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Mecanismos discursivos da marginalização
Aurora Gedra Ruiz Alvarez (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
O indivíduo, por sua necessidade de sociabilização, integra-se em um dos vários segmentos sociais e, neste espaço de interação, assimila as formações ideológicas da classe dominante. Uma vez absorvida a ideologia, ele atua lingüisticamente junto à realidade social. Dessa feita, ao mesmo tempo em que a ideologia impõe ao sujeito conceitos e diálogos que estão em processo na sociedade, ela necessita do discurso para se realizar concreta e plenamente.
O discurso constitui-se, portanto, de uma intrínseca dialogicidade, por possuir a capacidade de responder ao contexto convergente ou divergentemente. Tendo em foco a produção de um texto literário, podemos dizer que na abordagem de um determinado tema, o criador deixa transparecer a sua valoração, quer positiva (a euforização), quer negativa (a disforização), sobre o objeto de sua apreciação.
Assim, a literatura capta os fluxos culturais no eixo da história, estabelecendo diálogos com as convenções pari passu com a revelação de novas formas de ver o mundo. É neste trânsito entre a antiga e a nova ordem que José Lins do Rego apreende o conflito do mestre José Amaro, um dos protagonistas de Fogo morto . A personagem que selecionamos para a nossa análise representa a classe dos artesãos, estrato social que goza do prestígio e do respeito dos senhores de engenho no apogeu do ciclo da cana. Contudo, na diegese, ela revela a sua inadequação aos novos tempos.
O interesse do nosso estudo reside na análise da interação dialógica que se instaura entre José Amaro e o contexto social, examinando os movimentos de imposição das convenções e, ao mesmo tempo, os de ruptura com a norma que se articulam no texto.
A partir deste recorte, concentraremos a nossa atenção nos móveis da ação que constrói a imagem do Prometeu dos tempos modernos e analisaremos os mecanismos que o protagonista desenvolve ao assumir a posição da voz marginal.
Cumpre ainda esclarecer que a presença da bibliografia pertencente às ciências sociais restringe-se apenas a fundamentar alguns conceitos relacionados à marginalização. Embora a obra apresente um enfoque significativo do contexto sócio-econômico cultural do século XIX da região nordeste, o que nos interessa particularmente é o estudo do drama existencial da personagem, o que confere densidade ao romance. Por isso, tocaremos apenas na fímbria destes conceitos científicos, para que, funcionando como subsídios, conheçamos em todos os seus contornos a intricada teia dessas relações sociais. Desviando-nos, portanto, da abordagem de cunho sociológico, que nos poderia distanciar de nosso objetivo, enraizaremos os instrumentos de análise no fazer literário.
O vetor que impulsiona as ações de José Amaro está ligado às raízes culturais. Como no romance em questão o espaço narrativo ambienta-se em Pilar, uma cidade provinciana nordestina, a inserção da personagem no meio torna-se vital. Assim, a obediência às normas sociais, quer as estabelecidas por força da lei, quer as outras mantidas pela tradição é o divisor de águas para a sua integração. Como sabemos, imposta a regra, aquele que não se submete a ela é visto como uma pessoa diferente, indigna da confiança e do respeito dos membros do grupo. Segundo Howard S. Becker, o que transgride é considerado um “ outsider” , um “marginal”. Para que se possa falar em marginalidade, considera Becker que dois aspectos são levados em conta: o senso comum e o desvio de padrão. De acordo com este sociólogo, o desvio de padrão é “uma infração contra alguma regra do consenso” 1.
Cumpre ainda salientar que a sociedade, ao analisar a ruptura de certa norma tende a considerar as causas do desvio como originárias do infrator, mais especificamente, vincula as causas desse ato a problemas de personalidade ou a situações peculiares da vida do transgressor. Para Becker, essa interpretação “parece ignorar o fato central de que a idéia de ´desvio` é criada pela sociedade” 2. O conceito de desvio de padrão surge, portanto, como conseqüência das respostas dos outros à ação do indivíduo. Por isso Lúcio Kowarick, no seu livro Capitalismo e marginalidade na América Latina 3, afirma que o que desrespeita as regras não pertence a uma categoria homogênea, uma vez que a classe dominante passa a olhá-lo como um ser à parte, aquele que fere as suas concepções ideológicas. Mais do que isto: o transgressor significa uma ameaça à ordem imposta; por isso é punido com a exclusão.
Dessa forma, o processo de marginalização é desencadeado a partir do grupo detentor do consenso que assume a postura judicativa de distinguir e de discriminar o que pratica uma ação não prevista e que se insubordina contra a ordem estabelecida. A avaliação da falta operacionaliza-se segundo os modelos da integração e da transgressão e dispõe a marginalidade em predicados como: o lobisomem, o louco, o assaltante, o endemoninhado etc.
Retomemos Fogo morto e analisemos como a personagem José Amaro se articula no seu universo e como responde ao meio em que está inserida.
Mestre José Amaro percebe que aquele mundo dos engenhos de cana dá seus últimos estertores. Novos indexadores sinalizam a falência do sistema: a abolição dos escravos, o surgimento das usinas e a dificuldade de muitos senhores de gerenciar esta nova realidade. Ao lado desta questão econômica, comparece a política, porque, em verdade, os partidos não mais espelham a vontade dos coronéis. O mestre vê instalar-se uma nova ordem: há a depauperação dos engenhos e a conseqüente subserviência de alguns senhores, o que gera uma instabilidade política.
Neste caótico contexto social, a personagem sente perder seu “orgulho de branco” por não trabalhar mais para os engenhos e por não conseguir absorver o fato de não ter um filho ou neto, o que alimentaria o seu orgulho de patriarca. Amaro condensa todos estes sentimentos numa mágoa profunda, que vai, aos poucos, minando seu mundo interior a cada vez que retoma estas tônicas obsedantes.
A angústia que o domina deixa-o inapto a comunicar-se com sua família. Esse distanciamento mergulha-o na solidão e na auto-agressão.
(...) Quis falar com ela, mas parou no meio da palavra que lhe saíra da boca, e para corrigir-se bateu com mais força na sola que trabalhava. Era a sua Sinhá e não podia esconder seu ódio por ela. Agora viu a filha sair de casa com uma panela na cabeça, caminhando para o chiqueiro dos porcos. Era de fato a sua filha, mas qualquer coisa havia nela que era contra ele. O mestre Amaro viu-a no passo lerdo, no andar de pernas abertas e quis falar-lhe também, dizer qualquer coisa que lhe doesse. Martelou mais forte ainda a sola e sentiu que a perna lhe doeu. Com mais força, com mais ódio, sacudiu o martelo. Era a sua família. Uma filha solteira, sem casamento em vista, sem noivo, sem vida de gente. 4
O extrato citado revela a volição de comunicação (“quis falar”) interrompida pelo silêncio e pela auto-agressão. Segue a descrição do ramerrão cotidiano, que se mistura com as revelações do seu conflito. A observação da personagem torna-se mais apurada e centra-se obsessivamente nas causas de sua dor: um misto de sofrimento interior e de ódio por aqueles que sente serem os responsáveis pela perda dos seus sonhos de patriarca. Esta mágoa que o inabilita a interagir positivamente com a família, de expandir e expressar afeto provoca também uma violência externa sobre si mesmo. No mesmo ritmo em que a tensão se avoluma, mais ele bate a sola que se apóia sobre a sua perna.
O trabalho, para José Amaro, poderia representar a saída para a dor do seu fracasso de pater familias . Contudo, perdeu a sua posição de prestígio nessa relação social. José Amaro pertence a uma dinastia de artesãos que produziu peças de selaria para a nobreza. As memórias da infância são recorrentes ao contrastar o respeito que seu pai granjeou ao fazer uma sela para o Imperador, dada pelo barão de Goiânia, enquanto ele, agora, só conserta selas para “camumbembes”, ou seja, para as pessoas do povo.
Segundo Bakhtin,
[o] enunciado existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto da enunciação, não pode deixar de ser participante ativo do diálogo social – como seu prolongamento, como sua réplica 5.
José Amaro se constitui à vista da alteridade enquanto sujeito, ou seja, o seu modo de presença no mundo se constrói a partir dos discursos absorvidos da sociedade. Assim a sua consciência, compreendida como reduto da formação ideológica da cosmovisão do seu grupo, passa a buscar na linguagem formações discursivas que a expressem. Daí surgem as combinações lingüísticas que ele efetua no seu discurso que reafirmam de maneira direta a ideologia do seu segmento social. Integrado em uma sociedade de raízes medievais, o mestre preza a autoridade patriarcal, o machismo, o “orgulho de branco”, valores que possibilitam a inclusão do indivíduo no grupo. Para ele, não trabalhar para a elite rebaixa-o tanto, quanto não dar continuidade ao seu nome descredencia-o de sua importância de patriarca. Por isso, revolta-se contra todos que o inferiorizam em sua condição social. Assim, disforiza em seu discurso a esposa, aqueles que não têm o respeito da comunidade, como os negros e a figura quixotesca do Capitão Vitorino, ou até mesmo o Coronel José Paulino que, por representar a nova ordem, não o trata como os antigos coronéis de engenho.
Dentro dessa intrincada rede de frustrações e mágoas, surge um atenuante para o sofrimento de José Amaro que distancia, num primeiro momento, o ápice da crise nas relações entre a personagem e o meio: é a descoberta da Natureza.
O seleiro estava possuído de paz, de terna tristeza; ia ver a lua, por cima das cajazeiras, banhando de leite as várzeas do Coronel Lula de Holanda. Foi andando estrada afora, queria estar só, sentir tudo só. A noite convidava-o para andar. Era o que nunca fazia. Vivia pregado naquele tamborete como negro no tronco 6.
Este fragmento acentua bem duas idéias importantes: a primeira, entranhada na personagem, evidencia a concepção de que o trabalho – os remendos feitos em peças de couro para os pobres – representa uma degradação social, nivelando-o à vida de escravo e, a segunda é a de que o “ficar pregado naquele tamborete” distancia-o da Natura Mater . A partir desta descoberta, ocorre a construção de duas ações: uma é de aproximação da natureza, que lhe revela beleza, atração telúrica; a outra é de conhecimento do prazer e da paz interior que ela lhe proporciona.
Este antídoto para as tensões que poderia mitigar o conflito da personagem não se apresenta como uma solução para os seus problemas. Concomitante a este momento de encontro do homem com o meio natural, nasce e desenvolve-se o processo de marginalização da personagem pela comunidade, que começa a encontrar no comportamento do mestre, assim como na amarelidão e no inchaço provocados pela doença cardíaca e pelo constante contato com o couro, os traços do lobisomem. A imaginação popular prodigaliza-se em encontrar as “evidências” de vampirismo, graças ao arcabouço cultural daquele meio, extremamente afeto aos boatos e superstições.
Ao polemizar com as práticas sociais cristalizadas na sociedade, constrói-se em José Amaro a imagem ideológica do transgressor, daquele que pratica o “desvio de padrão”, ou seja, daquele que rompe com o seu grupo. Desse confronto com as convenções, a sanção social condena-o ao ostracismo.
O movimento de aceitação e de rejeição que flui nas relações sociais é bastante interessante. Cabe aqui uma breve reflexão: se o indivíduo rompe com a tradição e concentra esforços na defesa de uma nova maneira de pensar o mundo torna-se um insurrecto, um marginal; o mesmo destino aguarda a quem é recalcitrante diante do novo. Fogo morto discute o esfacelamento da sociedade do ciclo da cana-de-açúcar nas diversas instâncias sociais: desde o poder da oligarquia canavieira, que sofre o impacto dos novos tempos que urgem por tecnologias mais avançadas no trabalho agrícola, até a condição dos negros, recém-libertos da escravatura, que iniciam o seu longo percurso de reconhecimento de sua dignidade humana. José Amaro representa, por um lado, aquele que é refém do passado e não consegue acompanhar as transformações sócio-econômicas e, por outro, vivendo em Pilar, torna-se vítima do arcabouço cultural interiorano. A comunidade não é compassiva diante do comportamento anômalo do seleiro. Ela é severa nos seus julgamentos e age de forma violenta. O mestre sente-se um estranho em seu grupo, que atualiza um discurso coercitivo e excludente. A morte é o máximo de abertura que a personagem encontra face às opressões do meio.
BECKER, Howard S. Outsiders – Studies in the sociology of deviance. Ne w York : The Free Press, 1966, p. 8. A tradução é nossa.
Ibidem , p. 9. A tradução é nossa.
KOWARICK, Lúcio. Capitalismo e marginalidade na América Latina Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
REGO, José Lins do. Fogo morto . 6. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965, p. 16.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). 4. ed. São Paulo: Unesp/Hucitec, 1998, p. 86.