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Travessia e impasse: a tradição modernista na poesia de Sebastião Uchoa Leite
Paulo Andrade (UNESP/Araraquara)
A obra de Sebastião Uchoa Leite é circunscrita num campo de tensão ? desvio e aproximação ? com a tradição do alto modernismo, o que impossibilita a demarcação de limites a quem busca traçar um contorno da sua poética. Apontando para outros cenários e concepções de criação artística, ofusca-se na sua escrita o mito do poeta fundador, que tem como missão instaurar uma nova tradição ou construir um novo homem e uma nova ordem social. Para viver a modernidade, nos ensina Benjamin, é preciso uma formação heróica. O ato de heroicidade está intimamente atrelado à figura do artista de vanguarda que, confiando em sua missão, adota uma postura combativa e guerreira, a fim de instaurar o novo, preparando caminho para os outros que estariam por vir.
Dentro da rede de relações que a poesia de Uchoa Leite tece com a tradição nacional e estrangeira, ressalta-se a sua singularidade. Se, de um lado, insere-se na tradição do modernismo, absorvendo as heranças que foram consolidadas e que configuraram certa tradição poética brasileira, como o coloquialismo de Bandeira, o humor de Oswald de Andrade, a poesia auto-reflexiva de Drummond de Isso é Aquilo e Lição de coisas , de 1962, por outro lado, também absorve a dicção cabralina, alinhado-se com a linhagem construtiva de João Cabral, sobretudo no que concerne à negatividade poética e à rejeição do subjetivismo. No entanto, como observa Costa Lima, Uchoa Leite não amplia tais modelos, “mas procura triturá-los”.
Não concebendo o modernismo como força propulsora, mas como forma, o poeta não descarta as conquistas dos fundadores do movimento, entretanto, esforça-se por transgredi-las, ao contaminá-las com referências de toda ordem, seja da alta cultura seja da cultura de massa. Ruminando o modernismo, mas centrado no contexto de seu tempo, utiliza-se de uma linguagem concisa para expressar suas preocupações em relação à cultura contemporânea, que faz dos signos e símbolos mera mercadoria.
Quanto à poesia concreta, embora esta tenha exercido influência decisiva em sua obra, Uchoa Leite também sustenta uma relação ambígua, marcada pela constante hesitação Os traços como contenção lírica e objetividade, por exemplo, são incorporados e transformados junto a outros procedimentos e formas, que acabam por rasurar a pureza e a autonomia da arte concretista. A crença “ na virtude transformadora da palavra poética ”, que pontuou o debate sobre os limites do engajamento político do poeta, como poeta, (NUNES, 1991, p. 172), bem como o aspecto da “ antitradição ”, uma poesia voltada para o futuro, não estão na pauta do pensamento estético de Uchoa Leite, senão a quebra da continuidade dessas soluções.
Um traço que singulariza a sua poesia é o diálogo promovido com as matrizes recalcadas pelo modernismo, como as da cultura de massa. Este traço pode ser conferido em outras vozes contemporâneos a do poeta como a de Silviano Santiago em Crescendo durante a guerra numa província ultramarina (1978), livro que articula fragmentos da memória cultural e pessoal do autor, além de fazer um mapeamento dos diversos discursos, versões de fatos da política, citações, paródias, pastiches ou a do poeta Armando Freitas Filho que “redesenha o legado de nossa estética moderna e sinaliza os vínculos com seu próprio tempo” (PEDROSA, 2003), como expõe no poema “Ultima forma”, no qual o eu lírico se reconhece perdido, sem lugar, ao seguir os rastros da tradição.
Poe. Pound. Pós.
Baudelaire entra no ar
Como uma bandeira.
Somos esses passos
Perdidos no deserto:
Neste lugar-comum nenhum
Em pedaços
Conscientes de que pertencem a um novo contexto em que a comunicação de massa é peça indissociável e parte integrante do universo contemporâneo, põem em circulação tais bens sem deixar, de serem críticos à realidade da indústria cultural. Nem apocalíptico, nem integrado, Sebastião sabe que a realidade é construída pelos veículos de massa e ele encena esse jogo.
Um dos traços definidores desta poesia surgida dentro da crise das vanguardas é a ruptura com a própria ruptura, a ruptura com a crença na estética do novo. O círculo parece estar fechado e sem saída, como bem diria Antoine Compagnon: “da ruptura com a tradição à tradição da ruptura e, por fim, à ruptura com a ruptura, que seria a nossa pós-modernidade” (1999, p. 125).
A revisitação de estilos, a reciclagem de dicções, modernas ou não, e a utilização de variados recursos poéticos promovem uma pluralidade de linguagens fazendo com que o leitor experimente uma presentificação do passado. Para dizer com Lyotard, “o ecletismo é o grau zero da cultura contemporânea” (1983, p. 95).
Consciente de seu lugar, Sebastião Uchoa Leite assume e reaproveita a herança cultural, mas adota uma postura ambivalente: a reverência declarada não significa uma linha de força unilateral a que se deve uma obediência deslumbrada e cega. Como afirma o próprio poeta: “embora tenha fascínio pela obra de João Cabral, (...) também me coloco numa atitude, em certos sentidos, oposta. Não de oposição no sentido de estar contra, mas no do que é possível eu fazer” (LEITE, 1990, p. 21).
Ao invés de demonstrar confiança no poder de articulação da linguagem, a poesia de Sebastião dramatiza a perda de confiança no discurso poético. Não por acaso, a falta de sentido para o ato de escrever é tema obsessivo da sua estética: “quem falou em poesia?/Alguém cospe” (LEITE, 2000, p. 80).
A desconfiança no poder da linguagem vem aliada ao humor, à paródia e à incorporação do coloquialismo, traço que, de certa forma, o aproxima da “poesia marginal”. Um dos pontos de aproximação e, ao mesmo tempo, de distanciamento da poesia de Uchoa Leite em relação à poesia marginal encontra-se na concepção do humor, do coloquial e da ironia ácida. Em Sebastião esses elementos decorrem da matriz coloquial-irônica da linhagem de Jules Laforgue e Tristan Corbiére.
A lição cabralina de valorização da materialidade do signo, que foi potencializada pelos irmãos Campos, não atinge, em Uchoa Leite, a radicalização da poesia concreta. O rigor construtivo de sua poesia não busca apenas o controle sintático, mas é utilizado para proliferar e abrir brechas para o ilógico, para enigmas, para elementos coloquiais, ironias, auto-ironias, humor e outras surpresas. Como diz Célia Pedrosa, “a vontade de contenção e lucidez (...) não implica necessariamente apologia da certeza e da exatidão” (PEDROSA, 2003, p.4).
Na tentativa de buscarmos a particularidade da poesia de Uchoa Leite, ressaltamos a evidência de que o autor não se filia dogmaticamente a nenhuma corrente ou “doutrina” poética que marcou o século XX. É mais fácil afirmar o que Sebastião Uchoa Leite não é, do que demarcar um território no qual se poderia circunscrever sua poética: não é uma voz de vanguarda, no sentido da permanente busca da invenção, optando muitas vezes por enfrentar o “desgaste da linguagem” e de velhos clichês; não é também um epígono da tradição moderna, apesar de ter-se alimentado de Baudelaire, Mallarmé, Eliot e dos brasileiros Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Drummond, Cabral e outros. Nem se pode afirmar também que a poética de Uchoa Leite esteja alinhada com a cultura de massa, pois, embora as produções de massa tenham sido uma de suas principais fontes, sua obra é refratária à adequação do gosto e da linguagem às capacidades de recepção do público médio. A indecidível ambigüidade de sua poética consiste, portanto, em não demarcar territórios espaço-temporais, nem tampouco buscar direções definidas e inflexíveis.
Desde a publicação de Antilogia , Sebastião Uchoa Leite elegeu como estética a mescla de territórios e o entrecruzamento de linguagens, que redundou num projeto textual híbrido, de travessia, decorrente do percurso nômade do poeta, que transita, entre a tradição da modernidade, desde a vertente coloquial-irônica dos simbolistas Jules Laforgue e Tristan Corbiére, até as referências do mundo contemporâneo.
Tal tática acaba por desvelar o jogo literário, trazendo à tona seu processo de criação em que o texto poético é construído com resíduos da literatura e de outras linguagens possíveis. Isso possibilita o ressurgimento de um ritual antropofágico, corroendo o outro e absorvendo-o para si. A deglutição crítica realizada por Sebastião Uchoa Leite aproveita matrizes da cultura nacional e estrangeira e também de outras linguagens artísticas.
Se a autonomia da obra de arte modernista é sempre uma resistência à tentação fácil e sedutora da cultura de massa, à impureza de discursos, a poesia de Uchoa Leite oferece uma resistência, pelo grau de dificuldade imposto ao leitor, que fica perdido na floresta de signos, já que o poeta não faz a menor concessão a um público mais amplo. Indiferente às tentações do mercado ou às regras sociais de comportamento literário, a o incorporar a cultura de massa, Uchoa Leite consegue tornar a absorção do seu trabalho ainda mais difícil para o leitor, que se sente desconfortável e estranho (na concepção de Chklovski) diante do embaralhamento de territórios. Desse modo, ao mesmo tempo em que preserva as premissas fundamentais da arte modernista, sua poesia distancia-se das mesmas.
Se a autonomia da obra de arte e sua conseqüente separação da cultura de massa é um traço fundamental da arte modernista, a obra de Sebastião mantém a autonomia quanto à utilização dos recursos da linguagem, mas não se prende à especialização dos elementos constitutivos da poesia, próprias de uma arte auto-referente e auto-consciente, cuja principal realidade é a linguagem. Ao contrário, a sua linguagem é transitiva e mira o olhar para a realidade exterior, o mundo contemporâneo, santuário da cultura de massa.
O entrecruzamento de fronteiras não é um jogo inócuo ou gratuito de linguagem. Todas os personagens, seja da alta cultura ou da cultura de massa, eleitas para figurar em seus poemas possuem significações específicas dentro de sua obra. As referências a Mallarmé, Valéry, Pound, Gertrude Stein, Marianne Moore, João Cabral de Melo Neto, apontam para uma poética crítica, que elege procedimentos técnicos determinantes de um modo de compor que valoriza ao mesmo tempo a materialidade da linguagem e a crítica à realidade, bem como as fraturas das construções verbais. Aliado aos princípios de invenção e rigor formal, encontra-se presente um universo denso, estranho e insólito, que transparece, por exemplo, na exaltação realizada pelo sujeito lírico do nome de Jorge Luiz Borges.
O rigor formal também vem associado a uma linguagem felina, tal como formulada pelo poeta no ensaio “A linguagem do susto”, que aborda o conto “Meu tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa. “A linguagem da felinidade, cheia de silêncios, de saltos e sobressaltos. A linguagem do susto e da atenção. Do que se abate sobre algo e do que sabe ficar agachado, à espreita” (1988, p. 40). Além de um bestiário relacionado ao enigmático (panteras, serpentes, gatos), a linguagem felina está relacionada aos jogos de identidade, de ocultamentos, disfarces e despistamentos, de ambivalências e de identidade equívoca. A indecidibilidade , própria da constituição da poética de Uchoa Leite, encena e problematiza também, no corpo do poema, noções como sujeito, poesia, realidade e verdade.
Outras premissas importantes para a arte modernista como o aniquilamento do “conteúdo”, para a valorização da forma, o apagamento da subjetividade e da voz autoral também sofrem abalo em sua poesia. Se tais procedimentos não são norteadores para a criação poética de Uchoa Leite, por outro lado não têm importância secundária. Portanto, não se trata de deslocar o centro para a periferia, ou a periferia para o centro, mas de promover uma rearticulação entre tais elementos, de modo que o texto poético de Uchoa Leite vá sendo construído numa espécie de entre-lugar, no intervalo da “Grande Divisão”. Sem dúvida, estamos diante de uma “uma estética de transição, parasitária e tributária da modernista”, como sintetiza Gianni Vattimo ao definir o pós-modernismo (VATTIMO, 1987).
Um conciso levantamento das referências do livro A uma incógnita (1991) permite-nos demonstrar como Uchoa Leite realiza uma simbiose de discursos, montando um amplo painel, onde se entrecruzam alusões a obras de arte e citações de autores consagrados da tradição moderna como Kafka, (“minha culpa não é a de Joseph K”, p. 89), Emily Dickson (“Tal Emily Dickinson/dura e pura”, p. 52), Samuel Beckett, Rilke, Hammett, Lovercraft, Manuel Bandeira, João Cabral, Murilo Mendes; a pensadores como Nietzsche e pintores como Man Ray; a quadros famosos ou personagens da literatura, como Herr Doktor, e de Histórias em Quadrinhos, como Elektra, Watchmen, MAD. Há também uma série de referências a atrizes de cinema, como Charlotte Rampling, a criminosos que se tornaram célebres como Landru, a detetives como Dick Tracy, além de inúmeras referências ao mundo da música erudita ou do jazz, incluindo diversos compositores: Tartini, César Franck, Schubert, Thelonius Monk, John Coltrane.
Todo esse mosaico de referências, que são operadas simultaneamente, resultam numa aparente desordem, sugerida pela desconexão de referências autobiográficas e pela problematização dos limites entre o real e o imaginário como se observar no poema “Investigar-se” (1991, p. 42):
O hospital de novo
Sem saber o fim
De Manuel Bandeira
Ou as ninjas assassinas
De volta ao local
Não a vítima
Mas o Dick Tracy de si mesmo
E dos signos químicos com o radar caracol
a dúvida metódica
A tática de mesclar territórios díspares, promovendo uma oscilação entre o discurso metafórico e o referencial alcança níveis elevados de imprecisão, em função dos desdobramentos que ocorrem. Mais que um “ornamento imaginativo ou retórico”, termo de Derrida, as metáforas recorrentes no texto de Uchoa Leite articulam o modelo e a forma do seu pensamento poético. O mesmo se diz da postura do eu lírico cuja identidade fluida transita entre diferentes universos.
A cultura de massa aparece, na sua poesia, como contraponto, como citação, no interior de uma estrutura que é herdeira das vanguardas e da alta cultura. Por isso, afirmamos que se trata de uma poesia que se localiza num entre-lugar, entre a tradição da modernidade e das vanguardas, e as produções culturais da contemporaneidade.
Referências bibliográficas
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LEITE, Sebastião Uchoa Leite
LIMA, Luiz Costa. A poética átona de Sebastião Uchoa Leite . In: ___. Pensando nos trópicos (Dispersa demanda II ) . Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno explicado às crianças ; correspondência 1982-1985. Trad. Tereza Coelho. 2.ed. Lisboa: Dom Quixote, 1993.
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VATTIMO, G. O fim da modernidade – niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna . Lisboa: Presença, 1987.