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Discussão de Temas no Mais!
Flávia Adelina de Souza Vicenzi (UFSC)

O suplemento cultural Mais! da Folha de São Paulo, que acompanha o jornal aos domingos desde fevereiro de 1992, é um espaço destinado a temas diversos, dentro do que seus organizadores entendem por cultura: História, Literatura, Cinema, Ciência, Filosofia, entre outros assuntos. No período de que vou tratar, outubro de 1995 a março de 1996, que abrange um total de 26 números, o Mais! vem dividido em quatro seções: Ilustrada, Mais!, Livros e Ciência. Ilustrada ocupa a primeira página e traz invariavelmente uma coluna social assinada por Joyce Pascowitch e histórias em quadrinho. A seção Mais! contém sempre um dossiê, com chamada na capa, reunindo vários textos sobre um determinado assunto, além das colunas Ponto Crítico e Autores, que contêm ensaios com reflexões sobre questões diversas. A divisão Livros é preenchida prioritariamente por resenhas - com livros que tratam de assuntos variados: Literatura, Política, História, Sociologia, etc. - , às vezes, há uma entrevista com algum escritor. Ciência é destinada às matérias e ensaios que fazem divulgação científica.

A partir da leitura e coleta de dados nos exemplares analisados, as informações foram inseridas no programa computacional utilizado no Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC), gerando as seguintes estatísticas: as palavras-chaves mais recorrentes são 'ciência' (7,5%) e 'literatura' (6,5%); em relação ao tipo de texto, os mais freqüentes são os seguintes: ensaio-ciência (11,4%), ensaio-cultura -no qual se encaixam ensaios sobre teatro, música e dança- (7,6%), ensaio-literatura (7%); as resenhas de literatura são as mais comuns (7%); dossiês que tratam de temas que se encaixam na categoria literatura apareceram mais (26%). Tais números representam um panorama geral do suplemento Mais! , em que é possível verificar a concorrência entre duas categorias de assuntos mais explorados: ciência e literatura. Como é impossível fazer aqui uma análise ampla do jornal, concentrar-me-ei em um setor específico: os dossiês. Como já foi mencionado, o dossiê é um conjunto de textos que percorre um único tema, que pode estar ligado a cinema, literatura, história, filosofia, entre outros.

Com base no período estudado, considerando-se o recorte proposto, é possível levantar algumas questões. De que maneira esses vários temas vem sendo abordados, isto é, com que profundidade? São textos que pretendem informar o leitor, com cunho mais educativo? São textos de análise e reflexão? Que discussões são levantadas dentro das categorias de temas como literatura e ciência? Seleciono quatro diferentes dossiês, dois sobre literatura e dois sobre ciência, para estabelecer uma comparação entre os tipos de abordagens.

O dossiê sobre a poeta Elizabeth Bishop, cujo título é "Feijão preto, amor e diamantes" 1, retrata a vida pessoal da escritora, com destaque para determinados eventos. Vejamos de que tratam os textos. Um deles fala de sua passagem pelo Brasil em que se apaixona pela aristocrata carioca Lota de Macedo Soares, e, por causa desse amor, decide morar no país. Traz, ainda, depoimentos de amigos que conviveram com a poeta comentando seu relacionamento homossexual. Outro fala de suas origens, salientando o contato de Bishop com pessoas mentalmente desequilibradas: a mãe fora internada num hospício, o amigo Lowell tinha surtos esquizofrênicos, duas amantes se suicidaram. Os artigos que exploram a vida de Elizabeth continuam: estudou numa tradicional faculdade para moças, aonde conheceu Mary McCarthy, vindo mais tarde a brigarem; antes de vir para o Brasil namorou a filha de um político e industrial famoso nos Estados Unidos; foi amiga de Billy Holliday e Robert Lowell; perpassa-se a agitada vida social de Lota de Macedo Soares; relata-se longamente a traição de Bishop que gerou desentendimentos com a amante brasileira, que, já sofrendo devido a outras frustrações, acaba cometendo suicídio em Nova Iorque. Enfim, o dossiê reúne dez artigos, sete dos quais falam de eventos "curiosos" ou "polêmicos", ou como queiram chamar, da vida da poeta. Para não se dizer que não se falou em literatura, há um pequeno ensaio crítico sobre a poesia de Bishop, de Harold Bloom, outro ensaio menor ainda de Nelson Ascher, que comenta não o poema Para Manuel Bandeira, com um presente , mas a tradução dele para o português, e por fim, um artigo que trata do livro que a escritora produziu sob encomenda: Brazil 2.

Não podemos afirmar que o dossiê sobre Elizabeth Bishop trate de literatura, isto é, da produção artística da poeta. Seu foco é unicamente a biografia da escritora, destacando os fatos controversos, como os relacionamentos homossexuais, o suicídio de duas amantes, e tudo mais que possa chamar a atenção de um público sempre curioso. É muito comum, quando se trata de gênios da literatura, ou da arte em geral, o relato de episódios da vida particular: boemia, amantes, homossexualidade, alcoolismo, drogas, etc, etc, etc. As questões literárias não são discutidas, a análise e reflexão teórica, ou mesmo a informação pura e simples, é deixada de lado para se abrir espaço a vida sempre romantizada dos escritores. Eles passam a ser os personagens das narrativas jornalísticas sobre suas aventuras.

Outro dossiê que segue a mesma linha: "As memórias indiscretas de Gore Vidal" 3, reúne trechos extraídos do livro de memórias desse escritor, cujo título é: Palimpsest (Palimpsesto). Nos trechos publicados pelo Mais! , o escritor conta a sua trajetória desde a sua vivência com intelectuais de destaque nos Estados Unidos, que faziam parte do que ele dizia ser "um dos grupos mais vitais de que nossa cultura dispunha" 4, até o fracasso de seus livros, que o fez aceitar convites para trabalhar na televisão, em peças na Broadway e no cinema hollywoodiano, onde alcançou maior êxito e sucesso. A partir do convívio com intelectuais, artistas e personalidades , Gore Vidal traz vários relatos picantes e satíricos, especialmente em relação aos seus colegas escritores, cujo tom pode ser exemplificado por algumas de suas declarações: "Há coisas que simplesmente não se fazem. Sucesso na Broadway era uma dessas coisas, e Mary MacCarthy, num acesso feroz de inveja, o lado negro de sua personalidade inteligente e luminosa, traiu-se [...]" 5.Os comentários repletos de escárnio a respeito de escritores continuam: "Inge era um alcoólatra "convalescente" que tivera um caso rápido com Tenesse [Williams]. Tendo visto o "Pássaro" (era assim que eu chamava Tennesse) trabalhando, ele concluíra que escrever para o teatro era uma coisa facílima. Assim, escreveu cinco peças de sucesso uma depois da outra, talvez um recorde, o que muito irritou o Pássaro" 6. Não perde a oportunidade de falar da vida de artistas com os quais conviveu, discorre longamente sobre Greta Garbo: "Sempre referia-se a si própria como "ele". Gostava de usar minhas roupas. Creio que sempre se via como um rapaz. Estava sempre de olho nas moças, e uma vez, numa caminhada à margem do rio Silvretta, pediu à namorada de Irwin Shaw que lhe mostrasse os seios, no que foi atendida" 7. Outra personalidade de destaque a qual Gore dedica muitas linhas é Jackie Kennedy: "Movida pela necessidade (e a falta de oportunidades de seu tempo e seu meio), Jackie dedicou sua vida à aquisição de dinheiro por meio do casamento [...]" 8, "Creio que a única pessoa que Jackie alguma vez amou - se de fato ela era capaz de tais sentimentos - foi Bobby Kennedy" 9. Com certeza, livros com declarações bombásticas a respeito de personalidades famosas vendem bem, no caso de uma autobiografia tanto melhor para si se o autor puder comentar a vida de seus desafetos e amigos famosos. Talvez, o Mais! tenha se valido dessa estratégia comercial para chamar a atenção de seus leitores.

Para efeito de comparação tomo dois outros dossiês, só que agora o tema é ciência. "O homem que expandiu o cosmo" 10 traz inicialmente uma entrevista com o autor de uma biografia do astrônomo Edwin Hubble, Gale Christianson e posteriormente uma resenha de sua obra: Edwin Hubble: Mariner of the Nebulae . A princípio destaca-se conclusões do biógrafo sobre a personalidade do físico: "vaidoso, arrogante, pretensioso, desagradável, mesquinho, egocêntrico, superficial, falso, insensível [...]", "oportunista esperto", "alpinista social pedante" 11. Porém, a discussão não se encerra nesses comentários e passa de uma rápida abordagem de sua vida pessoal, para discutir amplamente a importância de suas descobertas, ressaltando seu brilhantismo profissional. O enfoque da maioria dos artigos é a astronomia: a descoberta por Hubble de que o universo está em expansão, à busca dos cientistas pela constante de Hubble (velocidade de expansão do mesmo), as implicações de tudo isso para compreender melhor o universo, inclusive para a reformulação da teria do Big-Bang. Consta, ainda, um ensaio que relata a evolução histórica das pesquisas científicas que investigam o universo, analisando a evolução do conhecimento astronômico desde o início do século XX: primeiro a visão de que o universo era a Via-Láctea e mantinha-se estático; mais tarde Hubble descobre que o universo está em expansão e formula-se a teoria do "Big-bang" 12. Os textos não se restringem a meros comentários da vida sexual, romântica e social do físico, mas se concentram nas suas atividades e na importância delas para o desenvolvimento da ciência. Além de altamente instrutivas, as matérias têm um cunho crítico e reflexivo, concentrando a atenção no que seria mais relevante para a ampliação do conhecimento, isto é, as questões científicas.

O jornal mostra novamente que este tema é sempre bem conduzido. No dossiê "O anjo mau da ciência" 13 mais uma vez o lançamento de uma biografia motiva a abordagem. Uma resenha comenta a obra sobre o cientista Louis Pasteur, cujo autor é Gerald Geison: The private science of Louis Pasteur . Com um breve relato das descobertas importantes do cientista, como a pasteurização e a vacina, o texto procura contrabalançar a visão negativa do biógrafo, que descreve o cientista como um autocrata arrogante, maquiavélico e manipulador 14. Perpasse-se rapidamente a vida íntima de Pasteur, para dar espaço a diversos artigos cujos enfoques são outros. Altamente informativos eles destacam: que os estudos de Pasteur comprovaram que as doenças eram provocadas por microorganismos, o que gerou a criação de vacinas e antibióticos e o controle sanitário; os avanços alcançados pela microobiologia após tais descobertas; que tipo de trabalho o Instituto Pasteur, que lidera pesquisas biológicas, vem desenvolvendo, etc, etc 15.

Embora, em ambos os casos, repita-se o velho clichê do 'gênio indomável', isto é, do cientista brilhante versus homem complicado, ao longo dos dossiês transfere-se a atenção do homem para enfocar o trabalho científico, tornando-os mais densos e informativos. Em contrapartida, o mesmo não se observa nos dossiês destinadas a figuras do universo literário. Nesse caso, as aventuras amorosas e existenciais dos escritores parecem ser mais interessantes do que a discussão da literatura em si. O significado e a importância da obra não são nem comentados, discussões teóricas muito menos. Aqui o escritor é o grande personagem. Por que a literatura é tratada de maneira tão superficial e vulgar por um jornal de cunho cultural como o Mais! e, no entanto, com assuntos relacionados à ciência, procura-se ter um cuidado especial em divulgar mais informação do que fatos curiosos da vida íntima dos cientistas? Por que o tratamento nas duas matérias é tão diferenciado?

Mais do que alcançar uma conclusão definitiva para essas questões, procuro apontá-las como uma forma de crítica à maneira como ainda é abordada a literatura, e muitas vezes, a arte em geral. Romantizar a vida dos artistas é lugar-comum e parece atrair bastante a atenção do público leitor. Trata-se do que pode ser chamado de fofoca cult . Enquanto a literatura for abordada por periódicos culturais da mesma forma que revistas de fofocas falam da vida de artistas, me parece que se está diminuindo sua importância e fugindo de questões e discussões relevantes para os interessados no assunto.

Como já foi colocado, está análise abrange um número limitado de exemplares do suplemento Mais!. Não posso afirmar, portanto, que a questão aqui levantada, o modo distinto de abordagem de assuntos da Literatura e da Ciência, se dê sempre da mesma maneira em todas as publicações, isto é, que esse problema seja uma constante, menos ainda que esse tipo de tratamento das matérias seja uma característica definitiva do jornal. O problema aqui discutido foi de fato observado dentro do periódico, mas ainda não é possível concluir que seja um fator expressivo dentro dele. Num primeiro momento, o que chamou a atenção no material analisado foi justamente à condução das discussões a respeito de Literatura. Por outro lado, me parece que à Ciência se dá uma relevância especial. O jornal tem uma coluna inteiramente direcionada a esse tema, o que o deixa um passo à frente dos assuntos culturais. Talvez, tudo isso seja um indício dos preconceitos que ainda atingem a área de humanas. Porém, é muito cedo para afirmar qualquer coisa definitiva, o estudo está na sua fase inicial e terá seqüência.

 

Mais!. São Paulo, 24 de setembro de 1995; p. 4 -7.

As informações desse parágrafo foram extraídas de artigos do dossiê acima citado.

Mais!. São Paulo: 10 de dezembro de 1995, p. 4-8.

VIDAL, Gore. Como sobrevivi aos anos 50. Mais!. São Paulo: 10 de dezembro de 1995; p. 4-8.

Idem , p. 5.

Idem , p. 6.

Idem , p. 7.

Idem , loc. cit.

Idem , loc. cit .

Mais! . São Paulo, 5 de novembro de 1995, p. 4 -6.

TERESI, Dick. Marujo do Espaço. Mais!, São Paulo, 5 de novembro de 1995, p. 4.

As informações desse parágrafo foram extraídas dos vários artigos que compõem o dossiê: 'O homem que expandiu o universo', cuja referência consta na nota 10.

Mais!, São Paulo, 24 de setembro de 1995, p. 8-11.

SCLIAR, Moacyr. Biografia desvenda o lado oculto de Pasteur. Mais!. São Paulo, 24 de setembro, p. 8.

Tais informações foram extraídas nos artigos que compõem o dossiê: "O anjo mau da ciência", cuja referência consta acima.