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Uma leitura da crítica acerca de O Mandarim, de Eça de Queiroz, à luz da sátira menipéia
Ana Paula Foloni Gamba (UNESP – FCL Assis)

O presente trabalho tem por objetivo fazer uma leitura da crítica acerca de O Mandarim , de Eça de Queiroz, à luz da sátira menipéia.

Não nos é possível, pela pequena extensão deste trabalho, comentar detalhadamente cada texto crítico acerca da referida obra, porém, tentaremos destacar, dentre eles, aquele que reflete uma visão geral da crítica.

Este singular texto queiroziano tem sido alvo das mais diversas críticas desde a sua publicação, em 1880, até os nossos dias. Considerado por uns como “uma obra menor” quando comparado às demais obras realistas do escritor ( O Primo Basílio ou O Crime do Padre Amaro , por exemplo), ou como uma “estranha arte”, por outros, pela mescla de elementos tão opostos como a realidade e a fantasia, o sério e o cômico num mesmo texto, O Mandarim gerou e ainda gera muitas dúvidas e severas críticas devido à linha que segue – uma linha que, como o próprio Eça comentou em sua Carta que deveria ter sido um prefácio (QUEIROZ, 1951, p. 5-16) ao diretor da Revue Universelle Internationale de Paris, se afastava consideravelmente daquilo que se estava fazendo em Portugal naquela época. Mesmo os críticos que conseguem enxergar na obra um significado sócio-político-econômico, esbarram nas dificuldades que essa “estranha fantasia” apresenta, o que, a nosso ver, se traduz em uma dificuldade de compreensão da obra em sua totalidade e, por conseqüência, em uma interpretação superficial da mesma.

Assim, a nossa proposta de trabalho é apontar e comentar, à luz da sátira menipéia, um texto crítico sobre O Mandarim que traduza uma visão geral da crítica, e, desse modo, lançar uma nova luz sobre essa complexa e polêmica obra, possibilitando, talvez, uma melhor compreensão e interpretação deste singular texto queiroziano.

Optamos, dentre os textos de estudiosos da obra de Eça de Queiroz como Carlos Reis, Beatriz Berrini, Antônio Coimbra Martins, João Gaspar Simões, Joaquim Costa, Maria de Fátima Marinho, Moniz Barreto, Maria do Carmo Castelo Branco de Sequeira, pela crítica de J. G. Simões, pois, pareceu-nos ser ela aquela que aborda diretamente a questão que tanto tem incomodado os críticos: a utilização da fantasia como uma fuga ao áspero estudo da realidade e o conseqüente abandono da crítica social.

Porém, antes de passarmos à referida análise, necessário é que façamos algumas breves considerações acerca da sátira menipéia e de suas características.

Segundo M. Bakhtin (1981, p.92-97) a sátira menipéia é um gênero que se formou e se desenvolveu entre o final da Antigüidade Clássica e a época do Helenismo, e está inserida num campo especial da literatura que os antigos denominaram “campo do cômico-sério”(campo este que, devido às suas peculiares características, se opõe aos gêneros sérios como a epopéia, a tragédia, a história, a retórica clássica etc). Sendo um gênero cujas raízes remontam diretamente ao folclore carnavalesco, a sátira menipéia está impregnada por uma forte cosmovisão carnavalesca que lhe determinada as particularidades fundamentais e que coloca a imagem e a palavra numa relação especial com a realidade. Ainda de acordo com Bakhtin, são sátiras menipéias o Apokolokyntosys Claudii , de Sêneca, o Satiricon , de Petrônio, as Metamorfoses ( O Asno de Ouro ) de Apuleio, mas a noção mais completa do gênero, segundo o crítico, é aquela que nos dão as sátiras menipéias de Luciano de Samosata, que chagaram perfeitas até nós.

Bakhtin ainda comenta que a sátira menipéia exerceu uma grande influência na literatura cristã antiga e na literatura bizantina (e, através desta, na escrita russa antiga), e que em diferentes variantes e sob diversas denominações de gênero, ela continuou a se desenvolver nas épocas posteriores: na Idade Média, nas épocas do Renascimento e da Reforma e na Idade Moderna. De acordo com o crítico, tal gênero teve uma importância

enorme no desenvolvimento da literatura européia, e, em essência, sua evolução continua até hoje, tanto com uma nítida consciência do gênero quanto sem ela.

Passemos, agora, às particularidades fundamentais dessa sátira.

Segundo Bakhtin (1981, p.98-102), são 14 as características da sátira menipéia:

1-) O elemento cômico: São as situações que provocam o riso, que mostram o lado ridículo do homem e de suas ações.

2-) A excepcional liberdade de invenção temática e filosófica: A menipéia não está presa a quaisquer exigências da verossimilhança externa vital.

3-) As situações extraordinárias e extravagantes (peripécias e fantasmagorias): A particularidade mais importante do gênero da menipéia consiste em que a fantasia mais audaciosa e descomedida e a aventura são interiormente motivadas, justificadas e focalizadas aqui pelo fim puramente filosófico-ideológico, qual seja, o de criar situações extraordinárias para provocar e experimentar uma idéia filosófica. Com esse fim, os heróis da sátira menipéia sobem aos céus, descem ao inferno, erram por desconhecidos países fantásticos, são colocados em situações extraordinárias reais. Ainda é necessário salientar que se trata precisamente da experimentação da idéia , da verdade e não da experimentação de um determinado caráter humano, individual ou típico-social.

4-) O naturalismo de submundo: São as cenas que se passam em ambientes que não são nobres, luxuosos, mostrando as camadas mais baixas da sociedade, o submundo humano. 5-) O gênero das “últimas questões”: A menipéia é o gênero das últimas questões, onde se experimentam as últimas idéias, as últimas posições filosóficas. Procura apresentar as palavras derradeiras, decisivas e os atos dos homens, apresentando em cada um deles o homem em sua totalidade e toda a vida humana em sua totalidade.

6-) A estrutura em três planos: Devido ao seu universo filosófico, surge, aqui, uma estrutura assentada em três planos: a ação se desloca da terra para o céu e para o inferno.

7-) O fantástico experimental: Surgido na menipéia, consiste em uma observação feita de um ângulo de visão inusitado, de um ponto de vista diferente do normal.

8-) A experimentação moral e psicológica: É a representação de inusitados estados psicológico-morais anormais no homem: toda espécie de loucura, de dupla personalidade, de devaneio incontido, de sonhos extraordinários, de paixões limítrofes com a loucura etc

9-) As cenas de escândalo: São as cenas de comportamento excêntrico, de discussões e declarações inoportunas, ou seja, as diversas violações da marcha universalmente aceita e comum dos acontecimentos, das normas comportamentais estabelecidas e da etiqueta.

10-) Contrastes violentos/jogos de oposição: A menipéia é plena de contrastes agudos e jogos de oximoros: a decadência moral e a purificação, o luxo e a miséria, o bandido nobre etc. A menipéia gosta de jogar com passagens e mudanças bruscas, o alto e o baixo, ascensões e decadências; enfim, gosta de jogar com transformações violentas de situação.

11-) Elementos da utopia social: A menipéia incorpora freqüentemente elementos da utopia social, que são introduzidos em forma de sonhos ou viagens a países misteriosos. 12-) Os gêneros intercalados: A menipéia se caracteriza por um amplo emprego do gênero intercalado: as novelas, as cartas, discursos oratórios, simpósios etc.

13-) O pluriestilismo e a pluritonalidade: A existência dos gêneros intercalados reforça a multiplicidade de estilos da menipéia.

14-) Problemas sócio-políticos contemporâneos: É o enfoque dos problemas da atualidade. Trata-se de uma espécie de gênero “jornalístico” da Antigüidade que enfoca em tom mordaz a atualidade ideológica.

Terminadas essas considerações, passemos, então, ao estudo da crítica de Simões.

Em sua Vida e Obra de Eça de Queirós (1973, cap. VI - Entre o realismo e a fantasia, Parte II – De como o real foi subvertido pela fantasia, p.462-463), o crítico se debruça sobre o inquietante problema da fantasia em O Mandarim . Para o Simões, “(...) O Mandarim correspondia a uma evasão de tudo quanto até aí Eça de Queirós proclamara estrito cânone da obra de ficção”. Diz, também, que o escritor português se consagrou à tarefa de escrever a obra não graças a uma inspiração circunstancial ou a um passageiro acesso de fantasia, mas, sim, deliberadamente, conscientemente. Comenta, ainda, que, ao escrever tal obra, o realismo, o naturalismo, o cientificismo, a fisiologia, a crítica social e a sátira de costumes (tão comuns nas obras de Eça) vão por água abaixo. Esse é o momento, portanto, em que “saturado da experiência, entediado da observação, desiludido da fisiologia, farto de deformar a realidade, caricaturando-a dentro de um princípio que não excluía a própria observação, a própria experiência, os próprios fatos, decide dar largas ao seu temperamento de recalcado”.

Simões também afirma que um romance nos moldes realistas, cuidadosamente elaborado e com personagens estudadas à maneira dos cientistas, que uma novela de costumes grosseira e satírica num estilo sem finura, com caracteres escolhidos na mais baixa camada da sociedade portuguesa, não eram para ele, pois aceitar esses moldes implicaria em renunciar a uma das propensões fundamentais do seu temperamento de escritor: o culto da forma e o refinamento do estilo. Assim, o crítico vê O Mandarim apenas como “uma oportunidade imprevista de descongestionar a máquina sob pressão”, como uma “válvula de escape de um escritor que há dez anos andava de jogar de porta com o seu temperamento lírico”.

João Gaspar ainda comenta que desde os últimos folhetins da “Gazeta de Portugal” Eça não cometia desacato mais franco à sua personalidade forçada de realista, de naturalista, de crítico social, de fisiologista e de moralista, e que era chegado o momento de o fazer. Assim, durante o longo período de elaboração de Os Maias , abriu duas vezes a “válvula de segurança”: uma em 1880, para escrever O Mandarim ; outra em 1888, para escrever A Relíquia . São essas duas obras, portanto, que, segundo Simões, no incerto labor do romancista, após 1869, marcaram a sua reconciliação com aquilo a que ele chamará a “fantasia”, e que, ao fazer, sentira-se sem o peso incómodo da verdade, a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade .

Dando continuidade ao seu estudo sobre o texto queiroziano, Simões, no cap.VI, parte III, da supracitada obra, afirma que “O Mandarim é uma pequena peça literária, sem transcendência de tema, de estilo ou de composição. Pouco mais é que um desenfado, em que o romancista, cansado da análise da impertinente tirania da realidade , procura debalde recuperar o brio, entre lírico e “fantástico”, dos folhetins de 1866 e 1867”.

Diz que a obra não chegou a amadurecer, e que, escrevendo-a, o próprio Eça não havia dado conta de quanto desejava libertar-se da impertinente tirania da realidade . Para J. Gaspar Simões, o escritor português fez pouco mais que “fantasiar situações exóticas para o seu personagem”. Assim, para finalizar, João Gaspar enxerga em Teodoro apenas uma personagem inventada, “um cabide para a fantasia que o solicita”.

De tudo o quanto vimos, podemos concordar apenas – e somente até certo ponto – com a observação do crítico de que O Mandarim corresponde a uma evasão de tudo quanto até aí Eça proclamava estrito cânone da obra de ficção, e dizemos “somente até certo ponto” porque, em nossa percepção, a “evasão” de Eça de Queiroz deu-se apenas no plano da forma da estética realista/naturalista, mas não no plano do conteúdo , da essência dessa estética. Também concordamos com Simões no ponto em que afirma que essa “evasão” do escritor se deu de forma deliberada, consciente, mas paramos por aí. Quanto às demais observações do crítico – o abandono do realismo, da crítica social e da sátira de costumes, a afirmação de que a personalidade de realista/naturalista e de crítico social era forçada em Eça, a percepção de O Mandarim ser apenas uma válvula de escape para descongestionar uma máquina sob pressão – discordamos radicalmente, e procuraremos, agora, expor a nossa linha de raciocínio e, conseqüentemente, a nossa posição.

De fato, Eça de Queiroz criou um texto que se afastava consideravelmente dos textos construídos nos moldes realistas (como ele mesmo relatou ao editor da Revue Universelle em sua já citada Carta que deveria ter sido um prefácio ), pois mesclou em sua obra elementos radicalmente opostos como a realidade e a fantasia, o sério e o cômico, além de, aparentemente , abandonar a observação e a análise crítica da sociedade. Vejamos o trecho da carta onde o escritor faz essa declaração:

“O senhor quer dar aos leitores da Revue Universelle uma idéia do movimento literário contemporâneo em Portugal, e me dá a honra de escolher O Mandarim, conto fantasista e fantástico, onde vemos ainda, como nos bons e velhos tempos, aparecer o diabo, ainda que de sobrecasaca, e onde ainda existem fantasmas, embora com muito boas intenções psicológicas. O senhor está aceitando uma obra bem modesta, e que se afasta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura , que se tornou, nos últimos anos, analista e experimental; (...).” (QUEIROZ, 1951, p. 5) [grifo nosso]

Porém, essa “evasão”, essa “fuga” é apenas aparente, pois Eça nunca deixou de lado a análise do comportamento humano, a crítica social e a sátira de costumes. O que ele fez foi “camuflar” a impertinente tirania da realidade e o seu estudo para que eles se tornassem menos “ásperos”, e, para tanto, adotou o gênero da sátira menipéia.

Se nos reportarmos às 14 características da sátira menipéia apresentadas acima, veremos que essa “fantasia” que tanto incomoda os críticos de O Mandarim pode ser explicada por meio de duas delas: a excepcional liberdade de invenção temática e filosófica , que liberta o texto de qualquer exigência da verossimilhança externa vital, e as situações extraordinárias e extravagantes , onde a fantasia e a aventura são motivadas e justificadas pelo fim puramente filosófico – ideológico de criar situações extraordinárias para provocar e experimentar uma idéia filosófica (no caso de O Mandarim , a idéia de que todo mortal sucumbiria à tentação de enriquecer ilicitamente se tivesse a certeza da impunidade, mas que sua Consciência o cobraria eternamente por seu ato falho).

Assim, percebemos que a obra não é uma simples “válvula de escape”, uma “oportunidade imprevista de descongestionar a máquina sob pressão”, mas uma forma consciente e original de representar a essência do realismo: a análise crítica do ser humano. Vemos, portanto, que a “evasão” do mundo real para o da fantasia se deu apenas no aspecto estético do texto (em sua forma), e não em sua essência (no conteúdo).

Aliás, em seu Prólogo, Eça nos dá uma pista sutil sobre a forma como o seu texto deveria ser lido, ou seja, nos diz para não estranharmos a mistura de realidade e fantasia, pois esses dois elementos podem conviver lado a lado como dois bons camaradas :

Primeiro Amigo: “Camarada, (...), repousemos do áspero estudo da realidade humana... Partamos para os campos do Sonho, (...) Façamos Fantasia!...”.

Segundo Amigo: “Mas sobriamente, camarada, parcamente!... E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta...” (QUEIROZ, 1951, p. 17).

Desse modo, vamos demonstrando (e argumentado) a nossa proposta de leitura para o texto: a sátira menipéia como meio para denunciar mazelas sociais como a ambição, a ganância, a cobiça, a hipocrisia, o adultério e a corrupção presentes na sociedade portuguesa – e no homem – do século XIX.

Vejamos alguns trechos do livro que denunciam algumas dessas mazelas.

“Eu chamo-me Teodoro – e fui amanuense do Ministério do Reino. Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta (...). A minha existência era bem tranqüila e suave. Toda a semana, de mangas de lustrina à carteira da minha repartição, ia lançando, numa formosa letra cursiva, sobre o papel Tojal do estado, estas frases fáceis: ‘Ilmo e Exmo Sr. – Tenho a honra de convidar a V. Exª (...)'. Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso (...) pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vênus! Oh! Moços que vos dirigis a São Carlos (...) quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço me excluíam para sempre dessas alegrias sociais vinha-me então ferir o peito...”. (QUEIROZ, 1951,)

 

Por essa descrição da personagem Teodoro, percebemos a preocupação de Eça de Queiroz em representar a burguesia lisboeta, suas frustrações e seus anseios. Portanto, Teodoro não é apenas “uma personagem inventada”, “um cabide” para a fantasia do escritor, como afirma J. G. Simões, mas um típico burguês do século XIX. O Próprio diabo descrito por Teodoro assume essa feição:

“(...) vi, muito pacificamente sentado, um indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe média como se viesse da minha repartição... ”. [grifo nosso] (QUEIROZ, 1951,)

Desse modo, para completar o quadro do mundo burguês pintado por Eça, basta que nos lembremos da atitude de Teodoro frente aos seus desejos: para ascender socialmente e obter os prazeres materiais que tanto desejava, não hesitou em assassinar o mandarim. Está aí descrita a mentalidade do “diabo de sobrecasaca”, ou seja, a mentalidade burguesa: conquistar a ascensão social e a riqueza a qualquer preço.

Assim, percebemos que Eça de Queiroz, apesar de toda a fantasia utilizada, nunca se afastou da realidade, mesmo porque uma outra característica da sátira menipéia é a abordagem em tom mordaz dos problemas sócio-políticos contemporâneos . Em nosso trabalho de análise da obra O Mandarim , encontramos os seguintes pontos tratados por Eça: crítica à classe dirigente, com seus governantes gananciosos, corruptos e cínicos e a conseqüente crítica a um regime político corrompido e decadente; crítica ao adultério; crítica ao idealismo romântico; crítica ao jogo de interesses no amor e na política; crítica à hipocrisia social e crítica ao clero.

Para finalizar o nosso estudo acerca da crítica de Gaspar Simões, resta-nos comentar que O Mandarim não é uma “pequena peça literária sem transcendência de tema, de estilo ou de composição”, como afirma Simões, mas uma obra-prima que transcende e muito o tema, pois, apesar de banal – como aponta Antônio Coimbra Martins (1967) em seu estudo sobre as fontes do autor – foi utilizado de uma forma nova e original, foi utilizado com a mesma finalidade de análise e crítica dos romances realistas/naturalistas da época; uma obra-prima que transcende em estilo, pois Eça de Queiroz resgatou um gênero que surgiu na Antigüidade clássica e que só foi retomado na Renascença com Rabelais; uma obra-prima que transcende em composição, pois só mesmo um escritor genial como Eça de Queiroz seria capaz de ir buscar tão longe um gênero tão complexo e praticamente esquecido (ou até mesmo desconhecido) por grande parte dos escritores e adaptá-lo aos fins que a literatura do século XIX exigia.

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