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A linguagem poética em Antonio Nobre e Cesário Verde
Osanira Vidal Pereira Valadares (UFT)
Kyldes Batista Vicente (CEULP/ULBRA)

No seu fazer poético e, independente de tempo, lugar ou periodização literária, os escritores podem ter características que ora assemelham-se e ora distanciam-se pelo estilo de cada um representar uma maneira peculiar de ver e sentir o mundo. Diante disso, podemos nos perguntar: o que Cesário Verde e Antonio Nobre têm em comum ou em oposição em relação à construção da poesia?

Pertencendo cronologicamente ao Realismo, Cesário Verde procurou dar um tom natural à sua escritura, valorizando a linguagem do concreto e do coloquial, imprimindo em seus poemas um desejo de autenticidade e um amor pelo real, fazendo com que sua poesia, por vezes, enfrentasse a acusação de prosaísmo.

Tendo levado uma vida simples, o poeta viu, ouviu e sentiu bem de perto o dia-a-dia da capital Lisboa, o que acaba refletindo na sua obra, a chamada poesia do cotidiano. Com uma visão plástica do mundo e em perambulações pela cidade ou pelo campo, seus cenários recorrentes, ele transmite o que é oferecido aos sentidos, em cores, em formas e sons, de acordo com sua linguagem peculiar.

Na sua poética, Cesário Verde transforma o que é menor e simples, comum e despercebido em algo grande, complexo, especial e digno de ser notado, objeto de reflexão e fonte de inspiração. Além disso, também se preocupa com as questões vinculadas à realidade de seu tempo, de seu país, denunciando as mazelas de uns em contraste com o luxo excessivo de outros.

A leitura de seus poemas nos apresenta imagens, que produzem sensações semelhantes à contemplação de uma pintura. Sua linguagem se refere a sons, a cores, a imagens, a formas e movimentos e notamos que essa linguagem quer representar a realidade objetiva das coisas que o preocupam e que o rodeiam. Essa realidade objetiva descrita, no entanto, é sempre revestida de formas poéticas, apresentando, também, contrastes em muitos de seus poemas, tais como: o belo e o feio; a miséria e o luxo; a claridade e a escuridão e esses opostos realizam-se numa linguagem subjetiva relatando impressões íntimas de realidades observadas. Um exemplo desse apego ao cotidiano e interesse pelo que o rodeia, além de um exemplo de maturidade poética, está no poema Num bairro moderno .

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estacam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
um ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.(...)

 

Neste poema podemos destacar que coexistem ambientes diferentes, assim também como pessoas em situações de desigualdade social, pincelando aos nossos olhos um quadro real. Podemos destacar que sua poesia está voltada para a vida social do homem/mulher português(a), da cidade e do campo, uma vez que o eu-lírico move-se devagar pelas ruas da cidade e vai apreendendo através de recortes e imagens fragmentos que seu olhar recolhe à medida que caminha.

Os fragmentos recolhidos por esse olhar atento que vagueia sem muita pressa, nos contam detalhes de um cotidiano citadino, isso se dá porque o sujeito lírico, além de observar e narrar as ocorrências ao seu redor opera também transformação, modificando simples vegetais em uma figura humana, com isso, poetizando o real prosaico. Esse processo de transformação acontece através do sol “intenso colorista”, que ilumina os objetos de percepção do poeta, dando-lhes outro sentido, pois o efeito de luz deforma aquilo que ilumina. No poema misturam-se sensações: odores, movimentos e sons, assim, é como se o poeta pintasse um quadro, recompondo os fragmentos, modelando imagens novas que trazem formas sempre diferentes e incomuns que nos surpreendem.

O mesmo pode ser notado na figura da verdureira que predomina no poema, ela também sofre mudanças quanto aos diferentes efeitos evocados, pois que, ao mesmo tempo em que é delicada e frágil, feia, prazenteira, forte, pitoresca e audaz, magra e enfezadiça, apresenta-se como uma personagem ambígua, exposta através de elementos contrários entre si. “Num bairro moderno” a cidade revela marcas de modernidade, como a “rua larga e macadamizada”, no entanto, as imagens da cidade dão espaço à evocação de imagens que remetem ao campo.

Dessa forma, podemos nos perguntar: para qual modernidade Cesário Verde aponta? Ele a anuncia no título do poema, no entanto, a não ser pelas referencias apontadas e mais algumas que assinalam para o progresso como: “o luxo das porcelanas”, nada mais parece direcionar nesse sentido, pois a maioria das imagens evocadas representa a paisagem do campo, como: “legumes, verduras, canários que cantam”.

A subjetividade de Cesário compõe figuras distorcidas, exóticas e deformadas, surpreendendo, como aludido antes, pelo efeito produzido, sendo que a própria imagem da vendedora de verduras, que perpassa todo o poema, afasta-nos da cidade urbanizada, voltada para o progresso, deixando clara a intenção do autor que, através da ambigüidade do título, parece apontar para uma modernidade de outra ordem, ou seja, a modernidade da construção poética. Podemos dizer, então, que a modernidade assinalada no título, expressa menos os aspectos palpáveis das mudanças sofridas pela cidade e salienta mais a natureza de uma poética que surge a partir dessa nova forma de perceber o mundo.

Os poetas simbolistas acreditavam que a realidade era complexa demais para ser apreendida e descrita de maneira objetiva e racional, como pretendiam os realistas. Assim, eles voltaram-se para o universo interior e os aspectos não-racionais e não-lógicos da vida, como: o sonho, o misticismo, o transcendental. Eles propunham o exercício da subjetividade, retomando de modo diferente o individualismo romântico e a fim de comunicar pela palavra o que se diz, só lhes restava o caminho da sugestão.

Entre as inovações do Simbolismo estão ainda a prática do verso livre, em oposição ao rigor do verso parnasiano e o uso de uma linguagem ornada, colorida e exótica, em que as palavras são escolhidas pela sonoridade, ritmo, sugerindo antes que descrevendo ou explicando. É o que acontece com o poeta Antonio Nobre, que marca seu discurso com um misto de pessimismo e melancolia, numa atitude contemplativa em alguns momentos e em outros escreve versos criticando as desigualdades de classes, colocando em foco uma preocupação com os humildes que vivem na pobreza.

Embora essa preocupação com a realidade de seu tempo seja bastante tênue, ainda assim, serve para desfazer a idéia que dele se tem, que é a de um poeta romântico, narcisista ou até mesmo piegas. Sua escritura, como a de Cesário Verde, emprega uma linguagem coloquial, apontando para temas diários, mas que remetem sempre a um cotidiano distante, localizado na infância e adolescência e evocados pelo elemento memória. Esta parece ser a peculiaridade de seu discurso poético, atento a tudo que o rodeia mas não aos acontecimentos do presente e sim do seu passado feliz.

Diante dessa ligação extrema com o passado, sua poesia não serve como denúncia social de seu tempo mas como ponto de reflexão e retrato da situação de desigualdade em que seu país vivia, essa fixação pelo passado atesta que o poeta é de fato um ser dedicado ao culto extremo da saudade. A saudade representa a figura do pai, dos avós, os lugares, as pessoas da margem da estrada, os campos, o gosto e o barulho das águas, tudo é motivo de nostalgia.

O passado é o paraíso mítico da infância, e as recordações são registradas através de técnicas simbolistas, tais como: as sinestesias e as atmosferas vagas ou nebulosas, etc. Sua linguagem seleciona palavras mais simples indicando-nos mais uma vez uma singela aproximação com o povo, além disso, o pessimismo que seus versos reflete não é propriamente individual, a situação de miséria que apresenta tem um sentido nacional: é a de todo o país. Relembrando o passado perdido, por meio da linguagem coloquial, utiliza com maestria os recursos de seu discurso ao mesmo tempo cuidado e espontâneo. Entremeia seus versos de exclamações, em que extravasa sua emoção e que procura adequar a sua inclinação para o diálogo, para a representação.

Para salientar esse aspecto memorialista da poesia de Antonio Nobre, destacamos fragmentos do poema “Viagens na minha terra” .

Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Ao velho Douro, mais meu pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir.
- Adeus! Adeus! É curta a ausência,
Adeus! – rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noute, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! Que bom!

E enquanto a velha mala- posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando ao nosso lado,
Diziam: “Deus seja louvado!”
“Louvado seja!” dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás-os-montes
Que faz sede só de se ouvir! (...)

 

Esse poema nos mostra um eu-poético preso a momentos passados, imprimindo a cada palavra um tom que denuncia saudade da infância, da família, da terra natal. Nessas imagens narradas percebemos que o poeta está atento para as diferenças de classes, pois há um retrato das pessoas do povo que estão à margem, da estrada e da vida social, aquelas que abaixam as cabeças, que retiram os chapéus à passagem dos senhores de posição social e financeira superior. Esse retrato denuncia as diferenças sociais e apresentam o eu-poético sensível com a humildade dos aldeões, embora essa preocupação sirva apenas para esboçar um contorno de um tempo ausente. As pessoas do povo são registradas também porque fazem parte do percurso por onde passa a “diligência”, pois o menino do poema apesar de perceber as diferenças estava mais atento em observar as novidades, os acontecimentos típicos que uma viagem pode proporcionar. Por isso, podemos dizer que, ao se referir às pessoas da margem o poeta acusa um distanciamento ditado pelo próprio correr dos anos, centrando assim sua atenção aos seus afetos.

A saudade que o poema revela evocam cores, cheiros, sabores, sons e retratam um tempo de alegria, de brincadeiras, um espaço de sonho a que o eu-lírico ainda sente falta.

Em alguns momentos do poema percebemos que a extrema nostalgia do eu-lírico representa o desejo de regressar a esse tempo e a esses lugares que o fizeram feliz, deixando em exposto que a maturidade não realizou as alegrias almejadas, por isso, o anseio constante de retorno à casa materna.

Assim sendo, é apropriado afirmar que há traços de união entre a escritura de Cesário Verde e Antonio Nobre no que se refere à linguagem, o engajamento social, ambos muito atentos ao cotidiano. Enquanto Cesário Verde pinta um quadro do que vê, Antonio Nobre discorre sobre o que já viveu, por isso, é coerente afirmar que mesmo pertencendo a tempos históricos distintos, ambos possuem aspectos que ora se assemelham, ora se distanciam, recorrendo para a construção de sua poética o predomínio pela linguagem coloquial, uma forma de escritura que aproxima pela simplicidade, ambos deixam de lado as formas poéticas e partem, cada um de seu tempo para uma poesia sem fronteiras que aproxima e encanta pela beleza contida em cada verso.

 

Referências bibliográficas

LOPES & SARAVIVA, História da Literatura Portuguesa . Portugal: Porto Editora, 1994.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa . São Paulo: Cultrix, 2001.

VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde .Lisboa, Editora Minerva, 1997.