![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Adília por Adília: mais um heterônimo d’além mar invade a praia brasileira
João de Araujo Vicente (UFSC )
Em maio de 2001 a Revista Inimigo Rumor 1 na sua décima edição iniciava uma parceria bi-nacional com poetas e críticos portugueses. Representando a contribuição do lado de lá, vinha nas primeiras páginas da revista uma poetisa ainda desconhecida do lado de cá, dos brasileiros. Adília Lopes é a marca desse encontro transnacional, dessa transação/transição da revista. Mas a novidade não está só no nome, mas também no conteúdo da nova dicção que Adília exporta para as praias tupiniquins com o “Poeta de Pondichéry”, uma obra cuja primeira edição é publicada em Portugal em 1986. Seguem nas páginas seguintes de Inimigo Rumor uma entrevista com a autora, dirigida ao público brasileiro, e dois textos críticos: o primeiro do crítico Osvaldo Manuel Silvestre, intitulado “Adília Lopes espanca Florbela Espanca” e o segundo do também crítico Américo António Lindeza Diogo com o título “Adília Lopes/segundo J. P. Peixoto (ou outro)”.
Em Portugal, quando Adília Lopes começou a publicar em 1985, seu primeiro livro, “Um jogo bastante perigoso”, vagou desconhecido dos meios acadêmicos e da crítica jornalística. Até então autora desconhecida do grande público, Adília era conhecida apenas pelas performances poético-teatrais e, por um público pequeno, mas fiel e aficionado por aqueles petardos estranhos que pareciam transformar o banal em poético e reduzir o poético em banalidades, forjando uma empatia entre poeta e leitor cuja identificação poderia fazer este imaginar-se: “assim, até eu”.
A partir de 1995, mais ou menos, é que Adília freqüenta a Academia. Mas é mesmo em 2000 com a publicação da sua “Obra” 2, reunindo o conjunto de todos os seus livros editados até então, de 1985 até 2000, abrangendo desde seu primeiro livro, “Um jogo bastante perigoso” ao último “Irmã batata, irmã barata” (incluindo ainda uma obra inédita, lançada neste ano, na coletânea) que Adília provoca o maior mal-estar na Literatura bem-comportada portuguesa e chama a atenção para uma obra que tem tanto de ambíguo quanto de desigual na sua proporção ética e estética.
Quando a poeta aporta no Brasil, em Portugal ela já é a “poetisa pop”, como se denominou certa vez, e é comum vê-la nos programas de palco da televisão portuguesa, tipo os do Faustão, aqui no Brasil. O que para boa parte da crítica portuguesa vai soar como um aviltamento, um escracho, uma “sacaneação” de tudo o que a tradição legou e cristalizou como poesia e se demarcou sempre como o espaço do poético. Depois de Adília em Portugal a poesia já não era mais a mesma.
Para ela parece ser este o novo espaço poético, o limite inexplorado, e o ponto de convergência de todos os pontos: o campo minado do cotidiano midiático para onde converge passado e futuro saturando o fluxo da presença de tudo-ao-mesmo-tempo-no-mesmo-espaço sem possibilidade de escoamento.
Mas se em Portugal a crítica canônica acusa Adília de saquear a tradição e pauperizar a Literatura, no Brasil esta negatividade se não produziu uma adesão incondicional, pura e simples, proporcionou uma aceitação sem resistência e até mesmo calorosa. No ano seguinte, após o advento da poetisa na Inimigo Rumor nº 10, em 2002, Adília é lançada em antologia no país, iniciando, com Cacaso, as esmeradíssimas edições da coleção “Ás de colete”, da editora 7letras e Cosac&Naify edições, coordenada, pelo também poeta, Carlito Azevedo.
Talvez aí, nesta trans-ação / transição, nessa translação, nesse transporte, nessa travessia de uma margem a outra, haja uma bifurcação, um jogo comum de propostas, uma sinalização de um projeto poético convergente, tanto quanto divergente nas suas singularidades, claro, mas coexistindo um ponto aberto para uma crítica e uma reflexão:
A BIFURCAÇÃO SUCESSIVA 3
Divido a minha vida
em duas partes
uma em que tinha orelhas
e não tinha brincos
uma em que já não tinha orelhas
e toda a gente me dava brincos
para me consolar de duas coisas
de não ter orelhas
e de não ter tido brincos
quando tinha orelhas
de todos nós assim era só eu
porque orelhas tinha duas
Voltando nossa atenção para o espaço poético movediço no qual se instalou Adília percebemos uma poética que reflete a sua geração, que elegendo o lugar comum como opção do espaço contemporâneo, reveste as banalidades de vigor e seriedade poéticos. Elementos cotidianos, apoéticos como orelhas (Van Gogh?), brincos, e um tom confessional de intimidade, (que Paul De Man chama de “as escritas do eu”), tomam forma no poema que agora é o discurso da fatuidade. Este discurso nega a tradição, mas nela se contamina. Ou seja, o que na tradição é negado, como procedimento de diferenciação é reprocessado no seu antípoda, a absorção. Opera aqui não mais o processo antropofágico do alto modernismo, mas a implosão mesmo desse legado para então se juntar os “cacos”, recompor num “collage” os resíduos, remendar como quer dizer Campagnon: sendo o mesmo por ser recorte, e sendo totalmente outro pela descontextualização operada, pelo deslocamento no espaço e no tempo:
QUER GLAURA 4 seja
uma rapariga um peixe ou um açucareiro
a Glaura só se podem escrever
poemas eróticos
já com Laura o caso muda de figura
e com Aura vai-se para uma pensão
de duas estrelas
e com Ana Maria?
houve uma Ana Maria com quem joguei
crapaud e badminton1
A RAPARIGA QUE 5 esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
foi violada pelo carteiro
2
Quem vai pedir um envelope
a Marianna Alcoforado?
A ELISABETH FOI-SE EMBORA 6
( com algumas coisas de Anne Sexton )Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mau me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu antiséptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
Ao ler Adília temos simultaneamente a sensação de contentamento e desconserto, um sentimento misto de iluminação epifânica e a vertigem abrupta do cair em um abismo. Como Alice, Adília subverte a grandiosidade da poesia em uma domesticidade poética; perverte o sistema sígnico da poesia em um jogo de faz-de-conta e com a perversidade da rainha de copas “degola” todos os estatutos do poético com a seriedade da criança pega em flagrante delito, escondendo as mãos para trás.
Assim, subvertendo Borges, em Adília a escritura não é sucessiva nem o olhar simultâneo. Mas ambos operam na simultaneidade. A máquina poemática adiliana opera simultaneamente o olhar e o texto (a escritura). O poema de Adília se põe não para uma leitura ou simples “olhadela”, mas se desvela à varredura do olho-scanner. Ponto a ponto o poema se constitui tal o Aleph, sempre aberto e vazado para outros pontos e universos literários e extraliterários:
SEGUNDO J. PINTO Peixoto 7
o Sr. De La Palice foi uma vítima
da entropia
por isso mesmo
quanto a mim
as suas máximas são as mais radicais
de todas as máximas
um bule colado com grude
não volta mais a ser inteiro
diz o Sr. de La Palice
e de facto não pode beber mais chá
Neste espaço atual dos “reality shows” como os “Big Brother”, esta poesia se manifesta como uma expressão desse desamparo ante o olho-que-tudo-vê, mas ao mesmo tempo como resistência à coisificação do sujeito; é uma poesia que se opõe a objetivação excessiva do eu. O eu utilitário e reduzível a uma fórmula simples de cunho econômico é denunciado, e o que a ilustração fez dele. Adília rompe com o humanismo do sujeito capitalizável e humaniza a vida na sua singularidade.
REVISTA Inimigo Rumor . Rio de Janeiro : 7 Letras, 2001.
LOPES, Adília. Obra. Lisboa : Mariposa Azual, 2000.
LOPES, Adília. Antologia. São Paulo : Cosac & Naify, 2002. Rio de Janeiro : 7 Letras, 2002.
LOPES, Adília. Antologia. São Paulo : Cosac & Naify, 2002. Rio de Janeiro : 7 Letras, 2002.
LOPES, Adília. Antologia. São Paulo : Cosac & Naify, 2002. Rio de Janeiro : 7 Letras, 2002.
LOPES, Adília. Antologia. São Paulo : Cosac & Naify, 2002. Rio de Janeiro : 7 Letras, 2002.