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Naturalismo e Realismo segundo Eça de Queirós
Rosane G. A. Feitosa (UNESP)
A literatura incorpora habitualmente muitos escritos cuja finalidade primeira não é exatamente literária, mas que pelas características textuais de sua composição ou segundo os cânones de apreciação estética de cada época, são considerados mais ou menos próximos da elaboração especificamente literária.
Os textos com estas características são os escritos de variada doutrinação, podendo o ensaio e a crítica confundir-se com eles. Podemos denominá-los doutrinários, na conceituação do Prof. Carlos Reis 1 pois contemplam:
“[...] testemunhos de escritores que, quase sempre imersos no fluxo da produção literária a que se referem, procuram estabelecer e propor orientações para essa produção literária e mesmo, nalguns casos, para a do futuro. (p.489); [...] revestem-se de um pendor programático, no sentido de que, freqüentemente, sugerem, de forma expressa ou velada uma acção a cumprir, não raro por um grupo ou por uma geração[...].; apresentam “registro ensaístico ou similar” (p.489); “não se propõem a enunciar o discurso da teoria” (p.490) e “[...] apresentam uma certa experiência literária e cultural mais ou menos sedimentada, provinda da actividade criativa propriamente dita.” (p.490).
É , portanto, evidente o caráter metaliterário desses textos doutrinários, na medida em que estes intervém no processo da evolução literária por meio de reflexões acerca da literatura.. (Cf. p.490)
Esta espécie de textos vai proliferar durante o Romantismo não apenas com Almeida Garrett e Alexandre Herculano, mas, em especial, com a chamada “Geração de 70”, constituída por um grupo de intelectuais portugueses _ Eça de Queirós, Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins _ que, na sua maioria, aliam a produção literária com textos de aspecto doutrinário, quando não se notabilizam, justamente, neste gênero de reflexão.
Na fortuna crítica de Eça de Queirós, encontram-se estudos acerca das idéias literárias queirosianas, embora , até hoje, estas tenham sido colocadas em plano secundários às idéias de cunho político, sociológico ou filosófico.
Nosso objetivo neste artigo é comentar, de modo panorâmico, os textos queirosianos que consideramos doutrinários _ cartas, prefácios, artigos de jornal _ que foram objeto da atenção de Eça pelo esclarecimento que estes podem trazer para seus textos de ficção, pela elucidação de questões de época referentes às tendências literárias em voga no último quartel do século XIX em Portugal. Em suma, projetar luz ao seu pensamento doutrinário, principalmente naquilo que diz respeito ao seu compromisso com a estética realista –naturalista e possibilitar uma interpretação mais lúcida e adequada de sua obra ficcional.
Eça de Queirós utiliza várias vezes do expediente de carta para explicar e informar seu leitor acerca do seu método de composição literária e de suas intenções. Em “Uma carta (a Carlos Mayer)”, publicada no jornal português A Gazeta de Portugal em 03-11-1867 e depois recolhido com o título Prosas Bárbaras , texto-carta em que Eça rememora os tempos de estudante de Direito na Universidade de Coimbra, de 1862-66, encontramos uma espécie de “plataforma literária” dessa fase de iniciação 2. “Naqueles tempos [...] o romantismo estava em nossas almas. Fazíamos devotadamente oração diante do busto de Shakespeare.” 3 Nada pode ser mais romântico do que esse comportamento! Quem eram eles? “Havia entre nós todas as teorias e todas as seitas: havia republicanos bárbaros, e republicanos poéticos; havia místicos que praticavam as éclogas de Virgílio; havia materialistas sentimentais e melancólicos [...], havia pagãos. 4(p. 87-88). Eça de Queirós, nesse tempo, pretendia o romantismo livre das tendências neoclássicas e ainda não contaminado das teses positivistas e cientificistas que começavam a ser difundidas depois da Questão Coimbrã (1865-66).
Ainda utilizando-se do expediente carta, em uma enviada a Teófilo Braga em 12 de março de 1878, expõe seu novo ponto de vista ideológico_ a concepção realista de arte, adotado em O Primo Basílio . “Eu não ataco a família_ ataco a família lisboeta_ a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro de bambochata” (Berrini, p.917) 5. Eça começava a estruturar o ideário realista, e o coloca em prática nesta romance. O seu alvo é a burguesinha da Baixa, “sentimental , mal educada [...] arrasada de romance , lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular [...]. O ataque à burguesinha torna-se ataque a todo a todo o pano de fundo social_ o meio _ do qual falavam Taine e Zola. É muito instrutiva a comparação com a teoria e a prática naturalista. Pode mostrar-nos que, contrariamente às expectativas, o realismo se desejava e, de certo modo alcançou ser, mais radical do que o naturalismo. Faz crítica a seu processo de composição, reconhecendo um superabundância de detalhes. “ O essencial é dar a nota justa [...]. Pobre de mim_ nunca poderei dar a sublime nota da realidade transitória, como o divino Balzac _ ou a nota justa da realidade transitória, como o grande Flaubert! (p. 918 ). Ao eleger Balzac e Flaubert os seus mestres, propunha o Realismo propriamente dito e recusava o Naturalismo, mesmo porque ainda este estava longe de se instalar com toda a iconoclastia em Portugal.
Os preceitos realistas se reafirmam em outra carta enviada a Rodrigues de Freitas, em 30 de abril de 1878.
“Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo_ que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século, e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado ; queremos fazer a fotografia , ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. [...] Uma arte que tem esse fim _ não é uma arte à Feuillet ou à Sandeau. É um auxiliar poderoso da ciência revolucionária. (p. 920-21)
Se em 1871, na sua 4ª Conferência, no Cassino, Eça parece ter proposto o realismo como forma de abolir a retórica da comoção, em 1879, em texto aproveitado parcialmente para prefácio da 2ªedição de O crime do Padre Amaro, ficou inédito e mais tarde integrado ao volume póstumo de Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esq uecidas sob o título “Crítica e Polêmica” e sub-título “Idealismo e Realismo”. Eça chega a dizer que não sabe o que é o realismo e a idéia nova, elevadas em Portugal a uma espécie institucional da qual ele seria um dos chefes. Mas essas designações, para ele, eram não mais do que “alcunha familiar pela qual o Brasil e Portugal conhecem uma certa fase na evolução da arte”. Ao deixar este texto inédito, sua funcionalidade falhou, lembra Carlos Reis 6), no que concerne à sua configuração programática, doutrinária, pois “cancelou a premência afirmativa que lhe era inerente”.
Em um determinado trecho, Eça toma como sinônimo os termos Realismo e Naturalismo e diz que “[...] na realidade o Naturalismo nem foi inventado pelo Sr Zola , nem consiste em descrever obscenidades, nem tem retórica própria, nem sobretudo é uma escola”
Agora, temos a escola realista!
Não _ perdoem-me _ não _ há escolas realistas. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõe uma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento de sua evolução. [...] Dizer “escola realista” é tão grotesco como dizer “escola republicana”. O naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república á a forma que toma a democracia [...]. Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade.”( p. 913-4) 7
O texto, que fala por si, dispensa outros comentários e mostra Eça convicto do Naturalismo ( e não do Realismo) pois, ao fazer uma oposição afirma que o idealista [dá] uma falsificação, ao passo que o naturalista, dá uma verificação. “Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica.”
É de 1893 o texto “Positivismo e Idealismo”, postumamente recolhido em volume sob o título Notas Contemporâneas. Eça faz o balanço da literatura realista agonizante, e aponta o surgimento da corrente antagônica com os olhos voltados para a França, tentando mostrar o máximo de neutralidade possível:
“Em literatura estamos assistindo ao descrédito do naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor , vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios , como nos robustos tempos de d´Artagnan.” .
A tendência da geração de 1893 é espiritualista, simbolista, místico-socialista, neo-cristã. À medida que Eça se afasta do realismo mais programático, de escola, vai descobrindo o seu realismo. .Nesses textos doutrinários, de índole metaliterária, por meio de reflexões do fenômeno literário, Eça busca a capacidade de provocar o “efeito do real”, no conceito de R Barthes. Nesses textos as reflexões caminham para uma intensificação do realismo queirosiano, como a arte “de ver/descobrir/mostrar o ser humano”, na medida em que Eça tenta mostrar os valores, os sentimentos, as idéias e ações do homem, por meio de procedimentos particulares de produzir o real _ a arte de fazer ver pela linguagem .
O conhecimento artístico : uma introdução à teoria literária. Coimbra: Almedina, 1999.p.489; 490;
Massaud Moisés. Ideário estético de E. Q. . In: ______. Suplemento ao dicionário de Eça de Queirós . Coimbra:Caminho, 2000. p. 323-332.
Beatriz Berrini , Obra completa , Rio de Janeiro, Aguilar,v.4, p. 84.
Berrini, Beatriz. (org. geral,introd., fixação dos textos autógrafos, e notas introd.). Eça de Queiroz. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.