![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Memória e ruína: a figuração como estratégia da desconstrução
Alcides Cardoso dos Santos (UNESP)
Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo. Um texto permanece, aliás, sempre imperceptível.
A farmácia de Platão
“A figuração é o produto da capacidade formativa da cognição humana” que “pontua a complexidade do tempo e do espaço com formas interpretáveis” ao realizar a “transmutação de idéias em imagens”, desta forma a enciclopédia Princeton de poesia e poética inicia sua definição de figuração.(Preminger 1993, 408) 1 Três idéias presentes nesta definição nos serão caras, a capacidade formativa do pensamento, as formas interpretáveis e a transformação das idéias em imagens, por traduzirem a concepção de figuração que se consagrou entre nós a partir da diferenciação e hierarquização platônica da idéia ( eidos ) sobre a imagem ( eikon ), passando pela concepção da retórica como ornamento do discurso (cujo apogeu foi atingido pela écfrase [ ekphrasis ]) e se cristalizando na instituição do saber filosófico em oposição à prática ficcional da literatura. A figuração do discurso foi historicamente associada à imagem e seus derivados (simulacros, símiles, duplos, espectros e fantasmas), à sedução pelo embelezamento do discurso com argumentos sediciosos ou ornamentos sedutores e à instituição da literatura como ordem ficcional que permite tudo dizer, pois não tem o compromisso com a verdade que a filosofia assume (como ao Górgias de Platão esclarece). Embora a questão da figuração remonte à Grécia antiga de Homero e Platão, ela permanece atual em pelo menos um aspecto, que é o de ser a interface entre os campos da filosofia e da literatura, instigando a visibilidade renitente do discurso tanto em sua forma científica quanto ficcional.
Esta via de pensamento sobre o papel da figuração no conhecimento tem sido trilhada por vários campos do saber, como a psicologia Gestalt, a psicanálise, a epistemologia, a filosofia de Wittgeinstein, Husserl e Merleau-Ponty, a teoria estética e, obviamente, a teoria e crítica literária. Mais recentemente, o surgimento de uma classe de pensadores que alcançou embaralhar as fronteiras entre o discurso científico e o ficcional por meio de textos singulares em que a precisão do pensamento conceitual juntava forças com procedimentos caracteristicamente literários, como a narração e a imagística, criou um hibridismo do qual vários campos das ciências humanas têm se beneficiado. Dentre estes pensadores, um nos interessará diretamente pelo alcance inaudito de sua obra em muitos campos do saber e pela forma como incorpora o pensamento da figuração a uma prática discursiva que se aloja no domínio da filosofia mas também, e tão bem quanto, nos campos da teoria literária, estética, psicanálise ou estudos da tradução, para citar alguns. Para este filósofo, a figuração não negará sua tríplice herança do platonismo, a sua conceituação como eidos , da retórica, a sua concepção como ornamento ou argumentação, e da literatura, sua capacidade de dizer tudo ou qualquer coisa. No curto espaço deste trabalho analisaremos, de forma bastante esquemática e introdutória, o papel da figuração na obra do filósofo franco-argelino Jacques Derrida, mostrando como sua entronização no discurso da desconstrução conduz a um hibridismo de gêneros e a uma recuperação da visibilidade relegada pela ontologia platônica ao ardiloso espectro das representações sensíveis. Inicialmente veremos com mais clareza como a figuração é utilizada nos textos de Jacques Derrida para, em seguida, pensarmos como uma possível definição da figuração a partir do horizonte da desconstrução derridiana poderia ser esboçada.
A relação entre os textos de Derrida e os textos com os quais dialoga, sejam eles pertencentes à tradição filosófica, literária ou religiosa, é sempre da ordem da reciprocidade e da hospitalidade. As leituras que Derrida faz de textos fundadores das tradições intelectuais e artísticas se alojam na dobra de uma diferença irredutível que cada texto guarda para si e provocam esta irredutibilidade por meio de enxertos, apropriações e empréstimos que constantemente deslocam as fronteiras entre texto lido e texto escrito. Provocando a incondicionalidade de reflexão que se abre às diferentes vias do pensamento em meio às regras do gênero, Derrida consegue ser fiel à tradição, mas praticando um tipo de fidelidade que, ao assumir esta herança dos textos e filosofemas clássicos consegue, por efeito de suas leituras, abri-los ao acontecimento, isto é, seguir a sua lógica com tamanha seriedade e atenção que faz com que esses textos passem a diferir de si mesmos e se abrir à possibilidade de serem pensados de formas diferentes:
A lei da hospitalidade, a lei incondicional da hospitalidade ilimitada (oferecer a quem chega todo o seu chez-soi e seu si, oferecer-lhe seu próprio, nosso próprio, sem pedir a ele nem seu nome, nem contrapartida, nem preencher a mínima condição) e, de outro lado, as leis da hospitalidade, esses direitos e deveres sempre condicionados e condicionais, tais como os definem a tradição greco-latina, mais ainda a judaico-cristã, todo o direito e toda a filosofia do direito até Kant e em particular em Hegel, através da família, da sociedade civil e do Estado. (Derrida 2003, 69) 2
Desta forma, tanto o texto lido como o texto assinado por Derrida passam por um processo que, por catacrese, poderíamos chamar de tradutório, desde que entendamos a tradução no horizonte da desconstrução, isto é, como a tradição universalizante do pensamento ocidental, que se apóia sobre a possibilidade do intercâmbio interdisciplinar que constitui o centro do saber científico tal qual o conhecemos a partir do século XVIII. 3 O modus operandi deste processo de leitura e produção textual será a provocação da lógica do texto lido até seu limite, o que é feito por meio da figuração de diferentes instâncias do texto lido no texto que Derrida escreve. O funcionamento semântico, lexical, simbólico e argumentativo do texto lido é simulado no texto derridiano num tipo de mimesis que duplica a concatenação do texto “original”, de forma que a originalidade deste texto lido seja enxertada no texto de Derrida.
A figuração no horizonte derridiano se distanciará do sentido que lhe dá, por exemplo, Gérard Genette, como o espaço da linguagem ou uma tropologia arquitextual ou no sentido que os teóricos da Retórica Geral lhe dão, como um desvio da forma padrão por meio do qual o próprio conceito de padrão pode ser revisto. Nem a tropologia de inspiração todoroviana, nem a hipostasia do sistema lingüístico como matriz de todos os outros sistemas significantes, a figuração em Derrida tem inspiração fenomenológica e assume uma função desconstrutora, isto é, se torna uma estratégia em dois sentidos que nos interessará remarcar a partir de Mémoires d'aveugle: L 'autoportrait et autres ruines. 4
O primeiro sentido que nos interessa remarcar é, parafraseando Valéry, a “hesitação prolongada” entre a ilustração e a regra, em outros termos, entre a particularidade e a generalidade. A figuração, neste primeiro sentido, oscilará entre duas direções: a exemplaridade, função que lhe dá a retórica clássica de ornamentar e ilustrar o discurso com casos particulares, e a clareza do raciocínio que o texto deve expor. Em Memoirs... , a ilustração da cegueira é feita pelos quadros da exposição homônima que Derrida é convidado a visitar no Museu do Louvre, quadros que o levam a peregrinar textualmente pelos casos “clássicos” de cegueira da Bíblia e da literatura, de Sansão a Borges, passando por Tirésias, Ulisses e Medusa. Já a figuração como exposição clara de um raciocínio será elaborada como a inquirição sobre o caráter paradoxal da cegueira.
Reproduzimos de forma brevíssima a argumentação de Memoirs... : a visão se constitui, na cultura religiosa cristã e na representação literária ocidental como o débito original em relação à realidade, cujo pagamento a inscreve na ordem da verdade. Ver é restituir a realidade à sua ordem, à sua identidade, e a restituição é prescrita pela techné mimetiké , pelo conjunto pré-estabelecido de procedimentos e valores que orientam a reconstituição do que a doxa prescreve como o real. Porém, a realidade a ser restituída pela visão já terá sempre sido heterogênea, inapreensível em sua totalidade ou, em jargão filosófico, a essência da realidade é, por definição, essencial, o que implica em que não pertença à ordem do fenômeno e sim à do noema. Nas palavras de Merleau-Ponty, a visibilidade do visível não pode ser vista, sua heterogeneidade em relação ao mundo á abissal, primeva. (2000, 224 et passim) 5
A restituição da verdade pela visão será, então, a restituição da essência invisível do mundo, que só poderá acontecer como memória de uma realidade jamais experimentada pelos sentidos em sua totalidade, isto é, como a ruína que a visão busca recuperar. A memória, neste caso, não será a memória individual, afetiva, mas a memória coletiva, cultural, memória como ficção conceitual das origens. Portanto, conclui Derrida, a ordem e a ruína da visão não são dissociadas, antitéticas ou tampouco complementares, mas acontecem na forma de um perfomativo que é a obra, na qual ilustração e regra realizam a tensão entre o único e o iterável.
Ordem e ruína não estão mais dissociados na origem do desenho – e tampouco estão a estrutura transcendental e o sacrifício – menos ainda quando o desenho mostra sua origem, a condição de sua possibilidade e a chegada de seu evento: a obra. Uma obra é, ao mesmo tempo, ordem e sua ruína.
...
Ela [a obra] é performativa, algo de que a visão sozinha nunca seria capaz se desse à luz somente relatos representacionais, perspicácia, teoria ou teatro, se ela já não tivesse potencial de apocalipse. (Derrida1993, 122) (tradução nossa, grifos do autor)
O segundo sentido que nos interessa remarcar sobre a função da ilustração em Derrida é a intersecção entre gêneros discursivos. O tropismo que um gênero discursivo, seja o religioso, o filosófico ou o literário, exerce sobre outros gêneros articulados no texto derridiano, produz a sensação de que não se habita plenamente discurso algum. As figuras de cada gênero visitado são reproduzidas de tal forma que se pode perceber, no hibridismo de gêneros que os textos de Derrida promovem, a simulação da lei de cada gênero. Porém, os gêneros simulados já trazem a marca da diferença que sofrem sob o tropismo de outros gêneros no texto derridiano. A figuração, neste caso, inviabiliza a identificação de um gênero per se e, conseqüentemente, anula a oposição entre eles, como a Khôra platônica, que nomeia somente uma iminência, não se constituindo em discurso histórico, filosófico ou mitológico.(Derrida 1995, p. 9) 6
Em Memoirs... quatro gêneros são remarcados e enxertados, trazendo consigo sua lógica argumentativa, semântica e lexical: o religioso, o filosófico, o autobiográfico e o literário O discurso religioso será invocado e articulado para falar da cegueira bíblica, da cegueira como iluminação espiritual; o filosófico será referido nos momentos em que o discurso se coloca como o lugar de onde se é autorizado a falar sobre a cegueira, um vantage point a partir do qual se vê a cegueira sob a luz da verdade e da razão; o discurso autobiográfico aparece na forma de uma primeira pessoa que (se) questiona hesitante o senso comum sobre a cegueira, como se preferisse manter suas dúvidas no segredo de sua enunciação; já o gênero literário aparece na forma de uma teatralização de vozes que são disseminadas num mise-em-cene intelectual bastante próximo do Blanchot de A conversa infinita. A instauração de instâncias de narração, embora os narradores não sejam anunciados a não ser por travessão, também remarca com eficiência o gênero literário 7.
O paradoxo da visibilidade, isto é, o paradoxo da origem invisível da visibilidade, não é senão o paradoxo da figuração que nos interessa explorar, anunciado logo no início de Memoirs... como o paradoxo da linguagem: a palavra é ouvida, invisível portanto; mas ela sempre terá sido escritura ou arqui-escritura a partir da qual a oposição fala-escrita pôde ser articulada conceitualmente (Derrida 1973) 8.
O paradoxo da visibilidade/figuração será desdobrado em duas “lógicas”, a transcendental e a do sacrifício: a primeira nunca será temática, representável, enquanto a segunda será da ordem do espetáculo, da narração e da representação. A lógica da transcendência será sempre a da negatividade, do inominável que a teologia negativa atribuirá a Deus e a filosofia de tradição platônica denominará ‘essência'. O pensamento das essências terá sempre uma forma negativa, será sempre a busca pela apreensão daquilo que já em sua definição é inapreensível, uma busca que terá na dialética sua expressão mais engenhosa em nossa cultura. Já a lógica do sacrifício será da ordem do visível, do dizível, do fenômeno, será sempre a “prosa do mundo”, a “carne das coisas” que Merleau-Ponty se esforça por nos fazer voltar a ver.
Estas duas lógicas fazem parte da nossa cultura, são a essência mesma da nossa cultura e é entre elas que a figuração derridiana se colocará, instaurando o evento que dará à luz o temático e a representação. O evento ou a obra será a realização da tensão entre a transcendência e o sacrifício, o desvelar do ser que no mesmo gesto o oculta, a Ge-stell que surge da fissura entre terra e mundo e se compõe na Gestalt , na figura. A obra de que falamos não será somente a obra de arte no sentido moderno, mas será o erigir do mundo de que fala Heidegger e o paradoxo da visibilidade em Derrida terá muita semelhança com a aletheia heideggeriana. A linguagem terá, para ambos, lugar privilegiado como Dasein , o ser-no-mundo que possibilita o surgimento da verdade como acontecimento, como dichtung , a fala essencial ou poética 9.
A figuração terá a estrutura de evento, também no sentido que lhe dá Lévinas, de abertura à face do outro, ao inefável do encontro e da hospitalidade que o desejo engendra. A alteridade que cada texto guarda para si na forma de segredo terá o desejo como propulsor não será habitada pela ontologia e não terá objeto:
Outrem é exatamente essa dimensão sem objeto. A volúpia é a busca de uma promessa sempre mais rica; ela é feita de um acréscimo de fome, acréscimo que se desprende de todo ser. Não há fim, não há término entrevisto. A volúpia lança-se num futuro ilimitado, vazio, vertiginoso. Ela consome tempo puro, que nenhum objeto preenche nem baliza. (Lévinas 1998, 48) 10
Sendo evento, ela possibilitará o surgimento da obra, do texto, mobilizando tanto a lógica transcendental como a do sacrifício e se embrenhando pelos meandros indizíveis que a linguagem sempre portará. Esta visada fenomenológica da desconstrução afasta a figuração das concepções lingüísticas e retóricas para fazer dela uma espécie de eixo de toda produção textual, o que significa dizer que a figuração assumirá diferentes faces, variando de acordo com as (d)obras em questão. Dito de outra forma, a figuração do pensamento pela linguagem será uma constante em Derrida e tomará formas diferentes nos textos que escreve, sendo a própria questão da nomeação já um filosofema fundamental para o filósofo.Assim, por quiasmas sucessivos, poderíamos evocar outros momentos da figuração derridiana, trazendo à luz da memória termos como différance , suplemento, assinatura, literatura e outros que nomeiam a ruína de que a figuração é mensageira. A figura será, para Derrida, a nomeação do inominável, uma anfibologia, como dirá Michel Déguy 11, na qual a ambivalência é matriz de toda ambigüidade e na qual o evento pede para ser reconhecido, o evento figurativo para o qual o autor, exemplificando o que chamamos de figuração derridiana, volta a usr o arqui-conceito de mimesis :
Talvez convenha chamar de mimesis o pleno jogo de mis-em-scène do ser ao mundo em várias reciprocidades: esta situação de se mimetizar, de se simular, de se comparar, que é a dos entes entre eles: jogo entre a figuratividade de uma coisa e a fábula de uma situação humana. (Déguy 1987, 66) (tradução nossa, grifos do autor)
O texto, o evento que a figuração nomeia por catacrese, será sempre outro nome da hospitalidade, do dom, da troca e do perdão. O texto, aliás, permanecerá sempre imperceptível.
PREMINGER, A .; BROGAN, T. V. F. (ed.) The New Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics . United Kingdom: Princeton University Press, 1993. 1383 pp.
DERRIDA, J. Da hospitalidade . Trad. Antonio Romane. São Paulo: Escuta, 2003. 135 pp.
DERRIDA. J. “Teologia da tradução” In OTONI, P. (org.) Tradução: a prática da diferença. São Paulo: Editora da UNICAMP/FAPESP, 1998. pp. 143-160. (Coleção Viagens da Voz). 160 pp.
Usamos, neste trabalho, a tradução norte-americana, Memoirs of the Blind. The Self-Portrait and Other Ruins. Trad. Pascale-Anne Brault e Michael Naas. Chicago: the University of Chicago Press, 1993. 141 pp.
MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível . São Paulo: Perspectiva, 2000. 271 pp. .
DERRIDA, J. Khôra . Trad. Nícia Adam Bonatti. Campinas: Papirus, 1995. 75 pp.
Poderíamos apresentar o “diálogo” como um sub-gênero do filosófico, na tradição que vai de Platão a Blanchot. Porém, os diálogos que se anunciam em Memoirs... parecem indicar muito mais uma coreografia intelectual, um mise-em-scène de idéias e vozes do que propriamente a enunciação de posições filosóficas por personagens distintos com funções claras e prescritas, como é o caso do diálogo filosófico.
DERRIDA, J. Gramatologia . Trad. Miriam Schnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973. 386 pp.
HEIDEGGER, M. “The Origin of the Work of Art” In Poetry, Language, Thought. New York: Harper Colophon Books, 1975. 229 pp.
LÉVINAS, E. Da existência ao existente . Trad. Paul Albert Simon e Lígia Maria de Castro Simon. Campinas: Papirus, 1998. 119 pp.
DEGUY, M. La poésie n'est pas seule. Court traité de poétique. Paris: Seuil, 1987. 186 pp.