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Adorno e Derrida: Duas Poéticas Negativas de Pensamento
Fabio Durão (UFRJ)
O limitado número de comparações entre Adorno e Derrida é tão plausível quanto surpreendente. 1 Plausível, devido a uma infeliz coincidência no desenvolvimento da filosofia na França e Alemanha, a primeira tendo passado por uma forte onda anti-hegeliana, a segunda voltando-se para a produção teórica estadudinense. Se a Escola de Frankfurt, no sentido de seu projeto original – o de Horkheimer, Adorno, Marcuse, Fromm e Benjamin – nunca se firmou na França, na Alemanha ela teria sido suplantada pela virada lingüística de Habermas e seus seguidores. Mas a escassez de trabalhos sobre Adorno e Derrida é ao mesmo tempo espantosa, dados não apenas os pontos de encontro de seus projetos filosóficos, mas também a produtividade da tensão entre eles. Vejamos: ambos começaram a desenvolver seu pensamento em diálogo com Husserl, Derrida com sua introdução à Origem da Geometria , Adorno com Para uma metacrítica da epistemologia ( Zur Metakritik der Erkenntnistheorie 2, concebida nos anos 30); ambos voltam-se contra o que poderia ser chamado de uma filosofia da identidade (em Derrida relacionada à “presença”, em Adorno à prima philosophia ), e valorizam a forma de escrita filosófica como parte do conteúdo do que é apresentado. Por fim, os dois praticam uma estratégia micrológica de leitura, que privilegia o detalhe, a ambigüidade ou metaforicidade de conceitos e categorias, e que entra em choque não apenas com a idéia de sistema como organização de pensamento, mas também com o próprio conteúdo manifesto dos textos abordados. Destas semelhanças surgem possibilidades promissoras de aprimoramento mútuo. Derrida, 3 para quem, o termo “negatividade” pode parecer por demais hegeliano, tem muito a ganhar com esta categoria, uma vez que ela o obrigaria a caracterizar mais claramente o que seria o “positivo”, desta maneira situando melhor sua prática teórica; já a teoria crítica adorniana, encontra no manuseio derrideano da herança lingüística/semiológica um importante desafio, o de incorporar o signo à sua prática interpretativa. Com efeito, esta é a tarefa mais importante para aqueles que pretendem lidar com a teoria crítica hoje: repetir o gesto de diálogo com o que há de mais atual, ao invés de se contentar com a mera precisão filológica.
Proponho-me, neste curto texto, a levar a cabo três tarefas: a. mencionar uma similaridade negativa entre a différance derrideana e a não-identidade adorniana ( das Nichtidentische ); b. caracterizar, em traços gerais, a forma de apresentação do pensamento, a Darstellung , em Derrida e Adorno; e, por fim, c. tecer considerações a respeito da motivação subjacente a tal estruturação de escrita em ambos os filósofos.
Porém, já no começo nos deparamos com um problema. Tanto a différance quanto a não-identidade são conceitos que desafiam a conceitualidade e como tal devem ser compreendidos como semi- ou quase-conceitos. O que isto que dizer é que nem a différance nem a não-identidade podem ser dados no começo ou pré-supostos; na realidade, não deveriam nem poder ser abordados diretamente em comentário, mas sim surgir como resultado de um processo de leitura. Em certo sentido, então, ambos são índices de auto-referência textual, pois, dados rigorosamente a posteriori , nomeiam a produção de sentido efetuada, aquilo que foi realizado pela interpretação. Vem daí a dificuldade, idêntica, para os comentadores de ambos os pensadores: definir a différance ou a não-identidade representa um paradoxo performativo, caracterizar aquilo que existe como cifra ou signo do que escapa qualquer caracterização. Neste caso, para ser bem sucedida, a escrita sobre não pode se esquivar de ser uma escrita em ; a ética de comentário, tanto da desconstrução quanto da teoria crítica adorniana, impõe um grau de engajamento, uma reprodução do impulso da escrita, que Derrida chamaria de textualidade tout court e Adorno de imaginação exata.
Esse problema interpretativo está ligado à maneira com que tais conceitos articulam-se a formas de exposição. Minha hipótese preliminar é que tanto para Adorno quanto para Derrida há um forte processo de construção textual, que traz como resultado a emergência de uma interessante dinâmica de auto-referencialidade. A não-identidade é desenvolvida por Adorno em um tipo de escrita por ele mesmo caracterizado de paratático. Se a não-identidade corresponde ao trabalho do conceito para exibir aquilo que foge à conceitualidade, faz sentido trabalhar uma forma composicional que coloca os opostos lado-a-lado, fazendo uso de um mínimo de conectivos adversativos. O ideal desta escrita é desfazer a oposição entre tese e exemplo, universal e particular; em seu limite, ambiciona produzir um tipo de movimento que, pela alternância progressiva dos contrários, produz um centro ausente no meio do texto. Ou como diz o próprio Adorno, nas Minima Moralia 4, deve-se ambicionar:
a supressão da diferença entre tese e argumento. Desse ponto de vista, pensar dialeticamente quer dizer que o argumento deve adquirir o caráter drástico da tese, e a tese conter em si a plenitude de seu fundamento. Todos os conceitos que servem de ponte, todas as conexões e as operações lógicas auxiliares que não fazem parte da coisa mesma, todas as deduções secundárias e não saturadas da experiência do objeto devem ser descartadas. Em um texto filosófico, todas as proposições deveriam situar-se a igual distância do centro. (aforismo 44)
De fato, muitos dos melhores ensaios de Adorno só fazem isso: expressar seu título (“Engajamento”, “Progresso”, “Pontuação” etc.) através do jogo das determinações contraditórias nele presentes; do acúmulo de opostos colocados lado-a-lado surge a configuração dos contornos do objeto. O mesmo se dá no título do que seria sua maior obra, a Teoria Estética , que é tanto uma teoria estética quanto uma teoria estética ; seu sentido mais profundo reside na tensão, no espaço vazio presente, já no título, entre substantivo e adjetivo.
Derrida apresenta um modelo diverso. Ao invés da constelação de elementos contraditórios, que idealmente pertenceriam ao próprio objeto, ele procede segundo uma lógica que poderia ser caracterizada como a de um tear. Em seus textos, não raro, o momento da desfeitura, do des-construir, é precedido por um rigoroso e criativo processo de estruturação. É como se esta etapa inicial oferecesse as bases para o que a ela se segue: um tecer da malha argumentativa até o instante em que, por sua própria contraditoriedade, o texto rasgue a si mesmo. A dinâmica de autoremissão, aqui, se dá pela referência do desfazer àquilo que foi composto, do des-tear dos fios argumentativos estruturados antes. A força do gesto desconstrutor é assim função de um duplo processo. Em primeiro lugar, é necessário que o momento inicial, o do significado, daquilo que o texto quer dizer , seja verossímil; ele tem que ser convincente, ser fiel, por assim dizer, aderir à superfície significante. Mas é também necessário que o segundo momento, no qual, por meio do detalhe, da ambigüidade, ou metaforicidade, o recalcado volta à tona e se mostra como a própria condição de possibilidade, aquilo que fundamenta e que é anterior ao elemento pretensamente primeiro – é necessário que este momento também seja persuasivo.
O que é interessante notar, é que estas duas formas de escrita, estas duas poéticas negativas de pensamento, têm cada uma sua razão de ser, sua uma motivação filosófica. O tecer/rasgar de Derrida justifica-se pela natureza própria da différance , uma diferença, não “entre”, mas “em”; suas estratégias retóricas, em outras palavras, almejam oferecer uma via acesso a algo diferindo/difer-ente, nem sujeito nem objeto, mas a condição de possibilidade de sua diferenciação; sem começo ou fim, mas sempre processo; algo que só pode se fazer sentir como presente na medida em que se estabeleça como ausência. Ou, nas palavras de Derrida:
O que difere a presença é aquilo a partir do qual, pelo contrário, a presença é anunciada ou desejada em seu representante, seu signo, seu rastro [ trace ] [...] o movimento da différance [...] corresponde assim à raiz comum de todas as oposições de conceitos que escandem nossa linguagem [...] a différance é também a produção, se ainda se pode dizer, de tais diferenças, desta diacriticidade que a lingüística inspirada em Saussure e todas as ciências estruturais que a tomaram como modelo nos lembram ser a condição de toda significação e toda estrutura. 5
A fonte de negatividade, para Adorno, é outra; ela reside na irredutível materialidade do objeto e na impossibilidade de apreendê-lo conceitualmente de forma direta. A escrita, aqui, tenta reproduzir em si a contrariedade presente no próprio objeto, que desta maneira é apresentado como não-idêntico a si próprio.
A escrita de Derrida produz um ser, um “algo” que é conseqüentemente des-feito, na medida em que deve sua existência àquilo que nega como não-exsitente. O tecer/rasgar derrideano é uma forma de exposição propícia a sua preocupação maior, que poderia ser caracterizada como ontológica: apreender o rastro, o fugidio. A negação em Adorno encontra outra motivação filosófica; ela vem do conflito que tem sua origem na sociedade. Com efeito, para Adorno, o cerne da vida social é o antagonismo, em última instância advindo do modo de produção, e que penetra até as próprias raízes da matéria. Daí poder-se caracterizar seu pensamento, em uma grossa generalização, como epistemologicamente orientado, o que o vincula à prática: conhecer para, de alguma forma, mudar.
Para Derrida, a prisão do pensamento é o logofonocentrismo e a tarefa da Teoria residiria em mostrar, ainda que furtivamente, seus limites, produzir, repetida e incansavelmente, o impossível de sua momentânea suspensão. A prisão do pensamento, para Adorno, é a história do domínio da natureza, tanto externa quanto interna (a referência fundamental aqui é a Dialética do Esclarecimento 6). Seu fundamento é o princípio de troca ( Tauschprinzip ), uma dinâmica subjacente tanto à produção e circulação de mercadorias quanto ao funcionamento do conceito, e que ao mesmo tempo permite que se explique a emergência do sujeito como resultado da interiorização do sacrifício.
É apenas depois de mencionar tudo isso que se torna possível lidar com a função da categoria da “metafísica” na escrita de Adorno e Derrida. Como é sabido, Derrida repete um gesto inaugurado por Nietzsche e re-encenado por Heidegger, o de estabelecer um elo transhistórico na história da filosofia por meio da metafísica, que deixa de ser uma disciplina filosófica para tornar-se um denominador comum entre todos as formas de pensamento já existentes, de Sócrates/Platão até hoje. Acontece, no entanto, que, tanto em Nietzsche quanto Heidegger, a denúncia do pensamento metafísico encontrava-se inserida em um projeto cultural mais amplo, o do “espírito livre”, para o primeiro, e o da autenticidade para o segundo – projetos cujas ressonâncias políticas chegaram perto do catastrófico. 7 As implicações culturais do gesto derrideano são mais difíceis de ser localizadas, sendo sentidas talvez apenas no que há de pior do discurso pós-moderno, quando este se apropria do léxico da desconstrução para postular uma riqueza significativa, independente de qualquer leitura, no mundo como um todo: um delírio perverso diante da miséria oferecida pela indústria cultural. 8
Seja como for, o tecer/rasgar derrideano encontra-se situado neste contexto. À metafísica corresponderia a tecitura, a coerência, o significado, e é apenas sob este pano de fundo que é exibido o acontecimento do rasgar, do diferir. Surge assim, na economia do texto derrideano, uma desproporção imensa entre dois pólos, fruto da própria recusa de qualquer binarismo. Como a metafísica não é função da história, mas, pelo contrário é a história que é produto da metafísica, esta se configura como completamente homogênea e geral. Aos enunciados micrológicos, de leitura e criatividade, colados ao objeto textual discutido, correspondem proposições abstratas que remetem para além da interpretação, para uma exterioridade do confronto com o objeto, e que se referem à “metafísica”. Com efeito, talvez seja possível determinar o valor de uma análise desconstrutivista – ou averiguar a dissimilaridade entre Derrida e a maioria de seus comentadores – através da proporção entre os dois tipos de enunciados, os que se referem ao objeto, e os que aludem à metafísica.
Isso não equivale a dizer que o termo seja simples para Derrida. A metafísica não pode ser superada, pois “mesmo nas agressões ou transgressões, lidamos com um cógido ao qual a metafísica está irredutivelmente ligada, de tal maneira que todo gesto transgressor nos confina, e nos mostra isso, no interior de sua clausura.” 9 Mas aqui a “metafísica” é objeto de leitura; ela funciona de modo bem diverso na economia do texto derrideano quando não é focalizada de frente, mas invocada como outro do diferente. É neste último caso que atua como elemento de contenção, de fechamento textual, ocupando o lugar de algum outro conceito (como “sociedade” ou “história”) que pudesse explicar por que o mundo não é diferente – como no ensaio sobre Hegel do Marges de la philosophie 10, “O poço e a pirâmide”, onde a leitura que magistralmente demonstra o funcionamento maquínico da escrita hegeliana, que abomina a máquina, tem seu efeito enfraquecido pelo sua natureza de exemplo: mais um caso de privilégio metafísico da voz, interioridade, tempo (etc.) sobre a escrita, exterioridade, espaço (etc.).
Para Adorno o termo “metafísica” também é uma categoria fundamental. Ele o concebe, contudo, de forma mais nuançada, pois o considera em estreita relação com o tempo, como algo aberto e sujeito a mudanças. A metafísica, para ele, corresponderia a um processo contraditório onde um impulso progressista, desafiador e desmistificante, encontrar-se-ia entrelaçado a uma tendência restauradora, de cerceamento e domestificação do poder questionador da filosofia. Esta posição, subjacente à Dialética Negativa 11, fica bem clara nos cursos ministrados por Adorno nas décadas de 50 e 60; nas palestras sobre a metafísica, lemos:
E creio ser algo típico [...] de todos os sistemas metafísicos tradicionais que me são conhecidos, que se por um lado tais sistemas sempre voltaram-se contra quaisquer elementos ou idéias tidos como dogmáticos ou fixos, por outro, tentaram recuperar, apenas por meio do pensamento, aquilo a que essas idéias dogmáticas se referiam. 12
A metafísica, aqui, é parte de uma história universal da dominação, que entrelaça história e natureza. Esta última é histórica, pois seu conceito e caracterização sempre variou com o tempo; a história, porém, é ela mesma uma categoria natural: seu lado invariante é o do extermínio e do sofrimento. Sem dúvida, essa história da qual a metafísica faz parte é universal , mas justamente por ser história pode ter um fim. Apontar sua possibilidade é o objetivo final da escrita adorniana. E aqui a conclusão: tanto Adorno quanto Derrida conseguem, por suas respectivas poéticas negativas de composição, construir algo que se furta à lógica da identidade: Derrida, por meio do trabalho de Sísifo de um diferir fadado, fruto de uma caracterização a-histórica e homogeneizante da metafísica; Adorno, através do acúmulo de negações, sujeitas ao tempo, no objeto, tentando mostram que, em uma sociedade diferente, poderia ser outro.
Na forma de livro, são dignos de nota os trabalhos de Christoph Menke, Die Souveräinität der Kunst. (Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1991),e de Stefan Zenklusen, Adornos Nichtidentisches und Derridas différance (Berlim: Wissenschaftlicher Verlag 2002). Uma articulação mais geral entre marxismo e desconstrução é oferecida por Michael Ryan, Marxism and Deconstruction (Baltimore: Johns Hopkins U.P., 1982).
Gesammelte Schriften 5 (Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1971)
Limito-me, nesta comunicação, ao primeiro Derrida, aquele influenciado por Saussure e pela semiologia, anterior à virada lévinasiana.
São Paulo: Ática, 1992. Trad. Luiz Eduardo Bicca.
Positions (Paris: Minuit, 1972) p. 17-8.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. Trad. Guido de Almeida.
A relação de Heidegger com o nazismo já foi bem trabalhada; para Nietzsche, cf. Pierre-André Taguieff “Nietzsche dans la rhétorique réactionnaire”, in Pourquoi nous ne sommes pas nietzschéens (Paris, Grasset, 1991).
Cf. Fabio Akcelrud Durão “A postmodern paradox”, in Revista Eletrônica Outras Palavras vol. 3, 2003. (http://orbita.starmedia.com/outraspalavras/art19fad.htm)
Gesammelte Schriften 6 (Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1973). De especial interesse nesse contexto são as três últimas partes, que constituem a seção “Modelos”, páginas 211-400.
Adorno, Metaphysik; Begriff und Probleme (Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1998) p. 19.