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O Problema da Equivalência de Função na Tradução Literária
Fabiana Macchi (Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique / Universidade de Mainz)
I
As teorias funcionalistas da tradução - sistematizadas basicamente nos anos 80 e 90, sobretudo na Alemanha - principalmente em Germersheim e em Heidelberg -, afastaram a tradução de uma abordagem preferencialmente lingüística, para inseri-la em uma abordagem cultural, salientando a interdependência entre linguagem e cultura.
Nesta mesma época, foi também de grande importância a mudança de paradigma nos estudos e na crítica da tradução literária - impulsionada não apenas pelos funcionalistas -, que passaram a considerar o fenômeno do ponto de vista do produto, ou seja, da língua/cultura/literatura de chegada, ajudando a 'destronar' 1 o original e afastar o mito da tradução inferior e incompleta por definição.
Os funcionalistas defendem que o objetivo de qualquer processo tradutório é a produção de um texto que "funcione" na cultura de chegada, ou seja, que venha a exercer, na cultura de chegada, a função que para ele for estabelecida.
Segundo a "Teoria do Escopo" ( Skopostheorie ), a mais famosa das teorias funcionalistas, estabelece a função do texto a ser traduzido o iniciador da tradução (o cliente) ou o próprio tradutor, caso ele tenha autonomia para isso. A função do texto original não é, necessariamente, relevante para a nova função que o texto deverá adquirir na cultura de chegada, e é a função que o texto traduzido deverá exercer que determinará a estratégia e os procedimentos usados no processo tradutório e, também, conseqüentemente, o conceito de equivalência (ou os conceitos de equivalência) a ser privilegiado. A função do texto original e a função da tradução não necessitam, portanto, ser idênticas.
Suponhamos que uma agência de publicidade queira usar um determinado poema escrito em uma língua estrangeira - por causa do seu conteúdo semântico - em um comercial de um condomínio residencial. A tradução do poema feita com este propósito provavelmente não privilegiará a estrutura e o efeito poético do poema, mas sim o conteúdo semântico mais superficial, utilizando sintaxe e vocabulário mais simples, que possam ser entendidos imediatamente por um público mais amplo. A tradução do mesmo poema feita para constar de uma antologia de poesia estrangeira, provavelmente, seria muito diversa, mais complexa e contendo soluções mais elaboradas. 2
Estabelecer a função que a tradução de textos pragmáticos deverá exercer na cultura de chegada, em geral, não é tarefa muito complicada, uma vez que na própria classificação do texto já está, normalmente, inserida uma função convencional. Uma certidão de nascimento ou um histórico escolar provavelmente não adquirirão, na cultura de chegada, outra função senão a de certificar os dados pessoais e a escolaridade de alguém 3. Um manual de instruções, traduzido com função constante, deverá fazer com que o leitor da tradução saiba qual botão pressionar para ligar o aparelho.
Reconhecer, estabelecer e adaptar textos-em-função em comunidades lingüísticas e culturais diversas fazem parte, portanto, das tarefas do tradutor, que não deve dominar apenas as línguas de partida e de chegada, mas, também, as culturas de partida e de chegada, além dos pressupostos teóricos do seu trabalho. Ele não deve ser apenas bilíngüe, mas, sobretudo, bicultural. A tradução, do ponto de vista funcionalista, é, portanto, em primeiro lugar, uma ação de transferência intercultural (e não somente uma transferência lingüística).
II
As diversas abordagens funcionalistas apresentam, de forma bastante produtiva, variados modelos de como esta transferência se dá, que critérios ela deve considerar e que mecanismos podem ser utilizados neste processo. Em seu empenho, porém, em abranger a ampla e complexa gama de fenômenos tradutórios (da interpretação simultânea de conferências ao mencionado manual de instruções), todos os tipos de textos possíveis (de relatórios sobre a produção de parafusos até poemas concretos), e todas as etapas constantes do processo da tradução (da leitura e interpretação do texto original pelo tradutor até a recepção da tradução pelo público-alvo), a tradutologia funcionalista traça linhas teóricas gerais que, por vezes, apenas rascunham alguns aspectos, deixando a descoberto critérios fundamentais - estabelecidos pela própria teoria.
É no âmbito da tradução de textos literários que as abordagens funcionalistas se mostram, a meu ver, menos produtivas, não oferecendo, ainda, elementos suficientemente diferenciados que dêem conta do papel do tradutor e dos elementos que devem ser considerados nesta travessia da obra literária entre duas culturas/literaturas.
Não pretendo abordar aqui as implicações da deliberada alteração da função do texto literário original - ainda chamada de tradução e defendida por alguns funcionalistas - e nem as fronteiras entre esta alteração e paródias, simplificações, adaptações, etc.
Paralelamente, encontra-se em alguns autores a afirmação, aparentemente simplificadora, de que os textos literários são geralmente - e devem ser - traduzidos com função constante, ou seja, eles devem exercer na cultura de chegada a mesma função que exerciam na cultura de partida.
A pergunta é inevitável: - E que função eles exerciam na cultura de partida? Que função exerce qualquer texto literário na sua própria cultura? Qual, afinal, a função da literatura? Ou quais as funções da literatura? Ou, ainda, qual a função de cada texto literário que, concretamente, deve ser traduzido?
Sobre a função de textos pragmáticos decide o iniciador da tradução - aquele que encomenda e paga pela tradução - ou o tradutor, via convenção e bom senso. E quem decide para que vai servir o último romance de Paul Auster traduzido para o português? Ou que função terão os sonetos completos de Camões em alemão? 4
Os próprios funcionalistas dão a mão à palmatória, afirmando que a questão da tradução literária é mais complexa. Talvez, por isso, eles mesmos tenham feito poucas tentativas de sistematizar o processo de tradução literária 5, não sem algumas contradições.
A propósito da complexidade da tradução literária, Katharina Reiss, por exemplo, sustenta que o tradutor não deve traduzir apenas a mensagem do texto original, mas também a forma pela qual esta mensagem está expressa no original, e conclui que a tradução não deve ter somente a mesma função , mas também causar o mesmo efeito do original 6. As exigências impostas à tradução literária nunca foram poucas: "A tradução deve ser uma obra de arte paralela independente; uma espécie de metamorfose do original capaz de sobreviver em outra cultura; uma imitação fiel do original; a tradução deve reproduzir a estrutura do original; deve informar o leitor sobre o gênero em questão, sobre o valor artístico e a beleza lingüística do original; deve enriquecer a língua de chegada; deve fazer com que os seus leitores entendam o valor literário que justifica a tradução desta obra específica" 7, etc.
Inserindo a tradução na Teoria da Ação, os funcionalistas vêem o tradutor como o especialista responsável pela ação tradutória e pelo resultado do processo tradutório. No caso da tradução literária, Christiane Nord parte de uma 'teoria da ação comunicativa literária' 8, segundo a qual a obra literária está inserida em determinado contexto de produção que envolve o autor, sua intenção, o contexto histórico-social e estético em que a obra foi produzida, seus leitores e seu efeito na cultura original. Christiane Nord elabora, a partir destes elementos, quatro ideais de equivalência para a tradução literária:
1. O tradutor interpreta o texto original em perfeita sintonia com a intenção do autor.
2. O tradutor verbaliza a intenção do autor de tal forma que o texto traduzido adquira, na cultura de chegada, a mesma função que possuía na cultura de partida.
3. O leitor da tradução compreende o universo da tradução na mesma proporção que o leitor do original compreendeu o universo do original.
4. A tradução causa nos seus leitores o mesmo efeito que o original causa ou causou nos leitores do original.
Nord conclui que tal missão é impossível de ser realizada e, para não cair na contraposição de decretar a definitiva impossibilidade da tradução, propõe sucintamente, para cada ideal, uma sugestão mediadora. 9
Restrinjo-me a examinar, aqui, um aspecto da segunda etapa do processo - que corresponde, no modelo de Nord, aos ideais de equivalência 3 e 4 -, a saber, a recepção da tradução.
Entre o contexto de produção de uma obra literária e o contexto de recepção da tradução desta mesma obra, existe uma lacuna não apenas lingüística, mas também cultural. Ao tradutor cabe a tarefa de detectar as lacunas que podem comprometer a compreensão do texto traduzido em seu novo contexto e preenchê-las, fornecendo as informações complementares necessárias.
Para proceder a travessia intercultural de elementos marcadamente culturais e x p l i c i t a m e n t e presentes no texto, Hönig e Kussmaul introduzem o princípio do "grau de diferenciação necessária" 10, a fim de orientar o tradutor na decisão sobre a quantidade - e naturalmente sobre a qualidade - de informação suplementar necessária para compensar a desigualdade dos contextos de partida e de chegada. Seus exemplos referem-se, principalmente, a possíveis conotoções que seriam prontamente reconhecidas pelos leitores do original e que sentido algum fariam para o leitor da tradução, ou a palavras que contêm informações institucionais específicas (como, p. ex., em inglês "bachelor's degree" ou "master's degree"). As soluções propostas restringem-se a pequenas paráfrases, introdução de orações relativas, de uma explicação entre parênteses ou, no máximo, de uma nota de rodapé.
A manutenção da função do texto literário na cultura de chegada (ou a tentativa de manutenção) pressupõe uma antecipação da recepção da tradução no novo contexto. Nesta antecipação da recepção, provavelmente não faltarão apenas as informações culturais presentes explicitamente no texto, mas também as pressuposições culturais implícitas no texto. O modelo de Hönig e Kussmaul não abrangeria estas pressuposições implícitas ao texto sem antes sofrer uma ampliação.
Christiane Nord tematiza a transmissão de informações implícitas no texto e propõe a possibilidade de uma tradução "instrumental" - que causará o mesmo efeito do original no leitor da tradução, manterá a invisibilidade do tradutor e dará ao leitor a ilusão de estar lendo o original - em oposição a uma tradução "documentária" - que deixará transparecer as diferenças estruturais, constituindo um texto exótico na língua de chegada e deixando o tradutor à mostra através de prefácios, introduções, notas ou glossários. 11
Na minha opinião, é exatamente através de prefácios, posfácios ou notas que se poderia conciliar as duas exigências de equivalência estabelecidas para a tradução literária na teoria funcionalista: a equivalência da função (ou, em alguns casos, o que eu chamaria de "instrução sobre a função original") e a equivalência da forma. Tal solução, porém, seria incompatível com as categorias de Christiane Nord, para quem os dois tipos de tradução - instrumental e documentária - são excludentes. É plausível, porém, considerá-las complementares, pois exatamente uma tradução mais livre, que aplane o contexto e adapte o texto, de tal forma que este não possa mais ser reconhecido como pertencente a uma outra língua/cultura/literatura - segundo as categorias de Nord, uma tradução instrumental - necessitaria de informações que explicitassem o processo tradutório utilizado e os princípios que o nortearam. Qualquer outra possibilidade é insistir na ilusão da tradução como sendo o texto original, é insistir na invisibilidade do tradutor, na infalibilidade do tradutor, e, conseqüentemente, exigir que o leitor, crédulo, compre o gato por lebre.
Mary Snell-Hornby, no diagrama em que propõe um modelo para uma abordagem integrada da Teoria da Tradução - ou seja, que abranja todos os tipos de tradução - pressupõe, para a realização da tradução literária, conhecimentos prévios em áreas da "realidade extra-lingüística" 12 (termo usado por Snell-Hornby), a saber, Estudos Literários e História da Cultura, mas não chega a especificar, exatamente, como e por que tais conhecimentos deveriam ser empregados no processo da tradução, e nem se isso se daria de forma explícita, no texto - como no modelo de Hönig e Kussmaul - ou implícita, o que, por sua vez, corroboraria para perpetuar outro mito a respeito do tradutor: o mito do tradutor-universalista, possuidor de conhecimentos enciclopédicos.
Reiss e Vermeer abandonam a esfera do texto e desenvolvem uma visão mais holística da tradução, afirmando que a distância cultural, temporal e geográfica entre o original e a tradução irá sempre, necessariamente, alterar a recepção da obra. 13 Um leitor alemão lê Thomas Mann em um outro contexto e com outro background do que um leitor brasileiro. Os discursos de Cícero, publicados hoje, têm função completamente diversa da que tinham quando foram proferidos. Uma determinada norma ou estilo que possuía um significado específico na época da produção do texto original ou da recepção do texto original, se for mantida na tradução, terá necessariamente, na cultura de chegada, outro valor e, conseqüentemente, outro efeito. 14Como esta - inevitável - diferença de valor se dá e como ela poderia vir a ser relativizada ou, pelo menos, explicitada não chega a ser desenvolvido no modelo de Reiss e Vermeer.
III
As diversas abordagens funcionalistas tangenciam áreas que poderiam vir a fornecer subsídios mais precisos para a questão da equivalência de função da tradução literária e para a reconstrução e transferência do contexto do original. Continuam, porém, via de regra, ainda bastante próximas à tradição lingüística, cujo raio não abrange o fenômeno da passagem de uma obra literária de um contexto literário para outro.
É preciso que, depois da "virada pragmática", os funcionalistas promovam a "virada literária", explicitando mais os ainda obscuros caminhos do processo da tradução literária e ajustando e esclarecendo as possibilidades de equivalência que a tradução literária é capaz de oferecer. É preciso que se olhe para a tradução literária como um fenômeno literário e se verifique se os conceitos de tipo de texto, tipo de tradução e objetivo da tradução são suficientes para dar conta deste fenômeno. É preciso que se enfrente a falácia da invisibilidade do tradutor - ao menos teoricamente - exigindo explicações sobre o tipo de equivalência possível para cada texto e as decisões que nortearam esta ou aquela escolha. É preciso que se estabeleça, como pré-requisito para o tradutor literário, não apenas as competências lingüística e cultural, mas, também, a competência literária. Afinal, se a tradução é uma "oferta de informação", a tradução literária é, também, uma oferta de informação literária , e, como tal, deveria vir acompanhada de informações relevantes para a leitura da obra e dos respectivos critérios de equivalência usados pelo tradutor - com a devida justificativa para a escolha destes critérios, é claro. O que, às vezes, já ocorre na prática, mas que permanece sem comentários e sistematização por parte dos teóricos.
Respeitando o critério de manutenção (ou reconstrução) da função do original na tradução, e seguindo as conseqüências da exigência de preencher a lacuna entre os contextos disponíveis ao leitor do original e aqueles disponíveis ao leitor da tradução, caímos, obrigatoriamente, na necessidade de instrumentalizar o leitor da tradução, que estará sempre, necessariamente, menos bem servido de informações sobre contexto, recepção e efeito do original do que o leitor do próprio original (ao menos potencialmente).
A obra literária, a partir da sua recepção passa a ser parte integrante de uma tradição literária e a dialogar com as outras obras integrantes da mesma tradição. O mesmo ocorre com o texto traduzido, que encontra um novo ambiente na cultura de chegada. Cabe - geralmente, não necessariamente - ao tradutor construir a ponte necessária entre a obra e o leitor da tradução. Para isso, porém, o tradutor necessita antecipar o mais possível a recepção da obra literária, a fim de fornecer ao leitor da tradução as informações sem as quais a sua interpretação da obra original seria apenas parcial ou estaria, inclusive, sujeita a mal-entendidos.
A sistematização da recepção prospectiva de uma obra literária, introduzida, por exemplo, pela Estética da Recepção de Jauss 15, pode vir a ser produtiva para uma ampliação das abordagens funcionalistas em relação à tradução literária. O conceito de "horizonte de expectativas do leitor", proposto por Jauss, transcende a esfera do texto em si e considera o contexto estético-literário em que a obra está inserida. A interpretação de uma obra literária deverá considerar a relação desta obra com as outras obras que existiam antes dela e com as fontes e os modelos estético-literários atuais na época de sua produção. Não sendo mais possível, para o leitor atual, reconstruir e reconhecer as nuances da produção original da obra - como por exemplo no caso de uma obra produzida em um período remoto -, é preciso que se proceda o que é chamado de "expansão do horizonte de expectativa" do leitor. Nestes casos surgem as edições comentadas, os glossários, as explicações etimológicas, etc.
Uma teoria da recepção prospectiva, baseada em Jauss, e ampliada para um contexto bicultural, poderia vir a estabelecer critérios mais precisos para uma possível manutenção da função do original na tradução e auxiliar a tradutologia funcionalista na elaboração de métodos mais transparentes para buscar este objetivo.
Exemplo semelhante em: Dizdar, Dilek. Skopostheorie. In: Mary Snell-Hornby / Hans G. Hönig, Paul Kussmaul / Peter A. Schmitt (orgs.). Handbuch Translation . Tübingen: Stauffenburg Verlag, 1998, p. 104-107.
O que não significa que estes textos não apresentem subfunções específicas.
A tradução está sendo feita por Hans-Joachim Schaeffer, que também traduziu Os Lusíadas .
Com exceção de C. Nord, que dedicou ao tema um capítulo de seu livro: Nord, Christiane. Translating as a Purposeful Activity. Manchester , UK : St. Jerome , 2001.
Idem, ibidem, p. 80. No original: actional aspects of literary communication.
Der notwendige Differenzierungsgrad , em: Hönig, Hans G. / Kussmaul, Paul. Strategie der Übersetzung. 4a., Tübingen: Gunter Narr Verlag, 1996.
Cf. Nord, Christiane. Loyalität statt Treue. Vorschläge zu einer funktionale Übersetzungstypologie. Lebende Sprachen, 3, 1989, p. 100-105.
Snell-Hornby. Translation Studies. An integrated approach. Revised edition, Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 1985.
Reiss, Katharina / Vermeer, Hans J. Grundlegung einer allgemeinen Translationstheorie. 2a. ed., Tübingen: Niemeyer, 1991, p. 18-20.
Cf. Reiss / Vermeer, op. cit., p. 28.
Jauss, Hans Robert. Literaturgeschichte als Provokation. 8a., Frankfurt: Suhrkamp, 1986.