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A câmara lúcida e o recorte jornalístico-literário:uma leitura interdiscursiva
Andreia Rosmaninho (UPM)
Introdução
Este trabalho parte da materialidade dos textos "Os Sertões", obra-ícone do jornalismo literário, produzida pelo escritor brasileiro Euclides da Cunha, e "A Câmara Clara", último livro do falecido teórico francês, Roland Barthes. Sem qualquer ligação muito aparente - nem no que diz respeito à carga conteudística e tampouco no concernente ao aspecto formal -, o elemento dialógico das referidas obras prende-se aos conceitos de arte existentes entre os pressupostos barthesianos e a postura autoral presente na execução da obra euclidiana.
Ao pretender uma leitura interdiscursiva, este estudo objetiva demonstrar que o aspecto dialógico entre as duas obras é a presença do conceito de que a intervenção humana é um fator fundamental para a produção artística.
O conteúdo discutido por Barthes, na obra que trata da arte fotográfica, dialoga - ainda que metaforicamente - com a sistematização de aspectos inerentes à dicotomia entre jornalismo literário e jornalismo convencional, uma vez que o semiólogo consegue estabelecer uma relação de polaridade também entre os dois processos óticos de reprodução da imagem. O primeiro deles, que acontece por meio da utilização da câmara clara, trata-se de um processo cuja imagem é copiada pela mão do homem, enquanto o segundo, que ocorre através do emprego da câmara escura, consiste numa simples reprodução mecânica da imagem, sem qualquer interferência humana. Dessa forma, o objetivo de Barthes é demonstrar que sem a intervenção subjetiva do observador - que tem a capacidade de produzir, a partir do objeto retratado, uma obra muito mais valorizável do que um reles registro realista ou uma mensagem codificada -, o produto fotográfico fica limitado a um mero registro documental.
Nesse sentido, também a prática do jornalismo convencional, ao pretender registrar a notícia segundo estruturas propostas por manuais de redação, acaba por abortar qualquer possibilidade de haver, no texto, a presença de um estilo mais atraente. Em contrapartida, a medida que o produtor da matéria assume um posicionamento criativo diante da temática, desenvolvendo qualidades estilísticas na obra - por meio da implementação de um tom poético -, mais próximo o produto tende a ficar de uma verdadeira produção artística.
A câmara lúcida e o recorte jornalístico-literário: uma leitura interdiscursiva
Ao pretender uma leitura interdiscursiva das obras mencionadas - ou de quaisquer outras -, deve-se ter claro, em primeiro lugar, o conceito de interdiscursividade. Segundo Fiorin, "a interdiscursividade é o processo em que se incorporam percursos temáticos e/ou percursos figurativos, temas e/ou figuras de um discurso em outro." 1
De fato, o fenômeno interdiscursivo funciona como uma espécie de cabedal de conhecimentos - constituídos no âmbito da memória discursiva - formado por uma série de outros textos com os quais o indivíduo tem contato ao longo de sua existência e que incorpora na sua formação ideológica. Ou, de acordo com as palavras de Maingueneau:
"Dizer que a interdiscursividade é constitutiva é também dizer que um discurso não nasce, como geralmente é pretendido, de algum retorno às próprias coisas, ao bom senso, etc., mas de um trabalho sobre outros discursos." 2
Se todos os discursos que reproduzem os mesmos percursos temáticos ou figurativos - e que mantêm entre si uma relação contratual - pertencem à mesma formação discursiva, é possível afirmar que existe a possibilidade de identificar pontos em que as definições barthesianas acerca do produto fotográfico vão ao encontro das técnicas de produção sobre as quais Euclides da Cunha se baseou para a feitura de "Os Sertões". Desse modo, pode-se observar a presença de certa identidade discursiva, uma vez que se estabelece um diálogo convergente entre as referidas obras - sobretudo quando se percebe a analogia existente entre os aspectos dicotômicos do jornalismo literário com o jornalismo informativo e a relação de polaridade concernente aos processos de reprodução da imagem feitos pela câmara clara e pela câmara escura.
Vejamos, então, a possibilidade de uma leitura dialógica entre os textos "Os Sertões" e "A Câmara Clara".
Obra-ícone do jornalismo literário, "Os Sertões" remonta personagens e cenários da Guerra de Canudos, ocorrida em 1897, por meio de uma indiscutível qualidade estética. O trecho seguinte foi extraído do capítulo intitulado "O homem".
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmes, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. (...) Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja - caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas". 3
Partindo da materialidade textual, nota-se, no trecho reproduzido acima, que o autor adota uma postura extremamente analítica perante o objeto observado, fazendo com que o leitor pressuponha a existência de um produtor da reportagem, apesar da objetividade e da aparente neutralidade. Extremamente adjetivado - ocorrendo o emprego dos modalizadores: forte, exaustivo, neurastênico, impecável, correto, atlético, desgracioso, desengonçado, torto, fraco, sinuoso, desarticulado, leve, impressionador, raquitismo, fealdade, desempenho, aprumo, entre outros -, o texto revela as verdadeiras impressões do repórter acerca do fato narrado, visto que este só é capaz de fazer o seu recorte a partir de uma série de avaliações.
É importante ressaltar que essa postura, criticada e até, por vezes, proibida nos veículos de comunicação, ao contrário do que se pensa, culmina com a produção de um texto mais verdadeiro do que os produtos ditos neutros ou imparciais.
Também chama a atenção o tom poético na construção da analogia que o autor faz ao qualificar o homem do sertão por meio da expressão "Hércules-Quasímodo". Euclides da Cunha demonstra toda a sua maestria ao compor metaforicamente uma figura tão bem colocada e definida de forma tão ilustrativa, de forma a tornar, neste momento do texto, bastante evidente um processo de criação.
Acerca da questão da subjetividade no processo criativo, Bakhtin elucida que:
"O homem-sujeito isolado é experimentado como criador somente na arte. A personalidade criativa positivamente subjetiva é um momento constitutivo da forma artística, aqui a sua subjetividade encontra uma objetivação específica, torna-se uma subjetividade criativa culturalmente significante; é ainda aqui que se realiza a unidade específica do homem orgânico, físico e interior, moral e espiritual, mas uma unidade provada a partir do interior". 4
Ao registrar suas impressões pessoais, o autor de "Os Sertões" explicita ainda mais o exercício da prática de reportagem, entrevista e pesquisa jornalísticas, deixando evidente o princípio de imersão na realidade. Os frutos de investimentos desse tipo constituem depoimentos mais honestos do que os textos provenientes da prática convencional - cuja matéria parece ter os fatos narrados por si só, sob um efeito ilusório de neutralidade. Afinal, acerca de todo e qualquer assunto, o autor só tem condições de ser fiel à sua própria verdade, sendo impossível, pois, dar conta de uma verdade pronta e absoluta.
Deve-se lembrar que a referida postura é recorrente entre as obras que figuram no âmbito do Jornalismo Literário e que a s diferenças existentes entre este e o jornalismo convencional, além de estarem relacionadas ao enfoque dado e ao posicionamento do autor diante dos fatos narrados, são de natureza eminentemente estilística.
Bebendo tanto das águas da literatura - gênero calcado nos preceitos da subjetividade, da invenção de uma realidade, da preocupação formal, da liberdade total de criação, do estilo autoral, do exercício imaginativo, da seleção vocabular e da iniciativa individual - quanto das características do jornalismo - modalidade que pressupõe a existência da objetividade, da imersão na realidade, da preocupação conteudística, da fidelidade factual, do estilo padronizado, da exatidão documental, da linguagem clara e direta e da responsabilidade social - o Jornalismo Literário funda-se numa forma de expressão que transita entre o real e o irreal.
Dessa forma, pode-se afirmar que entre o exercício do jornalismo e a prática da literatura existem várias nuances de modalidades. Em meio aos dois extremos encontra-se o Jornalismo Literário, gênero que se preocupa tanto com a carga informativa quanto com a qualidade estética do produto. A fidelidade factual, a cautela documental, o capricho estilístico e o emprego da subjetividade tornam-se aspectos inerentes à técnica de relatar fatos com literariedade.
Entretanto, ao priorizar as respostas às questões básicas "o quê?", "quem?", "como?", "quando?", "onde?" e "por quê?", - aplicando a estrutura da "pirâmide invertida" ou do "nariz de cera" proposta pelos manuais de redação -, a prática do jornalismo convencional aborta toda e qualquer possibilidade de haver, no texto, o desenvolvimento de um estilo mais atraente. Em contrapartida, a medida que o produtor do texto assume uma postura criadora diante do tema e desenvolve as qualidades estilísticas da obra, mais próximo o produto fica de uma produção artística.
Sistematizando, é possível perceber na prática do Jornalismo Literário características estilísticas inerentes tanto ao jornalismo quanto à literatura. Algumas delas são: imersão na realidade, fidelidade factual, exatidão documental, responsabilidade social, subjetividade, preocupação formal, estilo autoral e seleção vocabular.
É neste ponto que a postura euclidiana dialoga com o discurso de Barthes. Os fatos com os quais Euclides da Cunha entrou em contato atingiram-no sobremaneira, da mesma forma que a observação da foto é capaz de fazer surgir uma voz no interior de quem a contempla, conferindo ao observador a oportunidade de imprimir no produto sua própria opinião. A referida subjetividade, pois, "é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já está lá". 5 Ou ainda, nas palavras de Bakhtin:
"(...) a relação da forma com o conteúdo, na unidade do objeto estético, assume um caráter singular e pessoal, enquanto o objeto estético apresenta-se como algum acontecimento original e realizado da ação e da interação do criador e do conteúdo. Na obra de arte vocabular, o caráter eventual do objeto estético é particularmente claro; a inter-relação da forma e do conteúdo tem aqui um caráter quase dramático, é muito clara a penetração do autor, um homem corporal, sensível e espiritual (...)". 6
Acerca dos aspectos estilísticos - que, segundo este estudo, são traços presentes tanto na fundamentação teórica de Barthes quanto nos pressupostos euclidianos -, Coseriu 7 defende a tese de que quanto mais harmonização houver entre forma e conteúdo, mais estético será o texto. Dessa forma, as obras produzidas no âmbito do Jornalismo Literário, em geral, são reconhecidamente mais predispostas a atingirem este nível, já que, além de serem portadoras de pretensão artística, também não descuidam da carga informativa do produto. Em outras palavras, se preocupação conteudística (quando da observância da diversidade temática no discurso) e preocupação formal (identificável por meio do empenho do autor no processo de seleção) são elementos capazes de definir o grau de estética e de expressividade do texto, é no Jornalismo Literário que o desenvolvimento das qualidades estilísticas aparece mais evidentemente.
Assim, a abordagem jornalístico-literária, ligada à produção de textos baseados em fatos reais, constituídos por meio da função poética e através de traços de literariedade - portanto, portadores de características estilísticas e de pretensão estética -, estabelece uma relação diametralmente oposta com o recorte característico dos textos produzidos no âmbito do jornalismo convencional, construídos com o propósito utilitário e cujo único intuito é fornecer informação. Da mesma forma, são considerados dicotômicos os aspectos inerentes aos processos de reprodução da imagem, constituídos ora mediante o emprego da câmara clara, ora através da utilização da câmara escura.
Conclusão
Conforme foi demonstrado, é possível perceber uma relação interdiscursiva nas obras "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e "A Câmara Clara", de Roland Barthes. A referida relação, entretanto, não acontece de forma tão explícita, residindo sobretudo no fato de ambos os discursos partirem do pressuposto de que a mediação humana é indispensável para a feitura de uma obra artística. Em outras palavras, o conteúdo ideológico existente na obra do semiólogo francês dialoga convergentemente com os aspectos presentes no processo de produção da obra euclidiana.
Da mesma forma que o recorte de Euclides da Cunha faz uso de uma linguagem permeada de termos modalizadores, tendo como finalidade retratar os objetos selecionados para discussão, Barthes defende a tese de que a intervenção humana é um fator essencial para a produção de um retrato fiel à sensibilidade do autor, que define detalhes por ele julgados pertinentes e dignos de registro.
Em ambas as obras, pois, está presente a idéia de que o autor deve assumir a posição de mediador de todo o recorte, tornando-se um intérprete dos fatos por meio de uma postura pessoal. Dessa forma, o produtor de uma obra artística (produção sempre portadora de carga de humanização) deve ter a capacidade de transformar-se numa câmara lúcida, enxergando o objeto por meio de sensibilidades pessoal e emocional.
Ao contrário disso, o que acontece na câmara escura - processo no qual a mão do homem é totalmente dispensada - é a redução do produto fotográfico em uma simples reprodução mecânica, feita mediante sensibilidades física e química.
Neste contexto, é possível traçar os aspectos da dicotomia entre criação artística e relato documental, ou ainda, entre Jornalismo Literário e jornalismo convencional: o primeiro, concretizado por meio da câmara clara, e o segundo, produzido pelo processo mecânico.
Foi mostrado, portanto, que o recorte jornalístico-literário, processo através do qual existe o objetivo de tratar histórias não-ficcionais por meio de traços de literariedade, pode dialogar com o discurso fotográfico presente na abordagem barthesiana da câmara clara.
Em síntese, é possível metaforizar a temática desta investigação, afirmando que foi através da câmara lúcida, selecionando os detalhes que julgou pertinentes e, portanto, de acordo com a categorização barthesiana, que Euclides da Cunha recortou os sertões nos aspectos da terra, do homem e da luta.
Barros , Diana Luz Pessoa de. Fiorin , José Luiz (orgs.). Dialogismo, polifonia e intertextualidade. Edusp, São Paulo: p. 32, 1994.
Maingueneau , Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Unicamp, São Paulo: p. 120, 1997 .
Cunha , Euclides da. Os Sertões. Record, São Paulo: p. 118-119, 2000.
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Referências bibliográficas:
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Bibliografia consultada:
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Brait , Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Unicamp, 2001.
Brandão , Helena Nagamine. Dialogismo e polifonia enunciativa. São Paulo: Puc, 1988.