![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Globalização e a travessia impossível das identidades
Zelina Beato (UNICAMP)
É impossível contar as línguas,
eis o que eu queria sugerir.
Não há calculabilidade,
a partir do momento em que
nunca o Uno de uma língua,
que escapa a qualquer contabilidade aritmética,
é determinado.
O Uno da monolíngua de que falo,
e aquele que eu falo,
não será portanto, uma identidade aritmética,
nem mesmo uma identidade “tout court”.
A monolíngua permanece portanto incalculável,
pelo menos nesse traço.
JACQUES DERRIDA
Essa reflexão tem como proposta confrontar um ensaio de Stuart Hall, sociólogo jamaicano, e uma experiência de tradução relatada por Pilar Godayol à luz das idéias de Jacques Derrida expostas em seu livro O Monolinguismo do Outro. Ou a prótese de origem 1. O que estará em evidência nesta reflexão é o tema da identidade, em especial no que pode se relacionar às questões de fronteiras, língua, tradução e cidadania.
Em seu livro intitulado “A identidade cultural na pós-modernidade” 2, Hall faz um breve exame do que ele nomeia “crise de identidade”. Um processo marcado por complexidades, por características contraditórias, pela idéia do descentramento acentuadas de forma dramática pela globalização, e que teria por conseqüência imediata o enfraquecimento “dos modelos que até hoje deram aos indivíduos um lugar estável no mundo social” (p.3).
Segundo Hall, essa crise é um processo amplo que desloca as estruturas e processos centrais das sociedades modernas, implicando, como conseqüência, duas tendências contraditórias. Por um lado, uma certa fragmentação das identidades aguçada pelas formas mais recentes da globalização. Por outro, uma reação defensiva ao processo de globalização que pode ser identificada no ressurgimento dos movimentos nacionalistas de proteção às identidades nacionais.
Para Stuart Hall, isso a que nomeia de “crise de identidade tem como eixo as modificações pelas quais passou o conceito de sujeito – partindo de um sujeito como “senhor da consciência, racional e científico”, passando pelas mudanças conceituais operadas pela instituição das novas ciências sociais até culminar no conceito de sujeito pós-moderno, resultante da descoberta do inconsciente por Freud. Ainda segundo esse teórico, esse movimento de transformação da concepção de sujeito vai produzir reflexos no conceito de identidade cultural / nacional – mudanças estruturais que têm transformado as sociedades modernas e que multiplicam as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnicidade, raça e nacionalidade.
Para reforçar esse argumento a propósito de uma certa “pluralização” das identidades, Hall usa uma “situação concreta”. Ele relata um episódio jurídico e político da história americana. Um juiz conservador negro nomeado para a Suprema Corte, ao ser acusado de assédio sexual por uma mulher negra, polarizou a sociedade americana segundo as identificações que sua condição suscitava nas diferentes classes ou movimentos sociais. Alguns negros apoiaram-no com base na questão racial, outros se opuseram a ele com base na questão sexual. As mulheres negras ficaram divididas, dependendo de qual identidade prevaleceria, se como negra ou como mulher. Os homens também se dividiram com base em seu conservadorismo ou liberalismo sexual. Nesse episódio, mais que a culpa ou inocência do juiz, estaria evidente a trama suscitada pelo jogo de identidades.
No modo corrente da identificação, uma identidade é construída pressupondo a possibilidade de uma nomeação a partir da presença a si, a possibilidade de apresentar-se, definir-se, nomear-se. Identificar-se, exige, por definição, uma totalização, uma formalização de tudo o que caracteriza o ser daquele nome, encerrando de imediato as propriedades definitivas, isoladas e enfeixadas num limite semântico preciso e fixo.
Nessa reflexão, Hall mantém no horizonte uma concepção de fragmentação associada à idéia de quantidade numérica de opções. Ao indivíduo, outrora uno, centrado num self fixo, coerente e estável estariam agora disponíveis uma multiplicidade de identidades possíveis. A fragmentação do sujeito, de sua identidade, está na multiplicidade de opções, de categorizações e divisões segundo as quais poderia se posicionar (cf. p.15).
O conceito de fragmentação, como definiu Hall, envolve a noção de multiplicidade numérica de identidades. Ora, a capacidade de identificar cada uma das unidades distintas umas das outras, se faz diante da possibilidade de contar, de separar uma da outra: o um do dois, do três, e assim por diante. É preciso, pois, definir com precisão o que é cada umas dessas identidades possíveis: o que é ser mulher, homem, negro, branco, conservador, liberal, etc., para que o sujeito possa, no ato de se identificar, enfeixar, pelo sinal de adição, cada uma das identidades que poderiam, por acréscimo, identificá-lo.
Aceitando-se, como fará Hall, a lingüística estruturalista de Saussure como um importante fator de descentramento do conceito de identidade, teremos que aceitar que a cadeia de significantes funciona fora da lógica do significado como presença positiva, incluída numa relação de diferenças, não há pois como manter-se na expectativa de que se possa falar em identidades no plural, implicando a possibilidade de anunciar cada uma delas e enumerá-las numa relação de 1+n: ser mulher + negra + conservadora ou ser homem + branco + liberal. Não haveria, pois, a possibilidade de enumerar qualidades universalizantes que iriam se agregando umas às outras a partir de um sinal de adição.
Como nos diz Derrida, em O Monolinguismo do Outro , ao contestar a possibilidade de lhe atribuírem a identidade franco-magrebina:
Para saber quem é franco-magrebino, é preciso saber o que é (ser) franco-magrebino , o que quer dizer “franco-magrebino”. Mas no outro sentido, invertendo a circulação do círculo e para determinar, vice versa, o que é ser franco-magrebino , seria preciso saber quem o é, e sobretudo (ó Aristóteles!) quem é o mais franco-magrebino? Autorizamo-nos aqui uma lógica cujo tipo é, digamo-lo pois, aristotélico: regulamo-nos pelo que é “o mais isto ou aquilo” ou pelo que é “o melhor isso ou aquilo”, por exemplo pelo ente por excelência, para chegar a pensar o ser do que é em geral , procedendo assim, quanto ao ser do ente, da teologia para a ontologia e não o inverso... (p.23)
Quando nos oferece uma explicação do que seria a identificação pura do que é ser um franco-magrebino, e dai classificar-se como tal, Derrida dramatiza as implicações envolvidas em qualquer tentativa de nomeação, de conceituação, de identificação. Naquele exemplo dado por Hall, essa expansão atinge em cheio a tarefa inglória de apresentar definições precisas para qualquer conceito identificatório, seja ele mulher, homem, negro, branco, conservador ou liberal.
Mas, indo em frente. O objetivo final, de Stuart Hall, como nos diz, é examinar como “este sujeito fragmentado é situado em termos de suas identidades culturais” (p.51). Sua preocupação maior está, afinal, no que chama de “identidade nacional” em face do fenômeno da globalização. Preocupa-se especificamente, de que forma “as identidades culturais nacionais estão sendo afetadas ou deslocadas pelo processo de globalização”. A identidade cultural se faz, necessariamente, no interior de uma língua, nossa língua por nascimento. A língua e o território sempre estiveram associados à idéia de filiação. Derrida, no livro O Monolinguismo do Outro traduz essa associação:
Sou monolingüe. O meu monolinguismo demora-se e eu chamo-lhe minha morada, e sinto-o como tal, nele me demoro e nele habito. Ele habita-me. ... Ele constitui-me, dita-me mesmo a ipseidade de tudo, prescreve-me, também, uma solidão monacal, como se quaisquer votos me tivessem ligado a ele antes mesmo de ter aprendido a falar.... Ora jamais esta língua, a única que assim estou votado a falar, enquanto falar me for possível, e em vida e na morte, jamais esta língua, estás a ver, virá a ser minha. Nunca na verdade o foi. Percebes assim a origem dos meus sofrimentos, uma vez que esta língua os atravessa de parte a parte, é o lugar das minhas paixões, dos meus desejos, das minhas preces, a vocação das minhas esperanças (cf.p13-14)
A língua como pátria, como lugar de morada e abrigo. Lugar de acolhimento e hospitalidade. Entretanto, a língua a que chamamos materna não é verdadeiramente nossa, é a língua do outro, precede-nos e a recebemos como herança e como lei. Segundo Derrida,
Mesmo quando se tem apenas uma língua materna e se está enraizado em seu local de nascimento e em sua língua, mesmo nesse caso, a língua não pertence. Que ela não se deixa apropriar, naquilo que toca a essência da língua. Ela é, a língua, aquilo mesmo que não se deixa possuir, mas que por isso mesmo provoca todo tipo de movimento de apropriação.
Reconhecemos, portanto, como não é apropriado falar em termos de pertencimento quando se fala em língua materna. Estar em casa numa língua dita materna é um estar precário e ilusório, mais desejoso que real. Assim, é que não nos parece possível lançar mão da língua para, no interior dela e com ela, construirmos uma identidade.
A globalização, ao atravessar fronteiras, implica nesse processo um movimento de confronto das identidades culturais/nacionais e problematiza a idéia de uma sociedade que se organiza segundo perspectivas definidas de tempo e espaço. Ao impor ao sujeito novos conceitos espaço-temporais, o processo de globalização, essencialmente um gesto de “atravessar fronteiras”, exige também novos conceitos de identidade cultural/nacional numa sociedade que não parece mais se organizar unicamente segundo parâmetros supostamente fixos de território, língua, memória.
Um exemplo que poderia nos ajudar a pensar e problematizar essas questões de identidade cultural/nacional, língua, território e cidadania é o fenômeno do spanglish , uma manifestação lingüística resultante da aproximação entre o que podemos chamar de culturas americana e hispânica.
Em maio de 2001, Pilar Godayol, uma pesquisadora da Faculdade de Ciências Humanas, Tradução e Documentação da Universidade de Vic, em Barcelona na Espanha, esteve na Unicamp para uma palestra 3 sobre a tradução da literatura chicana. Ela apresenta exemplos de tradução de um conto de Sandra Cisneros, cuja escrita seria um exemplo do que se conhece por spanglish , a face lingüística da latinização dos EUA.
Dentre os exemplos que trouxe, escolhi duas estratégias eleitas por dois tradutores diferentes. Esses exemplos de estratégias de tradução podem ilustrar a complexidade que envolve qualquer tentativa de identificação. Um deles é o seguinte trecho de um conto de Cisneros chamado “Mericanos” 4: “Estamos esperando a la abuela enojona que está dentro echando pesos em la money box para las ofrendas endelante del altar de La Divina Providência” (p. 18). Godayol apresenta duas estratégias diferentes de tradução para esse trecho. Na primeira, o tradutor decide simplesmente inverter as línguas do original: “We're waiting for the awful grandmother who is inside dropping pesos into la ofrenda box before the altar to La Divina Providencia”.
Uma segunda estratégia é aquela em que o tradutor parece manter a uniformidade lingüística, no caso o espanhol, e, com isso, diluindo o efeito causado pelo encontro lingüístico anglo-hispânico: “Esperamos a la horrible abuela que está dentro, echando pesos em la caja de las ofrendas, delante del altar de la Divina Providencia” (p. 39).
Mantendo no horizonte os temas que propus pensar no início desse trabalho em face da possibilidade/necessidade de identificação, poderíamos listar uma série interminável de interrogações e desafios com as quais se deparou Godayol, ela própria traduzindo Cisneros para o catalão. Como não perder aquele efeito que se produz pelo encontro entre as duas línguas? O que de cada uma está comprometido nessa nova língua? Quais seriam as fronteiras entre essas duas línguas, supostamente o inglês e o espanhol? Quem é o falante/autor dessa língua? Qual território habita? Que cidadania possui? Diante dessa língua, aceitando-se inclusive que ela seja uma língua, como traduzir-lhe um texto? É preciso, todo o tempo, levar-se em conta as questões que envolvem cada tentativa de identificação. Como identificar ai a língua espanhola propriamente, uma vez que parte-se de uma generalização que identifica como spanish o que falam cubanos, porto riquenhos, mexicanos, todos os habitantes da América do Sul com excessão do Brasil e, oportunamente, espanhóis, o povo que supostamente habita um território denominado Espanha, mas que guarda dentro de suas fronteiras diferentes línguas, o catalão, o basco.
Como se vê, em cada uma das tentativas de identificação, questões espinhosas aparecem. Surgem sempre demandas para as quais não se encontram respostas. Além disso, se a língua se nos apresenta como um sinal de identidade, um cenário de nascimento, uma herança, um lar onde habitar, o lugar de nossas paixões, desejos, preces e vocações, como se processaria a identidade lingüística dessas mulheres chicanas, essas “mericanas”? O que essa condição de estar em fronteira, de estar “entre”, pode nos ajudar a refletir sobre a crise da identidade cultural/nacional?
Esse acontecimento trazido pelas reflexões de Godayol, o estar “entre”, no limite presumido de duas fronteiras, dramatiza a condição de indecibilidade que marca qualquer tentativa de identificação. O mote usado por Godayol foi justamente a sedução da noção do entre , em Derrida, o estar-se na fronteira estabelecendo uma relação de aproximação incompleta, que não cruza totalmente a fronteira, nem dela permanece aquém, mantendo o outro como outro, resistindo ao desejo de assimilá-lo, de desvendar sua verdade.
Na opinião de Hall, a globalização, ao contrário de promover o triunfo do “global”, abriu espaço para movimentos mais variados e contraditórios – o descentramento do Ocidente. Hall quer sugerir que a fragmentação das identidades, tornada mais evidente pelas formas atuais da globalização, promove a fragmentação das identidades culturais e nacionais, fazendo, com isso, ressurgir os movimentos nacionalistas. Movimentos de retorno às formas fixas de identidade e de resgate dos particularismos culturais e étnicos.
Ao analisarmos as questões trazidas por Godayol em torno da tradução do conto de Cisneros, é oportuno rever essa noção de Hall de que são as variadas formas da globalização que promovem a fragmentação das identidades e seu reativo contrário, o retorno ao que é local e nacional. O acontecimento extremo trazido por Godayol dramatiza a condição de encontro que promove a globalização. Esse encontro com o outro implica a necessidade de se dizer “eu”. Para me diferenciar do outro, preciso identificar quem, ou o que sou eu, qual a minha identidade, qual a minha língua, qual a minha pátria, qual a minha cidadania.
A globalização, antes de promover qualquer processo de fragmentação identitária, dramaticamente torna evidente a impossibilidade de determinar com exatidão qualquer dessas identificações: a língua, o território, o conjunto de padrões de representação, de discursos, de símbolos, de memórias, de imagens em torno do que, como afirmou Hall, é construída a “identidade nacional”. O que vem abalar o conforto proporcionado pela construção das identidades na perspectiva da modernidade não é o processo de globalização em si. A globalização não faz mais que tornar clara essa impossibilidade. O que não implica absolutamente o seu abandono. Se acreditar na possibilidade absoluta é um delírio, crer na sua impossibilidade também o é. Tudo se organiza na economia desse delírio.
DERRIDA, J. O Monolinguismo do Outro. Ou a prótese de origem . Trad. Fernanda Bernardo. Ed. Campo das Letras. Porto, 2001.
HALL, Stuart. Identidade Cultural . Extraído de Textos Didáticos. Tradução revisada por Vanderli Silva. São Paulo. Coleção Memo, Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, 1997.
GODAYOL, Pilar “Traducir Derrida: la seducción del entre ”. Conferência proferida na UNICAMP em 2000. Texto inédito .
CINEROS, S. “Mericanos”, in Érase un hombre, érase una mujer , trad. De E. de Hériz. Ediciones B, Barcelona, 1991