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Dinorá, moça do prazer: a Fanny Hill curitibana.
Carlos Alberto Vechi (USP/ Universidade São Marcos)
O que pretendemos nessa comunicação é demonstrar que o escritor curitibano, Dalton Trevisan, a par das divergências a serem apontadas mais adiante, insere-se, com grande número de seus contos, na tradição ocidental da chamada “literatura erótica”. Se esse tipo de produção literária remonta à Grécia antiga, é no século XVIII que ganha a sua fisionomia moderna e é a França que exporta esse tipo de literatura para todo o mundo ocidental. Ao lado da França, a Inglaterra, país de onde se origina o romance moderno, sob a influência direta da literatura gaulesa, também assiste à produção de uma série infindável de obras eróticas, que, na maioria das vezes, não passavam da manifestação de um discurso pornográfico pautado pelo clichê e mau gosto.
Como dissemos acima, embora a literatura erótica seja praticada no ocidente desde a antigüidade grega, é no século XVIII que ela ganha o perfil pelo qual a conhecemos hoje em dia. Isso se deve fato de que no século XVIII, sob a influência do Iluminismo o sexo, tal como ocorre até hoje, é explorado como substituto da metafísica e da religião. Eros e ágape se tornam equivalentes e, por intermédio dessa equivalência, o texto procura produzir o prazer sexual no leitor.
Eros e ágape representam duas concepções do amor e do sexo na relação interpessoal. O primeiro representa uma concepção clássica da paixão: no seu espaço o indivíduo não busca o todo porque não tem ainda consciência de se encontrar afastado da totalidade. O sujeito vive aquela dimensão existencial de que nos fala Georg Lukács em seu Teoria do romance : No âmago da civilização grega o indivíduo não precisa buscar o sentido da vida, pois este é um dado imediato.
O segundo, o ágape, cuja origem se encontra no cristianismo, coloca a paixão como meio de se alcançar a transcendência. E, como afirma Andréa Saad Hossne, citando Hegel em seu livro Bovarismo e romance : “Nada é mais exato como expressão dessa busca, fora do universo místico religioso, do que a formulação de Hegel de que o amor é ‘a religião profana do sentimento'” (Andréa Saad Hossne,2000, p.80). No ágape está pressuposta a comunhão dos seres tal qual entendida pelo cristianismo.
Ainda segundo a autora em sua obra citada, a partir do Romantismo, a função de ágape começa a se degradar, daí a morte se colocar como o desenlace ideal para as muitas histórias de amor escritas nessa época. Depois do Romantismo essa dimensão do amor desaparece, pois o mundo que lhe é contemporâneo se coloca refratário a ele. Entre as causas, merece destaque a reificação por que passa o indivíduo na sociedade burguesa que se assenta nos princípios do capitalismo. Nesse contexto, a relação erótica perde por completo a possibilidade de levar o indivíduo à sua realização plena, quer no plano da existência, quer no plano da transcendência.
No que concerne à produção literária, a questão amor/sexo, como foi dito atrás, conhece novas formas de expressão na Literatura Francesa que, embora anteriores ao Romantismo, não dá nenhuma dimensão transcendental ao sexo, ao erótico. E é esse modelo francês que irá influenciar os rumos que a literatura erótica tomará na Inglaterra do século XVIII.
E aqui nos interessa introduzir o romance Fanny Hill ou memórias de uma mulher de prazer, do escritor inglês John Cleland, publicado em 1748. O nosso interesse com relação a esse romance se deve ao fato de haver entre ele e o conto “Dinorá, moça do prazer”, narrativa de Cemitério de elefantes , 1964, de Dalton Trevisan, haver um diálogo que implica, a par de divergências, uma série de coincidências. Além disso, tanto Fanny Hill quanto “Dinorá, moça do prazer” não se encaixam no modelo da narrativa erótica moderna, tal qual divulgado pela literatura francesa do século XVIII, como veremos mais adiante.
Ambas as narrativas se estruturam num tom confessional (as personagens contam sua vida pregressa através de cartas), isto é, as protagonistas se dirigem diretamente a um interlocutor e relatam as peripécias vividas. As duas figuras femininas, Fanny Hill e Dinorá, são mulheres que, embora à margem da vida, pois prostitutas, ao revelarem suas aventuras amorosas, trazem à baila a imagem da sociedade que se faz ver em duas dimensões: uma pautada pela legalidade, a outra, pela marginalidade.
As duas narrativas nos contam a história de duas jovens de origem humilde e órfãs que vão para a cidade grande tentar a sorte. O conto de Dalton Trevisan, já no primeiro parágrafo paga seu tributo ao romance de John Cleland:
No estilo de Fanny Hill. Meu nome é Dinorá. Nascida em Curitiba, de pais pobres, mas honestíssimos, fui na infância ignorante do vício. Vítimas da gripe espanhola, morreram os coitados mal entrara eu nos quinze anos. Fiquei só, sem parente que me advertisse das traições no caminho da jovem órfã. (TREVISAN, Dalton: 1982, p.13)
Entretanto, esse tributo se deve mais ao teor do conteúdo narrado, a história de uma jovem ingênua que pela mão de uma cafetina se introduz no submundo da prostituição do que ao destino que aguarda a protagonista. Fanny Hill é um romance dominado pelos valores que sustentam a ideologia burguesa no século XVIII. Depois de conhecer os segredos do sexo, a personagem se apaixona por Charles e a ele se une, depois de várias peripécias, e viverá feliz para todo o sempre, como nos afirma Fanny Hill no primeiro parágrafo da narrativa, que nos dá um resumo de toda a sua existência:
Senhora,
Pego da pena para dar-lhe prova irrefutável de que considero seus desejos como ordem indispensáveis; portanto, por desagradável que possa ser essa tarefa, recordei aqueles estágios escandalosos de minha vida, dos quais emergi, aos poucos, para o gozo de todas as bênçãos que o amor, a saúde e a fortuna podem proporcionar, enquanto ainda na flor da juventude, e não tarde demais para empregar o lazer, a mim garantido por grande conforto e afluência, no cultivo de um discernimento, naturalmente nada desprezível, e que, mesmo em meio ao torvelinho de prazeres licenciosos em que fui lançada, resultou em uma observação mais profunda dos personagens e costumes do mundo do que é comum naquelas de minha infeliz profissão, as quais, encarando qualquer pensamento ou reflexão como seus inimigos capitais, conservam esse discernimento à distância máxima que podem, ou o destroem sem piedade. (CLELAND, John: 1997, p.43)
A protagonista de John Cleland, desde as primeiras linhas da narrativa coloca sua vida pregressa como forma de realizar um ritual de passagem que possibilitaria o submundo ter acesso ao mundo oficial, aquele determinado pelos valores que constroem a fisionomia da legitimidade burguesa. Dinorá, a Fanny Hill curitibana, ao contrário, não vive uma aventura eivada pela dimensão épica. Temos flagrado um instantâneo de sua existência marcada pela queda e conseqüente humilhação que se faz presente desde os primeiros passos na prostituição.
Convidou-me uma noite – ah terrível noite foi aquela! – para a festinha galante, espicaçando-me a curiosidade com a descrição do ambiente luxuoso e das finas maneiras dos convidados. No casarão, escondido de ciprestes, esperava-nos uma das portas laterais o nosso anfitrião, a quem madame, entre mesuras, saudou de Excelência. Sem que deparássemos outro conviva, fomos introduzidas no salão discretamente mobiliado de uma mesa, algumas cadeiras, um canapé e uma cama de veludo encarnado, que mais parecia digna de uma rainha. (TREVISAN, Dalton, 1981, p. 13)
Como se pode verificar no trecho transcrito, há uma dissonância clara entre o luxo e luxúria que emanam da casa de madame e a experiência de mundo de Dinorá. Em outros termos, o luxo do ambiente se coloca como algo superior à jovem, que se encanta com o que vê e, por isso se deixa levar pela volúpia que seus olhos captam naquele momento.
Pelo que se colocou até agora com relação às duas narrativas, temos, de um lado, o casamento, como forma de aceitação social; de outro, o prazer sexual, como forma de exclusão.
No romance de John Cleland, embora vivencie os vícios do sexo condenado por uma sociedade hipócrita e tremendamente reacionária, a protagonista consegue redimir-se perante essa mesma sociedade e tornar-se uma senhora respeitável, atingindo assim o seu objetivo inicial: o de ser uma vencedora na vida. E, ser vencedora, para Fanny Hill é fazer parte da classe média, que ascendia à história nos século XVIII.
Já Dinorá, por não ter as mesmas oportunidades que Fanny Hill teve, torna-se vítima de uma sociedade que se pauta pela exclusão; torna-se vítima indefesa de uma situação irreversível: ser para todo o sempre a moça do prazer que se vê obrigada a aceitar o jogo amoroso do parceiro:
Vendo-me indefesa, em delicioso abandono, molemente reclinada entre as almofadas de veludo carmesim, acenava-me em frases inspiradas com os ricos tesouros da volúpia. Apresentava-se fogoso campeão nas liças do amor e, se o recebesse como herói, seria instalada na classe da senhora teúda e manteúda. Em troca, renunciando aos míseros consolos da solidão, poderia abrir-lhe as portas do paraíso.
Ou então vomitava horrendas injúrias, ridicularizado não seria por suposta menina e moça, em conluio com a viúva desonesta que, na velhice precoce, exercia o humilhante ofício de rufiã. Incitava-me a provar o néctar da maçã proibida e arrebatada na torrente avassaladora de sua eloqüência, sentia as conseqüências do primeiro passo na estrada do vício – o rubor que me tingia as antes do frenesi que da modéstia. (TREISAN, Dalton, 1981, 14)
A realidade erótica que se apresenta nas duas narrativas, como pretendemos demonstrar, situam-se em pólos diferentes. John Cleland se vale de todos os procedimentos que lhe são fornecidos pela literatura erótica francesa e estabelece uma ordem que se opõe à norma da narrativa erótica de sua época. A ausência de termos licenciosos e a “conversão” da protagonista aos valores do universo são dois dados que tornam a narrativa um exemplo incomum da ficção erótica do século XVIII. A licenciosidade era o ponto de partida para as inúmeras narrativas eróticas dessa época. John Cleland, embora a coneça, vale-se de uma série de torneios de linguagens e perífrases para abrandar o impacto de tal discurso.
Por seu turno, Dalton Trevisan, embora preste seu preito ao autor de Fanny Hill no primeiro parágrafo de sua narrativa, se afasta da narrativa que lhe inspirou a história de Dinorá, bem como parodia o modelo da narrativa erótica ocidental na medida em que, além da ausência de uma tópica erótica e de termos licenciosos, coloca a sua protagonista como um pastiche das heroínas que têm povoado as histórias eróticas do ocidente. Nesse sentido são bastante elucidativos os parágrafos finais do conto nos quais o ato sexual é apresentado como se fosse uma cena que traz à baila simultaneamente um assassinato, um flash de um filme de faroeste e um patíbulo onde a vítima, ironicamente concebida aqui como membro da nobreza, estaria sendo executada:
Apelei para todos os meios de defesa que reclama a honestidade. O cruel assassino gargalhou sinistro e, desfazendo-se do colarinho engomado, voltou à carga. Servia-se com desenvoltura das armas usadas em tais embates, as mais pérfidas que se pode imaginar e seria impossível descrever.
Mata-me ó bruto apache! Não posso mais. Eu morro...
Gelou-me o sangue nas veias, a última duquesa diante do patíbulo. (TREVISAN, Dalton, 1981, p.15)
E, nesse sentido, o autor de O pássaro de cinco asas revisita os temas da literatura ocidental dando-lhes um caráter ao mesmo tempo particular e universal. Particular, na medida em que busca em sua mítica Curitiba os temas a serem desenvolvidos em suas narrativas, universal, enquanto releitura de obras que constituem o arcabouço cultural do ocidente. E, retomando o que foi colocado no início de nossa comunicação, a visão do mundo que Dalton Trevisan apresenta em suas narrativas de natureza erótica apontam para a desagregação do indivíduo, ilustra a sua decadência espiritual. Aqui o sexo é o exemplo mais contundente na medida em que serve de exemplo para uma existência pautada pela nadificação como é a de Dinorá, moça do prazer.
BIBLIOGRAFIA
HOSSNE , Andréa Saad. Bovarismo e o romance . Cotia: Ateliê Editorial, 2000.
LUKÁCS , George. Teoria do romance . Tradução de Alfredo Margarido. Lisboa: Estampa, sd.
TREVISAN , Dalton. Literatura comentada . Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Avaro Cardoso Gomes e Carlos Alberto Vechi. São Paulo: Abril Educação, 1981.