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As Travessias dos anos 60 e 70 no discurso do periodismo cultural dos anos 90
Fabíula dos Santos Schauffert (UFSC)

Estas pequenas observações e anotações referentes ao caderno Mais! inserem-se em trabalhos mais amplos já desenvolvidos pelo Núcleo de Estudos Literários & Culturais (NELIC - UFSC), dentro do qual travei contato com o suplemento cultural da Folha de São Paulo . Restringi-me a leitura e indexação de um recorte sincrônico, que corresponde aos cadernos editados em 1998. Uma vez feito isso, sem poder mais adiar uma leitura analítica do objeto - que implicaria um recorte do recorte, uma fragmentação do fragmento -, decidi acatar às sugestões que o próprio objeto parecia oferecer. Durante a minha tentativa de apreendê-lo, o que saltou aos meus olhos foram os acontecimentos, as personagens e os discursos ligados às décadas de 60 e 70, colocados em cena pelo suplemento no período de 1998.

A passagem deste período historicamente marcado pelas páginas de alguns números do caderno editados no referido período, podem ser lidos como uma travessia, que parte do número publicado em 3 de maio/1998 encerrando-se com o caderno de 23 de agosto do mesmo ano. As páginas em que essa travessia se configura são as "privilegiadas" páginas concedidas aos dossiês, ostensivamente anunciados pela capa, que os reproduz através de imagens, as quais aludem ao tema discutido nas páginas centrais. A capa de 3 de Maio significativamente apresenta em grandes letras vermelhas "A vida secreta das guerrilheiras", abaixo de uma série de fotos em ¾ dessas "guerrilheiras", identificadas com nome e sobrenome e, em linhas discretas, um resumo do que será abordado no dossiê: "O livro Mulheres que foram à luta conta histórias de amor, tortura e traição vividas por mais de 50 militantes que pegaram em armas contra o regime militar no Brasil". 1

Mario César Carvalho resenha o livro Mulheres que foram à luta , do jornalista Luiz Maklouf Carvalho. O dossiê conta ainda com depoimentos extraídos do livro, apresentados também por Mário César Carvalho.

A edição subseqüente (domingo, 10 de maio/98) é um outro marco da travessia dos anos 60 e 70 no suplemento, que vem tratando do "maio de 68", reproduzindo um cartaz distribuído pelos jovens manifestantes franceses. No espaço preto, letras em vermelho anunciam: "A última utopia" e, logo depois lê-se "Há exatos 30 anos, 20 mil estudantes enfrentaram a polícia em Paris na noite das barricadas, auge das revoltas de 1968, quando milhões de jovens em todo o mundo saíram às ruas para 'mudar a vida'." 2

Sem negar, nem deixar de pressupor as diferenças entre a forma como são abordados os acontecimentos, e os próprios fatos históricos em si, trazidos por esses cadernos, é possível estabelecer pontos de convergência entre eles, que vai além do contexto histórico-temporal que procuram resgatar; ambos encontram-se numa mesma série - das "comemorações" 3. "Mulheres guerrilheiras" reúne duas comemorações, a do lançamento editorial e a "comemoração dos 30 anos de 68" 4, enfatizada pelo caderno posterior "Há exatos 30 anos...".

Os dois marcos da travessia se configuram em contextos sociais díspares (Brasil e França) - a edição de 02 de maio remete a um contexto em que o aparelho do estado é absolutamente repressivo. Enquanto o movimento estudantil brasileiro não era apenas revolucionário, mas também guerrilheiro, engajado na luta armada, o movimento estudantil francês, ainda que entrasse em confronto com as instituições e a polícia, não enfrentava uma guerra, cujo inimigo era um regime ditatorial; as armas dos jovens franceses não era o fuzil, e sim "o muro pichado, o cartaz improvisado e o microfone". 5 Porém ambos os fatos, ao serem tratados pelo Mais! , passam a ter uma função não só rememorativa como também comercial,

O itinerário das comemorações de 30 anos de 68 é retomado no caderno de 07 de junho, por intermédio do lançamento do livro Justiça social ou subversão? Os diálogos secretos dos bispos e generais brasileiros , do historiador brasilianista Kenneth Serbin, juntamente com a comemoração do lançamento do livro de memórias de Ferreira Gullar Rabo de Foguete - Os anos do exílio . Trechos deste livro compõem a última página do dossiê, que mostra as relações dos dominicanos com a ALN (Ação Libertadora Nacional), um dos maiores grupos da luta armada, fato investigado pelo norte-americano Kenneth Serbin no livro. Serbin é entrevistado por Luís Eblack, que entrevista também, entre outros, a madre Maurina Borges da Silveira, presa em outubro de 69, acusada de participar de um grupo guerrilheiro. Sua história pessoal foi transformada em livro, a ser lançado em agosto do mesmo ano, como nos informa a apresentação do dossiê, que traz uma lista de livros a ser lançados e relançados, todos sobre o mesmo tema - o envolvimento de certos eclesiásticos no movimento de oposição à ditadura.

Gostaria de salientar que, pela primeira vez no percurso das travessias comemorativas a figura de um poeta, que produziu intensamente nessa época é incluída nos dossiês, ainda que impelida pelo lançamento editorial. O poeta não é lembrado pelo seu engajamento poético, mas pela sua militância política, relatada por meio da biografia. Os trechos da prosa autobiográfica selecionados e transcritos pelo suplemento revelam, pelo tom peculiar da linguagem, a presença do poeta, que narra as angústias de viver na clandestinidade no Rio de Janeiro, sua passagem por Moscou, onde se reuniu com representantes do PC de diversos países, junto ao Instituto do Partido, para fazer um curso de seis meses, e, por fim, sua estadia no Chile, onde ludibriou os "milicos", conseguindo escapar mais uma vez do inimigo implacável.

A travessia deste período negro da história completa sua rota com o caderno de 23 de agosto, cuja capa possui o título "Conexão Americana", explicitando ainda mais o significado da fotografia em preto e branco de 1962, em que o então embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, passa em revista por um destacamento da polícia militar do Rio de Janeiro. O significado da fotografia se completa com o enunciado: "O livro Polícia e Política - Relações Estados Unidos/América Latinos, da pesquisadora Martha Huggins, traz novas revelações sobre a participação da Casa Branca no movimento militar de 64". 6

Mais uma vez, o Mais! associa duas comemorações - o lançamento e os 30 anos da ditadura militar. O dossiê é organizado por Marcelo Rubens Paiva, que entrevista a socióloga norte-americana, autora do livro destacado na capa, o ex-diretor do Departamento de Estado para a Defesa Interna dos Estados Unidos, Charles Maechling, o ex-adido militar da embaixada norte-americana, Vernon Walters e, por telefone, o ex-embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon.

Esses entrevistados constituem um interessante quadro: de um lado a pesquisadora das ciências sociais, cujo livro traz surpreendentes dados obtidos através de uma longa e minuciosa investigação sobre a cooperação policial entre Estados Unidos e América Latina durante a ditadura, principalmente em 64; de outro lado os próprios atores sociais, que participaram ativamente das transações políticas e militares entre os Estados Unidos e o Brasil. Huggins examinou 600 documentos do Arquivo Nacional norte-americano, um deles mostrando que o embaixador Lincoln Gordon indicou os militares brasileiros Americano Raposo Filho e Riograndino Kruel (criadores do DOI/Codi) para fazerem um curso de inteligência militar na CIA.

Na entrevista o ex-embaixador nega qualquer envolvimento com as operações dos militares brasileiros, inclusive seu envolvimento com o golpe de 64, conforme foi sugerido por um dos entrevistados, Charles Maechling. O ex-embaixador alegou também que o programa de treinamento de militares patrocinado pelos Estados Unidos, era apenas para melhorar a qualidade da polícia municipal.

Marcelo Rubens Paiva entrevista também ex-funcionários a serviço do estado ditatorial brasileiro, entre eles, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, entre 1974-1979, Erasmo Dias, conhecido por sua ferrenha oposição à esquerda e ao movimento estudantil. Dias não reconhece a atuação da CIA no Brasil, e, sem se preocupar com a contradição que isto poderia suscitar, afirma que recebeu um fuzil AR-15 de presente de um agente da CIA.

O então deputado federal e coronel do exército Erasmo Dias, assim como Lincoln Gordon e Vernon Walters, assumiu uma postura "insciente", rechaçando a seriedade da pesquisa de Martha Huggins e a veracidade dos fatos documentados. Um dos documentos, reproduzido em fac-símile no Mais! , intitulado de "relatório confidencial", foi enviado por um agente da OPS (Serviço de Segurança Pública dos EUA) que atuava no Brasil, para o escritório da AID (Agência para o Desenvolvimento Nacional). O relatório informa sobre as operações militares em São Paulo. Em seu livro, a socióloga constatou que o governo norte-americano agia por intermédio da OPS, criada em 1962, como um setor da AID, a qual estabelecia os acordos e tramitações em diversas esferas.

Os ex-funcionários de estado ignoram que, com o passar dos anos, a história é revelada; o que era obscuro, coberto, é então descortinado, e mais do que isso, ignoram os próprios documentos comprobatórios. O trabalho de Martha Huggins apura indícios e provas, que reforçam os fatos já conhecidos, reveladores do envolvimento dos Estados Unidos na ditadura militar, não só no Brasil, como também em toda a América Latina.

As comemorações daqueles anos difíceis se encerram mostrando o pano de fundo de todos aqueles acontecimentos; a guerra fria, as concepções ideológicas em jogo no cenário político mundial naquele momento, em que, de um lado, encontram-se os estados liberais e, de outro, os ditos estados "comunistas". Chegamos ao outro lado da margem sem nenhum enfoque ou menção à fértil literatura daquele contexto totalmente repressivo, exceto pela celebração do livro de memórias de Ferreira Gullar. Entretanto, ultrapassando as páginas do dossiê em torno da "Conexão Americana", e chegando na seção "Livros" (espaço de resenhas de livros recém lançados ou relançados no mercado), encontramos o título "Uma mitologia particular" 7, com uma foto em preto e branco, da figura de uma autora. Trata-se da reedição de A Teus Pés , de Ana Cristina César, pela editora Ática. Publicado pela primeira vez em 1982 pela Brasiliense, o livro foi o primeiro da autora a ser vinculado a uma "editora comercial" 8. A Teus Pés incluía, de forma quase completa, Cenas de Abril , de 1979, seu primeiro livro de poesias, embora seus poemas já tivessem sido publicados em jornais e revistas ao longo da década de 70. No mesmo ano a autora publica Correspondência Completa e no início da década de 80 Luvas de Pelica , todos em "edições independentes". 9 Destes, somente Correspondência Completa se insere no "padrão marginal"; os outros dois, embora desvinculados de editoras oficialmente instituídas, são edições sofisticadas, cujo requinte e cuidado do trabalho gráfico fogem das publicações "marginais".

A poeta, que nasceu em 1952 e produziu intensamente na década de 70, pôde vivenciar todo aquele período conturbado e de muita repressão, vindo a falecer em 1983, dois anos antes da queda do regime militar. A passagem da poeta por esta edição não recebe grande destaque do suplemento, pois o espaço reservado às resenhas é curto, e subordinado aos lançamentos do mercado editorial. A literatura tem um lugar, mas este é estreitamente limitado, e de acordo com a estruturação do suplemento, podemos lê-la como uma passagem comemorativa dos 15 anos da morte de Ana Cristina César.

No entanto, no antigo Folhetim , suplemento veiculado pela Folha entre 1977 e 1989, uma foto de Ana C. ocupa toda a capa, em que poemas inéditos e um ensaio de Silviano Santiago, "Singular e Anônimo", é destacado. 10 Apesar de ter sido publicado um ano depois da morte da poeta - o que sugere uma comemoração -, nesse texto o objeto literário encontra um tratamento minucioso. Silviano Santiago comenta Correspondência Completa , poema escrito em forma de carta, assinada por Júlia, e dirigida a "My dear". O poema faz alusões ao procedimento da construção poética da autora, que utiliza uma forma corriqueira, banal - a correspondência, gênero confessional-, transformando-a em material literário. Outra característica de Ana C., aludida pelo poema-carta ou pela "carta-poema", é o jogo da intertextualidade, em que os versos de poetas já canonizados são citados de maneira insubmissa, desprendida, recebendo uma outra versão, uma recriação. Em Correspondência Completa , Júlia se refere a dois leitores diferentes: Mary e Gil.

 

Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê
para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas,
pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos
não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios
sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não
entende as referências diretas. 11

 

Gil e Mary personificam o próprio leitor que, como observou Silviano Santiago, não é único, por isso "anônimo", apesar de ser sempre singular. Gil é o tipo de leitor que mantêm uma distância do objeto, não se envolve emocionalmente com o poema, "esquece-se que no ler se busca exatamente a maneira de se identificar com o outro", 12 enquanto Mary o lê como algo fechado, imperscrutável, e "não entende as referências diretas", acabando por mitificar o poema, enquanto Gil teima em decifrá-lo, não se permitindo sentir-se em outro.

Gil é o tipo de leitor que teima em escavar aquilo que a escrita oculta, o secreto, que deixa de o ser na medida em que se dá a revelação. O segredo são as referências, as alusões às outras vozes do discurso lírico que permeiam a tessitura poética de Ana C. Este elemento oculto que é então descoberto por Gil podem configurar uma analogia com os temas trazidos pelos cadernos ( Mais!) anteriormente citados, em que o secreto perpassa por todos os temas abordados nos dossiês, "a vida secreta das guerrilheiras", "os diálogos secretos dos bispos...", os documentos "confidenciais" trazidos à tona pela pesquisadora Martha Huggins, a revelação do secreto aqui de dá por intermédio do suplemento.

Enquanto Gil tenta desvendar os enigmas da escritura, Mary os ignora, não reconhece as referências diretas, que representam a presença do outro no poema, esse outro não é só quem escreve o texto, mas é também o próprio leitor, o destinatário da escrita. Leitor e autor ocupam lugares diferentes, mas que se pressupõem e se completam. O poema só se realiza plenamente na leitura, na participação, que é dar um salto para o outro lado da margem, para a alteridade - "a alteridade na linguagem poética existe para ser transgredida, para ser compreendida na ternura". 13

Para finalizar essa breve travessia pelo literário, que buscou preencher as lacunas dos periódicos mapeados, termino destacando que essa cumplicidade entre quem escreve e quem lê, mencionada anteriormente, é a mesma que está subtendida no poema-prefácio de As Flores do Mal - "Leitor hipócrita, meu semelhante - meu irmão". Essa mesma frase é tacitamente citada no poema "Fogo do Final", confirmando uma marca estilística da autora, o jogo intertextual, no qual autor e leitor se fundem e passam a fazer parte de uma mesma realidade - o discurso poético.

È para você que escrevo, hipócrita.
Para você - sou eu que te seguro os ombros e grito a verdade
Nos ouvidos, no último momento.
Me jogo a teus pés inteiramente grata. 14

 

Folha de São Paulo , 3 maio/1998. Mais!, p. 01.

Folha de São Paulo ,10 maio/1998. Mais! , p. 01.

Esta idéia foi o ponto de partida da Tese de Doutorado Memórias do Presente , de Valdir Prigol, na qual o autor lê o suplemento a partir do que ele denomina de "estratégia editorial", a qual seria "acionada" pelas "comemorações" . Florianópolis: UFSC, 2003, p. 05.

PRIGOL, Valdir. Memórias do Presente . Florianópolis: UFSC, 2003, p. 43.

HOBSBAW, Eric. "O ano em que os profetas falharam". Folha de São Paulo , 10 Maio. 1998. Mais! , p. 05.

Folha de São Paulo, 23 ago/1998. Mais! , p. 01.

SECCHIN, Antonio Carlos . Uma Mitologia particular. Folha de São Paulo , 23 ago/1998. Mais! , p. 11.

CAMARGO, Maria Lúcia DE Barros. Atrás dos Olhos Pardos: Uma leitura da poesia de Ana Cristina César . Chapecó: Argos, 2003. p. 21.

Idem, Ibidem .

SANTIAGO, Silviano. Singular e Anônimo . Folha de São Paulo, 04 nov/1984. Folhetim , p. 08-09.

CESAR, Ana Cristina. A Teus Pés . São Paulo: Ática, 1999, p. 120.

SANTIAGO, Silviano. Singular e Anônimo . Folha de São Paulo. 04 nov/1984. Folhetim , p. 08.

Idem , p. 09.

CÉSAR, Ana Cristina. A Teus Pés . 2º edição. São Paulo: Ática, 1999. p. 81.