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A mão, a máquina e o estilo. O acontecimento textual da desconstrução
André Rangel Rios (UERJ)

Telles furent mes règles de conscience sur le mensonge et sur la vérité. Mon coeur suivoit machinalment ces règles avant que ma raison les eut adoptées, et l'instinct moral en fit seul l'application.

Rousseau, Quatrième Promenade O. C. vol. 1, p. 1032

 

Um aspecto que muito admiro em Derrida é como, ao longo dos anos, ele foi dando mostras de crescente atividade com uma energia e prolixidade desmedidas. A depressão, tida por alguns como o mal do fim século, nunca pareceu – academicamente ao menos – abalá-lo. Em uma entrevista, em 2002, Derrida fala sobre isso:

Eu levo uma vida muito ativa e exaustiva. Se alguém me tivesse dito, quando eu tinha 20 anos, que eu estaria fazendo o que faço com a idade de 72 anos, eu não acreditaria. Eu era fisicamente mais frágil naquela época, e teria sofrido um colapso se eu fizesse uma fração do que faço agora . A recepção do meu trabalho me dá esta energia . As pessoas são generosas comigo e com meu trabalho; tenho a certeza de que teria sofrido um colapso sem essa generosidade. 1 (o negrito é meu)

 

Derrida é, portanto, tanto uma usina geradora de energia quanto uma central captadora e redistribuidora de energia. Nós, pesquisadores brasileiros, recebemos e redistribuímos uma fração dessa energia ao escrevermos sobre sua obra. Este meu artigo é produzido com uma diminuta fração do que a usina Derrida mobiliza. Mas o que me chama atenção nesse trecho da entrevista é que ele irradia um certo deslumbramento de Derrida com seu status de celebridade intelectual. Evidentemente, Derrida sempre esteve tentando pensar criticamente a mídia e, sobretudo não fazer concessões a ela. Em especial, ele se sente constrangido ( ill at ease / discomfort ) com sua imagem em fotografias, ou seja, com as imagens dele reproduzidas pelas máquinas fotográficas. Derrida também alega que inicialmente buscava evitar tanto as “poses estereotipadas” ( stereotyped poses ), ou seja, repetitivas tal como um produto industrializado, quanto fazer concessões ao cultural market 2 (ou seja, a este mercado que vende cultura maquinalmente produzida). Enfim, são sempre as máquinas – desde as máquinas fotográficas até a indústria cultural como um todo – que deixam Derrida constrangido tanto a evitar aparecer quanto em fornecer sua imagem. Ou seja, Derrida parece, por motivos ou sentimentos diversos, ter dificuldade em pensar – portanto, em desconstruir – essas duas facetas da vida de uma celebridade intelectual: a revigorante satisfação com os freqüentes convites e o constrangedor assédio da mídia. 3.

Quem, entretanto, tem algo a dizer sobre as celebridades intelectuais e suas carreiras é Bourdieu, um colega de Derrida na École Normal Superieur, ou seja, um colega dele naquela fase da vida em que, ao estarem em uma instituição formadora de elite, trilhavam os primeiros passos para a fama como intelectuais:

Através dos jogos sociais que propõe, o mundo social proporciona algo mais e distinto do que são os móveis aparentes: a caça, como lembra Pascal, conta tanto, senão mais, do que a presa, e existe uma felicidade da ação que supera os ganhos patentes, salário, preço, recompensa, e que consiste no fato de sair da indiferença (ou da depressão ), de estar ocupado, envolvido com metas, e de se sentir dotado, objetivamente, logo subjetivamente, de uma missão social. Ser esperado, solicitado, assoberbado por obrigações e compromissos, tudo isso tem o significado não apenas de ser arrancado da solidão ou da insignificância , mas também de experimentar, da maneira mais contínua e mais concreta, o sentimento de contar para os outros, de ser importante para eles, logo para si mesmo, e encontrar nessa espécie de plebiscito permanente que vêm a ser os testemunhos incessantes de interesse – pedidos, expectativas, convites – uma espécie de justificativa continuada para existir. 4 (o negrito é meu)

 

Bourdieu descreve nesse trecho um circuito de energia. A preocupação dele é em especial com a produção do saber na França, mas não há como não irmos além e nos pormos a pensar no circuito internacional de energia intelectual no qual – obviamente de forma desigual e assimétrica – estamos inseridos.

O que se passa é que a pesquisa constitui um circuito de informação e energia (convites, publicações, metas, homenagens, rankings , prêmios, medalhas etc.); de um modo geral não há como resistir a engajar-se nele. Quem não corresponde às exigências não é lido nem convidado pela academia (ainda que consiga ser publicado devido a inserções em algum outro circuito), ou seja, fica desmotivado, ou deprimido, ao menos do ponto de vista de suas metas acadêmicas. Não que a criatividade e a crítica não valham. Ao contrário, elas são valorizadas, mas, é claro, no pressuposto de sua boa inserção no circuito. Assim, há um planejamento geral com metas e orçamento; algumas áreas ou alguns temas são circunstancialmente privilegiados; outros temas são definidos pelos pesquisadores sêniores das respectivas áreas; os pesquisadores ou as equipes apresentam seu projeto ou plano de pesquisa que são julgados; depois há os relatórios e a avaliação da produtividade das instituições ou programas de pós-graduação e dos pesquisadores. A criatividade tem de ser exercida no trajeto do plano aos resultados e relatórios. É uma criatividade planejada, o resultado de um programa, de uma máquina. Há um trecho de Derrida em ‘Psyché. Invention de l'autre' 5 que comenta essa situação:

 

Segundo os trajetos mais inaparentes ou mais supradeterminados ainda, nós sabemos que tais programações [para fomentar pesquisas] podem envolver a dinâmica da invenção, por assim dizer, a mais “livre”, a mais selvagemente “poética” e inaugural [ sauvagement “poétique” et inaugural ]. A lógica geral desta programação, se houver, não será necessariamente aquela das concepções conscientes. A programação pretende, e por vezes chega a isso até certo ponto, a estabelecer a margem aleatória que é necessária levar em conta. Ela a integra em seus cálculos de probabilidades. Há alguns séculos se entendia a invenção como um acontecimento errático [ un événement erratique ], o efeito de um lance genial individual [ un coup de génie individuel ] ou de uma circunstância imprevisível. Isso freqüentemente se deveu a um desconhecimento, ainda que desigualmente difundido, dos trajetos tortuosos pelos quais a invenção se deixava constranger [ contraindre ], prescrever, senão prever. (p. 40) (o negrito é meu)

 

Derrida, portanto, se mostra sensível a esse paradoxo da conjunção da invenção (ou seja, da criatividade intelectual) com a máquina, ainda que aí mais uma vez ele não se dê conta da circulação de energia que esse circuito, ao promover a fama ou a desmotivação, está distribuindo ou retendo.

‘Invention de l'autre' é basicamente a confluência de uma discussão sobre a desconstrução demaniana (com sua ênfase característica na questão do performativo e do constatativo) e uma desconstrução do “conceito tecno-onto-antropo-teológico da invenção” (p. 61). Nele, Derrida descreve e critica o conceito de invenção que ele entende como sendo o comumente aceito, ou seja, ele primeiramente constrói esse conceito a partir de autores usuais ao cânon filosófico, sobretudo, Descartes, Leibniz, Kant e Heidegger – para depois buscar desconstruí-lo. O autor citado com destaque por Derrida menos usual ao cânon filosófico, embora seja legitimamente um autor do cânon, é Cícero; e, com efeito, a discussão sobre Cícero abrirá questões de grande importância, que infelizmente não poderei discutir aqui, sobre a relação entre o Direito e a invenção, enfim, sobre o problema das patentes. Não há, porém, nenhuma menção da rica discussão epistemológica pós-kuhniana sobre a produção da ciência. Derrida segue o modelo heideggeriano de considerar tacitamente os ditos grandes filósofos como os lídimos representantes do pensamento de suas épocas; na verdade, ele repete a mesma preferência de Heidegger por Leibniz, no Der Satz vom Grund 6, como figura fulcral na constituição do pensamento científico moderno. Assim, também tacitamente, Derrida corre o risco de tomar para si a mesma concepção eurocêntrica do desenvolvimento científico europeu na época da colonização 7.

A parte mais interessante do ‘Invention' é quando Derrida analisa um poema de Francis Ponge, ‘Fable', e em um dos momentos conclusivos de sua análise ele cita um trecho do texto de de Man tal como se fosse um trecho dele mesmo (isto é, de Derrida) para explicar, ao explicar com essa passagem de de Man o poema de Ponge, o seu próprio comentário ( ...essas poucas linhas que parecem escritas para a ‘Fable' – p. 28). Ou seja, Derrida explica o pensamento de de Man a partir da explicação que ele mesmo, Derrida, dá sobre o poema de Ponge; e esclarece sua própria interpretação do poema de Ponge citando um trecho de ‘The Rhetoric of Temporality' 8 de de Man (um texto que nem menciona Ponge). Tudo se passa como se duas máquinas fossem acopladas uma à outra, duas máquinas interpretativas, uma para explicar e problematizar a outra. É como se a máquina interpretativa de Derrida explicasse a invenção demaniana e a máquina de de Man, a invenção derridiana, sem que qualquer uma das duas chegasse a se estabilizar.

Em nossa época de invenções de máquinas, época que comercializa cinematograficamente o temor de um mundo maquínico em que o humano seja dispensável, a questão de ‘Invention de l'autre' é premente 9. Derrida questiona a necessidade de reinventar a invenção: uma invenção teria de ser uma ruptura, a quebra de algum contrato implícito, um tipo de desordem, enfim, teria de ser algo de imprevisto, de imprevisível, de impossível. Assim, o texto se desenvolve na confrontação entre uma invenção possível e uma impossível, uma invenção que, dentro de certa medida, respeitaria as normas vigentes e uma invenção que, ao acontecer, reinventaria as próprias normas. A análise do poema de Ponge (sobretudo da contradição suscitada pelo verso inicial de ‘Fable' : Par le mot par commence donc ce texte – citado na p. 31) juntamente com a discussão da ironia e do performativo/ constatativo segundo de Man ilustraria a questão de uma instabilidade intimamente ligada ao acontecimento textual, isto é, à invenção. O trecho que cito a seguir pode ser tomado como resumo da problemática abordada nessa parte do texto de Derrida:

A oscilação infinitamente rápida entre performativo e constatativo [na ‘Fable' de Ponge], linguagem e metalinguagem, ficção e não-ficção, auto- e hetero-referência etc., não produz somente uma instabilidade essencial. Essa instabilidade constitui o acontecimento ( l'événement ) mesmo, digamos, a obra, da qual a invenção perturba normalmente, se se pode assim dizer, as normas, os estatutos e as regras. (p. 25)

 

A instabilidade é, portanto, o acontecimento, ou seja, a invenção. O que acontece num texto é a instabilidade que está em processo nele. Não se trata propriamente da instabilidade que um texto possa causar na sociedade, mas instabilidades que o constituem no mesmo gesto que o desconstituem. Sendo a sociedade um texto as instabilidades sociais incluem um processo desconstrutivo e, assim, também um acontecimento ou invenção, mas não se deve por isso confundir com a suas tensões desconstrutivas internas as instabilidades fenomenologicamente visíveis – os tumultos de rua ou as crises econômicas –, bem como o que um texto possa desencadear como repercussões sociais imediatas. Assim, temos que, por um lado, há a desconstrução pela leitura desconstrutivista, quer de textos literários quer de filosóficos, e, por outro, há a desconstrução da máquina acadêmica desconstrutivista e sua energética – uma desconstrução que nos vemos agora constrangidos a, por assim dizer, empreender. Para isso é necessário evitar entender o pensamento de Derrida como resultante de “um acontecimento errático” ou de “um lance de gênio individual” e tampouco como uma invenção “livre” ou “selvagemente poética e inaugural”, mas como um output de uma máquina internacional de produção acadêmica e de celebridades intelectuais. Do mesmo modo, podemos supor, a desconstrução da máquina que desconstruirá (e que talvez já esteja desconstruindo) essa máquina acadêmica internacional desconstrutivista será ainda um outro momento – por vir.

 

Three Ages of Jacques Derrida http://www.lichtensteiger.de/derridathreeages.html November 8 – 14, 2002 (acessado em 10/7/4). Traduzido por mim.

“There were several different reasons for my refusal to be photographed, which did last a long time. One of them, a profound one, unquestionably has to do with being ill at ease with my own image... Authors had their pictures taken in stereotyped poses, the professor or the writer with books behind them... I just wanted to protest against the cultural market and what it did with the image of authors”. J. Derrida & M. Ferraris, A Taste for the Secret , Cambridge , Polity Press, 2001, p.52-52. Explicando por que hesitou em aceitar aparecer em um filme sobre ele mesmo Derrida diz: “I proceeded with deep reservations that had to do with the discomfort I've always felt about my image in photographs. I succeeded in publishing for almost 20 years without a single image of myself appearing in connection with my books... I had what you might describe as ideological objections to the conventional author photograph...I've always had a difficult relationship with my own body and image.” Three Ages of Jacques Derrida, loc. cit.

Em ‘A Construção de Derrida como Celebrity' comentei que, no entanto, seu status de celebridade intelectual internacional é algo que Derrida não consegue criticar senão muito superficialmente Uma primeira versão desse meu texto encontra-se nos anais do Congresso da Abralic de 2002; uma versão revisada será publicado em breve.

Pierre Bourdieu Meditações Pascalianas . Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001 p. 293-294. Publicado na França em 1997.

‘Psyché. Invention de l'autre' in: J. Derrida, Psyché. Inventions de l'autre , Galilée, 1987, p.11-61. Daqui em diante as referências a essa obra estarão incluídas entre parênteses no texto.

M. Heidegger, Der Satz vom Grund , Verlag Günter Neske, 1978 [1957].

Uma concepção descaradamente eurocêntrica do saber na modernidade é exposta por Foucault em As Palavras e as Coisas – as epistemes são “aprioris históricos” europeus e explicam a organização dos saberes apenas na Europa. Nesse livro, ludicamente elegante embora autocentradamente monstruoso, tudo se passa como se o saber europeu tivesse uma dinâmica própria absolutamente independente de tudo o mais que era saqueado e exaurido das colônias; enfim, tudo se passa como se a intensa interação entre as metrópoles européias e as colônias em nada tivesse maculado a dinâmica transcendental dos saberes europeus. Ainda que Foucault tenha sido constantemente citado e discutido nos Estudos Pós-coloniais não lembro de ter visto qualquer crítica ao assombroso eurocentrismo desse livro. Sobre o Der Satz vom Grund ver também o meu texto: ‘Nada é sem Razão. Impessoalidade e Eurocentrismo na História do Ser' in: Éthica. Cadernos Acadêmicos , vol. 9, n° 1 e 2, 2002, p. 147-156.

Paul de Man, Blindness and Insight , Minneapolis , University of Minnesota press, 1983 [1971], p. 222.

A produção de seres humanos por máquinas em escala industrial não é algo que possa surpreender os filósofos. Heidegger, em ‘Überwindung der Metaphysik', um texto publicado em 1957, antevê um mundo em que, tornados mera matéria prima, seres humanos – o que é bem mais radical do que nos mostra o filme Matrix – serão fabricados quimicamente: “Sendo pois o homem a mais importante matérias prima, pode-se já prever, que com base na atual pesquisa em química serão erguidas fábricas para a produção de material humano. As pesquisas do químico Kuhn, que foi laureado este ano [1951] com o prêmio Goethe da cidade de Frankfurt, abrem já a possibilidade de que se venha a organizar a produção de seres masculinos e femininos.” Vorträge und Aufsätze , Neske, 1990, p. 91.