as inventado, e se pelo contrário li, então porque as aprendera e tenho o direito de me servir delas como se minhas fossem inventadas agora mesmo…
As décadas de trinta e quarenta do século XX foram, sem dúvida, um marco na história mundial, porque nelas aconteceram importantíssimas revoluções, as quais transtornaram o mundo e o modificaram completamente. Essa época de crises, marcada pelo entre-guerras, desnudou uma necessidade de desenvolvimento em massa da sociedade, que se firmou seja sob a forma de democracia, seja sob regimes autoritários.
Saramago, autor que gosta de retratar em suas obras a vida cotidiana, com rica descrição do ambiente social, insere a personagem principal — o heterônimo Ricardo Reis — num ambiente que está em franca transformação: Portugal vive o processo de instalação de um regime ditador. O general Carmona, depois de ter assumido a presidência da república, chama Salazar, com o intuito de reorganizar as finanças, e que, na seqüência, assumirá o poder.
Em O Ano da Morte de Ricardo Reis , 1 Saramago modula a história ao mesmo tempo em que dialoga com as formulações contemporâneas da ficção. Sendo assim,
À medida que o tempo passa, e que o pós-moderno acumula aos seus pós — (seus vários pós…) — e, não nos iludamos também, à medida que a modernidade se torna antiga; e, quase um ideal fantasmático na nossa imaginação nostálgica — o que permanece agora, hoje, é que de fato “something matters” que a intervenção social se torna de novo necessária, e imprescindível à sua intenção atuante. 2
Mesmo dando vida e ação aos dados documentais do passado, reconstruindo ambientes e personagens de outras épocas, ele não “apela” para o realismo ou para o pitoresco em momento nenhum, tornando-se, dessa maneira, um desconstrutor do realismo. Isso graças aos “picos” de altos e baixos; com comentários que possuem ironia e humor, mudanças de enunciador e tom, não esquecendo da introdução do fantástico em sua trama ficcional.
Declarei em Lisboa que os homens-bons de Montemor sabem ser leais a Salazar, podemos facilmente imaginar a cena, o Paes de Sousa explicando ao sábio ditador assim cognominado pela Tribune des Nations, que os homens-bons da terra de Fernão Mendes Pinto são todos leais a vossa excelência. 3 [grifos meus]
Em O Ano da Morte de Ricardo Reis , Saramago traz até Portugal o heterônimo pessoano, Ricardo Reis, exilado no Brasil há dezesseis anos. É uma época conturbada para o país, devido à instalação da ditadura de Salazar, aos indícios da guerra civil espanhola e, também, devido à ascensão ao poder de Hitler, na Alemanha, e Mussolini, na Itália. O romance nos conduz por problemáticas nacionais a partir da exploração de fatos da história passada — reais ou inventados.
Para Stuart Hall 4, “as culturas nacionais são tentadas, algumas vezes, a se voltar para o passado, a recuar defensivamente para aquele ‘tempo perdido' quando a nação era ‘grande'. São tentadas a restaurar as identidades passadas.” Saramago não nega a história, mas procura mantê-la sempre como um campo referencial. Busca seu significado na transgressão e na provocação como caminhos pra construir a identidade dos discursos silenciados. No âmbito histórico, José N. Ornelas 5afirma que “o fascismo teve de valer-se de um aparato repressivo complexo que negou aos cidadãos portugueses a sua liberdade, dignidade e humanidade e que os conduziu à atomização do indivíduo”. Buscava uma nova concepção de indivíduo, um novo estado, mas na verdade nada disso ocorreu, apenas criou uma onda de terror vinculada a sua corrente nazista. A idéia era de dominação total sobre os cidadãos, fazendo com que servissem aos interesses da nação e mantivessem a integridade individual. Assim, os indivíduos deviam se autocontrolar, quase perdendo o controle de si e de seu destino.
Como ministro das finanças, Antonio de Oliveira Salazar chega ao poder em 1928, mas é a partir de 1932, quando ele se torna Chefe do Governo, que a história toma seus passos definitivos para a modelação de um Estado autoritário. Acredita ser o corpo moral e racional que a nação deve seguir e nele se espelhar. Para nos convencer, Saramago retrata com muita ironia, Salazar como o pai da nação portuguesa, o qual dedicou sua vida à ascensão da pátria, tentando estabelecer a felicidade e a fortuna dos portugueses. Saramago relê e reinterpreta o passado. O texto histórico e o texto ficcional se aproximam, mas são distintos. No texto historiográfico, o historiador está comprometido com a veracidade do que escreve, o que já não acontece com o narrador literário, que tem um campo imenso, podendo ir além daquilo que a história documentada oferece.
No romance, o ápice da confirmação de que Portugal está se integrando à Europa fascista se dá quando Reis vai assistir ao comício comunista na praça:
Uma banda de música dá primores de repertório para entreter a espera. Enfim, entram as entidades oficiais, recheia-se a tribuna, e é o delírio. Esfuziam os gritos patrióticos, Portugal Portugal Portugal, Salazar Salazar Salazar […] No lado direito da tribuna, em lugares que até agora tinham permanecido vazios, com muita inveja do gentio doméstico, instalaram-se representantes do fáscio italiano, com as suas camisas negras e condecorações dependuradas, e no lado esquerdo representantes nazis, de camisa castanha e braçadeira com a cruz suástica, e todos estenderam o braço para a multidão, a qual correspondeu […]. 6
Para vivenciar tudo isso através do romance, Saramago registra diálogos entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa. É Fernando Pessoa quem ajuda Reis a “conhecer” melhor os personagens da história. Ao ler as notícias, Reis muitas vezes não as compreende na sua totalidade e é através dos diálogos com Pessoa que ele se situa historicamente:
Diga-me, Fernando, quem é este Salazar que nos calou em Sorte, É o ditador português, protector, o pai, o professor, o poder manso, um quarto de sacristão, um quarto de sibila, um quarto de Sebastião, um quarto de Sidónio, o mais apropriado possível aos nossos hábitos e índole. 7
A personagem tenta ficar alheia aos acontecimentos, ao regime autoritário. Reis adepto da ataraxia que defende a ausência de paixão, dor ou ação sente-se “lesado” pois sua passividade e tranqüilidade são abaladas. Não consegue o total equilíbrio epicurista, é atingido intensamente por seus sentimentos, não conseguindo suprimir as suas emoções devida “nova” característica atribuída a ele pelo escritor.
A desconstrução de Ricardo Reis é feita através dos jornais, por meio dos quais ele tenta reintegrar-se ao que está ocorrendo a sua volta. Para se reintegrar à “sua” nação, na primeira noite que chega ao Hotel Bragança, ele lê os jornais, pois retorna a uma terra que desconhece.
As notícias não são neutras, pois contribuem para uma imagem ilusória do país, que relata a prosperidade nacional, as riquezas, a disciplina e o patriotismo. Em Portugal, o fascismo se manteve como forma de organização político-social, defendendo inclusive um arcaico sistema colonial, de caráter irracional, na medida em que apelava para a paixão, pela fé, seguindo o lema nazista: crer, obedecer, combater .
É através do diálogo entre as vozes narrativas que se denuncia a (in)coerência do que é divulgado pelos jornais. Saramago interpreta os fatos de forma transparentemente imaginária, registrando o que não havia sido noticiado historicamente. Dá aos jornais um tom de alienação governamental, ou seja, como poderiam, em uma época de repressão, os órgãos da imprensa nacional dissimularem a imagem de um chefe político? Tratado como gênio e pai da nação, Salazar é exaltado pelo povo português.
Diz-se, dizem-no os jornais, quer por sua própria convicção, sem recado mandado, quer porque alguém lhes guiou a mão, se não foi suficiente sugerir e insinuar, escrevem os jornais, em estilo de tetralogia, que, sobre a derrocada dos grandes Estados, o português, o nosso, afirmará a sua extraordinária força e a inteligência reflectida dos homens que o dirigem.[…] a partir do próximo ministério que já nos gabinetes se prepara, à cabeça maximamente Oliveira Salazar, presidente do Conselho e ministro das Finanças. 8
Uso (in)coerência porque, na época da ditadura salazarista, sabemos que a propaganda era convincente, mas a prática, um pouco diferente. Para eles, não se tratava de uma luta de classes ou de dogmas, mas sim de uma luta de sangue contra sangue, raça contra raça, povo contra povo. Não havia direitos individuais opostos às necessidades do Estado, ao qual o indivíduo era completamente subordinado, sendo que, da mesma maneira, as organizações obedeciam a um controle estatal. Uma doutrina totalitária que encarava a vida como um perpétuo conflito e que buscava combater os que queriam asfixiar a “vontade da nação”, para defender ou aumentar o poder do povo.
Para ajudar na construção da personagem e também na construção da nação lusa, Saramago faz com que sua personagem principal passeie pela cidade de Lisboa.Maria de Fátima Bueno 9 escreve:
A personagem Ricardo Reis faz tudo para fugir de qualquer situação que possa colocá-lo em conflito com as posturas de indiferença e alheamento herdadas do heterônimo pessoano. Em conseqüência dessa atitude, prefere fugir de qualquer acontecimento que perturbe a tranqüilidade de sua existência a ponto de, numa situação-limite, exilar-se da sua própria vida.
Reis se recusa a participar da história, mantendo-se como um mero “espectador do mundo”. O narrador de O Ano da Morte nos permite perceber na sua história uma lógica em que podemos optar, segundo Leyla Perrone-Moisés (1999, p. 103), “por um sim ou não nos fatos documentados”. Como Saramago é romancista, pode ser também uma “espécie” de historiador procurando uma verdade, humanizando a história, criando personagens que são semelhantes a todas as pessoas, alterando o passado e sugerindo que presente e futuro sejam diferentes através da ficção.
Saramago constrói sua versão, subsidiada nos “indícios” daquilo que, para ele, poderia ter ocorrido, sendo que a história só se realiza no campo representativo. Ele reimagina o imaginado porque, como já foi dito, a narrativa literária não precisa comprovar nada historicamente, quem faz isso, e é autorizada para falar com exatidão sobre o passado, é a história.
O narrador busca fazer uma recomposição identitária, busca o resgate da memória histórica, utilizando-a para construir uma identidade nacional. Situa Lisboa num determinado período histórico, sendo que Reis, vindo do Brasil, desconhecia a situação. Mas, no Brasil, a situação não era tão diferente, porque Reis estava sob o comando de Getúlio Vargas, eleito em 1934 pelo Congresso. Em 1937, deu um golpe à moda salazarista, exercendo poderes ditatoriais, sendo deposto pelos militares em 1945.
Partindo de uma posição mais liberal, Ernest Gellner também acredita que, sem um sentimento de identificação nacional, o sujeito moderno experimentaria um profundo sentimento de perda objetiva.
A idéia de um homem (sic) sem uma nação parece impor uma (grande) tensão à imaginação moderna. Um homem deve ter uma nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas orelhas. Tudo isso parece óbvio, embora, sinto, não seja verdade. Mas que isso viesse a parecer tão obviamente verdadeiro é, de fato, um aspecto, talvez o mais central, do problema do nacionalismo. Ter uma nação não é um atributo inerte da humanidade, mas parece agora, como tal. 10
Algumas vezes, o narrador se descuida e torna-se uma testemunha comovida e inquieta, sofrendo tormentos e misturando suas falas com as falas do protagonista. Segundo Friedman 11 , esse é o narrador onisciente intruso:
tem a liberdade de narrar à vontade, colocar-se acima, ou, como quer J. Pouillon, por trás, adotando um ponto de vista divino, como diria Sartre, para além dos limites de tempo e espaço. Pode também narrar da periferia dos acontecimentos, ou do centro deles, ou ainda limitar-se e narrar-se como se estivesse de fora, ou de frente, podendo, ainda, mudar e adotar sucessivamente várias posições. Como canais de informações, predominam suas próprias palavras, pensamentos e percepções.
Contrapondo-se ao discurso do narrador, na medida em que a narrativa avança, Reis imerge na realidade presente e percebe que as coisas mudaram, não tendo grande clareza dos fatos; chega até a defender a ditadura em nome da ordem e da limpeza.
Apesar da idéia de crescimento nacional, há uma vontade enorme de movimentos revolucionários, para destruir o Estado Novo, de modo que as pessoas pudessem alcançar sua emancipação. Então, em função de murmúrios de movimentos revolucionários, a inesperada chegada de Ricardo Reis a Portugal faz com que a polícia desconfie de que seja um subversivo, já que Daniel, irmão de Lídia, criada do hotel Bragança e amante de Reis, o é.
A Polícia e a Defesa do Estado desconfiam que Reis tenha fugido para Lisboa por causa das perseguições no Brasil, país em que estava prestes a eclodir a guerra. Reis recebe, então, uma intimação, ficando perplexo, pois não compreende o porquê, já que nada fez por lá nem cá. Daniel, marinheiro comunista, morre num aniquilamento em massa, quando são assassinadas duas mil pessoas.
Há um resgate da história no romance de Saramago. Assim, o escritor faz uma releitura dos fatos, mas não com a intenção de repetir uma verdade absoluta, e sim de uma maneira que dialogue com o passado, reescrevendo o presente e, quem sabe, o futuro. Leyla Perrone-Moisés 12 lembra-nos que “o discurso de um narrador, seja ele verídico ou ficcional, é normalmente assertivo: narra-se o que ocorreu ou o que se imagina ter ocorrido”. Assim, as notícias mundiais introduzem Portugal, mais precisamente a cidade de Lisboa, num espaço de transformação. O narrador, relendo os fatos históricos, nos faz refletir historicamente, numa narrativa marcada por valores pessoais. Será o leitor quem fará com que a literatura e a história tornem-se ativas na evolução social, porque o narrador desestabiliza o mundo construído, dialogando com passado e presente, entrecruzando idéias diferentes, fazendo com que acreditemos que talvez os fatos não tenham ocorrido exatamente da forma narrada, construindo a nação por meio de uma narrativa “desejável”.
SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
SEIXO, Maria Alzira. Saramago e o tempo da ficção . In: CARVALHAL, Tânia Franco e TUTIKIAN, Jane (orgs). Literatura e História: três vozes de expressão portuguesa . Porto Alegre: UFRGS, 1999 p. 94
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade . Rio de Janeiro: DP&A, 2003. p. 56
ORNELAS, José N. O corpo fascista na narrativa portuguesa contemporânea. In: História(s) da literatura . MOREIRA, Maria Eunice (org). Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003 p. 208-209
BUENO, Aparecida de Fátima. O poeta no labirinto ; a construção do personagem em O ano da Morte de Ricardo Reis. Viçosa: UFV, 2002. p. 45
GELLNER apud HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade . Rio de Janeiro: DP&A, 2003. p. 48
FRIEDMAN apud LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo . São Paulo: Ática, 2000. p. 27
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Formas e usos da negação na ficção histórica de José Saramago . In: CARVALHAL, Tânia Franco e TUTIKIAN, Jane (orgs). Literatura e História: três vozes de expressão portuguesa . Porto Alegre: UFRGS, 1999. p. 103