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Escrevendo o eu na tela: a vida como relato nos "diários íntimos" da Internet
Paula Sibilia (ECO / UFRJ)
Este artigo surgiu de uma inquietação, e de uma tentativa de compreender um fenômeno aparentemente paradoxal - ou melhor, a confluência problemática de duas tendências contemporâneas. Por um lado, a crescente ênfase biográfica que permeia o mundo ocidental (com sua voracidade pelas confissões e por tudo que remeta a "vidas reais") e, paralelamente, um certo declínio da interioridade psicológica que sempre caracterizou a subjetividade moderna. Para ancorar tal discussão, escolhemos como objeto de estudo uma série de práticas que parecem sintomáticas desses processos pois exprimem tal paradoxo e, portanto, podem ser férteis na sua indagação: o auge das webcams e dos diários pessoais publicados na Internet, uma modalidade de "escrita íntima" ou de narração auto-referente conhecida como weblogs (ou, simplesmente, blogs ) e seus parentes pontilhados com imagens do cotidiano de seus autores: os fotologs ou flogs .
Antes de mergulhar nessa problemática de candente atualidade, porém, convém percorrer brevemente a genealogia dos dois fatores aqui considerados - tanto as "narrativas do eu" como a crença numa "vida interior" -, localizando a sua germinação conjunta na alvorada dos tempos modernos. Reconstruindo essa historicidade, vislumbra-se a especificidade das formas atuais, com o intuito de focalizar as fortes transformações que estão afetando a subjetividade contemporânea e que não cessam de reconfigurar a paisagem do mundo.
O nascimento da intimidade
A separação entre os âmbitos público e privado da existência é, como se sabe, uma invenção histórica e datada, uma convenção que em outras culturas inexiste ou é configurada de maneira diferente. É, inclusive, bastante recente: a esfera da privacidade só ganhou consistência na Europa dos séculos XVIII e XIX, quando um certo espaço de "refúgio" para o indivíduo e a família começou a ser criado no mundo burguês, almejando um território a salvo das exigências e dos perigos do meio público que começava a adquirir um tom cada vez mais ameaçador. Em seu livro O declínio do homem público , Richard Sennett analisa esse processo de esvaziamento e estigmatização da vida pública, e o surgimento concomitante das "tiranias da intimidade". 1 Uma dupla tendência que, de acordo com o sociólogo norte-americano, obedeceu a interesses políticos e econômicos específicos do capitalismo industrial.
Assim, pois, como mostra Witold Rybczynski ao reconstruir a história da casa, a idéia de intimidade não existia na Idade Média. 2 A necessidade e a valorização de um certo espaço "íntimo" foram surgindo e se constituindo ao longo dos últimos três séculos da história ocidental. Foi, precisamente, com a paulatina aparição de um "mundo interno" do indivíduo, do eu e da família, que as pessoas começaram a considerar o lar como um contexto adequado para acolher essa vida interior que começava a florescer. Desse modo, as casas foram se tornando lugares privados , e junto com essa privatização do lar surgiu um sentido cada vez maior de intimidade , identificando a casa exclusivamente com a vida familiar. Em muitos desses lares começaram a se definir funções específicas e fixas para os diversos cômodos, aparecendo inclusive os cabinet , um quarto mais íntimo para atividades privadas como a escrita. Em seu livro sobre a "sensibilidade burguesa", Peter Gay comenta a importância que começou a ganhar um "sonho de consumo" do século XIX: a possibilidade de se ter "um quarto próprio", no qual o mundo interior do morador podia ficar à vontade e se expressar - dentre outras formas, através da escrita. 3 Pois, em contraposição ao protocolo hostil da vida pública, o lar foi se transformando no território da autenticidade e da verdade, um refúgio onde era permitido ser "si mesmo". A solidão, que tinha sido um estado raro na Idade Média, permitia o desdobramento de uma série de prazeres até então inéditos, a resguardo dos olhares intrusos e sob o império austero do decoro burguês.
Foram se configurando, dessa maneira, no despontar da Modernidade, dois campos claramente delimitados: o espaço público e o espaço privado , cada um com suas funções, suas regras e seus rituais próprios. Os escritos íntimos de Ludwig Wittgenstein oferecem um exemplo particularmente interessante dessa delimitação rígida e precisa, pois seus Diários secretos (publicados de maneira póstuma, contrariando a vontade explícita do autor) replicam claramente tal cisão: nas páginas ímpares, o filósofo vertia suas vivências pessoais numa linguagem codificada, enquanto nas páginas pares anotava seus pensamentos públicos em perfeito e claríssimo alemão.
Relato e criação do eu
Os novos ambientes íntimos e privados que começaram a proliferar três séculos atrás eram um verdadeiro convite à introspecção: nesses espaços impregnados de solidão, o sujeito moderno podia mergulhar na sua obscura vida interior, embarcando em fascinantes viagens auto-exploratórias que, muitas vezes, eram vertidas no papel. Como constatam Alain Corbin e Michelle Perrot na passagem da História da vida privada relativa a esta época de intenso "deciframento de si", o "furor de escrever" tomou conta de homens, mulheres e crianças, imbuídos tanto pelo espírito iluminista de conhecimento racional como pelo ímpeto romântico de mergulho nos mistérios mais insondáveis da alma. 4 A escrita de si tornou-se uma prática habitual no século XIX, dando à luz todo tipo de textos introspectivos nos quais a auto-reflexão se voltava não tanto para a busca dos atributos "universais" do Homem - como ocorrera nos textos mais representativos da Renascença e do Iluminismo, por exemplo - mas para a sondagem da natureza contingente e singular de cada experiência individual. Uma modalidade de escrita que, embora inovadora, já possuía uma linhagem: inaugurada com grande estilo nos Ensaios de Michel de Montaigne, e logo confirmada nas Confissões de Jean Jacques Rousseau, a nova prática foi se desenvolvendo até converter a literatura em um grande laboratório no qual as formas subjetivas modernas foram ganhando seus relevos.
Tanto as trocas epistolares como a escrita de diários íntimos foram atividades burguesas por excelência, que floresceram com todo seu ímpeto no século XIX. Por isso, os romances psicológicos - também fundamentais na construção do imaginário da época - não vampirizaram apenas a forma epistolar mas também a da confissão íntima e cotidiana, visando a captar a atenção de seus ávidos leitores e construindo, desse modo, uma rica série de estratégias literárias de autenticidade e verossimilhança. Assim, uma infinidade de personagens foi desbordando das páginas dos romances para influenciar as subjetividades da época, tecendo um campo de identificações e oferecendo roteiros de subjetivação para os indivíduos modernos. Foi se fortalecendo, desse modo, uma forma subjetiva particular, dotada de uma certa "interioridade psicológica", na qual germinavam atributos e sentimentos privados. Nascia e crescia, nesse processo, o tipo de homem que se tornaria objeto de uma disciplina científica também nascente, de vital importância na conformação subjetiva moderna: o homo psychologicus . Pois o repertório afetivo dessa esfera íntima podia e devia ser valorizado, sondado, cultivado, protegido e enriquecido. Como afirma o psicanalista Benilton Bezerra, "o homo psychologicus aprendeu a organizar sua experiência em torno de um eixo situado no centro de sua vida interior". 5
Nos diversos gêneros da escrita íntima, os sujeitos modernos aprenderam a modelar a própria subjetividade através desse mergulho introspectivo, dessa hermenêutica incessante de si: no papel, a partir da matéria caótica e da experiência fragmentária de cada vida, era preciso narrar uma história coerente e criar um eu igualmente coerente. Nessa atividade criativa, como em qualquer outra modalidade de construção de si, a linguagem é o berço do sujeito, que somente pode se constituir como tal a partir da interação com os outros e da sua inserção em um universo simbólico compartilhado através do equipamento lingüístico. "Eu é um outro", reza a famosa frase de Rimbaud, que define da melhor maneira possível os protagonistas dos relatos autobiográficos e, também, a qualidade sempre fictícia do eu.
Embora seja difícil arriscar definições precisas, até hoje persiste a diferenciação entre as narrativas de ficção e aquelas que se apóiam na garantia de uma existência "real", inscrevendo tais práticas em outro regime de verdade e suscitando um horizonte de expectativas diferenciado, apesar da sofisticação das artimanhas retóricas acumuladas, apesar dos séculos de treinamento dos leitores, e apesar dos abalos sofridos pela crença numa identidade fixa e estável. 6 Em tempos de incertezas, curiosamente, a mítica singularidade do eu conserva a sua força, nutrida por uma cultura do individualismo cada vez mais depurada - embora atravessada pelos sedutores (e tirânicos) ditados identitários do mercado. Cada vez mais cultuado e cultivado, esse eu não cessa de convocar os mais sedentos olhares. Cabe lembrar, porém, que os relatos autobiográficos - especialmente as diversas formas do diário íntimo - tiveram a sua morte anunciada e até mesmo confirmada efusivamente nas últimas décadas do século XX, sem que ninguém previsse seu ressurgimento nos novíssimos ambientes virtuais e globais das redes eletrônicas. Resta saber, entretanto, se os sentidos dessas práticas continuam idênticos aos de seus ancestrais pré-digitais; a fim de indagar tais questões, orientaremos o foco da análise para o contexto contemporâneo.
O imperativo da visibilidade
Uma vez relembrados os percursos que delinearam o nutriram o "mito do eu" como protagonista dos relatos autobiográficos ao longo dos últimos séculos no mundo ocidental, cabe perguntar: o que está acontecendo hoje nessas arenas? Cada vez mais, a mídia reconhece e explora o forte apelo implícito no fato de que aquilo que se diz e se mostra é um testemunho vivencial: a ancoragem na "vida real" torna-se irresistível, mesmo que tal vida seja absolutamente banal - ou melhor: especialmente se ela for banal; ou melhor ainda: sublinhando especialmente aquilo que toda vida tem de banal. Na Internet, por exemplo, pessoas desconhecidas costumam acompanhar com fruição o relato minucioso de uma vida qualquer, com todas as suas peripécias registradas pelo próprio protagonista enquanto elas vão ocorrendo, dia após dia, minuto a minuto, com o imediatismo do tempo real, por meio de torrentes de palavras que de maneira instantânea podem aparecer nas telas de todo o planeta - textos que muitas vezes são complementados com fotografias e, inclusive, com imagens de vídeo transmitidas ao vivo sem interrupção. Desdobra-se, assim, nas telas interconectadas pelas redes digitais, todo o fascínio e toda a irrelevância de "a vida como ela é".
É grande a tentação de compreender essas novas modalidades de auto-reflexão, de expressão e de comunicação escrita (ou hipermídia) em torno do eu como um ressurgimento da antiga prática introspectiva de exploração e de conhecimento de si, porém adaptada ao contexto contemporâneo e aproveitando as possibilidades que as novas tecnologias oferecem. Como se sabe, a Internet permite que qualquer pessoa possa publicar o que quiser, concedendo aos diários íntimos contemporâneos uma projeção que seus ancestrais pré-digitais jamais teriam podido conseguir - embora convenha acrescentar que, provavelmente, na maioria dos casos estes nem teriam almejado atingi-la, pois tais textos cresciam envolvidos na mística do segredo e do pudor; eram cartas dirigidas ao remetente e somente a ele. Numa operação semelhante à anterior, os seguidores dos blogs e os fãs das webcams poderiam ser comparados aos leitores ávidos de antigamente, que se identificavam com os personagens literários e construíam suas subjetividades a partir desses jogos de espelhos. Os computadores e as redes digitais seriam, então, mais um cenário para a colocação em prática da antiga "técnica da confissão", essa modalidade de construção da verdade sobre os sujeitos que há séculos vigora em Ocidente e cuja genealogia fora traçada por Michel Foucault em seu livro A vontade de saber . 8 É, sem dúvida, uma explicação possível.
Entretanto, uma tal explicação não daria conta de um "detalhe" perturbador: a peculiar inscrição do novo fenômeno entre os âmbitos público e privado da existência. Como explicar o curioso fato de que as novas modalidades de diários "íntimos" sejam expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet? Essa exposição pública seria um detalhe sem importância das novas práticas, que deixa intactas as características fundamentais dos antigos diários íntimos? Ou se trata, pelo contrário, de algo radicalmente novo? Se escolhermos a tese da continuidade, poderíamos afirmar que as novas modalidades "nada mais são" do que simples adaptações contemporâneas das velhas práticas. Mas também é possível sublinhar a descontinuidade, para tentar desvelar a especificidade das novas formas e captar tudo o que elas trazem de novo na presente formação histórica.
A segunda estratégia mencionada parece a mais promissora e instigante. Sustentaremos aqui, portanto, que o fato de os novos diários íntimos serem publicados na Internet não é um detalhe menor, pois o principal objetivo de tais estilizações do eu parece ser, precisamente, a visibilidade - em perfeita sintonia, aliás, com outros fenômenos contemporâneos que se propõem a escancarar a minúcia mais "privada" de todas as vidas ou de uma vida qualquer: dos reality-show às revistas de atualidade, dos talk-shows aos documentários em primeira pessoa e ao sucesso editorial das biografias. Nada mais privado , porém, vale lembrar, que um diário íntimo à moda antiga. Estes eram furtados à curiosidade alheia, guardados em gavetas e esconderijos secretos, protegidos por meio de chaves e senhas ocultas. Já o universo dos computadores e da Internet, essa autêntica "rede de intrigas" cheia de "pontos de fuga", não parece um território propício à preservação do segredo.
Todas essas tendências de exposição da intimidade que proliferam hoje em dia prometem satisfazer uma crescente avidez: a de bisbilhotar e "consumir" vidas alheias. Assim, os muros que costumavam proteger a privacidade individual sofrem sérios abalos. Cada vez mais, as paredes dos lares e dos "quartos próprios", outrora sólidas e intransponíveis, são infiltradas por olhares tecnicamente mediados que flexibilizam e alargam os limites do dizível e do mostrável. Como entender tais processos? Podemos dizer, simplesmente, que hoje o privado se torna público ? A resposta intui-se mais complexa, sugerindo uma imbricação e interpenetração de ambos os espaços - capaz de reconfigurá-los até tornar obsoleta a antiga separação. E, também, um certo declínio daquela interioridade que costumava definir o homo psychologicus , em proveito de outras construções identitárias. Vivencia-se um paulatino estremecimento da organização subjetiva, uma passagem do mundo abissal dos sentimentos e do conflito inerente ao sentido trágico da vida (com seu tecido de regras interiorizadas, transgressões e desejos reprimidos; isto é, o arcabouço da psicanálise), para uma preeminência da sensorialidade e da visibilidade instantâneas. Por isso, as tentativas de explicação dos novos fenômenos que aludem a um mero aprofundamento do narcisismo e do voyeurismo também são insuficientes: tratar-se-ia de uma mutação mais radical na subjetividade, distanciando-se daquele modelo subjetivo que marcou uma época e que agora desaba, ao compasso da aceleração, da virtualização, da globalização e da digitalização.
Nesse contexto, as narrativas do eu também mudam. Os diários publicados na Web, com toda sua parafernália de confissões multimídia - especialmente os fotologs , que desnudam imagens do cotidiano, e as webcams , que transmitem "cenas da vida privada" ao vivo durante as 24 horas do dia - constituem cenários privilegiados para examinar esse desvanecimento da interioridade, bem como as tendências exibicionistas e performáticas que alimentam os novos mecanismos de construção e consumo identitário. Essa espetacularização do eu por meio de recursos performáticos visa ao reconhecimento nos olhos do outro e, sobretudo, ao cobiçado fato de "ser visto". Não parece se tratar, portanto, de uma introspecção à moda antiga, ou seja: uma sondagem absolutamente privada nas profundezas enigmáticas do eu com objetivos de conhecimento de si. Mais do que uma carta remetida a si próprio, secreta e introspectiva, os "diários íntimos" da Internet constituem cartas abertas com vocação exteriorizante.
Algumas conclusões: crise da introspecção e do olhar retrospectivo
Junto com as noções de intimidade e privacidade, as novas práticas que atordoam a Internet - blogs, fotologs, webcams - parecem desafiar a idéia de interioridade individual. A valorização da "vida interior" perde força: não é mais o principal eixo em torno do qual as subjetividades são construídas. A "verdade" sobre o que cada um é se desloca desse âmago secreto, radicalmente íntimo e privado, para aflorar na superfície da pele (e das telas). Em vez de nutrir o antigo olhar introspectivo , portanto, hoje assistimos à proliferação de espaços, tecnologias e práticas que incitam uma certa "espetacularização do eu" com recursos performáticos. O olhar retrospectivo , por sua vez, também parece declinar nas novas práticas auto-referentes, perdendo seu peso outrora fundamental na hora de plasmar a própria vida como um relato. Assim, e m contraste com algumas formas modernas de atualizar a memória do vivido (do diário íntimo à psicanálise, do romance clássico às autobiografias românticas), os diários pessoais publicados na Internet parecem tentativas atualíssimas de realizar algo provavelmente impossível: "recuperar o tempo perdido" na era do tempo real , do "sem tempo" e do presente constantemente presentificado . Sofre alterações, nesse quadro, o valor atribuído a outro fator vital na constituição da "identidade" individual: o estatuto do passado como um alicerce fundamental do eu. Portanto, não é só a profundeza sincrônica (interioridade) do eu que está sendo desafiada nos novos "modos de ser" que emergem no mundo contemporâneo, mas também a sua coerência diacrônica . Apesar da sua permanência como fatores relevantes, essas noções que desempenharam papeis de primeira ordem na conformação das subjetividades modernas hoje estão perdendo seu peso relativo na definição do que cada um é.
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Uma definição canônica é a do crítico francês Philippe Lejeune: a sua noção de "pacto autobiográfico" diferencia tais gêneros desconsiderando as suas eventuais características próprias (devido às coincidências formais com o romance autobiográfico e com outros escritos de ficção) para localizar a sua especificidade num contrato de leitura peculiar, que presume a crença - por parte do leitor - na identidade coincidente do autor e do protagonista desse tipo de textos. LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique . Paris: Seuil, 1975.
Uma reconhecida especialista escreveu acerca da iminente desaparição do gênero, no início dos anos 80, diante das profundas transformações com relação à época do seu apogeu. BRUSS, Elizabeth. Autobiographical Acts: The Changing Situation of a Literary Genre . Baltimore : The Johns Hopkins University Press, 1976.
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