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Poesia, pensamento e crítica no Catatau, de Paulo Leminski
Daniel Abrão (UEMS/PG-UNESP)
Catatau , obra do poeta paranaense Paulo Leminski, teve sua primeira edição em 1975. Uma considerável parte da recepção da obra tem sido marcada pela compreensão do livro em torno as margens de uma linhagem produtiva concretista, herdeira de uma tradição moderna que vai do Ulisses , de James Joyce, ao Galáxias , de Haroldo de Campos. Entre concretismo, portanto, ou algo próximo às “linhagens formais”, a recepção de Catatau, com efeito, tem acontecido muito próxima dos comentários sobre a obra efetuados pelo próprio Leminski em suas abordagens ao livro, estes constituídos não por uma herança direta das indicações de Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, mas por uma apropriação particular e produtiva, porém, em muitos momentos radical, do pensamento concretista.
A leitura privilegiada de Catatau no círculo da herança concretista, entretanto, mostra-se cada vez mais complicada quando pensamos que o livro foi “resolvido” quando tal leitura delimitou seu campo a ponto de circunscrevê-lo em categorias que já definem seu rosto, seus motivos, suas filiações textuais. Assim, passa-se de uma leitura mais específica para uma leitura compromissada com um cânone estabelecido por uma crítica que tem seus critérios elaborados extensamente pela tradição formalista a que somos devedores.
O fato é acentuado quando no projeto de sua realização a obra já se acha comprometida com tais divisões e tradições de abordagens, o que legitimaria a leitura em sua posição na medida em que o próprio autor analisado partilharia da mesma opinião sobre tais categorias de inclusão e exclusão da literatura em seus gêneros, modalidades e hierarquias estéticas.
A recepção formal tem sublinhado, neste sentido, o caráter metalingüístico, icônico e material do livro, com suas palavras-valise, neologismos e demais elementos que perfazem o cânone concretista de abordagem e composição do poema. Tais pensamentos ficam re-interados quando em crítica e metalinguisticamente o autor de Caprichos e Relaxos, recorrendo à Teoria da Informação, defende a posição de que Catatau só se refere a si mesmo e não quer dizer nada em sua pura redundância, assim a obra representando um objeto autônomo, desligado do real que não lhe daria suporte ou referência.
A radicalidade do livro, pois, passa para a radicalidade do comentário. O efeito crítico tem sido o da aceitação das máximas formalistas e o encerramento da discussão sobre o livro.
Do ponto de vista de uma recepção mais temática a concordância entre autor e crítica também deixa passar algumas tensões. Catatau tem como criativa hipótese de seu quase-enredo a vinda do filósofo Descartes - figurada pelo personagem Renato Cartesius, ao Brasil na época da invasão holandesa-. O delírio tropical, a erva narcótica que fuma e a linguagem em deriva teriam feito com que sua razão cartesiana, “ocidental”, entrasse em colapso e se tornasse insuficiente para a compreensão do mundo e de si mesmo. Este tema, desta forma, tem sua recepção marcada pela interpretação de que o livro é anticartesiano, anti-racionalista ou mesmo antilógico, na exata coincidência do que disse Leminski.
O que entrevemos, no entanto, é que as idéias da autonomia da arte preconizadas pela crítica e pelo autor se aproximam porque estão calcadas na aceitação da existência de uma suposta unidade do texto e do gênero, no interior de uma hierarquia textual que definiria o que é o literário, a partir de um cânone formalista de autores.
Como pretendemos refletir sobre esta relação de concordância, entre a crítica e o autor e mesmo entre a obra de fato e seu projeto, é de se considerar primeiramente o essencialismo em que está calcada a idéia formal do literário, que organizado em torno de princípios auto-referenciais da função poética se tornaria um discurso autônomo, fundado num mundo em que a poesia ocuparia uma posição privilegiada em relação ao pensamento. Para tanto, a experiência formal se justificaria na medida em que o caminho da linguagem seria o de superar seu estado sensível rumo a um inteligível onde a “essência do literário” seria sua distinção clara entre o pueril da razão cotidiana e a ultrapassagem do poético rumo à idéia. Aqui a estrutura do texto, o caráter substantivo do poema, seria seu próprio objeto, onde numa virada surpreendente a materialidade da letra se apagaria na imaterialidade do entendimento, o que provocaria, assim, o sobressalto icônico da plenitude do signo entre a matéria exposta e a revelação do sentido. Assim, a leitura concretista efetuada por Leminski se aproxima do pensamento cartesiano quando, numa relação da filosofia com a poesia, pressupõe a intransitoriedade dos princípios fundantes das regras da arte, o que constituiria a essência da literatura numa unidade identitária destacada do fluxo das relações textuais.
Cabe aqui lembrar o quanto tais concepções são devedoras de um pensamento da presença, da identidade e da origem, advindas tanto do dualismo que distingue forma e conteúdo, quanto de uma metafísica heideggeriana que essencializa o espaço poético na ultrapassem dos impasses da filosofia e do pensamento moderno. O essencialismo, assim, traz o discurso da restrição de campo no horizonte da hierarquia valorativa. Nesta concepção, mesmo sob o discurso do novo a literatura seria, inusitadamente, tanto mais poética quanto fosse seu pertencimento ao gênero.
Diferindo, seria interessante pensar de que forma se constituem as disjunções, as dissoluções, as falhas, os vácuos textuais onde a lógica do sentido quebra as categorias literárias e suas “funções”, para realçar nos projetos literários em que momento são devedores daquilo que se distanciam. Dito de modo mais contundente é necessário a partir daqui verificar em que ponto a obra de Leminski se distancia de seu projeto, fazendo com que sua crítica ao cartesianismo se confunda com sua herança cartesiana ao tomar o concretismo como base de articulação de escrita do Catatau . Cabe ainda localizar de que forma o concretismo (anos 70) mesmo já não traria o pensamento cartesiano quando a partir do matematismo racionalista da linguagem constrói uma família e uma historiografia literária, o que faria com que seu cânone ficasse restrito a autores que concebem a forma como um conceito-critério de experiência material privilegiado que revelaria, assim, uma substância textual dita literária.
Visto, contudo, sob o modo das disjunções e separando projeto de realização, teremos o Catatau não como síntese de uma idéia, centrada, por sua vez, no viés interno e metalingüístico característico do concretismo. Mais além, entrevemos todo um universo de referencialidade em que o Catatau se dirige, negativamente , às instâncias sociais, políticas e intelectuais dos saberes constituídos de seu tempo. O livro, portanto, tem um pensamento, que faz referencia negativa ao mundo, possuindo o discurso da substantivação metalinguística da autonomia da arte como um efeito retórico de apagamento que se une aos outros efeitos existentes no livro. Observamos, neste sentido, que a negatividade acontece no Catatau nos campos discursivos da religião, da política, na retomada de provérbios populares, nas colagens de discursos filosóficos, científicos, históricos e filosóficos, sem que tais campos se delimitem enquanto tais em sua nomeação e subdivisão social, mas num imbricamento poético que passa por um pensamento da ruptura das hierarquias que definem e categorizam o estatuto dos discursos.
Apreender este pensamento, em sua variedade produtiva é nomear a referencialidade, todavia não admitida nos argumentos retórico-ficcionais, bem como compreender o diálogo efetuado pelo texto com os campos discursivos a que se dirige a linguagem e o pensamento crítico da obra.
Para além de uma textualidade presa ao gênero poético, imaginamos o pensamento negativo como uma prótese ou referência desde a origem que vai permeando o discurso literário do Catatau . Para pensarmos a relação poesia/pensamento lembramos que para Jacques Derrida 1 o pensamento aparece como acontecimento poético ou performático; já para Gilles Deleuze 2 a literatura produz conceitos rigorosos, mas não exatos, o que a difere das ciências e da filosofia, ainda que não haja rebaixamento em relação a nenhum dos discursos, pois o que está em questão não é a necessidade de uma verdade que mimetiza uma essência, mas a variação da produção subjetiva que leva a novos campos do saber na transformação da linguagem humana. Já para Alan Badiou 3 de forma diferente, mas paralela, a arte, como a poesia, é um pensamento enquanto evento, se tornando em sua contingência um dos suportes para o qual a filosofia deve hoje recorrer em seus impasses.
Para o caso do Catatau , entretanto, notamos que o livro aponta para a compreensão da cena que coloca em jogo, a partir do diálogo negativo intenso entre campos discursivos diversos, questões como o pensamento cartesiano, a unidade e a metafísica essencialista, a identidade, o evento como pensamento, a diferença, o conhecimento, o texto, a razão, a experiência, o sujeito, o jogo, o conceito, o apagamento do sentido, enfim, de que forma o discurso poético dialoga com questões que não se constituem como reféns de campos discursivos restritos ou restritivos, mas estão presentes como enxertos híbridos parodiados que se projetam negativamente sobre os campos discursivos sociais a que a obra se refere.
Seguindo adiante diria, pois, que as questões do pensamento humano no Catatau são realizadas através de uma negatividade no momento em que o crítico se encontra com o poeta em Leminski, fazendo com que se confundam o chamado externo e o interno da literatura, assim projetando a metalinguagem para variados campos da crítica e da cultura, articulando, portanto, teoria poética com poesia, metalinguagem com paródia do discurso filosófico, histórico, político, etc.
O pensamento produzido neste quiasma discursivo ultrapassa as fronteiras de gênero até então definidos, mesmo porque a literatura “está antes do lado do informe” 4. Escrever, retomando Deleuze, “é um caso de devir” 5 O pensamento de uma obra, portanto, está muito além da intenção do autor, já que “a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos destitui do poder de dizer Eu” 6
Os procedimentos utilizados para a negação, neste sentido, são dos mais variados, como a sobrecodificação sintática, rítmica e sonora das frases, a colagem e o cruzamento de discursos ou o simultaneísmo da prosa poética. Mas a atenção especial do negativo acontece no recurso da paródia, que tem o efeito de dissolver os discursos num emaranhado de vozes que dão a falsa impressão de falta de sentido, mas que no fundo estão coerentemente articulados e dirigidos em bloco à negatividade crítica, articulados em pensamento quando a metalinguagem já está composta por discursos sociais que, entretanto, não são admitidos retoricamente na ficção poética.
Mas é a partir deste ponto que podemos notar a relevância produtiva e criativa do movimento contraditório do texto, pois observamos que todo o livro traz a referencialidade mediada pela paródia, pela mímica, com a exceção inusitada do plano metalingüístico .
A metalinguagem existente no Catatau , neste sentido, é composta de um conteúdo teórico considerável que se esquiva ao processo paródico. Ao se referir à poesia, à literatura ou ao poético de um modo geral, o discurso metalinguístico presente no livro reafirma o discurso concretista sobre o literário que, como dissemos, passa pelo funil interpretativo do poeta. É o que observamos em diferentes momentos extraídos do Catatau :
Só para quem não sabe, arte representa; para quem sabe a arte é distração, lei livre,
aleata 7...
Meu pensamento-de-choque bate nessa pedra – e o eco é equação, mesmice e repeteco 8
...
Eis o que é isso: cada um tem jeito particular de se arranjar para não dizer nada 9
...
importa o desempenho, desespero também é bom, mas dentro do desempenho 10
...
Para ser mensageiro, seja mensagem primeiro: a flecha é, por natureza, a mais indicada 11
...
o objetivo anula o entendimento, ignora-se o destino 12
São posições muito próximas do crítico-Leminski, debatedor público de poesia, o que torna curioso observar que é justamente neste nível metalinguístico, momento em que a linguagem seria mais autônoma e auto-referencial, já que estaria teoricamente articulado com a função poética da linguagem, é justamente neste nível onde acontece o maior realismo, ou como poderíamos dizer, um realismo crítico , já que é na metalinguagem que o narrador traz o discurso público do crítico-Leminski para o interior da obra sem a mediação paródica, fazendo com que sua interpretação do discurso concretista, inusitadamente, se torne a referência “externa” mais intacta à transformação, quando consideramos os discursos sociais agenciados.
De certa forma a metalinguagem, artifício que deveria confiar a poética ao centro de si mesmo enquanto objeto-substantivado, sendo um instrumento do discurso público de Leminski, contradiz o projeto auto-referencial ao se tornar uma articulação do pensamento que faz transitar os discursos sobre a sociedade por intermédio da discussão poética negativa . Assim, o livro aponta e pressupõe o referencial mesmo sob a negação retórica insistente do referente, tornando o contato entre o realismo crítico - presente como metalinguagem no Catatau - e os discursos sociais parodiados um território propício para a fertilidade de um pensamento que negativa o real na sobrecodificação dos discursos.
Mesmo que o discurso do crítico-poeta -Leminski queira controlar o discurso do poeta-crítico na malha retórica do literário, a literatura enquanto devir foge retoricamente do passado semântico da crítica, levando o texto a uma complexidade para além de seu comentário. O poético do Catatau , desta forma, não eterniza o instante, nem essencializa sua própria identidade, mas se torna a expectativa do devir. No Catatau temos uma poesia como desvio da personalidade e não como uma expressão desta. O texto não tem unidade e se esquiva a todo controle. As contradições, entretanto, não paralisam nem rebaixam o texto, pelo contrário o coloca em movimento e produtividade. Pensar a, na e com a poesia é unir o que o pensamento separa, bem como separar o que o pensamento une, tomando a linguagem como um acidente, que age como uma evasão de todo constituinte.
DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia . Campinas: Papirus, 1991, 376 pág.
DELEUZE, Gilles. Conversações . 3 a Ed. São Paulo: Editora 34, 2000, 232 pág.
BADIOU, Alan. Pequeno Manual de Inestética . São Paulo: Estação Liberdade, 2002, 192 pág.
DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica . São Paulo: Editora 34, 1997, 176 pág.
LEMINSKI, P. Catatau . 2 a Ed. Porto Alegre: Sulinas, 1989, p. 61.