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Yamashita, Karen relendo Rousseau
Gloria Karam Delbim (UPM)
Brazil-Maru é uma narrativa histórica sobre a imigração japonesa para o Brasil após o Ato de Exclusão de 1924 nos Estados Unidos proibindo a entrada dos asiáticos no país. Karen Yamashita, escritora nipo-americana, conta a saga de três gerações de imigrantes que saíram do Japão para criar uma comunidade cristã de nome “Esperança” no oeste do Estado de São Paulo. Ela traça fatos históricos situando-os no tempo e no espaço do Brasil,
Estados Unidos e Japão, mesclando-os com ficção, a partir de 1925 até os anos 90.
O romance Brazil-Maru compõe-se de cinco narrativas contadas por cinco personagens, quatro homens e uma mulher: Ichiro, Haru, Kantaro, Genji e Guilherme. Esses relatos apresentam a construção de identidade das personagens, inspiradas nas epígrafes extraídas dos livros de Jean-Jacques Rousseau: Emílio, A Nova Heloísa, Confissões, Contrato Social e Devaneios de um Caminhante Solitário.
As epígrafes selecionadas de obras de Rousseau não estão ali como pensamentos isolados, independentes dos textos que as sucedem. Ao contrário, geram uma expectativa e antecipam o assunto que será abordado em cada um dos capítulos narrados. Há, dessa forma, uma dupla função das epígrafes, de acordo com o Prof. Jorge Schwartz : "por um lado, a carga semântica de seu passado (o texto do qual provêm); por outro lado, o estabelecimento de um novo diálogo epígrafe/texto, ao ser inserida no novo contexto". 1
Em Brazil-Maru , as epígrafes que antecedem cada parte do romance, criam da mesma forma, no leitor, uma expectativa em relação à leitura dos capítulos que elas inauguram respectivamente, e há que se considerar a articulação entre texto e epígrafe, pois sua interpretação depende tanto do texto original de Rousseau quanto do de Yamashita.
O filósofo italiano Nicola Abbagnano, discorrendo sobre Rousseau em seu livro História da Filosofia, diz que "o motivo dominante da obra de Rousseau é o contraste entre o homem natural e o homem artificial" 2. Por homem natural deve-se entender alguém espontâneo, impulsivo, não contaminado pelo meio social ou pelo progresso, características essas atribuídas ao homem artificial. Para Rousseau, a aquisição de bens, saber, arte, luxo, ao invés de fazer do homem um ser melhor e mais feliz, afasta-o de sua origem e natureza.
No entanto, quando houver uma decadência do homem, por razões diversas, ele pode agir e voltar ao seu estado original. Abbagnano comenta que, por essa razão, "Rousseau entende o progresso como um retorno às origens, isto é, à natureza; e detém-se a delinear com complacência a meta e o término ideal desse retorno: a condição natural do homem". 3
Deve-se levar em consideração que isso nem sempre é possível, pois a situação do mundo e as mudanças que nele ocorrem, afetam o homem. Entretanto, o estado natural serviria como uma "norma de juízo, um critério diretivo para subtrair o homem à desordem e à injustiça da sua condição presente e reconduzi-lo à ordem e à justiça que devem ser-lhe próprias". 4
Abbagnano refere-se a Nova Heloísa , ao Contrato Social e ao Emílio , obras que Rousseau escreveu entre 1758 e 1762, três dos cinco livros a que pertencem os trechos selecionados como epígrafes por Yamashita, como sendo as obras fundamentais de Rousseau que "estabelece as condições pelas quais a família, a sociedade e o indivíduo poderão retornar à sua condição natural, saindo da degeneração artificial em que caíram" 5.
Charles Taylor, crítico cultural, diz que na obra de Rousseau há "três coisas que parecem inseparáveis: liberdade (sem dominação), a ausência de papéis diferenciados e um estrito objetivo comum". 6
Há na obra de Yamashita, de maneira análoga à da de Rousseau, o propósito da comunidade para que todos trabalhem juntos para o bem comum, a fim de atingirem a liberdade e a felicidade daquela vida mais digna que todo migrante sonha ter.
Na seleção dos textos das epígrafes, nota-se uma tônica comum: o enfoque de alguns princípios filosóficos básicos, considerados direitos inalienáveis de todos os cidadãos norte-americanos: vida, liberdade, individualidade, igualdade e busca da felicidade.
Devido à restrição de tempo para a exposição, serão comentadas apenas duas narrativas e as relações dialógicas com as suas respectivas epígrafes.
A epígrafe que precede a narrativa de Kantaro, o líder da comunidade, é de Confissões , uma espécie de autobiografia de Rousseau, escrita em resposta a um panfleto denominado Sentimento do Cidadão , de autoria de Voltaire, por quem Rousseau foi acusado de hipócrita e ingrato.
O comportamento da personagem Kantaro é investido de orgulho e soberba. A parte correspondente da narrativa, precedida pela epígrafe de Confissões , obra autobiográfica de Rousseau, será analisada a seguir.
Sem nenhuma modéstia, já na primeira página de sua narrativa, Kantaro se apresenta como o líder da comunidade que entende ter realizado o grande sonho de fazer de "Esperança" uma grande civilização. Para explicar como conseguiu tal feito, Kantaro Uno promete ser sincero ao falar sobre sua vida. Se ele realmente se propõe a confessar tudo o que fez durante sua vida e assim esclarecer as acusações, mentiras e dissimulações de que é acusado, age da mesma forma que Rousseau, que também escolheu essa maneira, em Confissões, de defender-se dos mal entendidos que seu comportamento pudesse ter gerado entre as pessoas que o conheciam.
Há nessa atitude uma precipitação em tentar justificar-se, do que as pessoas possam eventualmente pensar sobre seu caráter e a sinceridade de suas ações em relação ao que fez durante sua vida. Como em uma " mea culpa ", Kantaro faz uma volta ao passado e começa a contar tudo o que lhe aconteceu. Naturalmente, procura justificar seus erros como se fossem naturais e, em contraste, glorifica seus acertos como se fossem merecidos, por considerar-se uma pessoa virtuosa e especial.
Foi escolhido por Yamashita, o seguinte texto de Confissões para a epígrafe da narrativa da personagem Kantaro, em que Rousseau escreveu que “o objeto real de minhas Confissões é contribuir para um conhecimento preciso de meu ser em todas as diversas situações de minha vida. O que prometo relatar é a história de minha alma.” (Tradução nossa)
Também Kantaro pretende justificar suas atitudes, defendendo-se das várias versões de estórias contadas sobre sua vida, com as quais não concordava. Dizia: "Vou ser direto. Serei honesto sobre essas coisas. Não há nada para esconder. Minha vida é um livro aberto". 7 (Tradução nossa)
Ironicamente, ao prometer contar toda a verdade, Kantaro esperava ser compreendido e perdoado. Há, nessa expectativa, um comportamento bastante comum entre as pessoas que acreditam que seus erros devem ser relevados, pois que suas razões são suficientemente justas para cometê-los.
Contudo, mesmo tentando contar a verdade, nota-se que sua versão nem sempre é a mesma descrita nas vozes dos outros narradores. Num primeiro momento, ao prometer confessar seus pecados, Kantaro ganha a confiança do leitor, que acredita em suas palavras, entrando num clima de empatia. No desenrolar da narrativa, porém, o leitor nota que Kantaro abre o livro de sua vida somente nas páginas que lhe interessam, e que sua história é contada de acordo com a versão que deseja.
Como na epígrafe, impressões positivas marcaram os primeiros anos em que Kantaro viveu no Brasil. Ele se destaca entre os habitantes de "Esperança" por causar admiração nos outros jovens, ora com sua máquina fotográfica, uma raridade na época, ora com seu cavalo branco, um luxo, ora como excepcional jogador de beisebol. Kantaro é uma personagem que se destaca ainda como o " self-made man ", tão valorizado e idealizado na cultura dos Estados Unidos. Inteligente e ambicioso, soube aproveitar as situações que surgiram para impor-se ao grupo. É por essa razão que relembrar seus erros também "renova suas amarguras", como se pode ler na epígrafe, pois por ter agido como o fez, Kantaro passa a encarnar o Mal em contraposição ao Bem, concepções intrínsecas da filosofia norte-americana, que remonta aos primeiros imigrantes que chegaram a América.
O que Kantaro não confessa, definitivamente, é a maneira inescrupulosa e sórdida com que, dissimuladamente, fez as pessoas sonharem seus sonhos, os quais depois de um certo tempo tornaram-se pesadelos, levando todos à falência por causa de seus caprichos, privando-os de fazer sua própria escolha e serem livres e felizes.
O sobrenome de Kantaro Uno, pode ser interpretado por um jogo de palavras como One (Único). Esse significado vem reforçado também pelo seu primeiro nome, que, em japonês, quer dizer "o melhor, o principal, o incomparável, o inigualável”. 8 Logo, o seu egocentrismo, individualismo, interesses pessoais, e vícios, eram típicos de um homem civilizado, corrompido pela sociedade, que espelha o nome que carrega e que ajuda a entender sua identidade. Ao tornar-se mau, conforme o pensamento de Rousseau, lesando o próximo, distancia-se do homem natural idealizado pelo filósofo e deve ser punido, reforçando-se mais uma vez a retórica puritana que contrapõe o Bem ao Mal para justificar sua superioridade em relação a todos os povos.
Em A Nova Heloisa , Rousseau fala do retorno à natureza em relação à sociedade familiar; em Emílio , a respeito do indivíduo, e no Contrato Social , a epígrafe escolhida por Yamashita para anunciar a narrativa de Genji, sobrinho de Kantaro, que elege o tio como seu modelo, refere-se à sociedade política: "O homem nasce livre mas em todos os lugares o vemos acorrentado".(Tradução nossa)
Há nessa sentença um contraste entre a idéia de liberdade e a de sua negação, sugerindo que esse direito natural a todos os seres humanos é tolhido por forças estranhas à sua natureza.
No Contrato Social , Rousseau descreve uma comunidade ético-política onde prevalece a vontade geral que as pessoas reconhecem como sua própria, de onde se pode concluir que é a si próprio que cada um obedece. Caso se dê o contrário, ou seja, quando a vontade particular se opõe à vontade geral, os governos tendem a degenerar, uma vez que o governo é o intermediário entre o povo, que é soberano, e o corpo político.
Genji, a quarta personagem narradora em Brazil-Maru , cujo nome significa "homem primitivo" em japonês, mostra alguns conflitos por não ser totalmente livre das amarras impostas pela sociedade, cujo progresso, ao invés de libertá-lo, cada vez mais o inibe. O homem nasce livre, mas à medida que vive em sociedade regida por leis e governos, deve respeitar a vontade geral do povo, que se sobrepõe aos interesses individuais e egoístas de poucos.
Ao narrar suas primeiras lembranças, Genji, considerado louco por alguns, fala dos primeiros meses de sua vida, vividos em uma cesta, em um lugar que lhe tolhia os movimentos. Em conseqüência do seu confinamento a esse espaço acanhado, incomoda-lhe o fato de que suas pernas ficaram tortas, o que parece sugerir que são um obstáculo que o impede de progredir e avançar em seus intentos pela vida, de maneira correta. Sua visão do mundo e das coisas também foi afetada, porque seu primeiro contato com o mundo exterior foi feito através das frestas da cesta. Com o passar dos anos, habituou-se a observar tudo e todos através dos vãos das janelas e portas. Sente-se dessa maneira, sempre "acorrentado", sem conseguir desvencilhar-se de seu pequeno e limitado universo, o que não lhe permite ver o mundo como um todo. Conseqüentemente, não encontra forças para enfrentá-lo e ser livre. Não chega a compartilhar do interesse grupal ou da vontade geral, como instituído no Contrato Social, por exemplo. Não consegue trabalhar com os outros, interagindo e contribuindo para o progresso da comunidade.
Rousseau postula que os interesses de todos devem ser coincidentes para o crescimento de cada indivíduo, e que a obediência à vontade geral não significa que o indivíduo deva sentir-se diminuído ou limitado. Não havendo subordinação à vontade geral, pode surgir a predominância de interesses particulares o que, por sua vez, pode dar origem a injustiças. Genji, no entanto, sentia-se inferiorizado e injustiçado quando o convocavam para trabalhar na lavoura ou carregar peso, pois, por muito tempo, acreditara ser o gênio que seus pais queriam que ele fosse. Sendo assim, pode-se dizer que Genji desafiava a "vontade geral", recusando-se a participar da sociedade local, e incorrendo, portanto, em desobediência, cujo resultado foi o seu isolamento e marginalização.
Por decisão do tio Kantaro vai para São Paulo, mas tem dificuldade em se adaptar pelo fato de não falar português e pouco consegue interagir com as pessoas.
Durante o tempo que passou em São Paulo, aprendeu a ver o mundo sob outro ponto de vista e, após ter convivido com Guilherme que militava na política estudantil dos anos 60, passa a ter consciência de que era parte do "povo". Apesar de não ser como o "povo", que trabalhava como escravo e, que um dia poderia se revoltar por não ter o que comer, Genji percebe que, tal como o "povo", ele não tem direitos. Entretanto, entende que o povo deveria lutar para conseguir a soberania, valorizar a vida, a liberdade e a igualdade perante a lei, como se vê no Contrato Social, pois "o princípio fundamental é a soberania da vontade geral. [...]o povo aparece como fonte exclusiva de todo poder político" 9
Sem liberdade de escolha, não pode almejar a igualdade dentro da sociedade, nem procurar o caminho que o levaria à felicidade. Genji, está sempre "acorrentado" ( in chains) , como na epígrafe; e ele tenta o suicídio como forma de libertação. Essa tentativa é frustrada e ele continua sua vida na comunidade.
Recebe um convite para ir a Mato Grosso com Kantaro e o marido de sua prima e torna-se o único sobrevivente do acidente que ocorre com o avião no meio da selva. Ao recobrar os sentidos, encanta-se ao olhar para o céu, e ver o sol "dançando com os seus pezinhos" 10 (Tradução nossa), o que o faz lembrar-se de sua infância e das imagens que tinha quando vivia ainda dentro de sua cesta. Contente e aliviado, confessa que não se sente prisioneiro e, pela primeira vez, é uma criatura livre e feliz.
Como na filosofia de Rousseau, o retorno à natureza, literalmente, faz Genji encontrar a liberdade por que tanto ansiou e ensina-o a ser dependente de si mesmo, guiado por seu instinto de conservação, sem a contaminação da sociedade corrompida, pela qual havia sido tão lesado.
A epígrafe de Jean-Jacques Rousseau que antecede esse capítulo do romance pode ser aplicada enquanto Genji ainda vivia no meio da “civilização”; a partir do momento em que passou a viver em contato direto com a natureza, Genji deixou de ser prisioneiro do seu passado e, numa identificação com a natureza, mesmo que não corresponda ao que Rousseau postulava, pode finalmente, ser feliz, viver e morrer livre e em paz consigo mesmo.
Genji era o diferente, o outro, considerado louco, por não se adaptar à comunidade e aceitar suas regras, e por isso ficou isolado. Seu comportamento pode ser entendido como o de alguém “fora de lugar” ( out of place ), termo usado por Mary Douglas, citado por Stuart Hall, e por essa razão, considerado “poluído, perigoso, tabu”. 11
Dessa forma, pode se concluir que Genji já não tinha consciência da importância da vida em sociedade e, de seus valores e direitos como indivíduo. Logo, a volta ao primitivismo, para um isolamento social total, é a expressão mais adequada à sua “loucura”.
Ao analisar a escolha das epígrafes de Rousseau para introduzir as narrativas em Brazil-Maru , nota-se que Yamashita entrelaça os valores norte-americanos de liberdade, vida, individualidade, igualdade e busca da felicidade em uma transposição cultural para os nipo-brasileiros.
Tais valores, associados à cultura dos Estados Unidos e à democracia norte-americana, são estabelecidos na Declaração da Independência, tornando-se o arcabouço da Constituição dos Estados Unidos, que reza serem esses direitos inalienáveis do povo.
A igualdade de direitos está entre os valores intrínsecos que todos os cidadãos esperam sejam respeitados por estarem garantidos na Constituição dos Estados Unidos e para que tenham esse direito garantido, no romance, por exemplo, tanto as mulheres como os homens lutam para assegurar esse privilégio.
A luta pela liberdade pessoal surge em diversas passagens do romance, e as personagens procuram conquistar essa segurança que é intrínseca na natureza das pessoas, garantida por meios legais, e defendida pelos norte-americanos, que entendem que o individualismo é uma de suas conquistas mais preciosas.
E, por fim, há a “procura da felicidade”, termo encontrado unicamente na Declaração da Independência norte-americana e, que as personagens de Brazil-Maru , de forma análoga aos cidadãos dos Estados Unidos, entendem que devem buscar onde quer que ela possa se encontrar.
Assim, nota-se que a volta à natureza, tão apregoada por Rousseau, juntamente com os direitos inalienáveis das instituições norte-americanas, convergem para o bem maior que é a vida, a liberdade e a felicidade que todos procuram; se não estiver ao alcance dos seus olhos, não se medem sacrifícios para achá-la, mesmo que seja do outro lado do mundo, como o fizeram os europeus quando foram para a América e da mesma forma, os japoneses de Brazil-Maru ao virem para o Brasil em 1925.
SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião: A Poética do Uroboro . São Paulo: Ática, 1981, p.4..
2 ABBAGNANO, Nicola História da Filosofia . Trad. António Ramos Rosa, e António Borges Coelho Lisboa: Editorial Presença, 1994, p.205.
TAYLOR, Charles. The Politics of Recognition. In : GUTMANN, Amy (Org.). Multiculturalism – Examining the Politics of Recognition. Princeton : Princeton University Press, 1994, p.51.
YAMASHITA, Karen Tei. Brazil-Maru. Minneapolis : Coffee House Press, 1992, p. 118.
COELHO, Jaime Nuno Cepeda. Dicionário Japonês-Português. 1ª ed.. Porto: Porto, 1998, p.364.
FORTES, Luís Roberto Salinas Fortes. Rousseau: da Teoria à Prática . São Paulo: Ática, 1976, pp. 28-29.
YAMASHITA, Karen Tei. Brazil-Maru . Minneapolis : Coffee House Press, 1992, p.241.
HALL, Stuart (Ed.). Representation: Cultural Representations and Signifying Practices ., London , California , New Delhi : Sage Publications, 1997, p. 258.