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Jacques Derrida e Esta Estranha Instituição Chamada Literatura
Marileide Esqueda (UNICAMP/USC)

A entrevista organizada e editada por Derek Attridge, estudioso inglês, com Jacques Derrida, filósofo francês de origem argelina, no livro Acts of Literature (1992), marca a discussão empreendida por este autor acerca dos temas filosofia, desconstrução, literatura e tradução. Essa entrevista intitulada This strange institution called literatura foi traduzida por mim como parte das atividades do Grupo de Pesquisa ao qual pertenço “Traduzir Derrida: Políticas e Desconstruções” do IEL- Unicamp/SP, sob coordenação do Prof. Dr. Paulo Ottoni, e deverá ser publicada em breve.

Descrever do mesmo modo, descrever completamente o exposto por Derrida nesta entrevista não é possível. E supondo que fosse possível fazê-lo, ainda seria preciso explicar suas relações com outros elementos por ele expostos em seus vários textos, já que esta entrevista mostra os travessias de Derrida através do tema da essencialidade ou da institucionalidade (Em Gramatologia e A Escritura e a Diferença , por exemplo, ele se volta contra os textos fundadores do sujeito e das instituições (principalmente em Saussure e Levi Strauss).

Esta entrevista marca a discussão empreendida por Jacques Derrida acerca dos temas desconstrução, filosofia, literatura e tradução. A linha de reflexão que se impõe neste texto é a da questão da essencialidade, ou falta dela, a partir da qual podemos colocar a própria filosofia, a literatura, a(s) língua(s), a tradução e o (in)traduzível em discussão. O que mais me interessa neste texto é justamente as relações que este estabelece, no interior de sua discussão descontrutivista, com a tradução.

O espaço da literatura, segundo a lógica derridiana, não é somente aquele de uma ficção instituída, mas também de uma instituição fictícia, a qual, em princípio, nos permite dizer tudo. Dizer tudo é, para Derrida, recolher, através da tradução, todas as figuras umas nas outras, para totalizá-las através da formalização, mas, acima de tudo, dizer tudo é também romper proibições, é desconstruir.

Derrida se dispõe, nessa entrevista, a dar um outro passo, que embora esteja presente em outros textos de sua autoria, repensa a complexidade dos textos literários. O autor apresenta as tensões que operam exorbitantemente o texto literário, colocando que apresentar estas tensões não é apenas desejável, mas necessário. Isto é, para ele, o texto literário “ordena” sua operação de leitura e esta ordem exerce um papel decisivo no jogo das interpretações, forças, desejos e tensões que autorizam qualquer leitura.

Derrida mostra que o texto, e não apenas o literário, nos causa uma vertigem referencial, que ao multiplicar as significações, torna ilusório todo fechamento de análise. Mostra como a ambigüidade fundamental da linguagem, principalmente a literária, não nos permite posicionarmo-nos a favor da interpretação literal ou da interpretação retórica. Derrida coloca:

A literatura não tem originalidade pura neste sentido. Um discurso filosófico, jornalístico ou científico pode ser lido de forma “não-transcedental”. “Transcender”, aqui, significa buscar, além de interesse, o significante, a forma, a linguagem (observe que não digo “texto”) na direção do significado ou referente (esta é a definição de prova um tanto simples mas conveniente, de Sartre). É possível fazer uma leitura não-transcendente de qualquer tipo de texto. Além disso, não há nenhum texto que seja literário em si . A literalidade não é uma essência natural, uma propriedade intrínseca ao texto. É o correlativo de uma relação intencional com o texto, uma relação intencional que integra em si, como um componente ou uma camada intencional, a consciência mais ou menos implícita de regras que são convencionais ou institucionais – sociais, em todo caso. (p. 32)

 

A configuração suplementar que Derrida imprime nest a Estranha instituição chamada literatura é o deslize da origem que os textos literários apresentam, que consomem e devoram a história e as relações que estes textos tentam apresentar. Eles multiplicam sua diversidade e pluralidade, em vez de apresentarem-se com uma estrutura única. Mas Derrida adverte que a literariedade e o sentido de subjetividade em um texto não é empírico ou um capricho de cada leitor:

 

O caráter literário do texto está inscrito no lado do objeto intencional, em sua estrutura noemática, pode-se dizer, e não somente no lado subjetivo do ato noético. Há “no” texto características que exigem a leitura literária e invocam a convenção, instituição, ou história da literatura. Esta estrutura noemática está incluída (como “não-real”, nos termos de Husserl) na subjetividade, mas uma subjetividade que é não-empírica e ligada a uma comunidade intersubjetiva e transcendental. Acredito que esta linguagem de tipo fenomenológica seja necessária, mesmo se, em um certo ponto, ela deva ceder-se ao que, em uma situação de escritura ou leitura, e em particular uma escrita e leitura literária, põe a fenomenologia em crise, bem como o próprio conceito de instituição ou convenção (p. 38).

 

A partir dessas circunstâncias, não basta, para Derrida, identificar e descrever a instituição da literatura, pois é preciso se perguntar como reagimos a essa identificação que o texto literário propõe. Derrida, por meio das noções de desconstrução, interessa-se, de fato, nest a estranha instituição , pelo além da instituição literária. O objeto de análise da literatura está longe de ser evidente, solúvel.

O passo-além que Derrida apresenta é o de que deparamo-nos com os indícios da literatura. Com aquilo que conseguimos encontrar como sendo pertinente à literatura, e que, a priori, nos causa problemas de linguagem. É um discurso que tentamos acompanhar. Um pacto que fazemos com o texto. Ele diz:

 

Sem suspender a leitura transcendente, mas ao mudar a nossa atitude com respeito ao texto, é sempre possível reinscrever, em um espaço literário, qualquer relato – um artigo de jornal, um teorema científico, um fragmento de conversa. Há, portanto, um funcionamento literário e uma intencionalidade literária, uma experiência, mais do que uma essência, de literatura. A essência da literatura, se nos ativermos a essa palavra essência, é produzida como um conjunto de leis objetivas em uma história original dos “atos” de uma inscrição e leitura. Mas não é suficiente suspender a leitura transcendente para lidar com a literatura, para ler um texto como texto literário. É possível interessar-se pelo funcionamento da linguagem, por todos os tipos de estruturas de inscrição, suspender não a referência (isto é impossível), mas a relação tética com o significado ou referente, sem, apesar disso, constituir o objeto como um objeto literário. Daí a dificuldade de compreender o que contribui para a especificidade da intencionalidade literária. Em qualquer caso, um texto não pode, por si só, evitar prestar-se a uma leitura “transcendente”. Uma literatura que proibisse a transcendência anularia a si mesma. Este momento de “transcendência” é irreprimível, mas pode ser complicado ou dobrado; e é neste jogo de dobras que está inscrita a diferença entre literaturas, entre o literário e o não-literário, entre os diferentes tipos ou momentos de textos não-literários. (p.46)

 

A partir dessa ótica desconstrutivista, podemos pensar que a tradução opera esta não-institucionalidade, opera o romper de proibições. Ou seja, a questão da troca do campo de análise que a desconstrução promove, acaba com a divisão entre ficção e teoria, literatura e filosofia, ler e escrever, o crítico e o escritor. Assim, ao traduzirmos inevitavelmente deparamo-nos com os limites nebulosos dessas instituições.

Para Derrida, dizer tudo na instituição da literatura é provocar um sentimento de existência, o próprio além do significado que origina a escrita:

 

[...] quando estava começando a descobrir esta estranha instituição chamada literatura, a pergunta “O que é literatura?” impôs-se sobre mim em sua forma mais ingênua. Somente um pouco mais tarde, este foi o título de um dos primeiros textos de Sartre, que acredito ter lido depois de La nausée (que me causara uma forte impressão, sem dúvida provocando alguns movimentos miméticos em mim; resumidamente, aqui estava uma ficção literária fundada em uma “emoção” filosófica, o sentimento de existência como excesso, “ser-supérfluo”, o próprio além do significado originando a escrita). A perplexidade, então, face-a-face com esta instituição ou este tipo de objeto que nos permite dizer tudo. (p. 48)

 

Derrida expõe que a perplexidade desta instituição está ligada a um dynamis filosófico, uma “força” que certas obras exercem sobre nós que, de fato, nos leva à questão sobre a essencialidade. A pergunta “o que é (literatura, filosofia, tradução)” se impõe. É menos a história da obra, em si, que problematizamos, mas as determinações ahistóricas:

 

[...] “O que é literatura?”; literatura como instituição histórica, com suas convenções, regras, etc., mas também esta instituição de ficção que dá, em princípio , o poder de dizer tudo, de desvencilhar-se das regras, de deslocá-las, e, desse modo, instituir, inventar e também suspeitar da diferença tradicional entre natureza e instituição, natureza e lei convencional, natureza e história. Aqui, deveríamos levantar questões jurídicas e políticas. A instituição da literatura no ocidente, em sua forma relativamente moderna, está ligada à autorização para se dizer tudo, e, sem dúvida também, à vinda da idéia moderna de democracia. Não que ela dependa de uma democracia no seu lugar, mas parece-me inseparável do que causa uma democracia, no sentido mais amplo (indubitavelmente ele mesmo porvir) de democracia. Vamos esclarecer. O que chamamos literatura (não belles-lettres ou poesia) implica que é dada a licença ao escritor de dizer tudo o que ele queira ou tudo o que ele possa, ao passo que se mantém protegido, salvo de toda censura, seja religiosa ou política. (p. 52)

 

Portanto, para Derrida, são essas determinações ahistóricas que provocam, que desconstroem a institucionalidade. Ele verifica que o grande risco das análises literárias, ou da denominação do que seja literatura, ou até mesmo filosofia, seria adotar um objetivo para estas. Ele nos fala neste texto sobre os problemas complexos e fundamentais no que tange ao conteúdo da literatura e ao conteúdo da filosofia. Para ele, pode-se estudar não o texto propriamente dito, mas a fruição do imaginário que nos permite, nestas instituições , dizer tudo, rompendo proibições.

Assim, a experiência da tradução desta não-institucionalidade faz emergir o romper de proibições; ou seja, o tradutor encontra-se entre o decidir traduzir a essencialidade (ou falta dela), busca decidir traduzir o (in)traduzível. E nesta experiência de traduzir que o tradutor depara-se com esta estranha instituicionalidade (seja da literatura, seja da filosofia, seja da psicanálise, etc.)

Derrida, neste texto, procura não trazer definições concretas. Na entrevista, o leitor encontra em suas respostas que ele não sonha com uma obra literária, nem com uma obra filosófica, mas que tudo o que ocorre, tudo o que acontece (ou deixa de acontecer) em um texto, deveria ser selado (colocado em reserva, escondido de modo a ser mantido, e isto em na própria assinatura do texto, realmente como uma assinatura, na verdadeira forma do selo, com todos os paradoxos que atravessam a estrutura de um selo, coloca o autor).

Na tradução, diz Derrida, a essencialidade é colocada em questão e o tradutor é levado por essa denúncia de falta de essencialidade, institucionalidade.

Neste sentido, um exemplo da minha própria tradução deste texto de Derrida, e que evidencia esta questão do (in)traduzível é o da palavra jeu. Derrida, n Esta Estranha Insituição Chamada Literatura, usa a palavra jeu (jogo) para argumentar que temos à nossa disposição um jeu , um jogo de elementos contextuais de grande estabilidade (jogos não naturais, universais e imutáveis, mas razoavelmente estáveis e, portanto, também desestabilizáveis) que, por meio da competência lingüística, por meio da experiência do nome próprio, das estruturas familiares que ainda são análogas, permitem leitura, transformação.

Há, no texto, um jeu, um jogo possível, com intervalos regularizados e transformações interpretativas. Mas esse jeu , esse jogo, não seria possível sem a iterabilidade que tanto repete o mesmo e – pela própria repetição – introduz nele o que chamamos jeu [“jogo/peça”, “folga/movimento”], não simplesmente no sentido do lúdico, mas também no sentido do que, pelo espaço entre as peças de um mecanismo, permite movimento e articulação. Este jogo é, para Derrida, o que permite à máquina funcionar normalmente, mas às vezes a mesma palavra designa uma articulação que é muito frouxa, sem rigor, a causa de uma anomalia ou de um malfuncionamento patol&oacu