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A flor do sonho. Transportes
Stélio Furlan (UFSC)

Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver.

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

 

E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

 

A lírica amorosa de Florbela Espanca aflui num rio que desliza em leito próprio na história da literatura portuguesa, rasurando a marca de fronteiras literárias precisas.

Uma vez depositária de traços oriundos de várias escrituras, tal produção indicia um cunho intertextual e dispensa margens. Esse esforço de engendração poética, que assume rigorosa contensão lírica e privilegia a concentração semântica à procura dos efeitos sugestivos e simbólicos das palavras, oscila entre a temática da Dor existencial e o frêmito de uma "mocidade toda em flor" .

Encontramos motivação teórica em investigar a textualidade de Florbela Espanca sob tal prisma, pela constatação de que seus poemas suscitam problemas de indefinição terminológica. Ora exibem "laivos anterianos e de António Nobre", ora são escritos por uma "parnasiana, de intenso acento erótico feminino, sem precedentes na Literatura Portuguesa", ou ainda articulam-se "com a mentalidade elegíaca e de aspirações indecisas característica do simbolismo". Tal concerto de vozes dissonantes justifica a resistência da textualidade florbeliana aos estereótipos conceituais. E corrobora sua independência literária ante os movimentos poéticos, como quer E.M. de Melo e Castro .

Florbela resiste às classificações. Daí que, em meio ao vasto rumor discursivo, oriundo das lutas de definição a propósito da autora Florbela Espanca, resta-nos pensá-la pelo prisma da atopia. Florbela seria atópica no sentido de que torna problemático todo atributo, toda leitura que se pretenda definitiva; por conseguinte, abala a noção de um locus determinado a favor de um (entre)lugar, se se quiser, um modus, o que a suspende acima do tipicizável.

Contudo, embora a atopia nutra a idéia de enigma, entenda-se, o que nunca se apresenta ou se revela em sua plenitude , força é dizer que deixa traços que podem de algum modo apontar os percursos e os diálogos em questão. Ainda que não discordemos da chamada independência estética de Florbela, dentre as múltiplas possibilidades de leitura encontramos traços que solicitam uma aproximação com o gosto simbolista nas referidas publicações. Como o âmbar ─ resina cristalizada que retém fragmentos do vivido ─ há toda uma vivência poética condensada no corpo do soneto.

Em busca de elementos para a definição de sua linguagem e para a expressão de seu pensamento Florbela impregnou-se daquele ar do tempo que atravessou os Eugênio de Castro, os António Nobre, os Camilo Pessanha e, no Brasil, os Cruz e Sousa. Há, decerto, o desconcerto do mundo e uma visão a um só tempo mística e melancólica da existência. Valorizam-se as cores crepusculares e todas as correspondências a ela associadas. Há a desilusão decepcionada do real e, por extensão, o culto do Vago e o ensimesmamento poético associados a uma "sede de Infinito". Demais, a prática lírica de Florbela mobiliza constantemente o gosto pelas paisagens outoniças, recorre à musicalidade pela mediação dos processos intensificadores (anafóricos, aliterantes, assonantes, reiterativos), potencia o senso do Mistério, e se faz valer, com freqüência, do emprego de maiúsculas, como se quisesse auferir uma aura de entidade às palavras e às coisas.

Enfim, Florbela explora os efeitos sinestésicos, marcando as correspondências das imagens acústicas, gustativas, olfativas, tácteis e visuais, cujas analogias são estabelecidas numa tentativa de união do todo e da parte. As coisas materiais se ligam às ideais e tudo se consubstancia numa misteriosa unidade. Leia-se o soneto intitulado "Outonal", que integra Charneca em Flor, de 1931:

Caem as folhas mortas sobre o lago;

Na penumbra outonal, não sei quem tece

As rendas do silêncio. Olha, anoitece!

Brumas longínquas do País do Vago.

Veludos a ondear. Mistério mago.

Encantamento. A hora que não esquece,

A luz que a pouco e pouco desfalece,

Que lança em mim a bênção dum afago.

Outono dos crepúsculos doirados,

De púrpuras, damascos e brocados!

Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,

Das magníficas noites voluptuosas

Em que eu soluço a delirar de amor.

Seja pelo difuso das paisagens crepusculares envoltas na "penumbra outonal", seja pela reiteração das harmonias que se prolongam em ressonância para além da leitura dos versos (não sei quem tece/ As rendas do silêncio.Olha, anoitece!), tal soneto atesta menos a ruptura do convencional do que a incessante revivescência de processos e ambiências comuns à estética simbolista. O material sonoro do poema assume um poder sugestivo: notar a misteriosa presença, causa da tessitura das rendas do silêncio. Tudo passa pela evocação de um estado de espírito impreciso, que descura de uma tradução súbita. Dita alquimia verbal, ao contentar-se em sugerir, abre múltiplas possibilidades de sonho. Por sonho entenda-se uma capacidade produtiva, melhor, um mecanismo de captação do real.

Em "Outonal", tudo é sugestão: ante o real, o símbolo, ante o evidente, o sugerido. O uso contínuo das reticências mais não faz que intensificar a predileção por uma paisagem sem contornos definidos. Aqui, a voz lírica se revela integrada ao anima mundi, ciente de que a natureza a observa com olhos familiares: o encantamento do momento a afaga com uma luminosidade esmaecente. Notar a relação que se estabelece entre a luz do crepúsculo doirado, a cor púrpura, o amarelo-avermelhado do damasco e a ardente volúpia do ser apaixonado. Tudo se corresponde. Vale lembrar, ainda no que diz respeito ao estabelecimento de analogias entre o campo sensorial e o cósmico, recorrente no código estético simbolista, um terceto do soneto intitulado "Sou Eu!" (Charneca em Flor):

Ecos longínquos de ondas... de universos...

Ecos de um mundo... de um distante Além,

De onde eu trouxe a magia dos meus versos!

Em sua sede de Infinito, mais que pautar o terrestre pelo cósmico, o sujeito poético não afirmaria a capacidade da palavra poética de tradução das analogias ocultas entre o cosmo e a psiqué? Noutras palavras, é como se manejar com engenho uma língua, como escreve Mallarmé, significasse exercer uma espécie de magia evocadora . Se o universo é intuído como vasta linguagem de ritmos e correspondências, resta à poetisa captar e traduzir esse mundo mágico pela palavra evocadora. No caso, Florbela apresenta ao leitor fragmentos da realidade, que, intuitivamente relacionados, permitem-lhe acessar estados de espírito e sensações vagas. Aí a onda palpita... e o referente se rarefaz!

Como dissemos, se a poesia de Florbela se plasma pela tessitura do diverso, não é menos certo dizer que predomina em sua opção estética um prolongamento do credo simbolista. Essa aura estética se exibe, à maneira de profissão de fé, no soneto intitulado "Ser Poeta" (Charneca em flor):

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim.

E dizê-lo cantando a toda gente!

Longe da flutuação rítmica, do versilibrismo, das palavras em liberdade, enfim, da liberdade de pesquisa estética típica da poesia modernista, Florbela cultua o limae labor et mora de extração clássica. Cabe ressaltar também que, em "Ser Poeta", à atividade poética se associa a capacidade de captação e decifração do sentido simbólico do mundo. Assim, ao trabalho poético se incorpora o atributo da vidência. Dita fome e sede de Infinito, que valoriza e nutre o sentido conotativo da expressão poética, sugere uma concepção de Arte como atividade demiúrgica, na qual a poetisa surge como a Iniciada, a Eleita. Leia-se o soneto "Vaidade" (Livro de Mágoas), no qual o sujeito poético afirma "Sonho que sou a poetisa eleita", "Aquela [...] que reúne num verso a imensidade", e por aí afora.

Em Florbela, a atividade poética pode sugerir tanto um refugiar-se na "Turris Ebúrnea", eufemismo para egotismo aristocrático, quanto um elevar-se em busca da distância e do ângulo mais apropriado para vivenciar mais intensamente o (des)concerto do mundo.

Daí a compreensão do Poeta como um ser maior do que os homens, condor em pleno vôo, albatroz sublime nas alturas.

Ora, afirmar a possibilidade de que o trabalho poético possa "condensar o mundo inteiro num só grito" não implicaria a exaltação da atividade poética enquanto tradução do "eu-profundo" do universo? Interessante notar que, em alemão, poetar (dichten) significa justamente "condensar". E é por meio dessa condensação que a poetisa ativa uma maneira de sonhar para sentir, para compreender-se. Isto nos remete aos desassossegos de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, que discute justamente esta perspectiva de leitura. A arte, conforme Bernardo Soares, "é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles". E, mais adiante:

assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e subtis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos [...] da ficção para nos entendermos uns aos outros.

Logo, a poesia surge como atividade privilegiada de comunicação e de promoção da interação entre o ser e outros seres e o mundo. Nesse sentido, mais do que uma poesia do feminino-singular marcada pelo auto-enternecimento, Florbela apresenta um esforço de engendração poética com uma disposição anímica aberta, uma vez que projeta o corpo do poema para além da mera condição da expressão de uma subjetividade privada. Nas palavras de Maria Lúcia Dal Farra, o poema se torna uma operação sensitiva que assimila a dor enquanto matéria capaz de criar, apurar e transfigurar o mundo . Em resumo, se dizer-se é sobreviver, escrever é gestar(-se).

Se, conforme escreve Eduardo Lourenço, dos "seus começos no século XII até Pessoa a poesia portuguesa é uma 'canção de amor' ininterrupta" , é possível afirmar que Florbela recolhe os fios da tradição e com eles borda tecidos outros. Nesse sentido, afora desfiar o plural de que é feita a complexa textualidade de Florbela, cumpre assinalar que não nos interessa uma leitura que satisfaça o mito da filiação, antes preferimos investigar o que se suplementa na prática literária da poetisa - entenda-se, o que se acrescenta para substituir e suprir uma ausência, o "que vem a mais" . Posição esta que se vacina contra qualquer pretensão de uma leitura capaz de esgotar os textos analisados. Não esgotar nem duplicar, antes redobrar, melhor, apostar numa leitura que investiga como a referida prática textual rearticula ou dá novos sentidos às diferentes maneiras de se entender o universo poético.

Florbela desnaturaliza o discurso sobre a "natureza feminina", com seus estereótipos, tal como a da mulher reduzida à condição de eterna musa, passiva, mera inspiradora ou causa da coita masculina. Aqui, a mulher é elevada menos à categoria de musa, ou de mera criatura, mas de criadora. Com efeito, o lirismo florbeliano é marcado pela força dum temperamento e duma alma excepcionais e exprime-se em versos que, por vezes, são relâmpagos de gênio, e abrem clareiras raro abertas sobre os eternos sonhos e decepções humanos, como escreve José Régio .

Florbela faz a charneca florir, noutras palavras, transforma a adversidade em força produtiva. Não se pode deixar de citar aqui o texto "Florbela: um caso feminino e poético", de Maria Lúcia Dal Farra, no qual se defende a capacidade da poetisa de redimensionar a Dor em dom literário:

Florbela Espanca se apropria da histórica e tradicional condição feminina, com seu tanto de fiat Maria, de percalços de abnegação e conformismo, para problematizá-la, para retirar dela um corolário que a torne ativa - para redimensioná-la em dom literário .

Como desdobramento lógico desse ponto de vista, Dal Farra completa:

Florbela transforma expressivamente a histórica "inatividade" social da mulher, decorrente da tutoria que o mundo masculino exerce sobre ela, em força produtiva .

Essa tomada de posição corrobora, por inferência relacional, a pertinência das estratégias discursivas voltadas para afirmação de um "sujeito feminino". Ou melhor, com Simone Pereira Schmidt, para a constatação e afirmação da "emergência do sujeito feminino na produção ficcional" . O que nos leva a indagar em que medida a produção textual de Florbela contribui para dita emergência.

A nosso ver, sob a perspectiva estética, não há ritmo novo, nem motivos novos na sua poética. Nem se pode negar o laivo parnasiano esteticizante ou a recorrência a processos e ambiências simbolistas. Contudo, embora haja a possibilidade de entrelaçar os textos de Florbela ao legado da história literária portuguesa, melhor, de assinalar a continuidade da tradição quanto à aceitação dos moldes poéticos e lugares-comuns da poesia, cumpre assinalar aqui o seu gesto diferencial de leitura.

Pode-se afirmar que é na produção de uma escritura no feminino-singular que Florbela imprime um gesto diferencial. Tal assertiva encontra eco nas palavras de António José Saraiva e Óscar Lopes, em História da Literatura Portuguesa, para os quais a poesia de Florbela inova pela intensidade de um erotismo feminino, sem precedentes entre nós, com tonalidades ora egotistas ora de uma sublimada abnegação [...] ora de uma expansão de amor intenso e instável.

Numa tentativa de leitura a contrapelo das usuais interpretações sobre a poética de Florbela, entendemos que nem toda manifestação lírica se mostra atravessada pelo desencanto do mundo. Não há só tematização dos sentimentos levados ao auge do martírio. Há também, por certo, um sujeito lírico em êxtase com sua condição. O primeiro quarteto de "Mocidade" calha à perfeição:

A mocidade esplêndida, vibrante,

Ardente, extraordinária, audaciosa,

Que vê num cardo a folha duma rosa,

Na gota de água o brilho dum diamante;

e o mesmo se pode dizer daquela passagem do soneto em que o eu poético nos fala do seu "corpo vibrante de mulher" (Supremo enleio). Mulher-êxtase, da "serenidade idílica das fontes" (Noitinha), cujo

corpo de âmbar, harmonioso e moço,

é como um jasmineiro em alvoroço

ébrio de sol, de aroma, de prazer!"

(Toledo)

Em suma, a poética de Florbela tanto pode revelar uma certa dolência existencial, as contradições da sensibilidade feminina, quanto exprimir um encantamento (diante das palavras e do mundo) intensamente vivenciado por meio dos transportes, dos entrelaçamentos, da fusão de múltiplos atos perceptivos.

Com freqüência, na textualidade de Florbela Espanca, "dicionário de vicissitudes da mulher", desnuda-se uma anima que se defronta com o seu eu-soturno, tencionada entre o desejo carnal e a ânsia de infinito. Afora buscar a definição do que move a prática poética (Ser poeta...), ela torna o ato de escrever um ato de engendrar-se, de delinear o que se pode chamar a sua corporatura existencial.

Mas incorreto seria afirmar que apenas se encontram labirintos de saudade, a constante busca redundada em ausências ou os desconcertos do mundo na textualidade florbeliana. Há também o "frêmito vibrante" de uma "mocidade toda em flor". Há também um desejo de encontrar a felicidade por meio do Amor, o que traduz uma vontade de potência e esperança na vida. Um desejo de plenitude capaz de impulsionar o ser amoroso a transformar-se na pessoa desejada, o que nos coloca ante uma visão do Amor como elemento de transformação do ser humano. É o que lemos no último terceto de "Ser poeta", que fecha o soneto com chave de ouro:

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim.

E dizê-lo cantando a toda gente!

Mais que mero diletantismo literário ou passatempo egotista, à poesia cabe traduzir o sentido das correspondências e viabilizar a integração do ser e anima mundi. Em "Ser poeta", Florbela sugere nutrir o anseio de reconciliar poesia e existência. Não mais a torre de névoa nem o tédio nefelibata: poesia é comunicação. Deste modo, as convenções poéticas não se tornam restrições, mas condições que dizem o mundo e, dizendo-o, atribuem-lhe sentido. O músculo do punho se retesa ao descrever sua sede de Infinito. E a Poesia não se dilui totalmente numa vacuidade pessimista, antes capta o sentimento do mundo e proclama sua plena interação com a Vida.