(Rita Salma Feltz – UFSC – CNPq)
Patria d’hirois, birdadeira,
Turrão du Vucage e du
Quemõens!
E biba a Ilha Tirçâira,
A parir pertugueses
balentões.
(Furnandes Albaralhão)
“Ninguém discorda de que o nacionalismo tem
estado ‘por aí’ na face da Terra há no mínimo dois séculos. O bastante,
poder-se-ia supor, para que já fosse entendido de maneira clara e generalizada.
Mas é difícil pensar em algum fenômeno político que continue tão intrigante
quanto este e sobre o qual haja menos consenso analítico. Dele não há nenhuma
definição amplamente aceita”[1].
É com tal afirmação, da qual é realmente difícil discordar, que Benedict
Anderson inicia a introdução do livro Um mapa da questão nacional.
Desalentador? Quem sabe. Se o que se busca são conclusões definitivas e
eternamente invariáveis, certamente; mas se por outro lado objetiva-se menos
uma palavra final e mais uma compreensão suspensa de juízos tal situação
torna-se reveladora e instigante.
A questão do
nacionalismo torna-se ainda mais interessante quando a vemos segundo o prisma
de textos que operam a partir de uma posição híbrida, intervalar, com o que
surge questionado, ainda que de modo muito sutil, é o que é tido como nacional
e o que é tido como não-nacional. Ocorre então, nesse caso, uma relativização
sobre o que se entende como pátria, nação, terra, ou seja qual for a
nomenclatura que se dê a este grupo que inspira a sensação de familiaridade e
de pertencimento.
São a essas e
outras questões que aqui nos deteremos, propondo uma discussão com base nos
escritos em macarrônico do português de Portugal dos jornais A Manha e Diário
do Abax’o Piques. Para tanto, será traçado um paralelo entre estes jornais
tendo como ponto de partida alguns temas e estratégias recorrentes nos textos
analisados, que colaboram para a
representação do imigrante de origem lusa. [2]
Um tema de grande
representatividade para discutirmos este último aspecto é o da aviação[3],
ainda mais se levarmos em conta que no período que compreende a publicação d’A
Manha e do Diario do Abax’o Piques havia um verdadeiro fascínio e
disputa ante o “domínio dos céus”. Tais
fascínio e disputa, porém, assumem no contexto macarrônico perspectivas
bastante diversas, diria até opostas. Se tomarmos como ponto de partida os
escritos de A Manha veremos que os heróis, a glória, os feitos e
descobertas históricas são portugueses, mas se nos concentrarmos nos originais
do Diario do Abax’o Piques, nos confrontaremos com um ponto de vista que
oscila entre a glorificação portuguesa e o reconhecimento e elevação de
venturas brasileiras.
Expliquemos
melhor: nos escritos considerados de A Manha alusões ao Brasil e a
brasileiros são marginais, e, quando feitas, só o são para comprovar a
“superioridade” portuguesa, e de seus “navegadores”, no campo da aviação.
Assim, a importância histórica de vultos locais, em especial Santos Dumont, é
sempre desmerecida em relação a figuras como Gajo Coutinho, como percebemos no
texto abaixo, publicado nas páginas de A Manha de 18 de junho de 1932:
Pessou-se hontem,
entre ais mais bibas menifestaçõens de cuntentamento, u decimo annibersario du
magistoso raide aério de Seccadura e Gajo Coutinho.
Dizeire, nestas
linhas, u que foi u ixtraurdinario faito, faito pur aquelles azes du bulante, e
vustaira, nãon se póde dizeire.
U raide
Lisvôa-Rio, pur ares nunca dantes atrabessados, seguindo a mesma durrota que
siguiu Cavrale, cando discuvriu u Vrasile pur ecaso, é um desses ipisodios
qu’enchem de gloria paginas e paginas da historia dum pobo.
Não cave,
purtanto, nu equenhado espaço duma nota, incripta “á bolo duasó”, num minuto, a
rusenha cumpleta dessa biagem marabilhosa, que durou mais de seis mezes.
Rumãon Franco, da
Hispanha; u Furrairinho, da Intalia; Costa e Levrix, da França; Valvo,
Zeppelinho e tantos oitros, nunca tiriam atrabessado u Atlantico si nãon lh’us
tibesse indicadu u queminho u seistante du génio lusitano.
Tirem u chipéu,
purtanto, e discuvram-se, cum beneraçãon e ruspaito, diante dus hirois que
souveram, p’ra honra du glurioso Purtugali, screbeire nu espaço a maiore
epupéia de que há mimória na mimória dus póbus du pleneta.
Em cuntinencia, ó
energúmenos![4]
Um outro texto
publicado n’A Manha, e que constitui uma curiosa opinião sobre o
tema, é “Nebigaçãon aiérea” de Furnandes
Albaralhão[5],
para o qual a descoberta não se deve ao “tale Du monte”, e sim ao “transmutano
Vridirodes de Megalhães". Mas, como é característico do “intelectual” que
é, Furnandes albaralhão não faz tal afirmação sem nenhuma justificativa, de
modo simplório. Ao contrário, perfaz todo o caminho de um texto técnico e
científico, descrevendo fórmulas, experiências, enfim, toda a pesquisa realizada
com grande empenho pelo cientista Vridiródes. Por outro lado, não abandona o
quadro de estereótipos comum ao indivíduo de origem lusa, como o
desenvolvimento precário da técnica e seu provincianismo. Desse modo, o “autor”
desnuda o lado anedótico, casual, o que está “por trás dos panos” dessa grande
descoberta, e que acaba por determinar seu impulso inicial.
Se hai assumpito
de rilibancia, é fóra de dubida a nebigaçãon aiérea!
Pritendem us
histuriadores que essa inbençãon foi discuverta prum vrazilairo, um tale Du
Monte, mas birgula! Foi purtuguez e pru signal que u transmutano Vridirodes de
Megalhães!
Ora, nós um
purtuguezes, discuvrimos a nebigaçãon meritima e a nebigaçãon tirrestre. Era
d’ispráre que tamvaim discuvríssimos a aiérea!
U mutibo da discuvridella
dibeu Vridiródóes a uma uvisirvaçãon physica e latente. Istaba esse petricio
insticado na rélba a discansáre, mas puraim de vocca averta.
Di ripente, saim
que él isprasse, inguesgou-se. Qu’é que faiz u ga[j]o? Deu uma cusparada pru
áre.
Acunticeu que
bentaba forte. U bento pigou-lhe u cuspo de lado e fél-o discribêre uma linha
recta, curba i trianguláre ao masmo tempo.
U Vridiródes deu
um soco na queveça! Tinha discuverto a nebigaçãon aiérea!...
Cumiçaram antãon
us primairos istudos priparatorios. U nosso qu’rido savio mitteu-se nu seu
guevinete e disinbulbeu a primaira fórmula giumetrica: d
___ _ e
b
x =
________
Vd
Dahi a cinco
dias, adibido a insprienças infectuadas
cum mais cautela (o Vridiródes era muito cautiloso), elle chigou á
siguinte cunclusão:
(6
4 m ( __ _ 2 )
(b
x = ________________
- - -
5 re – 4 y
Inda num era
vastante! Elle disduvrou-se! Não daixou ninguaim pinitraire nu guevinete! Dona
Liucadia, a mulhere d’el, quis appruximar-se-lhe, mas libou com um tamanco na
queveça que lhe feiz logo um quelomvo. U hiróe qu’ria ficaire só. Fez-se-lhe a
buntade.
Imfim, passados
dias dispois, ubiu-se um zurro d’al’gria. U homemzinho me sahe pulando du
quarto, com um papéle na mãon, amustrando-o a todos:
— Cá está! Bejam!
by
— 4 re
_________
-/- y — Vcdm = ariuplano.
2
Estaba discuvérta
a nebigaçãon aiérea![6]
Como os textos
acima transcritos podem ilustrar, n’A Manha os feitos e heróis da
aviação são portugueses, sem os quais os demais povos nada teriam conseguido.
Já no Diario do Abax’o Piques, a glória decorrente da descoberta da
aviação já não cabe a Portugal, mas ao Brasil.
Como si save,
cave au Vresile a gloria da discuverta dus aperelhus di buaire saim azas
(airustatus) i dus aparelhus di buaire valaom di gaz (airuplanus). Rugistrou-se
agora aim S. Paulo um bouo saim azas, saim gaz i tanvaim saim mutoire.
Esse bouo foi
rializadu p’luma isquedrilha di cadairas, q’a tendu há tempus diculado
surratairamante du Pelacio dus Campus Ilisius, bieram agora atirraire nu pontu
di partida, cunforme cummunicaçãom du atuale intrubintoire. Au q’a si save, u
Ginirale Dal Trufilho afim d’inbitaire a perda dus aperelhus, bai pruibire a
rup’tiçãom dessa audaciosa isp’riencia.[7]
Vê-se então que,
nesse caso, o “autor” introduz na representação comum do imigrante português,
como um nacionalista extremado para o qual só há heróis em Portugal, uma
espécie de desvio, levando-nos, pautados no compartilhamento desse senso comum,
a desconfiar se este seria realmente um ponto de vista português, e não o do
jornalista brasileiro que assume a autoria suposta, como se realmente não fosse
possível a um português admitir que a invenção da aviação tenha sido feita pelo
Brasil, ou por qualquer outro país.
A contraposição de originais de A Manha e do Diario do
Abaix’o Piques permite perceber que há diferenças relevantes entre as
estratégias de representação comumente empregadas nestes periódicos. Daí ser
possível constatar, n’A Manha, a criação de um espaço de enunciação
“mais português” (no sentido estereotipado do termo). Talvez isso se dê pelo
maior espaço de tempo em que circulou este jornal, pela quantidade de
colaboradores, ou por outros motivos de ordem prática. De qualquer forma, é
possível verificar, em alguns textos do Diario do Abax’o Piques, um
esvaziamento do lugar de enunciação português, restando como estratégia maior
de representação o uso da linguagem macarrônica. Cumpre ressaltar, no entanto,
que tais casos são mais exceção que regra geral, pois em textos como tais o
macarrônico perde o melhor de seu caráter polêmico e crítico.
Em artigo publicado na página “Diariu du Avaix’o Piques”, por exemplo, em 12 de outubro de 1933, época em que vigorava o “governo provisório” sob o comando de Getúlio Vargas, o cronista, definindo-se como porta voz dos “sucialistas cunbictus”, apresentava sua opinião acerca da anistia concedida aos “rubuluciunairus”. Pondo de parte o recurso à linguagem macarrônica, o texto opera minimamente com base na delimitação de um espaço de enunciação dado como tipicamente português:
Andam pr’ai us
jurnais a libantaire u’a cileuma di todos us dimónios, a beire si u Gubernu
Prubisóriu si risolbe a cuncideire aus rubuluciunairus di 1932 a mais ampola
anistia i a prumissaom pra qa todos boltem au Vresile.
Nós, di curaçaom,
nus assuciamus a iesta qempanha humanitária.
Apenas, u
q’achamus, ié q’iesta m’dida naom siría munto inquitatiba.
Siria nicissariu cumplita-la, fazendo-se um trevalhinho junto au Padre-Interno, nu santido di qa pudessem tanvaim rigrissaire au Vrasile aqueles rubuluciunairus menus rispunsabeis di fáto p’la merosca i qa foram dufinida i indufinitibamente inzilados pru oitro mundo.
Será pruciso
q’ieles qa p’ra cá boltassem p’ra beire a qemaradagem q’existe antre us
inimigos d’ontem, p’lus qais si secrificaram di parte a parte.
Será pruciso,
rup’timos, q’ieles qa pra cá boltassem pra turnaire a murreire di nobo, di
burgonha d’haberem sido ingénuos.
Iesta ié a nossa
upiniaom di sucialistas cunbictus.[8]
A
menção a Getúlio Vargas, isolada, sinaliza esse esvaziamento. No caso de A
Manha, referências a Vargas eram de
maneira geral relacionadas ao contexto português, dado que Portugal era também
governado por uma ditadura, e acabavam desembocando em alusões diretas ou
indiretas a António de Oliveira Salazar, o “Saiazaire”, por vezes também ao
“generale Cremona”, ícones do regime político do Estado Novo português. Já no
“Diariu du Avaix’o Piques”, assuntos do universo da política e do governo têm
por alvo notadamente o contexto brasileiro, servindo a linguagem macarrônica e
a autoria “portuguesa” sobretudo como vetores.
N’A Manha temas
como esses ajudam a delimitar um espaço de enunciação que se pretende luso e um
ponto de vista correspondente. Afinal, como expressa texto ali estampado, o
imigrante português “nada tem que beire cum ais coisas puliticas du Vrasile”.
Esse movimento de olhar simultaneamente para “cá” e para “lá” reflete, a rigor, a experiência do deslocamento vivida pelo imigrante, dividido entre dois mundos, numa tensão permanente entre a nação deixada para trás e a nação na qual se encontra. A despersonalização do autor suposto português, portanto, ocasiona não apenas a ausência de um ponto de vista “lusitano”, mas também o esmorecimento desse contraponto entre o “cá” e o “lá”, do diálogo entre tradições locais e alheias, do hibridismo, enfim, tão fundamental para o macarrônico.
Assim, se por um lado a representação do português vai sendo construída em torno de traços como a inteligência curta, a falta de cuidados com a higiene, o nacionalismo extremado; a representação do brasileiro, por seu turno, retoma características como a falta de honestidade, a covardia, a preguiça, etc, o que acaba não abarcando o dinamismo e a complexidade próprios do ser representado.
Há que se
salientar, porém, que a figura generalizada do imigrante português assume por
vezes aspectos de um sujeito especial, único, que desmente esses traços, mas
que, paradoxalmente, também os afirma, como ocorre notadamente nos textos
assinados por Furnandes Albaralhão. Quando este aparece como autor, em especial
em suas crônicas, a tensão se mantém entre a reiteração e relativização de
estereótipos comumente relacionados ao imigrante de origem lusa. Tal
ambivalência reflete a situação do próprio texto macarrônico que ao mesmo tempo
em que traz para o campo da visibilidade a figura excluída do imigrante, o
exclui ao torná-lo não sujeito e sim objeto de uma representação.
A estratégia utilizada por Furnandes Albaralhão é relativamente comum no macarrônico, quase constitutiva do gênero. Isso em razão do princípio básico que o fundamenta: a presença de uma 1ª pessoa que se identifica como imigrante ou estrangeiro, vivendo longe da pátria, num ambiente que ele necessita compreender e que, invertendo o viés, necessita compreendê-lo. O macarrônico assim descortina, potencializa a introdução de uma perspectiva relacional, pela qual a experiência na e da antiga pátria são contrapostas à experiência brasileira e, do ponto de vista local, os antigos habitantes, nativos, fazem contraponto entre a vida pregressa, sem estrangeiros e imigrantes, e a atual, em que estes se fazem presentes. A linguagem macarrônica materializa esta situação híbrida, esse trânsito, o entre-lugar que o gênero sobre ela fundado tem o poder de desvelar.
[1] ANDERSON, Benedict. “Introdução” em BALAKRISHNAN, Gopal (org.). Um mapa da questão nacional, RJ: Contraponto, 2000, p.7-22.
[2] O semanário humorístico A Manha foi editado no Rio de Janeiro entre os anos de 1926 e 1951, sob a direção de Aparício Torelly, mais conhecido como o Barão de Itararé. Já o Diário do Abax’o Piques, dirigido por Alexandre Marcondes Machado (o criador de Juó Bananére), circulou em São Paulo no ano de 1933.
[3]Ver sobre o
assunto o ensaio “Entrevôos macarrônicos”, em Travessia (Revista de
Literatura), n. 39, jul.-dez. 1999, Florianópolis, UFSC; pp. 73-101.
[4] “A primaira decáda du raide Lisvôa-Rio”, em “Supprimento de Purtugali”, A Manha, RJ, Ano IV, nº24, 18/6/1932 (artigo não assinado).
[5] Uma personagem significativa do macarrônico do português de Portugal, dado que como nenhuma outra soube trabalhar com essa fusão de gêneros, foi Furnandes Albaralhão. Este “inlustre colaboradoire” aparece n’A Manha sob diversas facetas, atuando como intelectual, poeta, repórter, identificando-se também como comerciante. Não se trata, no entanto, de qualquer poeta, mas sim de um poeta comparado, e que se compara, a Camões. Tampouco se trata de um simples comerciante do ramo dos “seccus e mulhados”, mas sim do proprietário da firma Furnandes Albaralhão e Cia. Essa singularidade de Furnandes Albaralhão é construída tanto nos textos em que ele figura como “autor”, como sujeito, quando faz uso da primeira pessoa, como nos textos em que figura apenas como personagem, como objeto.
[6] ALBARALHÃO, Furnandes. “Nebigação aiérea”, “Supprimento de Purtugali”, A Manha, RJ, Ano III, nº24, 30/5/1931.
[7] “Abiaçaon” em, “Diariu du Avaix’o Piques”, Diario do Abax’o Piques, SP, Ano I, nº15, 10/08/1933 (artigo não assinado).
[8] “A anistia” em o Diario do Abax’o Piques , SP, n.19, 12/10/1933, p.5 (artigo não assinado).