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A África na obra de Maria Velho da Costa
Liliana Mabel Gallo (UFSC)
Introdução
Este trabalho faz parte do meu projeto de doutorado sobre a relação casa/família/país na obra da escritora portuguesa Maria Velho da Costa. Antes de mais nada é necessário esclarecer que entendo por casa portuguesa a construção discursiva que pensa o modo pelo qual o povo português expressa sua terra; nesse sentido, a casa seria o cenário das relações dos portugueses com sua própria história. Como local de passagem onde o fora nunca é perdido de vista, a casa é uma metáfora do mundo; um espaço que contém as construções sociais de família e país. Ao longo da obra de Maria Velho da Costa são visíveis as encenações que permearam a história portuguesa dos últimos cem anos. Assim pensando, posso afirmar que poderia ser traçado um caminho a partir da publicação do romance Maina Mendes , no ano de 1969, e até a publicação de Irene ou o contrato social , no ano de 2000. Esse caminho atravessa um Portugal agarrado às tradições, encenadas pelos grandes senhores, e conflui num Portugal aberto às mediações e contratos que se por um lado preservam e alteram sua heterogenia social, por outro lado interrogam a identidade nacional. Estereotipada muitas vezes como espaço do feminino, a casa é colocada por essa escritora como o espaço onde se encontra o germe da mulher contestatária das construções secularmente estabelecidas no seio da sociedade portuguesa. Dentro de cada uma das casas que habitam seus romances há, pelo menos, uma dessas mulheres que questiona, instiga e produz a nova sociedade portuguesa; como lugar de encontros e desencontros, a casa está rodeada por amplos espaços de sociabilidade onde a cidade e suas paisagens são seus complementos. A independência de palavra, que começa a tomar vôo desde 1969 e, principalmente a partir da Revolução dos Cravos, fez com que através da literatura sejam veiculadas as denúncias das situações conturbadas que marcaram a história no período já mencionado. A respeito disso, Fernando Rosas 1 assinala que a literatura de ficção ganha um valor apreciável, pois auxilia a tarefa dos historiadores uma vez que as informações históricas a partir do Estado Novo Português são de questionável fiabilidade. Dois cenários históricos surgem, sendo que neles as personagens dos romances podem ser colocadas em diálogo com a história. O primeiro cenário corresponde à sociedade portuguesa anterior à Revolução dos Cravos, precisamente até 25 de Abril de 1974. Maina Mendes , Casas Pardas e Lúcialima são três romances de Maria Velho da Costa que contextualizam esse período histórico. Maina Mendes tematiza a história de Portugal através de três gerações de uma família burguesa, desde fins do século XIX até 1968, pelo viés da dominação patriarcal; publicado no ano de 1969, é o primeiro romance da escritora Maria Velho da Costa. O segundo, intitulado Casas Pardas , foi publicado no ano de 1977; nele, além da escritora trabalhar novamente pelo viés da família burguesa, entra também em cena a classe trabalhadora. O ambiente histórico representado corresponde à primavera marcellista. Já em Lúcialima , publicado no ano de 1983, cinco núcleos de personagens se entrecruzam num ambiente que tem como pano de fundo a guerra colonial e o amanhecer do dia da revolução: 25 de Abril de 1974. O segundo cenário apresenta a sociedade portuguesa após essa revolução; nele posso inserir o romance Irene ou o contrato social , publicado no ano de 2000, onde o multiculturalismo presente nesta sociedade portuguesa pós-colonial 2 adquire proporções significativas.
O silêncio da guerra em Maina Mendes
Um exemplo de silêncio ligado à experiência diz respeito à personagem Ruy Pacheco, primo de Maina. Ele aparece só uma vez, na primeira parte; está voltando da guerra, precisamente, de Magul, em Moçambique. Ruy responde às perguntas dos tios com poucas palavras; no entanto, o narrador coloca fluxos de seu pensamento com o intuito de relatar os estragos que a guerra faz nas pessoas/indivíduos. Conforme Walter Benjamin 3 o estado de choque das pessoas que voltavam da guerra era tal que permaneciam mudas, tornando-as frágeis e minúsculas. É precisamente assim que Ruy se sentia: um ser minúsculo, impotente perante tamanha ação. É importante destacar que ele surge na narrativa de uma forma um tanto complexa, uma vez que há uma interposição entre presente e passado, entre o que transcorre na sala da casa dos Mendes e o que aconteceu em Magul. Este passado nos é apresentado através de flashbacks ao longo deste capítulo, contrastando assim o estado anterior à guerra e o daquele que retorna:
É preciso ver bem, que ali está retornando em escorrido vulto o que a erguera e balouçara no vácuo, alçando-a pelos pés às bandeiras vidradas das portas . 4
Apesar de não termos uma descrição psicológica de Ruy, é possível perceber um claro contraste entre seu aspecto exterior, a laconicidade de sua fala e a alegria desses momentos de brincadeira no passado. As descrições do aspecto exterior de Ruy funcionariam como um espelho de seu interior destruído, como representação de uma metamorfose. É precisamente do interior de Ruy que consigo puxar as linhas que o localizam na história do país: à guerra, em Moçambique 5.
Segundo Jacques Le Goff a memória nos remete a um conjunto de funções graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas ou que ela representa como passadas. Em seu processo, não só intervém a ordenação de vestígios como também sua releitura, na procura de uma concatenação dos atos. Ela é
um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva não é somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder (...) A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro . 6
O teatro d'A Terça Casa: Casas Pardas
De Casas Pardas me interessa resgatar alguns dos acontecimentos da “Terça Casa”, que é uma representação em três atos. No segundo ato, que se passa na sala de jantar, encontram-se, além de Elisa, Mary e Frederico –marido de Mary- (personagens centrais da obra), outros convidados: dois casais. O notável neste ato é que toda vez que é pronunciada a palavra poder , o lustre treme. Essa palavra é pronunciada várias vezes, e sempre com uma significação diferente, sem perder força: ora se refere ao governo, ora às relações de trabalho, ora às ações desplanificadas do governo em meio à modernização, ora às relações centro/periferia –tanto do governo dos Estados Unidos com os países subdesenvolvidos, como às relações com as colônias na África e com a Europa. Em síntese, o poder e seus derivados: dominação, colonialismo e imperialismo, estão em discussão na mesa da família burguesa. A metáfora seria o “poder treme”, o governo está na corda bamba, porque as margens estão subindo. Essa situação, para esta burguesia que se encontra sentada à mesa da antiga casa aristocrática, é sinal de perigo. No entanto, é só Elisa quem, com uma crítica constante à sua classe, vê a futilidade da conversa: o único medo dessa burguesia é ficar “com os menos”, ser governada “pelos menos”, ser menos. Para esta burguesia, um país sem miséria visível, bonitinho, com flores ao melhor estilo parisiense, é sinal de ordem. O resto não importa. Já no terceiro ato, que se passa na cozinha e na sala, é onde acontece o tremor maior 7. Esse terremoto pode ser associado à crise no poder, uma vez que Elisa disse, se referindo à época dos avós: Nesse tempo a terra não tremia (...) a terra deles não tremia (...) e remata com Puta de casa que isto volta sempre ao mesmo por mais que a terra trema 8. Esses dizeres de Elisa me levam a pensar na potência metafórica das palavras casa e terra . Acredito que ela não só se refere ao terreno que ocupa uma pessoa/família individualmente; mas, em um nível muito mais amplo, ele se refere ao país. Desse modo, Casas Pardas é uma grande metáfora do momento histórico que Portugal estava atravessando: mesmo com Salazar morto, seu poder no “chão”, tudo continua igual. Elisa não vislumbra saídas para essa condição de país governado ditatorialmente, de colonizador-colonizado: temos para este ano um mesmo ditador novo . Ela, que quer se tornar escritora, está constantemente à procura da experiência, do vivenciar: testa e tenta o ato de escrever. Seu projeto é o de poder contribuir para o acerto do país. Ela está consciente do que isso implica, da individuação que é necessária a todo processo de formação. Ela quer trabalhar de forma tal que, com sua escrita, o povo português SEJA, por sobre tudo: PORTUGUÊS. Para ela, a pátria são os pronomes dolorosamente pessoais (p. 384).
Para Elisa, tudo passa por uma questão de identidade 9; ela vê que o destino histórico português, de marginalidade com respeito ao brilho da Europa, pode ser corrigido se “a casa” começa a ser olhada por dentro. Nesse sentido, não é nenhuma desonra ser português uma vez que o país tem bons modelos. Por isso, na sua procura ela começa:
estou a perceber que isto não pode ser assim e que Eu tenho que perceber isso sentada por debaixo de um lindíssimo dia de Lisboa, e que isso toda a gente percebe, embora alguns digam que é culpa do merceeiro, ou da modista, ou do patrão, ou da patroa ou do marido que há, o poder é outra história, ou não? E que Eu tenho que perceber isso de uma maneira qualquer dia terrível, que não dá para beber, nem para chorar, nem para coisíssima nenhuma a não ser para não desistir e sem saber de que não, pausa entre pausas, hiato hiante aliterantemente aliterado, ali tratado em 10
É esse o apelo da escritora Elisa, e através dela, da escritora Maria Velho da Costa. Não há que copiar o modelo materno, pois ele leva a conseqüências desastrosas. Também não há que copiar o modelo paterno, mas adquirir um vôo próprio. Um vôo que libere, que ensine, que forme, que habite o ser na íntegra. Isso não se deve aplicar apenas à tarefa de escrever, mas também à tarefa da reconstrução do país.
O amanhecer da Revolução: Lucialima
Embora o romance tenha sido escrito no ano de 1982, o limite temporal da narrativa é a madrugada de 25 de abril de 1974. Os constantes flashbacks ao longo dela, deixam o leitor em suspense sobre o acontecido depois dessa data (pós-abril de 74). A leitura do romance começa com a atualidade dos personagens, no ano de 1974; logo depois, e em uma espécie de jogo, ou como se fosse o abrir-se de um álbum fotográfico, encontramos estes mesmos personagens em diferentes momentos de seu passado. Tal como em Maina Mendes , a escritora faz uma espécie de análise dos “mini-núcleos” de poder, mostrando quanto do acontecido na infância é responsável pela vida adulta das pessoas, como crítica ao determinismo. O fato de não haver nenhum esclarecimento sobre o acontecido posteriormente ao 25 de abril de 74, já tinha sido notado por Maria Alzira Seixo: à literatura lhe coube a a ficcionalização das relações humanas desencadeadoras do jogo social concebido como proposta ou como malogro. 11 Como é vox populi , foram o desencontro de idéias e o descontentamento, dentro do governo e do povo português, os que originaram a revolução de 74 colocando fim a 50 anos de ditadura; mas é necessário demonstrar como essas idéias funcionaram para chegar até a madrugada do 25 de Abril, uma vez que elas são as representações da necessidade de mudança no seio de uma sociedade. Nesse sentido, me interessa destacar a figura do Capitão Lima. Ele é um dos Capitães de Abril (no romance) que tomaram a frente do levante contra a ditadura em Portugal; representaria a voz dissidente das Forças Armadas Portuguesas. Nessa madrugada ele encontra-se dirigindo suas tropas, rumo à cidade de Lisboa; sua função é a de instalar a esperança de um futuro. Segundo Maria Velho da Costa, Lima é a metáfora de um dos melhores filões do MFA e da sua relação com o povo (PASSOS: , ). Desde a infância esta personagem se mostra firme nas suas convicções; embora não tenha uma bagagem intelectual, na hora de reflexões intelectuais, não é pusilânime. Desde a época de Academia Militar, ele percebe que é necessária uma mudança tanto nas Forças Armadas como no país. Quando fala com seu filho, questiona a guerra e as despesas que ela provoca. Segundo ele, se fossem mais bem utilizadas, o país estaria próspero.
A sério. Quem é que ganha, porque é que o Marcelo não manda daqui mais efectivos e munições?
Numa guerra destas toda a gente perde, filho. O exército é pobre, e o deles também.
Mas tu és rico, e a mãe também ganhara muito dinheiro.
Não somos, não. Sabes quanto custa manter uma unidade de comandos operacional durante uma semana?
(...) Cerca de quinhentos contos ou mais.
E o governo não tem isso?
Tem, mas já pensaste quantas escolas se faziam num ano com esse dinheiro, ou hospitais, ou fábricas? (P. 70)
O filho de Lima, com um pai ausente, geralmente em missões militares, cresceu ouvindo que a grandeza de uma nação se mede pela quantidade de terras que possui. O conceito que ele tem de pertença, que o salazarismo inculcou durante anos, está fortemente arraigado na sua cabeça. Por isso, no mapa, Lima lhe faz uma analogia.
Sabes o que é isto aqui?
Sei, é a Nova Zelândia.
E isto?
Deixa-me ler, Israel.
E se estes invadissem estes?
Sei lá, ou havia negociações ou havia guerra. Mas era um conflito local.
(...) Quem tinha razão?
Estes.
Porquê?
Porque era a terra deles.
Porque?
Porque já lá estavam. É a pátria deles. (P. 71)
Irene ou o contrato social
Chegamos ao último romance da escritora Maria Velho da Costa; nele, que sobresai um protagonista mestiço cabo-verdiano, se reflete sobre a realidade contemporânea revelando a configuração de situações de multiculturalismo pós-colonial na sociedade lisboeta. Conforme Stuart Hall 12, as sociedades multiculturais não são um fato novo. Elas existem desde antes da expansão européia no século XV e se caracterizam pelos movimentos migratórios. No entanto, o Portugal pós-colonial é apresentado em Irene... , não como indicando uma mera sucessão cronológica, mas uma passagem de uma configuração de poder a uma outra uma vez que, ao abandonar o projeto de colonização em ultramar, aos poucos, Portugal entra na aldeia global.
A identidade da personagem Irene ficou ancorada na Lisboa de outrora, de quando ela trabalhava no Ministério de Educação, quando era conhecida e re-conhecida. Agora que se aposentou e que tem tempo para deambular, não se encontra. A cidade de Lisboa aparece como espaço de suas andanças, da sua flanêrie, para evocar o diagnóstico de Walter Benjamin acerca do passante que escolhe a cidade como o âmbito privilegiado para o exercício, simultâneo, de ver e evocar, de caminhar e divagar 13.
Outro aspecto importante a ser destacado na obra Irene... , e que reflete a globalização que também atingiu Portugal, é a presença de várias línguas como marco da inscrição de universos diversificados que incluem as margens sociais e multiculturais do Portugal contemporâneo. Por outro lado, o diálogo com as “grandes” obras da literatura ocidental e, particularmente, com a portuguesa 14, também não passam desapercebidos. Nessa intertextualidade coabita a citação e o pastiche, assim como o uso de registros ora cultos, ora populares da língua, e a incorporação, no texto, de dialetos como é o caso do crioulo. Se Portugal é uma mistura de dialetos, de falas, é um país de diaspóricos, de migrantes. Em Irene... Maria Velho da Costa apresenta três personagens diaspóricos: Irene, Raquel e Orlando. Cada um deles é diaspórico à sua maneira; cada um deles está a tecer as negociações que sua própria condição diaspórica lhe pede para “ser” na sociedade. A identidade portuguesa pós-colonial encontra-se também permeada por essas relações entre os diferentes migrantes que habitam esse espaço que a personagem Irene teima em chamar nação. Se pensarmos na afirmação de Benedict Anderson 15, para quem as nações não são apenas entidades políticas, mas “comunidades imaginadas”, percebemos que a nação que Irene pensa é um tanto utópica. Ela ficou ancorada nas relações imaginarias de uma nação grande, todo-poderosa: a Lisboa globalizada, sua cidade, sua terra, tornou-se-lhe irreconhecível; ela é estranha na sua própria casa. O segundo diaspórico é Orlando, moreno, filho de um casal de diplomatas da colônia e que teve que sair de Lisboa às presas, no ano de 1997. As tarefas que Orlando desempenha em sua peregrinação pela Europa são aquelas que “nenhum desempregado ariano” faria. Sua condição de preto e português o coloca como sendo, para a Europa branca, a escória. Orlando, quem em Lisboa era alguém (o filho de fulano, do diplomata), também é considerado “marginal” segundo o olhar conservador de Irene quem, sem conhecê-lo, o estereotipa por ser o autor da graffitada que “afeia a cidade”. Por outro lado, ao passar a ser migrante ele entra na lista dos trabalhadores comuns, na lista da mão de obra barata; por outro, ele é rejeitado pela pele e pela nacionalidade 16. A globalização que inclui, paradoxalmente, exclui. Como migrante, Orlando é obrigado a negociar com as outras culturas, sem ser assimilado, porém, sem perder completamente sua identidade, carregando consigo os traços das culturas e das histórias que o marcaram. Raquel, a última das diaspóricas desta obra de Maria Velho da Costa, é filha adotiva de Irene; ela foi abandonada, dentro de uma cesta, na porta da casa de Irene. Raquel foi, assim, criada com o imposto por Irene; em momento algum, diz aquela, lhe foi perguntado se estava de acordo. É precisamente contra a imposição cultural que Raquel se coloca. Ela que é atriz, ao estar decorando uma peça de Shakespeare (A Tempestade), no papel da personagem Miranda, descobre que sua vida têm uma profunda relação com o Caliban. Em A Tempestade , última obra de Shakespeare, o deforme Caliban, que teve tudo roubado, diz: me ensinaram sua língua, e disso obtive, o saber maldizer. A vermelha praga caia sobre vocês, por esse ensino! 17. Assim como Caliban, Raquel tem o sentimento de que uma perspectiva colonizadora se lhe impus. Na província não dá para se fazer nada, o brilho está em outro lugar. No caso de Raquel, o futuro mais palpável se encontra, precisamente, na capital da globalização. Será que tudo deve passar por lá? Não será este o tempo, como afirma Fernández Retamar 18, em que os intelectuais devem olhar para dentro, para o terceiro mundo, para sua constituição identitária e, a partir daí, trabalhar por um reconhecimento de fora? Ou será que, neste momento, como cidadãos do mundo há que ir pelo mundo à procura de saídas?
Arrematando,
Maria Velho da Costa vêm desde a década de 60 se preocupando com os problemas que atingem/atingiram à sociedade portuguesa. Sob um olhar feminino é que se tem a denuncia subtil, porém implacável, de uma sociedade que, findo o império, traz à tona seu periferismo, a renegociação de sua posição no sistema mundial 19 e o sonegamento feito da história de suas colônias. [O] país que havia liderado os descobrimentos marítimos ibéricos e europeus e que havia dilatado a sua geografia pelo mundo, foi obrigado, naquela madrugada de 74, a confrontar-se com o apoucamento do seu corpo imperial fantasmático 20. As narrativas geradas no pós 74 reconstroem a história do país; são a escrita de uma outra história que não a oficial onde a busca do verismo e do histórico possibilita ao escritor a mediação entre o mundo e o público leitor, oferecendo por um lado o testemunho de um tempo que sofre mudanças contínuas e, por outro, a interpretação dessas mudanças para além do puramente factual.
ROSAS, Fernando. História de Portugal . O Estado Novo ; Estampa; Lisboa; p. 19; 1998.
Segundo a professora Isabel Allegro de Magalhães, Maria Velho da Costa é uma das poucas escritoras portuguesas preocupadas com a questão multicultural no Portugal pós-colonial. XIX Encontro de Professores de Literatura Portuguesa, Curitiba-PR, Outubro de 2003.
BENJAMIN, Walter. O Flâneur. IN:___. Obras Escolhidas III. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo ; Brasiliense; São Paulo; p. 198; 1997.
Moçambique era terreno cobiçado por ingleses e franceses, além dos portugueses; apesar dos locais não desejarem nenhum dos três, as preferências eram pelos ingleses. Em Portugal, no ano de 1886 é publicado o Mapa Cor-de-Rosa, onde eram considerados como próprios os territórios localizados entre Angola e Moçambique. Inglaterra lança um ultimatum para que Portugal devolva as terras ocupadas. Embora no início os portugueses acataram as ordens inglesas, em 8 de setembro de 1895, em um combate com os locais, retoma sua soberania sobre o território. Segundo René Pélissier, em sua História de Moçambique , apesar de terem um número menor de soldados (275, como também afirma a personagem Ruy Pacheco) e sob as ordens do Capitão Paiva Couceiro, as tropas portuguesas foram atacadas em Magul por 13 mangas (regimentos) africanas, cerca de seis mil homens.
PÉLISSIER, René; História de Moçambique, Vol II: formação e oposição (1854-1918) ; Estampa; Lisboa; 1994.
LE GOFF, Jaques. História e Memória ; 4ª edição; Editora da Unicamp; São Paulo; p. 476; 1996.
No ano de 1969 o ditador Salazar morre; portanto, como diz Elisa, mesmo que a terra trema, tudo continua igual. Ou, que temos para este ano um mesmo ditador novo .
REIS, Carlos. Criação literária e periferismo cultural. Para uma Ideologia da marginalidade; Letras de Hoje ; Porto Alegre; N. 83; EDIPUCRS, março/1991.
SEIXO, Maria Alzira. A palavra do Romance: ensaios de genealogia e análise. Livros Horizonte; Lisboa; 1986.
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Orlando colocando sua opinião sobre as obras que lera na escola: Um tudo-nada: Camões é para ouvir em branco e os Maias são uma falcatrua sobre tunantes vários. A Maria Eduarda sabia muito bem ao que vinha. Fornicar com o irmão e levar vida de grande garina, sem o aturar a ele, nem aos homens. O Ega, o Maia queriam comer-se. Está tudo no livro e o Eça não deu por nada . (p. 37)
ANDERSON, Benedict. Nação e Consciência Social ; tradução de Lólio Lourenço de Oliveira; Ática; São Paulo; 1989.
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FERNÁNDEZ-RETAMAR, Roberto. Todo Caliban ; Ediciones Callejón; San Juan, Puerto Rico; 2003.
SANTOS, Boaventura Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade . 3ª. Edição; Cortez; São Paulo; p. 63; 1997.
JORGE, Lídia. O romance e o tempo que passa ou A convenção do mundo imaginado. In: Lídia Jorge: in other words, por outras palavras . Portuguese Literary & Cultural Studies. Center for Portuguese Studies and Culture; University of Massachussets; Dartmount: v.2; Spring 1999; p. 162.