VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

A fatal(idade) portuguesa: uma leitura de Breviário das más inclinações
Ana Lúcia Liberato Tettamanzy (UFRGS)

Vendo uma estrela que lá mora,
No firmamento português:
E ela traçava o meu fado
“Serás poeta e desgraçado!”
Assim se disse, assim se fez.

(António Nobre – “Viagem na minha terra”)

 

Breviário das más inclinações (1994), romance do jovem escritor José Riço Direitinho, beira o bizarro desde o título, por si só corrosivo na mistura do sagrado com a promessa da profanação, até a capa – na edição brasileira, uma cena de pesadelo: em meio a um céu de pesadas nuvens cinzentas, destaca-se um pássaro em vôo descendente. À medida que se lê, a estranheza aumenta. De um lado, tem-se uma narrativa moderna, não-convencional. As constantes antecipações do narrador desnorteiam o leitor desprevenido. Fica-se sabendo, por exemplo, da morte do protagonista muito antes de sua efetiva narração através do comentário de sua primeira adivinhação, quando, em sonho, prevê a morte da cigana: “Esse dom que viria a aparecer irremediavelmente na madrugada da morte da cigana e que se manteria ainda por muitos anos. Até três horas antes da sua morte atroz.” 1 Da mesma forma, elementos que fazem confundir-se elementos da dita realidade e da ficção geram estranheza e desconfiança. Afinal, quem não notaria a coincidência de nomes – o autor é espelhado duplamente no protagonista, José de Risso, e na figura lendária de José de Risso, a cuja memória o autor dedica o livro. Complicando um pouco mais a rede de confluências, uma nota assinada pelas iniciais J.R.D. (que podem ser as do autor), menciona terem sido reproduzidos em fac-símile, no início de cada capítulo, excertos do volume Vida e Morte de José de Risso, distribuído gratuitamente em romarias. Explica ainda a inserção, “no início do derradeiro capítulo” (p.7), da última página de uma edição da mesma obra em língua galega, encontrada “apensa a um ex-voto”. Bem se vê, pois, que elementos textuais e para-textuais fazem parte do jogo em que ardilosamente a mentira da realidade esclarece – ou confunde - a verdade da ficção. De outro lado, o relato de Direitinho flerta com o tradicional: o relato, direto e rude como a população local, cheira a terra e a bicho, trazendo à luz os costumes, os horrores e as fantasias de um lugarejo ao norte de Portugal durante a Segunda Guerra. Sua naturalidade apresenta como inevitáveis as crenças no sobrenatural, na sabedoria haurida da tradição, pois a comunidade funciona à maneira de um cosmo, cada peça sabe seu lugar, desde sempre estabelecido.

Depois de saber que estava grávida, procurou cumprir tudo para que a criança nascesse sem problemas: deixou de usar o cordão de ouro ou outro qualquer fio, para o bebê não nascer com o cordão umbilical enrolado à volta do pescoço, que é sempre sinal de morte prematura (...) (p.12)

 

Não obstante os cuidados, o esquecimento de uma folha de carvalho no bolso do vestido usado durante a gravidez causou a marca fatal no dorso do menino recém-nascido, diante do qual as mulheres

Quase todas reparavam no pequeno sinal vermelho, em forma de folha de carvalho, no meio das costas de José. “É uma marca de desgraçado”, pensavam, sem conseguirem juntar coragem para o fazerem notar à mãe ou à avó, “há gente que mais valia não nascer”. (p.20)

 

Assim, tudo que acontece - seja na natureza, seja na trajetória das criaturas humanas - é submetido a uma lógica fatalista, explícita na profusão de verbos no imperativo e de declarações peremptórias. Ao aproximar-se da mãe de Risso, o desconhecido mercador afirma em tom definitivo “O teu destino está preso a mim” (p.14), o que se confirmaria com a gravidez da mulher, resultado da conjunção de misteriosa predestinação e casualidade enganosa, posto que, ao partir ao encontro do viajante, “antes de sair de casa, no começo desta noite irremediável, bebera chá de romã e loureiro para que o fel das entranhas não lhe subisse à boca. Esqueceu-se que essa infusão era também a mezinha das mulheres estéreis”. (p.17) O dom da adivinhação, além das más inclinações, irá acompanhar José de Risso, como intui pela primeira vez que sonha com pássaros: “Os sonhos com pássaros são sempre sinal de mau agouro. E não podemos fazer nada”.(p.59) Esse tom simula o da tragédia, em que a força inquebrantável do destino verga os heróis às suas paixões, mas também mimetiza o da tradição, em que as coisas têm seu valor desde sempre, a palavra tem peso e o indivíduo só adquire sentido na experiência coletiva.

Dessa duplicidade e incongruência – ludismo moderno e apego à tradição – brota o espanto. Por que um jovem escritor português busca tal aproximação? Excentricidade ou apenas um determinismo biográfico - afinal, o autor é formado em Agronomia - explicariam seu vínculo com as coisas da terra, do cultivo? Pode-se pensar na intencionalidade de situar-se numa filiação literária que, num plano mais remoto, deita raízes na sátira burlesca de Gil Vicente, em sua apropriação da cultura e da língua popular ou, num plano mais próximo, aproxima-se do telurismo atávico das personagens igualmente das montanhas dos contos de Miguel Torga, meio gente, meio bichos em metamorfose, ou ainda da oralidade e do onírico dos mundos criados por Lídia Jorge. Tendo em vista que contatos culturais são base da condição moderna e o hibridismo seu elemento mais característico, o romance de Direitinho pode ser situado no debate dos empréstimos culturais. O conceito de fronteira cabe-lhe bem. Naquele lugarejo transmontano, o tempo parece ter estagnado. Ao mesmo tempo, os eventos da vida privada são tocados pelos da História – fugitivos da guerra civil espanhola chegam a Vilarinho dos Loivos, ouve-se falar de atrocidades e bombardeios. De tempos em tempos forasteiros, ambulantes e mercadores trazem o novo que, contudo, pouco afeta o cotidiano: assim como vêm, vão embora, sua intermitência é prevista, incorporada. Tudo isso ao lado de uma constante nesse misterioso Breviário : o discurso da fatalidade, talvez uma fatal idade portuguesa, desde sempre na sua mais íntima constituição. Nasce do sopro do mar a espuma que bafeja a paisagem terrestre de uma névoa intermitente, metáfora da indissociável mistura de gentes e tempos em suspensão:

Quatro ou cinco horas depois de as mulheres se terem levantado e aquecido na lareira o caldo da manhã, a névoa ainda pairava sobre o rio, alastrando aos poucos por entre os salgueiros e o musgo úmido dos troncos dos negrilhos. (p.95)

 

O discurso dessas gentes é permeado de fatalismo na muda compreensão do que há de ser e será. Traço lusitano, de povo que bebeu em águas variadas – celtas, romanas, bárbaras, judias, árabes, africanas, asiáticas e, com elas, acostumou-se a aceitar a contínua ligação do divino com o humano, ou do fantástico com o natural? Nessa lógica particular que inclui o fantástico, a desconfortável aparição dos grifos, pássaros de meu agouro, é sinal de morte:

A mulher acordou com um pesado bater de asas sobre as telhas. Dormira toda a noite. Ao abrir os olhos viu, pelas frinchas das tábuas do telhado, a primeira claridade do dia. Sobressaltou-se com o rumor dos pássaros, e logo depois com a ausência do marido: a cama não tinha sido desmanchada do lado dele. Só nessa altura conseguiu perceber que os grifos tinham voltado a Vilarinho dos Loivos, e que, quase sempre, deviam estar a voar em círculos largos sobre um corpo morto, à espera. (p.41)

 

No entanto, como se poderia esperar, não só infortúnios são anunciados por eventos mágicos. Quando morreu a avó de José de Risso, “uma insólita nuvem de pirilampos cobriu, pelo lado de fora, a janela do quarto.(...) Enterraram-na no final da tarde do dia seguinte, no canto do cemitério onde as mandrágoras e as beladonas teimavam em crescer durante todo o ano” (p.61;62) Conhecedora dos segredos das ervas, a avó deixa como legado ao neto o poder de curar, algo que o inexplicável crescimento de mandrágoras e beladonas, plantas associadas a feitiços, denuncia. De diversas formas o sobrenatural percorre o relato, como é o caso dos onipresentes cheiros, indícios de coisas futuras. Pouco antes de se tornar amante do ainda criança José de Risso, a bela professora recém chegada ao povoado é tomada por “um cheiro a alfazema e a rosmaninho. Parecia-lhe que aquele cheiro se desprendera das lajes do telhado e se agarrara a tudo. ‘ Nunca senti um cheiro tão forte a flores', pensou enquanto acendia outro candeeiro, ‘parece o começo de uma estranha primavera.'” (p.52) E, de fato, para ela e seu aluno os encontros clandestinos no velho moinho aos finais de tarde se revelam como uma fonte de vitalidade. No entanto, ao ser descoberta a relação, restou à rapariga a expulsão do vilarejo no meio da noite e o encontro da morte “coberta pela neve e com as marcas do lobo de Espadañedo”. (p.53) Este, aliás, constitui outro elemento moldado pela lenda e pelo medo dos escuros desvãos das montanhas. Em face desses elementos que dizem respeito a uma ordem não racional, a pergunta que se impõe é esta: em que medida em plena era da globalização planetária a proposição desse mundo entre o mito e o mistério por Direitinho pode trazer à tona questões específicas da cultura lusitana?

Eduardo Lourenço, num dos textos em que mais enfaticamente parece ter logrado anatomizar o destino português, analisa o surgimento do Estado em Portugal como traumático, sem história, milagroso, o que viria determinar o caráter de seu povo:

A mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de imprevidência moura e confiança sebastianista, de “inconsciência alegre” e negro presságio, que constitui o fundo do carácter português, está ligada a esse acto sem história que é para tudo quanto nasce o tempo do seu nascimento. Através de mitologias diversas, de historiadores ou poetas, esse acto sempre apareceu, e com razão, como da ordem do injustificável , do incrível , do milagroso , ou num resumo de tudo isso, do providencial. 2

 

Crítico dessas raízes, posto que dão origem a uma tendência para o mistério na cultura lusitana, inclusive quando se trata de lidar fatos da história, o ensaísta segue usando a idéia de trauma para explicar o presente inconsistente do país, que precisa romper com

um jogo que faz parte intrínseca do a-criticismo , do irrealismo de fundo de um povo que foi educado na crendice, no milagrismo, no messianismo de pacotilha, em suma, no hábito de uma vida pícara que durou séculos e que uma aristocracia indolente e ignara pôde entreter à custa de longínquos Brasis e Áfricas. 3

 

Por ser interessante a um estado autoritário, a natural índole mística gera a má-consciência sobre si mesmo e sobre a história, encobrindo o papel violento do colonizador em terras d'além-mar com as tintas da ignorância mística. Talvez por estarem cansados de tanto mito, de tanta explicação supostamente definitiva sobre o ser português e a portugalidade, expoentes como o sociólogo Boaventura de Sousa Santos se manifestam, e com razão, contra a irracionalidade de alguns desses discursos, propondo que se faça uma interpretação objetiva das condições materiais da sociedade portuguesa na contemporaneidade a fim de situar suas possibilidades efetivas numa ordem global e trans-nacional. Segundo tal perspectiva, Portugal é hoje uma sociedade semiperiférica, condição herdada do fato de ter sido por longo tempo centro de um império colonial e periferia da Europa, o que gera representações sociais discrepantes e práticas sociais instáveis, como a de uma agricultura pré-moderna, que subsiste em complexas relações com a agricultura e a indústria modernas. Mais curioso é o exemplo da medicina, que interessa no exame do romance pelas práticas de feitiçaria e cura do protagonista.

A heterogeneidade social própria da articulação entre elementos pré-modernos, modernos e pós-modernos verifica-se muito para além dos setores da produção material. No caso dos cuidados de saúde, por exemplo, a medicina popular desempenha um papel importante e é em muitas situações a medicina de primeira instância. Tanto na sua versão naturalista (chás, endireitas, etc.), como na sua versão sobrenaturalista (bruxas, promessas, etc.), a medicina popular é usada, quer como primeira opção, quer como único recurso em face da inacessibilidade (física ou financeira) da medicina oficial. 4

 

Mesmo nesta interpretação insuspeita, posto que objetiva, acerca da sociedade portuguesa, é ressaltada a inegável a coexistência de elementos tradicionais na sociedade portuguesa, que, se merecem ser explicados sociologicamente, distantes de uma idealização saudosista ou ingênua do atraso, não podem ser ignorados em nome de uma razão totalizadora. Como negar de todo que, malgrado o que intelectuais e artistas possam historicamente ter propugnado como essencial ao português, seja ainda hoje visível na fisionomia das cidades e das gentes lusas um quê de surpreendente (por extemporâneo) arcaísmo, de truculento misticismo e de leve devaneio que inquieta e faz sonhar gente como Wim Wenders, que situa nas sombras, luzes e sons lisboetas seu hino pós-utópico, o filme “Sob o céu de Lisboa” (1994). Da consciência sobre a “mixórdia” (quer dizer, sobre a mistura) que são todas as culturas desde sempre, como explica Peter Burke 5, nasce o embate contemporâneo sobre as possibilidades de se abordar conceitos como diferença e identidade de que partilham tanto indivíduos como sociedades, e, no caso em questão, a representação de elementos tradicionais por um ficcionista contemporâneo português.

Tem-se algumas pistas sobre a inquietação do tema escolhido por Direitinho já na recepção crítica de sua obra. Nuno Júdice, num texto de visada panorâmica sobre a literatura portuguesa do século XX, situa o jovem escritor “nas franjas do cânone”, “com o regresso a uma narrativa de ambiente rural, mas transfigurada por uma suspeita de fantástico que corresponde à dissociação crescente entre o campo e a tradição”. 6 Na crítica brasileira, destacam-se duas leituras mais detalhadas e, em certa medida, divergentes entre si no que diz respeito ao aproveitamento da tradição no romance. Patrícia Cardoso estabelece um paralelo entre a predestinação e a suspensão do destino do protagonista e as incertezas do narrador, que ora faz uso de recursos na tradição oral, ora adquire uma aura pós-moderna. Por essas ambigüidades, não acredita no interesse do autor pela simples recuperação das tradições, posto que suas leis de funcionamento já não fariam mais sentido:

Diante da visão da vida trágica que espera o filho, à mãe resta o consolo de saber que há coisas que nos escapam, por maior que seja nosso conhecimento das correspondências [entre o mundo humano e o natural]. A aceitação do imponderável nos termos em que a experimenta a mãe, só pode ser compartilhada por aqueles que tenham com a natureza o mesmo tipo de relação. Dificilmente alguém que viva uma vida moderna em uma cidade moderna se sentirá confortável para lidar com o imponderável nos mesmos termos, o que equivale a dizer que a experiência que espera o leitor do Breviário terá muito de estranhamento e pouco de identificação. 7

 

Patrícia Cardoso entende como parte de uma simulação a presença do mundo tradicional, muito mais importante sendo a ambigüidade de Risso: “a natureza do protagonista entre mundo humano e natural, em que destruição e criação estão ligadas de uma maneira que agora nos parece insólita”. 8 Entretanto, Tânia Maria Pantoja Pereira entende que Breviário das más inclinações “aponta para o vínculo com a tradição, e orienta-se em direção aos elementos mais fundamentais que configuram um traço da identidade portuguesa: certo apego a reminiscências arquetípicas, ligadas a um cenário substancialmente não-urbano”. 9 Por essa razão, são claras as referências a elementos típicos desse universo, como o que a autora chama de “memória étnica”, em que saberes práticos se evidenciam, e a fatores artesanais da narrativa, como o recurso à citação (os fragmentos do livro beato), ou a recorrência a mitos e ao fantástico (os grifos nefastos, o monstruoso lobo de Espadañedo). Com base nisso e no conceito de Walter Benjamin de narrador, a autora define o Breviário como uma forma de utopia e reserva a Direitinho o papel de uma “espécie de aedo pós-moderno”, memória viva que “coloca a narrativa romanesca a serviço da memória coletiva”. 10

Se não se pode negar que todas as culturas estão envolvidas entre si e são heterogêneas, não de pode, igualmente, recusar pura e simplesmente o pertencimento a um lugar. Nesse Portugal semi-periférico, herdeiro de povos e culturas diversas, persiste, como em outros lugares, a necessidade do maravilhoso, elemento tão forte nos textos tradicionais a satisfazer os desejos e as ansiedades da alma humana. Se nesse manancial pessoas são enfeitiçadas, sobrevivem rituais mágicos, violências e desastres são aceitos como obras do destino, é porque existe o substrato de um povo que talvez, mesmo sob a modernidade, mantenha um forte vínculo com o primitivo, com a irracionalidade e o mistério. Com ironia, o herói que cura é também passível de vingança, por isso se aproxima da brutalidade natural, sim, e escapa ao estereótipo de povo pacífico, do “jardim mimoso à beira-mar” salazarista. Ainda assim, é um povo que se sente confortável seja na aceitação das forças cósmicas, dos traços pagãos e anímicos, seja na experiência das rezas, benzeduras, ervas e procissões tão lusitanas, vinculadas a um espaço multicultural e multiracial em que as misturas fazem um bem danado e esconjuram o mal da intolerância, que esta também existe, mesmo na casa portuguesa, com certeza: “A terra não come nem os muito bons, nem os muito maus” (p.168) diz o povo sobre a suposta incorruptibilidade do corpo morto de Risso, em meio às rezas e especulações, verdade e mentira intrinsecamente irmanadas no culto a esse santo de pés de barro, adorado não obstante suas vilanias. Torturado pelo seu destino, Risso liberta-se com o retorno às suas origens. Na véspera da desfolhagem do milho, quando sua mãe encontrara seu pai, ela teve um sonho que não conseguiu decifrar: uma cobra morde a própria cauda, formando um anel de carne. Muitos anos depois, em outra época de desfolhar o milho, o pai retorna a Vilarinho dos Loivos. Risso o reconhece com hostilidade: “A única coisa que me daria de graça, já deu. E não lhe agradeço por isso”.(p.155) Se o sonho premonitório da morte da cigana dá início à sua sina de desgraçado e curandeiro, a tumultuada chegada de uma leva de saltimbancos serve de pano de fundo para seu desaparecimento. Como a cobra que se auto-devora, começo e fim se encontram. A folha de carvalho que o acompanhava desde o nascimento finalmente desprende-se do corpo martirizado que pode, enfim, entregar-se à morte encurralado pelos escorpiões. A morte o redime, salva de si mesmo, da fatalidade de poder curar, prever o futuro e ser, simultaneamente, um exilado na terra como o anjo devorado pelas asas que faziam voar:

Demorei ainda muito tempo a perceber que os anjos também morrem como os outros pássaros, esquecidos por todos e de barriga para o ar. Depois de os fazerem tombar, as asas só servem para esconder as feridas; mas aumentam a dor até eles já não conseguirem agüentá-la mais. E chegados aí, agradecidos e muito cansados, resta-lhes apenas um caminho, o do alívio. (p.150)

 

Mas Risso não será esquecido, permanece lenda e mistério nas narrativas de boca em boca e nos folhetos das romarias que insistem em continuar, definitivamente sepultados os limites entre a vida e a invenção. O significado dessa permanência aproxima a ficção das reflexões de João Barrento acerca da banalidade da dor em tempos pós-modernos. Dada a morte do sagrado, a dor tem sido vivida como espetáculo e, portanto como anestesia frente ao horror.

 

Ficamos mais sós. Sós não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder a esse lamento (como terá feito nas origens a natureza, antes de perder a fala), fica em silêncio. A esse silêncio chamavam já os Gregos (Sigé), o silêncio dos deuses, da transcendência, sinal do abandono dos homens. 11

Essa dor Direitinho não evita. O protagonista, predestinado ao bem, pelo poder de curar e pelos presságios de futuro, recebe a marca do mal inscrita em sua pele. Sua condição marginal, no entanto, não impede que tenha um lugar na comunidade. Assim como viaja à noite para salvar alguém, é capaz de matar por vingança. Assim como vive a solidão e o sadismo (diverte-se torturando sapos ou escorpiões), tem prazer com a professora, com a amante galega e com a moça louca, tão estigmatizada quanto ele. Não é sem ironia que o romance termina com a polifonia das procissões, com o cego tocador de sanfona a distribuir os folhetos em que se contam com várias vozes os mistérios, horrores e milagres do lendário José de Risso. Próximo da cultura popular, o discurso romanesco se apropria da fatalidade portuguesa de responder à dor no mundo com uma pitada de mistério. Nem no céu nem na terra, o herói português conhece a dor, não escamoteia as asas que, se o fazem grande, o mergulham irrevogavelmente na danação.

 

DIREITINHO, José Riço. Breviário das más inclinações. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001. p.47. As demais citações desta obra terão apenas a página referida no corpo do texto.

LOURENÇO, Eduardo. Psicanálise mítica do destino português. In: ____. O labirinto da saudade. 5.ed. Lisboa: Dom Quixote, 1992. p.18

Id.ib. p.49

SANTOS, Boaventura de Sousa. Onze teses para compreender Portugal. In: ____. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 5.ed. São Paulo: Cortez, 1999. p.67

Ver a esse respeito Hibridismo cultural. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2003.

JÚDICE, Nuno. Viagem por um século de literatura portuguesa. Lisboa: Relógio D`Água, 2000. p.102

CARDOSO, Patrícia da Silva. A quem se encomenda num breviário mau? In: Anais do XIX Encontro Brasileiro de Professores de Literatura Portuguesa (CDROM) Curitiba, 2003, p.845

Id.ib. p.847

PEREIRA, Tânia Maria Pantoja. A memória como elemento identitário na ficção de José Riço Direitinho. In: Anais do XVIII Encontro da ABRAPLIP. Santa Maria: ABRAPLIP, 2003. p.186

Id.ib. p.192

BARRENTO, João. Receituário da dor para uso pós-moderno. In: A espiral vertiginosa; ensaios sobre a cultura contemporânea. Lisboa: Cotovia, 2001. p.70