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Capoeira em tradução: confronto cultural no contexto americano
Joanna De Paula Filgueiras (UFSC)

1. Introdução. Onde está minha pesquisa? As interfaces.

Para desenvolver minha dissertação de mestrado, estarei trabalhando - no contexto do campo disciplinar Estudos da Tradução - na interface teórico-metodológica entre Estudos Culturais, Lingüística Sistêmica e Lingüística de Corpora. A interface da pesquisa pode ser visualizada na figura abaixo:

Figura 1- Arcabouço teórico-metodológico: explorando interfaces entre paradigmas complementares.

 

Como pode ser observado na Figura 1, o contexto maior onde a pesquisa é desenvolvida é aquele dos Estudos da Tradução 1. Dentro deste contexto, pretendo desenvolver o estudo tendo como embasamento os pressupostos dos Estudos Culturais 2, no que se refere à questão da representatividade de culturas assimétricas em contato, via tradução. A partir deste pano de fundo, a pesquisa lançará mão dos conceitos e as possibilidades oferecidas pela Lingüística Sistêmica, sobretudo no que se refere à linguagem como representação, através do sistema de transitividade - que permite a exploração da linguagem como sistema modelador de realidade(s). O levantamento dos dados será feito com o auxílio das ferramentas disponibilizadas pela Lingüística de Corpus 3. Neste sentido, estarei combinando perspectivas aparentemente excludentes, mas que na realidade são complementares, a saber, lingüística e estudos culturais (ver Baker 1999) 4. As reflexões sugeridas por este texto são organizadas, a partir desta introdução, em duas sub-seções, a saber: (2) Texto em contexto: área de concentração do trabalho atual e (3) Constatações preliminares: o segmento escolhido a partir do corpus comparável.

 

2. Texto em contexto: área de concentração do trabalho atual

O atual trabalho se concentra na perspectiva macro, ou seja, no contexto das culturas em confronto (no caso, a brasileira e a norte americana). Pode-se visualizar, na a Figura 2, a área de desenvolvimento deste trabalho:

Figura 2- Texto em contexto. Extraído de Butt et al 2001:4 5.

 

Em minha análise, estarei transitando entre o contexto da situação e o contexto da cultura, deixando de lado, por hora, um olhar mais detalhado sobre o texto em si. Como pode ser observado na Figura 2, o texto é produzido no contexto da situação, que se refere ao contexto imediato no qual a linguagem é utilizada e é composto por características que estão "fora" da linguagem como: quem está falando, para quem está falando e o que está sendo dito. Este, por sua vez, está inserido no contexto cultural, que, de acordo com McAndrew (2002), pode ser entendido como os aspectos que influenciam a maneira pela qual nós criamos significados, incluindo uma série de crenças, práticas sociais, valores e outros tipos de aspectos culturais. Trata-se do potencial comportamental do sistema de linguagem.

As obras com as quais estarei trabalhando têm como temática principal a capoeira (prática cultural relacionada a uma identidade brasileira). Estes livros surgiram num contexto muito específico: quando a capoeira começa a ser ensinada no exterior, a partir da década de 80. Neste momento a capoeira passa a assumir uma dimensão transnacional, pois vários capoeiristas dão início a uma "diáspora" para diversos lugares do globo em busca de uma melhor remuneração. Esse processo de migração, intensificado nos últimos anos, acaba por produzir reinterpretações sobre o que significa a capoeira e de como ela deve ser praticada. Tais interpretações têm tomado formas bastante variadas.

É preciso abrir "aspas" e chamar atenção para o significado da palavra capoeira e suas interpretações. Em minha monografia de fim de curso, intitulada Tá tudo dominado: a institucionalização da capoeira 6 (2002), apresento a capoeira como uma prática multidimensional. Ou seja, existe uma impossibilidade de definir a capoeira no singular - e neste ponto existe um consenso entre os capoeiristas - por ser esta uma prática que é, ao mesmo tempo, luta, dança, jogo, esporte, etc.

As obras analisadas foram divididas em dois conjuntos de textos, que possibilitam duas maneiras diferentes de tratar o corpus. Assim, o primeiro conjunto de textos permite uma análise que se convencionou chamar de corpus paralelo bilíngüe , "que consiste de textos fontes originais na língua A e sua(s) versão(ões) na língua B" 7. Estas obras, em número de 4 (quatro), estão listadas abaixo:

Pequeno manual do jogador 8; The Little capoeira book 9.
Capoeira. Os fundamentos da malícia 10; Capoeira - Roots of the dance fight game 11.

 

No segundo conjunto a possibilidade de corpus oferecida é o corpus comparável, que consiste na análise de obras originalmente escritas em inglês sobre a capoeira. Estas obras ilustram as representações construídas por um brasileiro escrevendo para o contexto americano, e a segunda as representações construídas por um americano. Tais obras são:

Capoeira - A Brazilian Art Form. History, Philosophy, and Practice 12.
Ring of Liberation . Deceptive Discourse in Brazilian Capoeira 13.

 

As traduções dos livros de Nestor Capoeira (uma do autor, a outra de Alex Ladd) também permitem uma análise com o corpus comparável, pois permitem uma comparação de "representações" da capoeira, entre o texto traduzido pelo autor (que é brasileiro) e o texto traduzido por Alex Ladd (que, apesar de ser brasileiro, sempre estudou nos Estados Unidos). A comparação dos textos citados, e das representações construídas, permitem observar se as escolhas léxico-gramaticais, nas re-textualizações, resultam do processo tradutório ou do olhar americano sobre a capoeira.

Apresentadas as obras e as possibilidades de corpus que elas oferecem, vamos retornar ao que o atual trabalho propõe discutir: o contexto de tais obras e sua influência no texto produzido.

Os livros de Nestor Capoeira (1981, 1992) foram traduzidos para o inglês (1995, 2002) e o primeiro também para outras línguas (francês em 1997; dinamarquês em 1997; e alemão em 1999). As versões em inglês analisadas trazem algumas peculiaridades: uma foi traduzida por Alex Ladd (1995) e a outra pelo próprio autor (2002); o conteúdo do livro também teve algumas modificações: um exemplo é o número de páginas do último que de 236 aumentou para 346; as capas das edições em português são ilustrações de Carybé (pintor argentino, radicado no Brasil e apaixonado pela Bahia, muito de seus quadros retratam o cotidiano baiano, morreu em 1997), o que indica que estas obras são, de certa forma, complementares, fazendo parte de uma mesma coleção. No caso das versões em inglês, as capas não indicam uma continuidade, pois, a primeira traz uma ilustração de Edson Campos ( The little capoeira Book ) retratando as ruas baianas no início do século XX, enquanto a última traz uma ilustração do pintor Rugendas de 1835, fazendo uma alusão ao período da escravatura e à gênese da capoeira. (em Capoeira: Roots of the dance-fight-game , a pintura é muito utilizada por aqueles que falam da história da capoeira. Outro exemplo é a primeira página do livro de Bira Almeida, 1986).

O livro de J. Lowell Lewis (1992) também utiliza uma ilustração de Carybé em sua capa. É um livro escrito em inglês, e não tem sua tradução para o português. O autor não é brasileiro e alguns de seus leitores ressaltam que este livro pode ser lido tanto pelos leigos em capoeira quanto pelos capoeiristas que não são brasileiros. O livro de Bira Almeida (1986), conhecido no mundo da capoeira como Mestre Acordeon, foi escrito em inglês. O autor é baiano, e tendo se mudado para os Estados Unidos para ensinar a capoeira, escreveu este livro para ajudá-lo em suas aulas. Em 1999 ele escreveu o livro Água de beber, camará: um bate papo de capoeira , que seria a tradução do livro de 1981. O interessante é que, mais uma vez, parece que se trata de um novo livro e não da tradução do antigo. Isto pode ser verificado no exemplo abaixo, a partir da comparação do índice das duas edições citadas:

 

Figura 3- comparando o índice dos livros de Bira Almeida (Mestre Acordeon. 1981; 1999).

Como podemos perceber pelos segmentos hachurados, o segundo livro é composto por partes do primeiro e os capítulos não seguem a mesma cronologia. Além disso, o primeiro livro tem um número muito maior de capítulos, além de apresentar um complemento em inglês, após o título em português. O conteúdo dos capítulos também tem algumas diferenças, mas é possível identificar muitos dos fragmentos do texto "original" entre as novas informações acrescentadas para contextualizar a obra para outros leitores.

 

3. Constatações preliminares: o segmento escolhido a partir do corpus comparável.

Como afirmado anteriormente, existem muitas possibilidades de se trabalhar com os textos escolhidos. Para este trabalho, optei por focalizar, em um primeiro momento, na própria palavra capoeira , verificando em que contextos discursivos esta palavra está inscrita. Mesmo admitindo o caráter multidimensional do conceito de capoeira , os autores geralmente vinculam o seu significado a duas alusões ao seu mito de origem, a saber: à escravidão e à marginalidade. Nestor Capoeira (1981; 1992; 1995; 2002) em todos os seus livros, chama a atenção para a importância da malícia ao se definir capoeira; Mestre Acordeon (1986, p.1-5) cita as palavras de Mestre Pastinha e Mestre Bimba (dois ícones da capoeiragem) para elaborar sua própria interpretação sobre a capoeira; e J. Lowell Lewis (1992), ao definir o termo também ressalta o caráter multidimensional e o seu mito de origem na sua relação com a escravidão e à marginalidade.

Para verificar as representações construídas pelos autores, além da palavra capoeira , selecionei duas outras: roda e malícia . Estas palavras foram escolhidas por conta da importância atribuída pelos autores citados às mesmas nas suas representações sobre o que é capoeira . Em todas as obras estas palavras ajudam a compor o universo capoerístico, a malícia constituindo uma estrutura para um pensamento filosófico sobre a prática da capoeira, enquanto a roda representa um palco onde ocorre o processo de aprendizado de tal filosofia de vida. Os autores brasileiros, Capoeira e Almeida, traduziram a palavra roda (situação onde o jogo acontece, parte principal do ritual da capoeira) como circle ou wheel . Enquanto J. Lowell Lewis optou por traduzir como ring e em alguns momentos, como uma segunda tradução, usou wheel . Optar por traduzir como circle ou ring ressalta o caráter estético deste "palco", circular, onde se dá o ritual da capoeira. Da mesma maneira que utilizar a palavra ring nos remete a uma idéia de união, relacionar esta palavra (que também pode significar anel ) com a idéia de união talvez implique numa maior familiaridade com a língua inglesa.

Outra palavra muito freqüente nos textos, a malícia , é traduzida por Nestor Capoeira como algo mais que malice ou slyness , sendo caracterizada como o ponto central da prática da capoeira, um conceito que sintetiza a filosofia da capoeira, transcendendo uma simples alusão à maldade ou astúcia. Mestre Acordeon (1986, p.2) traduz o conceito como treachery e afirma ser essa a palavra que define a capoeira, para Mestre Bimba. Mas é curioso notar que na versão em português (1999, p.16) ele optou pela palavra maldade para falar sobre a mesma definição dada por Mestre Bimba. J. Lowell Lewis usou várias palavras para traduzir malícia , são elas: deception , trickery , cunning , double-dealing , indirection . Estas palavras também sugerem uma "malandragem", uma situação ambígua, no entanto, não trazem uma conotação tão pejorativa quanto " traição ". Mas, ao contrário, na figura do "malandro-herói", numa associação a uma imagem bastante difundida da identidade brasileira.

Como uma última ilustração da multiplicidade de possibilidades nas representações dos conceitos ligados à capoeira nos dois contextos, cito uma música antiga ainda muito cantada nas rodas contemporâneas. Essa música é citada em dois dos livros comentados: no de Lewis (1992) e no de Almeida (1986). As traduções que os autores fazem da letra desta música ilustram algumas diferenças que emergem devido aos distintos contextos em que se inserem tais autores. Quando o autor americano traduz dá no nego como give it to him , demonstra claramente alguns tipos de problemas que surgem ao se adaptar uma prática tão associada culturalmente a uma identidade brasileira. Se ao traduzir malícia Lewis conseguiu ser "mais fiel" ao sentido, o mesmo não acontece no caso da música. A opção por uma tradução literal, tem como conseqüência a perda do significado original. A tradução de Almeida também apresenta alguns problemas devido às opções semânticas: Ao submeter a música a um exercício interpretativo que visa domesticar o sentido, acaba por diluir o teor metafórico da mensagem cantada. Como se pode perceber na tradução de esse nego é o cão por he is very tough, a relação com um universo místico-religioso proposto pela palavra cão (que também pode significar diabo ou demônio ) é desfeita. A comparação é apresentada abaixo:

 

Figura 4 - ilustração final: as músicas

 

Ao mesmo tempo em que este exemplo evidencia as diferenças que surgem nos processos tradutórios da capoeira para uma outra cultura, nos faz lembrar que mesmo no contexto brasileiro muitas vezes, as músicas cantadas são tão antigas que até mesmo os brasileiro têm dificuldade em interpretar seus significados. O último livro de Nestor Capoeira (2002, p.156-157) traz uma lista de gírias (publicada em 1886 por Plácido Abreu Moraes) que eram utilizadas pelas maltas cariocas (ligadas aos partidos políticos da época, republicanos -Guaiamuns - e monarquistas - Nagôas). A necessidade de atualizar a língua não aparece só nas gírias, categoria da linguagem que está em constante transformação, mas também nas músicas que muitas vezes tem um caráter regional muito forte, aliado a uma distância temporal. Essa distância temporal e espacial na própria língua portuguesa (ou brasileira?) acaba gerando uma necessidade de tradução intralingual para que se mantenha o "sentido original" (se é que existe tal coisa).

Para concluir, é importante ressaltar que este trabalho não apresenta, em consonância com o estágio atual da pesquisa, uma análise lingüística. Explora um momento anterior, em uma aproximação - "pelas bordas" - dos textos escolhidos. Este procedimento é uma tentativa de visualizar o contexto em que se inserem as obras, no sentido de informar a análise das opções escolhidas nas versões traduzidas e permitir uma visão mais abrangente dos textos. É também importante ressaltar que não se pretende, neste trabalho, tratar as duas culturas em confronto (a brasileira e norte-americana) como homogêneas. Não se pretende colocar estas culturas em "um pacote monolítico", uma vez que a consciência das diversidades das manifestações em cada contexto permeia o estudo.

O que se objetiva é apontar a existência de algumas diferenças que surgem como decorrência de processos tradutórios nos contextos das culturas em questão. Assim, da mesma maneira, as opções semânticas utilizadas para traduzir um conceito ou referente para outra língua acabam revelando as idiossincrasias do contexto em questão. As opções tomadas em uma tradução intralingual, por exemplo, ao se traduzir o que é malícia , também expressam as opções ideológicas que permeiam as palavras escolhidas pelo tradutor.

A tradução, então, aparece como um exercício hermenêutico; e sua necessidade se dá tanto para compor as representações construídas para uma outra língua, quanto para construir uma significação na mesma língua em questão. Este trabalho procura chamar a atenção para a importância de uma reflexão sobre o papel da tradução no delineamento e construção da cultura dos diferentes povos.

 

 

Ver: WILLIAMS, J. CHESTERMAN, A. The map. A beginner´s guide to doing research in translation studies . St Jerome . 2002.

Ver: HALL, Stuart (ed). Representation - cultural representations and signifying practices . Sage Publications. The Open University. London . 1997; MUNDAY, Jeremy. Varieties of cultural studies. In: Introducing translation Studies. London : Routledge. 2001.

Ver: VASCONCELLOS, Maria Lúcia. PAGANO, Adriana. Explorando interfaces: estudos da tradução, lingüística sistêmico-funcional e lingüística de corpus. In: competência em tradução: cognição e discurso . BH. Ed. UFMG. 2004.

BAKER, Mona. Lingüística e estudos culturais: paradigmas complementares ou antagônicos nos estudos da tradução? In: Martins, M. (org). Tradução e multidisciplinaridade . Rio de Janeiro: editora Lucena.1999.

McANDREW, Paula and McANDREW, John . Systemic functional linguistics: an introduction. In: Journal of the faculty of global communication Siebold University of Nagasaki . Nº3. 2002.

FILGUEIRAS, Joanna De Paula. Tá tudo dominado: a institucionalização da capoeira . Monografia apresentada para a conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo. 2002

BAKER, M. Corpora in translation studies: An overview and some suggestions for future research. Target 7. (2) p. 230. 1995.

CAPOEIRA, Nestor. Capoeira. Pequeno manual do jogador . 4ªedição. Rio de Janeiro. Record, 1998.

CAPOEIRA, Nestor. The Little capoeira book . Revised edition. North Atlantic Books, 2003.

CAPOEIRA, Nestor. Capoeira. Os fundamentos da malícia . Ed Record. Rio de Janeiro, 1999.

CAPOEIRA, Nestor . Capoeira - Roots of the dance fight game . North Atlantic Books, 2002.

ACORDEON, Mestre (Bira Almeida). Capoeira - A Brazilian Art Form. History, Philosophy, and Practice . North Atlantic Books Califórnia,1986.

LEWIS, J. Lowell. Ring of Liberation . Deceptive Discourse in Brazilian Capoeira . University of Chicago Press. Chicago 1992.