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A tradução como um quase-transcendental
Olivia Niemeyer (UNICAMP)
Escolhi esse tema do quase-transcendental em Derrida para procurar entendê-lo melhor, para poder contar com mais um ponto de apoio ou mais um instrumento para examinar uma questão tradutória a partir da desconstrução. A questão seria: como levantar o tema da tradução como um quase-transcendental sem, entretanto, perder de vista a travessia entre possibilidade e impossibilidade da tradução.
Primeiramente, senti necessidade de procurar como o termo ‘transcendental' estaria inscrito na tradição filosófica. Na escolástica, transcendental seria o termo utilizado para designar categorias mais gerais (o Bem, o Belo, o Verdadeiro, por exemplo), as que transcenderiam as categorias aristotélicas. Para Kant, trata-se daquilo que não faz parte da experiência, sendo uma condição anterior e necessária a essa experiência. Seria, portanto, as condições de possibilidade de todo conhecimento. Eu poderia ou deveria também procurar o termo transcendental em Habermas ou Heidegger, ou Foucault, que teria elaborado uma noção histórica do a priori. Mas é suficiente apontar que o termo permanece comprometido com a tradição da filosofia.
Não seria o caso, como sabemos, de explicitar ‘ o que é' o quase-transcendental na reflexão derridiana, já que a pergunta ‘ o que é' também está comprometida com o pensamento metafísico que Derrida coloca sob suspeita. Mas isso não quer dizer que não possamos levantar questões – e questões tradutórias - a partir desse termo. Pretendo, portanto, examinar como Derrida chega a essa noção de transcendental , como a modifica com um ‘quase', e como a insere em outras perspectivas. Portanto, trata-se de escolher um termo bastante utilizado pela tradição, dobrá-lo de fora para dentro, movimentá-lo, provocá-lo, a fim de criar um contexto no qual possamos examiná-lo a partir da desconstrução.
Então, como ligar transcendental com desconstrução ? A princípio, não haveria nada que pudesse simplesmente ligar um conceito filosófico, um princípio ou parâmetro universal tão comprometido com a tradição do pensamento ocidental - a própria tradição que Derrida procura desconstruir - com a singularidade da operação desconstrutiva, com um tipo de reflexão que não privilegia instrumentos apriorístico ou modelos transcendentais. Segundo Geoffrey Bennington 1, o termo quase-transcendental foi ‘emprestado' de Rodolphe Gasché, e usado regularmente por Derrida depois de Glas, remetendo à noção de simulacro. Uma ficção do transcendental kantiano. Esse termo não funciona precisamente como um operador conceitual, mas guarda, digamos, “uma nostalgia” pelo transcendental kantiano. Um fantasma que ronda Derrida. Mas não podemos esquecer que, para a reflexão desconstrutivista, ignorar a nossa tradição filosófica - virar a página da filosofia, nos termos derridianos - seria somente filosofar mal. Sabemos também que Derrida desconstrói os textos que particularmente ama, procurando interrogar nossas certezas e trazer à tona as instabilidades que nelas habitam. Para Derrida trata-se sempre de interrogar a filosofia pelo lado de dentro, e não por fora, numa posição transcendente. E assim, Derrida, procurando se afastar do já conhecido, do já sabido, buscando estranheza e inquietação, acrescenta ao termo transcendental o prefixo quase , o que abala o conceito kantiano e abre caminho para uma conexão mais ou menos inesperada.
Derrida utiliza o prefixo ‘quase' com outros complementos: em Mes chances , fala em quase-totalidade; em Da hospitalidade , fala em quase-sinônimo; em Schibboleth, usa ‘quasemente' (quasiment). Em Limited Inc.: quase-conceito (p. 78). O ‘quase' funciona como uma rasura, a palavra continua valendo, mas de outra forma, abalada, deslocada do seu sentido comum, de-significada, recebendo uma nova significação sem perder, entretanto, a antiga. Colocar a termo quase antes de transcendental não somente o torna estranho, mas intervém, como faz constantemente a desconstrução, nos esquemas conceituais da metafísica. Em outras palavras, trata-se de traduzir o termo ‘transcendental', invertendo o caminho comumente percorrido pelo ato tradutório. Tradicionalmente, considera-se que a tradução de um termo consistiria em guardar o mesmo significado da palavra, mudando somente o significante. Nesse caso, é o contrário: Derrida conserva o significante ‘transcendental', colocando seu significado sob rasura, ou sob um ‘quase', que o problematizaria. Assim, não se trata simplesmente de uma troca de significado, mas de uma passagem em direção a um ‘antes' do sentido, a um suplemento criando a possibilidade do sentido, sua condição, seu quase-transcendental. Uma estratégia (emprestando o termo do texto psicanalítico de Abraham) anassêmica de Derrida?
O primeiro movimento em direção ao quase-transcendental seria o de ler atentamente um texto, prestando minuciosa atenção a todos os detalhes – como um colegial, diz Bennington –, relevando as dicotomias que suportam o pensamento do autor, expondo também como um dos termos dessas dicotomias foi privilegiado pela nossa cultura ocidental, engendrando, com tal manobra hierarquizante, aporias e impasses. Num segundo passo, Derrida inverte essa hierarquia explicitando que o foi apontado como falha no termo marginalizado estaria também presente no termo considerado central ou superior. Na desconstrução da dicotomia fala/escrita, tema recorrente em Derrida, temos primeiramente a inversão da hierarquia entre os dois termos, demonstrando que aspectos que sempre foram entendidos como características da escrita - a iterabilidade, por exemplo, a escrita considerada somente uma técnica para gravar a fala em inscrições que poderiam ser repetidas na ausência do falante -, é uma condição de qualquer signo, não apenas da escrita. Esse primeiro movimento é seguido por um segundo gesto, o de criar um ‘quase-conceito', trabalhar com uma nova denominação ou tomar emprestado um termo já conhecido retirando sua marca, atribuindo-lhe outra significação. No caso, Derrida fala então de escritura , que precederia e possibilitaria tanto a fala quanto a escrita. Uma arquiescritura, um quase-transcendental.
Por que tentar organizar uma conexão entre tradução e o quase-transcendental ? Segundo George Steiner 2: as teorias tradutórias – que são tão velhas como a Torre de Babel - sempre dependeram de alguma noção de equivalência e sempre se apoiaram numa moldura conceitual que assume a presença de uma mensagem no original e sua re-apresentação na língua de chegada . É possível pensar de outra forma? Seria possível ou necessário introduzir nos estudos tradutórios novos operadores, novas perspectivas ou inovações teóricas?
Edwin Gentzler, em Contemporary Translation Theories 3, propõe algumas perguntas do tipo ‘e se' que podem se revelar proveitosas para esse texto: e se invertêssemos teoricamente o pensamento sobre tradução e avançássemos a hipótese de que o texto original depende da tradução? e se sugeríssemos que sem tradução o texto original não existiria; e se afirmássemos que a sobrevivência do original depende da tradução? e se o original não tivesse uma identidade fixa e, assim, a cada tradução, assumisse uma nova determinação? Podemos pensar a oposição original / tradução em termos de condições pré-originais, pré-ontológicas ou quase-transcendentais? A desconstrução não só levantou essas questões, como também colocou em questão a própria natureza do ato de levantar essas questões. Sabemos que a desconstrução não apresenta uma teoria de tradução, mas utiliza-se da tradução para levantar questões sobre a natureza da linguagem, da interpretação, alargando a moldura conceitual que cercearam os estudos tradutórios por muito tempo, com o intuito de criar tensão, acentuar dúvidas, oferecer alternativas e fornecer argumentos pertinentes para a desconstrução da metafísica do sentido. Daí meu interesse em procurar entender como a noção de um quase-transcendental se articula com as teorias tradutórias.
Para tanto, é necessário entender a tradução (assim como a leitura, já que todo ato de ler é fundamentalmente um ato tradutório) como uma interpretação regrada do original, um texto inserido numa cadeia de significação onde todo texto se torna uma das interpretações possíveis de outra interpretação. O que não quer dizer, é claro, que toda interpretação (tradução ou leitura) possa ser pertinente ao original ou deva ser considerada correta.
Naturalmente, colocar a tradução como antecedendo simplesmente o original (ou um a priori ) não faz o menor sentido, seria somente acentuar uma visão tradicional da filosofia, a que confia na temporalidade linear entre textos. É difícil entender a questão do transcendental afastando-se dessa noção linear do tempo. Mas para isso podemos lembrar Jorge Luis Borges, quando afirma que cada escritor cria seus antecessores, cada autor modifica não somente o futuro do livro, mas também o seu passado. Só depois de Kafka ter escrito sua obra e que pudemos lançar um olhar na história da literatura e descobrir seus antecessores. Assim como um escritor cria seu antecessor, uma tradução criaria seu original. Para Gentzler, a noção de que o tradutor cria o original é introduzida pela desconstrução e serve para minar a noção de autoria e com ela a autoridade que serve de base para a comparação da subseqüente versão traduzida de um texto. Mas a questão aqui é colocar o tempo linear sob suspeita, e não criar um tempo que colocaria a tradução antes do original. Pensar em ‘antes e depois' deixou de ser produtivo para analisar o que acontece durante a tradução. A desconstrução argumenta que o texto original não está fechado em si mesmo, com seus significados congelados pela intenção do autor, mas está constantemente sendo re-escrito no tempo presente, na leitura e na tradução. Cada tradução / leitura / interpretação, por reconstruírem o texto de partida, fazem parte constitutiva do original.
A tradução vista aqui como uma interpretação regrada do original tem, portanto, um estatuto paradoxal em relação ao original. Ao mesmo tempo em que ‘não é a mesma coisa', isto é, não é a apresentação do mesmo texto em outro sistema lingüístico, ela permanece como a condição de possibilidade do entendimento ou da atribuição de significado ao texto de partida. Não haveria primeiramente um original que depois pudesse ser interpretado, mas há, desde sempre, somente sua interpretação. Ou, nas palavras de Foucault: “... não há nada a interpretar, [...] porque no fundo tudo já é interpretação, cada símbolo [...] é a interpretação de outros símbolos, [...] não houve nunca um interpretandum (algo a ser interpretado) que não tivesse sido interpretans (que não tivesse já sido uma interpretação)...” 4. Tudo já começa com uma tradução – com uma interpretação - como a condição de possibilidade de um original. Um quase-transcendental.
Seria essa a contribuição da reflexão desconstrutivista para as teorias tradutórias: deslocar conceitos já desgastados e não mais produtivos e abrir campo para o acontecimento de outras reflexões. A tradução, assim como literatura, pertence a um campo amplo demais e necessita de uma multiplicidade sempre renovada de teorização, de perspectivas minuciosamente retomadas, provocadas, reconstruídas e desconstruídas.
Bem, como sempre acontece, eu me enredo nas malhas da desconstrução. O pensamento labiríntico de Derrida impede que se fale somente sobre um termo ou somente sobre um quase-conceito. Afinal, tanto posso dizer que a tradução é a condição de possibilidade do original como posso dizer que é sua condição de impossibilidade, a tradução como aquilo que permite e impede, ao mesmo tempo, a compreensão do original. Entra-se assim, com Derrida, num labirinto onde a noção do quase-transcendental acaba se cruzando com o indecidível, o double bind , com o phármakon , o párergon , o suplemento, a différance , e com outros temas. Um labirinto esquisito, que não possui cantos onde essas noções possam ser acuadas, imobilizadas ou definidas. Talvez a figura do labirinto não seja a melhor metáfora para se pensar os textos da desconstrução, porque poderia dar a impressão de que não haveria uma saída, que o leitor ficaria perdido propositalmente nas entrelinhas ou nos paradoxos do discurso derridiano. O que não acontece. Seria melhor usar a figura de um hipertexto, onde cada um desses termos abrisse links para outros termos que por sua vez acrescentassem outros links e assim para frente.
O que fiz nessa apresentação foi pegar uma noção que me interessou ou instigou e persegui-la até onde pude, tentando acuá-la num campo, enquadrá-la numa definição, em suma, procurei me apossar dessa noção e, ao mesmo tempo, tentar manter o caráter hipotético do trabalho. Missão sempre impossível. Aliás, creio que esse enquadramento ou definição reguladora é impossível não somente com o quase-transcendental, mas com todas as noções desconstrutivistas.
Bennington, G. Jacques Derrida. Les Contemporains. Seuil. (1991).
Steiner, G. After Babel - Aspects of Language and Translation. Londres: Oxford e New York : Oxford University Press (1975).
Gentzler, E. Contemporary Translation Theories. London e New York : Routledge. (1993).
Foucault, M. Theatrum philosoficum (tradução de Jorge Lima Barreto. São Paulo: Editora Princípio, (1987). p. 22- 23.