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A urbanidade e a desconstrução do sentido da vida
Alamir Aquino Corrêa (UEL)

Ricardo Ramos, alagoano (1929), filho de Graciliano Ramos, premiado pela Academia Brasileira de Letras e pela Câmara Brasileira do Livro, tem em seu currículo literário a predominância de narrativas curtas. Em Circuito Fechado 1(1972), talvez sua obra mais conhecida, Ramos acaba por efetivar uma reflexão sobre as micro-relações urbanas, banalizadas pelo anonimato e pelo desconhecimento. Já na dedicatória, isto fica evidente ao dizer: “lembrando Geraldo Santos, que procurou a cidade.” Ou seja, a cidade é o grande motivo dos trinta contos do livro, mas Ramos acaba evidenciando também a necessidade de procurá-la, por desconhecida. Geralmente, as leituras (poucas) feitas sobre a obra de Ramos concentram-se neste lado urbano e sobre a seqüência “Circuito Fechado”, em cinco momentos, que dá título ao livro; o primeiro momento de “Circuito Fechado”, onde há uma seqüência de substantivos, tem sido largamente usado como exercício de coesão e coerência e como modelo para exercícios de redação e/ou criação literária.

Interessantemente, o homem urbano retratado por Ramos tem uma vivência conflituosa, porque solitária. Pelo absurdo da vida metropolitana, vive-se a ausência de liames familiares ou de vizinhança, que eram/são tão próprios da vida rural ou campesina; manifesta-se assim angustiosa a construção psicológica do homem urbano pela sua falta de identidade ou de conexão com seu semelhante. A solidão, a mesmice, a sensaboria tornam-se o ponto de partida para o sonho e a fantasia, num anseio quase determinista pelo constructo da felicidade. O homem urbano retratado em Ramos digere sua falha, entendendo que esta frustração lhe é sempre cáustica e danosa.

Mais que buscar o pathos – ou seja, a emoção capaz de externar aos outros o que são, os homens retratados por Ricardo Ramos, refugiando-se na ausência de sentido da realidade, buscam em si mesmos o logos – o ordenamento racional de sua existência. Neste sentido, a palavra torna-se essencial para esta compreensão/desconstrução do sentido da vida. Os contos de Ricardo Ramos pluralizam o ser, possibilidade advinda do conglomerado urbano, multifacetado, oblíquo, irreconhecível enquanto unidade, mas ao mesmo tempo querem unificar as diferentes formas do ser, pautando-o pela angústia, pela melancolia, pela solidão exasperada.

A “fortuidade” do ser moderno, incongruente, mescla-se de uma procura desesperada de sentido, muitas vezes só explicável pela incoerência. Ricardo Ramos, em seus contos, particularmente na seqüência “Circuito Fechado”, consegue estipular o silêncio como a fôrma e a forma de explicação do eu moderno e urbano, desesperado, angustiado, desvalido, amorfo, dando outro significado à introspecção do homem. A individualidade raramente aparece nos contos de Ramos, as personagens aparentam ser simples coadjuvantes ou tão pequenos que não merecem por vezes ter nome ou seus nomes são pouco significativos – resta-lhes, entretanto, a consciência de si mesmos.

Se na ambiência rural, como se pode ver em Guimarães Rosa, pautou-se pela metafísica; naquela urbana, caso de Ricardo Ramos, mostra-se o homem garimpeiro de sua função e de sua identidade, perdido não mais na tragédia dos erros fundamentais – infeliz por erro humano, mas na lógica da incompreensão de si mesmo – infeliz por erro do ser. Assim, vai-se aqui privilegiar contos menos citados/comentados de Ricardo Ramos, mas que mantêm a unidade de construção melancólica em função da ausência de sentido na vida urbana. São eles: “A Espera”, “Notícia”, “Alegremente no inverno” e “Modelo 19”.

Em “A Espera”, a personagem protagonista é acompanhada pelo narrador em sua insônia. O tradicional dilema campo-cidade permeia o conto – a personagem angustiada tenta construir o significado de seu ser através da metáfora do caminho ou da estrada. Mas esta construção é mais negação que qualquer outra coisa: “olha e não vê”, “não encontrou ninguém”, “os outros não percebem ou fingem que não”, “não acreditaram”, “ainda não”, “procurou não ver, nem ouvir”, “ainda que não falasse” ( CF 18-19). A estrada faz o balanço entre o querer e o ser: “a estrada que passa do seu lado esquerdo, a princípio deserta e cinzenta, cheia de pedras que parecem caídas do céu, depois marginada por laranjais, bananeiras, as frutas domésticas, mais tarde fundindo-se em azul, subindo, sumindo” ( CF 18). O contato com o mundo distante, com cores, causa riso aos outros, mas aquele instante dá à personagem um outro modo: “ao lembrar e falar, sua voz se tornou mais clara, e afinada modulou-se em cristal” ( CF 18).

A vida urbana é repleta de telhados e automóveis, mas resultante de uma agonia, piorada pela noite: “os sons aumentam de volume. E o isolamento se faz maior” ( CF 19). A noite rural é aquela do mistério da desproteção em face do mundo natural desconhecido – aliás, é interessante que na transplantação do imaginário europeu, permaneceu viva a noção da floresta misteriosa e foi domado o mundo marítimo, antes assustador. A noite urbana está mesclada do infortúnio e da solidão, talvez pelas ausências ou pela ampliação do senso de segurança dado pela urbanidade. Resta a esperança: “do alto de sua janela, o homem não vê o asfalto, os edifícios, os telhados. Pensa no verde e nas luzes, o que virá. Apesar de só, de calado, ele está vivo” ( CF 20).

No conto “Notícia”, o recorte da ausência de individualidade permanece – o contexto geral do conto é a da total falta de perenidade para cada indivíduo, logo substituído na corrente mecânica das coisas. A personagem trabalha como redator, interagindo profissionalmente com os colegas de fábrica de tecidos, sempre organizado, aceitando os avanços em conformidade com sua tenacidade, mas pouco ampliado o seu futuro, ois as conquistas são sempre pequenas: “ele era um perfeito fordiano” ( CF 24). A noção da linha de montagem que nos causa asco era motivo de satisfação para a personagem: “no entanto, ele gostava” ( CF 24).

O grande projeto da personagem era conseguir um carro, que ele conhecia minuciosamente, tudo programadamente. E espera o momento de sua grandeza. Sua constância era a do que estava no limite de suas forças: “Não que não pudesse fazer, mas faria no comum, comportado, quadradinho”; a sua vontade era acomodada: “Sabia esperar” ( CF 24). Mas a espera deu-lhe a morte na direção de um Volks 63, muito ferido, amassado por um caminhão de seiscentas toneladas. O redator da mesa de trás, fordianamente, passa para a sua mesa, antes escrevendo notícia bonita com foto três por quatro para o jornal. A empresa deu-lhe missa na igreja escura e fria, com muita solenidade, ouvindo a família os pêsames em inglês, conforto enxugado em casa.

Usando de um procedimento narrativo de chamar o leitor para um passeio, o narrador de “Alegremente, no inverno” observa a cidade, comentando a sua outra face, quando tolhida e moldada pelo frio. As cores são diferentes: cinza, castanho, branco e vermelho, “pintura derramada e trêmula” onde predomina a alegria resultante da água que lava tudo. Segundo o narrador, as pessoas melhoram, tornam-se generosas, cuidando umas das outras – manifestam-se todos buscando minimizar o sofrimento alheio. O risível é que tudo aumenta – o sorriso, a solidariedade, a esmola, até mesmo o profissionalismo dos pedintes: “todos reconhecem mais o trabalho dos pedintes, cujas vozes tiritam mais profissionais, cujas crianças verdadeiras ou de empréstimos se fazem mais roxinhas” ( CF 27).

O narrador aponta que não se deve perder “tempo com os encapotados, pois julho não foi feito para eles, são apenas burgueses” ( CF 27); o que importa para ele são os caixeiros, as prostitutas, os mendigos, aqueles que não se quer olhar, enquanto fauna que freqüenta o inverno. Ou seja, o narrador violentamente aponta ao leitor que há um viço no inverno – aqueles que detêm o riso, a camaradagem, a desenvoltura. No caso, ele nos faz acompanhar três mendigos: Xingu, Espoleta e Alcobaça, chegando ao bar, repletos de energia, buscando o álcool que lhes permite andar de camisa aberta ao peito. A falha nossa é compreender pouco o que sucede com o semelhante, restando sempre o desamparo. O episódio que fecha o conto – a morte de Xingu – mostra-se singular, afinal a noite era tão boa e o pobre morrer assim. Os dois outros vão-se embora, abraçados, rindo e cantando porque estão vivos. Os outros, os encapotados, de nada sabem.

A vida à noite parece ser de grande preocupação para Ramos – em “Asa Branca”, retoma o contista o tema do silêncio e da solidão. A personagem central é Severino, motorista de táxi, que ouve o rádio e racionaliza o seu mundo. A voz do locutor é sua companheira na espera modorrenta, vez que a cidade silencia-se, dormitando, em momento de névoa garoada.

Severino, ao vislumbrar um vigia, sente-se “apartado, sozinho”, a música lhe faz perceber o passado: “ecos de feira, de cantado, o xenhenhe”; a canção faz-lhe recordar a ave de arribação, o sentimento do retiro, a tristeza do ter de partir. O gosto da canção é familiar, como se houvesse a personagem retornado e revivido: “a canção Gonzaga, o som Caetano, ela se retira secamente e no entanto volta, sem melodia, apenas modular, como rajadas, levas que vêm, pés pisando, repinicando, batendo pelo chão, se quebrando, insistindo, nhá, e falhando, e crescendo, e sumindo . . . a dormência arrancada e da garganta que é feita um homem chorando e acabando, nhá” ( CF 42). Severino recupera pela memória o seu ser, mas está na cidade, só, solitário, estrangeiro: “ali, como um perdido, esquecido até das ruas, parado sem ter para onde ir”. O final do conto é melancolicamente o anúncio da descoberta do ser estrangeiro na cidade: “e foi tocando o seu carro pelo asfalto, nhá, furando a neblina, branca asa cortando, branca, sobre a noite grande de inverno” ( CF 43).

O conto “Modelo 19” está fundado em antiga legislação sobre os estrangeiros – o artigo 135 do Decreto 3.010 de 20 de agosto de 1938, que instituiu a carteira de identidade para estrangeiros, conhecida desde então como “modelo 19”. O narrador autodiegético apresenta sua história de estrangeiro em São Paulo – é nortista, gaúcho, mineiro, mas que se declara paulista para o que der e vier. Irineu de Paula e Silva tem um lado baiano (Irineu, aparentemente de Conceição do Coité,), um outro gaúcho (de Paula, da região de Caxias), e outro mineiro, calado e vinculado ao PSD, oriundo da zona da Mata. Cada um deles chega a São Paulo por um caminho – cais de Santos, Rodoviária, Estação Roosevelt. Sua multitude é unificada, buscando uma identidade: “eu sei o que sou, nem tanto o que fui, apesar de não ter esquecido” ( CF 64). A cidade se torna o catalisador desta fusão: um cinturão “fumacento, rosal e arlequinal”; são dezoito linhas com apenas um ponto final, amálgama da cidade, incluindo traços humanos e reificados, mostrando a confluência de múltiplas atitudes. A personagem ao entrar em contato com esta azáfama conclui: “a idéia que nos ficou daqueles dias, vividos em trânsito, é a de uma acelerada mistura. Olhada com algum prazer, com algum espanto” ( CF 64). O tempo se torna difuso, marcado em cada um por uma atitude, percebido pelas estações, adotando e sendo adotado. A cidade torna-se o grande espelho construtor da identidade: “Com a idade, azedei um pouco, mais amargo. É possível que veja muito na cidade o seu perfil duro e seco, e frio. Mas posso falar, eu que sou daqui. E vejo também de onde ela veio, aonde está se alastrando, nesta encruzilhada. Tão no meu fim de mundo. A verdade é que um dia, foi de noite, reparei que estava voltando para casa” ( CF 64).

Os contos aqui tratados têm um viés comum, a cidade. Entretanto, ela não é vista ou percebida como instante agradável de construção de futuro. Ramos procurou evidenciar a figura do imigrante, geralmente nordestino, mas sempre pouco citadino, com imensas memórias, calejado pela necessidade de se adaptar. Solitário, ele não compreende o seu sentido na cidade, tentando sempre corporificar o seu passado como forma de achar-se na multitude das coisas urbanas. Esta busca deixa-o angustiado, perdido, fantasioso, mas talvez esta seja a única forma de conviver com o logos , isto é, com a necessária ordenação das coisas. Este homem urbano perde o sentido da vida na realidade, mas encontro o prazer do sonho, talvez seu único circuito fechado que valha alguma coisa.

 

Ramos, Ricardo. Circuito Fechado . 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1978. A documentação das citações far-se-á pela sigla CF .