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Enigma-récit da tradução: entre Derrida e Blanchot
Élida Ferreira (Unicamp)
Derrida, em Survivre/Journal de Bord 1, e comentando os textos de Blanchot - La folie du jour e L´arrêt de mort principalmente, discute a impossibilidade de um récit (narrativa), pondo em suspensão esta palavra: récit . Récit transborda o conceito corrente (uma estória com um começo, meio e fim) e não encontra seu lugar numa definição fechada, o que acarreta encarar o texto como uma totalidade impossível. A partir dessas reflexões e das conseqüências que daí podem advir, proponho discutir o enigma-récit que Derrida anuncia em seu texto e como o tradutor está entre o intraduzível e a tradução. Lanço alguns questionamentos para investigação: como traduzir récit a partir da impossibilidade de um récit ? Dito de outro modo: como marcar na língua, na tradução, o efeito de suspensão que Derrida imprime em seu texto? Por outro lado, não se pode deixar de lembrar que, mesmo nesse horizonte do impossível e do intraduzível, a tradução do texto acontece. Trata-se do enigma da tradução com o qual o tradutor tem de se haver na sua travessia, traduzindo e não traduzindo isso, récit - narrativa .
Em diferentes seminários, nos Estados Unidos e França, Jacques Derrida discutiu, leu, re-descobriu a obra de Maurice Blanchot. Um desses seminários ( Donner le temps , 1977-1979), tratando do dom e do tempo, traz as leituras que propõe de Mauss, Benveniste, Heidegger, Baudelaire e finalizando com La Folie du Jour de Blanchot. Outro seminário, La Chose (1975-1977), é consagrado a Heidegger, Ponge, Blanchot e Freud. Du droit à la litérature (1978) é dedicado a uma interpretação de La Litérature et le Droit a la Mort de Maurice Blanchot. E outro (1979) é dedicado à comparação das duas versões de Thomas l'Obscure . O estudo de L'arrêt de mort compõe o seminário de Veneza de 1976.
Os ensaios, resultantes dessa atividade docente, foram primeiramente publicados em separado e depois em Parages em 1986, com os textos: Pas , Titre à preciser , Survivre/Journal de Bord , La loi du genre . Mais recentemente, esta obra foi reeditada e acrescentou-se o texto Maurice Blanchot est mort , conferência proferida por Derrida em março de 2003, logo após a morte de Blanchot, no encerramento do Colóquio Internacional Maurice Blanchot, Récits Critics , organizado por Christophe Bident e Pierre Vilar na Sorbone.
Os ensaios, coletados nesse volume, tratam de questões relativas ao gênero, ao título, à lei, à citação, à relação entre ficção e verdade, ao acontecimento de um “vem”, próximo e distante, bastante recorrente na obra de Blanchot. Na sua introdução a esses ensaios, Derrida (1986) 2 situa um problema que articula, por assim dizer, toda a sua intervenção: “como escrever o que não se deixa reduzir, de um lado a outro, às injunções de uma fala didática, por mais liberal e aberta que seja?” (p.12). Com esse conflito e numa posição inquieta e interrogadora, mesmo assim ensina na instituição acadêmica. Como diz o professor: “trata-se sempre da tradução, no sentido mais convencional e em outros sentidos desta palavra; e esses seminários tiveram lugar, ora em Paris ora na Universidade de Yale. Entre estas duas margens, como entre duas línguas, a divisão invisível, mas também o abismo de um oceano” 3. Derrida lembra que seu projeto era, de um dia, juntar todas estas notas dos seminários, como chama, em uma obra comum. Foi aí que surgiu Parages .
Vou comentar rapidamente a relação entre Blanchot e Derrida no Sobreviver/Diário de Borda 4, que é um texto sui generis até mesmo na sua conformação espacial. Divide-se em duas partes: 1. em Sobreviver (a borda superior) em que se mesclam triunfo da vida e triunfo da morte, Derrida lê The Triumph of Life de Shelley, L'arrêt de mort , La Folie du Jour , L'entrentien infini , Thomas l'Obscur , Le pas-au-delà , dentre outros de Blanchot; 2. e na borda debaixo, no Diário de Borda , dirige-se aos tradutores numa nota do/ao tradutor, que ocupa todo o rodapé do texto, levantando possíveis problemas de uma tradução por vir. Foi primeiramente publicado em inglês ( Living On/Borderlines ) 5., numa tradução de James Hulbert, na coletânea Deconstruction and Criticism (1979-1999)
No Sobreviver/Diário de Borda a relação entre os dois autores, Derrida e Blanchot, liga-se à questão em torno do que é um récit e acerca do transbordamento de um texto em outro texto e a um juramento e um contrato na língua do outro. Esse transbordamento revela uma estrutura dupla que envolve o texto de Blanchot e de Derrida levantando questões fundamentais para a questão da legibilidade e como um texto escapa à apropriação em sua plenitude. Dito de outro modo, não se lê nem se escreve tudo do texto do outro. Poderíamos dizer, com Derrida, que se trata de uma ex-apropriação, uma vez que ele mesmo, nesse caso a que nos dedicamos aqui, escreve a e sobre a impressão textual, complicando o limite e a segurança de uma unidade, de um texto escrito. Assim, poderíamos dizer que Derrida está propondo uma reelaboração da problemática do texto, de sua legibilidade e de sua escrita, fazendo seu próprio texto praticar o que comenta, de tal forma que seu texto transborda o de Blanchot numa sobre-impressão textual, ou seja, ao abordar o texto de Blanchot, L´arrêt de mort 6, Derrida propõe todo um questionamento em torno da questão da narrativa [récit], criando uma, por assim dizer, narrativa da narrativa (récit do récit), que mais adiante procurarei relacionar com o que aqui estou chamando de enigma-récit da tradução, e que vai afetar diretamente o tradutor. E, quanto à questão da narrativa, retorno a Derrida:
[...] O acontecimento inenarrável da sobrevida coloca o récit em suspenso, um lapso interminável que não é somente o tempo do que é recitado: aquele que recita (entre a voz narradora e a voz narrativa) é, também e em primeiro lugar, um sobrevivente . Essa sobrevivência é, também, um ressurgimento espectral (o sobrevivente é sempre um fantasma) que se observa e que coloca em cena desde o início até o momento em que o caráter póstumo, testamentário e escriptural do récit acaba de se desdobrar. ( Sobreviver/Diário de Borda , p. 59)
Nesse momento, em particular, refere-se ao episódio em que, em Pena de Morte , o tratamento de J. é adiado e Derrida estabelece uma relação entre o adiamento e uma pena/suspensão de morte, instância que permanece não revelada, sempre em segredo. Ao mesmo tempo em que há o comentário, há uma reimpressão textual que Derrida opera a partir de Blanchot, trazendo para a cena a discussão em torno do caráter escriptural do récit [da narrativa], num processo de reinscrição do termo, associando-o à escrita e à cripta numa só palavra, escriptural . Dito de outro modo, o récit tanto comporta um lugar de escrita como de guarda, de segredo, de secreto, de enigma, enfim.
Esse transbordamento encenado em Sobreviver/Diário de Borda evidencia a borda, o texto-borda e não como unidade que se fecha. Na borda, “escreve[-se] a sobre-impressão textual - e sobre ela”, fazendo trans-bordar. Por isso venho, de certa maneira, sugerindo a necessidade de tradução que se opera no interior de uma mesma língua. Lembremos que Derrida, na borda estabelece com o tradutor uma espécie de diálogo e ainda está tratando da impossibilidade de tudo dizer sobre um texto, ou seja, da impossibilidade de uma escrita, qualquer uma, ser imune à língua e às suas artimanhas. O que remete para a necessidade de tradução que se opera no interior de uma mesma língua, ou seja, a necessidade de apropriação da língua do outro, de seu idioma. Derrida opera essa tradução ao anunciar e/ou denunciar o problema de enquadramento, substituindo a questão O que é um récit por uma demanda de récit, a partir de uma impossibilidade de dizer como tudo aconteceu “à risca” que lê em La folie du jour de Blanchot.
Poderíamos aqui falar de uma questão de tradução que se instala a partir da suspensão de récit, revelando uma espécie de des-significação da palavra récit, ou seja, algo ocorre entre récit e récit, imprimindo uma marca, um rastro a ser decifrado, a ser traduzido. Acompanhemos o jogo que Derrida propõe em torno do termo e como ele está inscrito numa dupla dobra, sem que possamos recuperar sua unidade:
Ora, se acabamos de dar um exemplo particularmente refinado a propósito de um récit utilizando-nos da palavra «récit» e recitando, ao mesmo tempo, sua possibilidade e sua impossibilidade, a dupla invaginação pode se produzir em qualquer texto que seja, tenha ele uma forma narrativa ou não, que ele derive ou não do gênero ou do modo «récit», que ele o fale ou não. Nada resta que não seja – e é o traço que me interessa, em primeiro lugar – a dupla invaginação, por toda parte onde ela se produz, tem em si mesma uma estrutura de récit em desconstrução . O récit não é aqui redutível. Antes mesmo de “concernir” a um texto em forma de narrativa, a dupla invaginação constitui o récit do récit, o récit da desconstrução em desconstrução: a borda aparentemente externa de um fechamento [ clôture ], longe de ser simples, simplesmente externa e circular, segundo a representação filosófica da filosofia, não sinaliza para além, em direção ao todo outro, a não ser se desdobrando, fazendo-se «representar», re-dobrar, re-marcar , no interior de um fechamento, ao menos no que a estrutura produz como efeito de interioridade. Mas é precisamente este efeito de estrutura que se desconstrói aqui. (p.36)
Quero ressaltar o jogo “récit do récit” que Derrida promove, marcando diferentes sentidos de récit . No início da citação ele fala de dar um exemplo de um récit, utilizando a palavra “récit” e recitando, ele encena aquilo mesmo que comenta: a dupla invaginação e a desconstrução de um certo efeito de estrutura. Segundo Derrida é isso que ocorre em La folie du jour e em Pena de Morte como dois récits estão embutidos, pondo em suspensão “o que é um récit”.
E poderíamos acrescentar que o que se passa entre Blanchot e Derrida é justamente a dupla invaginação, ou seja, trata-se de uma um récit sobre o récit, lendo e traduzindo Blanchot na mesma língua ou numa outra; encenando num récit a impossibilidade de récit e marcando uma diferença entre récit e récit.
É a partir desta problemática exposta, do récit impossível (impossível, pois, como vimos, a cadeia de marcas não finda); é nesse horizonte de disseminação, que proponho refletir sobre o enigma-récit da tradução.
Ora, se está sob suspensão, ou sob suspeição, “o que é um récit”, como traduzir isso? Como traduzir récit a partir da impossibilidade de um récit ? Dito de outro modo: como marcar na língua, na tradução, esse efeito de suspensão/suspeição que Derrida imprime? Por outro lado, não se pode deixar de lembrar que, mesmo nesse horizonte do impossível e do intraduzível, a tradução acontece. Trata-se do enigma com o qual o tradutor tem de se haver na sua travessia, traduzindo e não traduzindo isso, narrativa/récit .
É a partir dessa questão (como traduzir?) que Derrida, na Borda, dirige-se ao tradutor. E já adianta sugestões:
Nota aos tradutores: como traduzir isso, récit , por exemplo? Não por novela, nouvelle , nem por short story . Talvez fosse melhor deixar em jogo a palavra «francesa» « récit » . Já é difícil o bastante entendê-la no texto de Blanchot, em francês. Questão essencial da tradução. (p. 27-8)
O que fazer diante das sugestões de como não traduzir récit ? O que ele parece temer é a redução a um conceito, o que seria recuar em relação a todo o deslocamento que ele vem impondo à palavra. Mas não podemos perder de vista que esse deslocamento é o de Derrida e depende de uma leitura (que o leitor/tradutor fará inexoravelmente), não pode ser garantido na tradução e ele bem o sabe, como se evidencia na seqüência:
[...] Feita a tradução suposta, quem dirá, à risca , em que língua aparecerá o texto acima? Não é intraduzível, mas, sem ser opaco, apresenta a cada passo, eu o sei, o que parar a tradução. Obriga o tradutor a transformar a língua para a qual se traduz ou o veículo receptor - deformando o contrato inicial, ele mesmo em deformação constante - na língua do outro. Essa dificuldade de tradução, eu a antecipei até um certo ponto somente, mas não a calculei ou acumulei de propósito. (p. 28-9)
Récit obriga o tradutor a parar e buscar uma passagem/brecha na língua do outro. Não há um caminho dado, mas, se há, ele não garante nada da passagem, da sua travessia. Impõe-se um limite (uma questão de tradução), mas, eu diria, um limite sem limite, pois não está determinada a fronteira final e cada tradutor ver-se-á afetado diferentemente na língua do outro, por isso concordo em dizer, junto com Derrida, que o contrato está em constante deformação . O que quer dizer que há algo que pára a tradução, mas ela segue adiante e acontece.
Como traduzir isso, récit? Eu pergunto na tradução, já traduzindo. Também poderia dizer que traduzo e não traduzo. Ao mesmo tempo, precisamos considerar que récit é uma palavra estranha à língua portuguesa. E não é também no francês? Derrida recomenda deixar em jogo a palavra “francesa” “ récit ”, pois já é difícil o bastante entendê-la no texto de Blanchot, em francês. Ao mesmo tempo, a palavra “francesa” está entre aspas já pondo em dúvida o seu pertencimento ao próprio francês; a palavra é estranha no francês de Blanchot. E se eu escrevesse: Como traduzir isso, narrativa? Narrativa , nessa pergunta, que é uma tradução, também, não estaria implantando uma estranheza, no português? A tradução de récit revela a divisão disso ( récit ) e que tradicionalmente os estudos literários chamam de um conceito, supondo um fechamento. Derrida, no seu texto, problematiza este fechamento, anunciando e denunciando a divisão e a heterogeneidade que o termo assume em Blanchot. O que acaba impondo ao tradutor uma sobreposição de dificuldades de não só o que tanto quanto como traduzir .
Na tradução para o inglês, Hulbert escreve:
Note to the translators: How are you going to translate that, récit for example? Not as nouvelle , “novella”, nor as “short story”. Perhaps it will be better to leave the “French” word récit . It is already hard enough to understand, in Blanchot's text, in French. (1999: 86)
Na página seguinte, no alto, o tradutor já mostra uma opção de como traduzir isso, récit , e ele escreve: What is a narrative - this thing that we call a narrative? Does it take place? Where and When? What might the taking-place or the event of a narrative be ? (p. 87). Na seqüência desta passagem, apenas para que se tenha uma medida da oscilação do termo que Derrida impõe, o tradutor oferece outras opções: “narrative” {“ récit ”}, “ récit ”, récit , “narrative”, story {récit}, requotation of a narrative { ré-citation du récit }, structure of a narrative { récit } in deconstruction (cf. 1979, p 87-100).
O termo récit obriga o tradutor a contínuas transformações, mesmo depois de ter assumido como tradução o termo narrative , como mostrei na seqüência anterior. Traduz-se e não se traduz isso, récit . Revela-se aí nesse intervalo um enigma intraduzível - a traduzir, pois não há uma certeza de como traduzir récit. O deslocamento operado por Derrida obriga o tradutor a constantes transformações, o que acentua mais ainda o caráter de inacabado, de borda e de transbordamento da escritura e de disseminação de sentido, certamente, da própria tradução.
É na seqüência desse tipo de reflexão que se anuncia o enigma/récit da tradução, um limite sem limite, no texto-récit de Derrida:
Pois os problemas que tenho querido formalizar acima têm todos uma relação irredutível com o enigma - em outras palavras, com o récit - da tradução; tentei encená-los de modo prático e , de certa forma, performativo . Segundo um valor de performatividade que me parece, por um gesto desconstrutivo, dever ser dissociado do valor de presença ao qual, geralmente, está ligado. (p. 29-30)
Primeira vez, e talvez única, em que anuncia nominalmente o enigma/récit da tradução em Sobre viver. Este enigma/récit da tradução tem uma relação essencial, lemos acima, com os problemas que Derrida vem buscando formalizar, quais sejam: texto como récit, borda, transbordamento, “o que é um récit?”, traduzibilidade, legibilidade, tradução, enfim. É esse o traço que quero marcar, qual seja: a relação desse enigma com a escrita, com a leitura, com a tradução, com a língua e o idioma. Todas essas instâncias estão submetidas a um jogo de marcas e do qual não escapam, o que acarreta a necessidade constante de leitura e de tradução, a necessidade, segundo Derrida e Blanchot, de uma legi-tradu-tibilidade finita-infinita. A tradução está sempre e ntre duas margens, bem como entre duas línguas, numa divisão invisível, cujos enigmas o tradutor, na sua travessia, está sempre a traduzir.
Aqui neste récit-enigma da tradução estamos todos comprometidos: Blanchot, Derrida e o tradutor que busca uma passagem entre as línguas e contra-assina, fazendo o texto sobreviver. Ler e traduzir Derrida também faz parte desse acontecimento de sobrevivência.
Derrida, J. Survivre/Journal de bord . In: Parages . Paris : Galilée. pp. 117-218, 1986.
Derrida, J. Parages . Paris: Galilée. 1986.
Este trânsito entre Paris e Estados Unidos põe em movimento até hoje os seminários de Derrida, entre duas línguas: seja, por exemplo, na École des hautes études en science sociales, seja na Universidade da Califórnia em Irvine com La Bête et le Soverain e com The Beast and the Sovereign , seminários iniciados em 2002. E a tradução interfere sempre nessa pas sagem de um lugar a outro , de uma língua a outra , como um movimento pendular, como o que se pode ouvir- Derrida, em seu seminário, sugere- entre la bête et le souverain: la le , la le . Um movimento de ir e vir, agora eu sugiro, como um espectro em errância da tradução.
Texto traduzido por mim, o qual faz parte de minha tese de doutorado: “Jacques Derrida e o récit da tradução: o sobreviver Diário de Borda e seus transbordamentos”, defendida em novembro de 2003, sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Roberto Ottoni, na Unicamp.
Derrida, J. Living On/Borderlines Translated by James Hulbert . In Deconstruction and Criticism . Geoffrey Hartmann (org.). The Seabury Press, New York . Pp. 75-176. 1979 (reprinted in 1999).
De ora em diante, refiro sempre ao título em português: Pena de Morte , tradução de Ana Alencar (1991. Imago).