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O lugar da literatura em tempos de Internet
Diogo Ribeiro (UnB)
Com a radicalização e dinamização da vida moderna, a literatura vive um contexto contraditório, pois sempre exigiu de escritores e leitores certa dose de ociosidade durante o cumprimento de suas "tarefas" literárias. A atualidade, definida por Jean Baudrillard como "a era dos fenômenos extremos", requer uma mutabilidade muito rápida da sociedade, fato que nos leva a questionar a posição da literatura em relação aos novos tempos e suas neotecnologias. Como manter a ociosidade necessária ao ato de ler e de escrever nesta correria dos tempos modernos?
Nos dias de hoje, um dos ícones dessa aceleração tecnológica é a Internet. A rede mundial de computadores, como é denominada por muitos, revolucionou o mundo com as suas vantagens e facilidades: uma pessoa no Japão pode conversar em tempo real com outra que esteja no Brasil por meio de um computador conectado à rede, pode, mesmo estando em um país distante, ler jornais do dia em Portugal ou na França dando apenas um clique com o botão do mouse do computador . Diminuem-se, portanto, as fronteiras, as distâncias entre os povos com a utilização da mais nova e poderosa mídia surgida nos últimos tempos. Tal fenômeno foi chamado por Deleuze de "desterritorialização", pois, com a Internet, acabam-se as fronteiras entre os povos por causa de sua característica principal: a "virtualidade", como bem definiu Pierre Lévy.
As influências das novas tecnologias podem ser determinantes na formação da estrutura e da cultura literária do futuro. A primeira grande alteração que sofreria o sistema literário já começa a ser sentida: a diminuição dos custos de produção e da distribuição das obras literárias. A tirada inicial dos livros sempre foi um problema para as editoras: era difícil fazer uma tiragem pequena e uma grande era muito arriscada. Além disso, os custos com propaganda acarretam preços altíssimos no resultado final do livro.
No mundo da Internet, esses problemas podem diminuir. Isso porque os gastos com a impressão serão reduzidos a quase zero, uma vez que os livros ficariam "flutuando" na Rede. Para o escritor, melhor ainda: ele pode tornar-se seu próprio editor e controlar todo o processo de construção de sua obra. Segundo Jenaro Talens,
"No mundo editorial, as novas tecnologias têm mudado o seu panorama com o surgimento dos computadores pessoais e das impressoras a laser. Sua acessibilidade e fácil manejo abriram uma brecha no monopólio industrial do livro por parte das grandes empresas de edição". 1
Para as editoras, será o fim das obras com sobras enormes de vendas ou de edições esgotadas. Isso porque o livro permanecerá o tempo que for preciso na Internet. Com o barateamento dos custos de produção, torna-se mais fácil investir em diversos tipos de livros. Não será mais preciso fazer cálculos de projeção de vendas para delimitar a quantidade da tiragem, já que a publicação está na rede.
Para o leitor, um grande benefício: além da possibilidade de ficarem mais baratos, livros com edições outrora limitadas poderão ser adquiridos na Internet. O acesso aos livros das bibliotecas, por exemplo, poderá ser facilitado, já que os livros ficarão disponíveis em rede para que muitas pessoas possam consultá-los ao mesmo tempo. Acaba o velho problema da biblioteca que só dispõe de um único exemplar de um determinado livro.
No entanto, se os livros digitais poderão facilitar o trabalho das editoras, dos escritores e dos leitores, também poderão trazer problemas com o controle das cópias. A quantidade de cópias ilegais aumentará bastante se não forem criados métodos de dificultar a cópia de um produto vendido.
O autor tem o direito de receber crédito por sua produção, afinal, é de sua propriedade sua criação. Porém, desde que sejam respeitadas as leis, outras pessoas podem fazer pleno uso das obras de um escritor.
No contexto atual, em que há um grande acúmulo de conhecimento adquirido, há uma tendência enorme de que os textos não sejam construídos somente com pensamentos de um mesmo autor, mas de vários autores das diversas correntes seguidas por ele que, por meio de citações ou idéias entram em seus textos:
"Hoje, o papel do autor é preponderante nas obras literárias, enquanto na ciência, o texto, muitas vezes, já é produto do trabalho de pesquisa, no qual a autoria e as citações têm a função de permitir que seja traçada a genealogia do próprio texto e de seus autores, ou seja, permitem a verificação e a validação dos métodos empregados e dos resultados alcançados". 2
Esse fenômeno é denominado na teoria literária de "hipertexto". Num conceito digital, Sílvio Gaggi afirma que o hipertexto
"é a organização de segmentos de textos eletronicamente conectados em uma rede, de tal forma que o leitor possa ter liberdade de movimento". 3
Com tal liberdade de movimento, o leitor reforça o seu papel de sujeito, há, portanto, a possibilidade da aproximação das noções de leitor e autor, causando, segundo Pedro Barbosa, um "escrileitor".
Dois pontos importantes devem ser diferenciados quando se discute a relação entre literatura e Internet. A Internet facilita a distribuição da literatura tradicional, seja na aquisição de livros impressos em livrarias virtuais (o real vindo por meio do virtual) que serão entregues na residência do leitor, seja na compra de livros eletrônicos (os chamados e-books ou e-livros) que somente poderão ser lidos em ambientes virtuais (ou impressos, dependendo do desejo de quem os comprou). Um livro eletrônico é a versão digital de um livro impresso, e é adquirido por meio de download para ser lido na tela do micro ou impresso pela impressora. Devido à tecnologia de proteção de direitos autorais sobre a obra, normalmente o e-livro só pode ser lido no micro em que foi carregado e fica gravado no respectivo HD. Também, segundo texto do site Cultivox - espécie de editora virtual ( www.uol.com.br/cultivox ) - , devido à proteção de direitos autorais, não é possível gravar o e-livro em disquete/Cd ou distribuir para leitura em outros micros. Há , no entanto, muitos livros antigos que podem ser adquiridos gratuitamente pela Internet e com livre distribuição. É o caso dos livros de Machado de Assis, ou de Camilo Castelo Branco, por exemplo.
A grande rede também pode proporcionar o armazenamento de textos produzidos exclusivamente para serem lidos no ambiente virtual, ou seja, um tipo de literatura que tem o seu espaço apenas no computador. É a chamada ciberliteratura. Então, a Internet pode proporcionar tanto a leitura de textos tradicionais, que podem ser impressos em forma de livros reais quanto uma literatura só existente no ambiente virtual.
Um detalhamento mais preciso do conceito de ciberliteratura torna-se necessário neste momento. Segundo Pedro Barbosa, no artigo A renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador ,
Ciberliteratura (ou infoliteratura) é um termo que designa um procedimento criativo novo, nascido com a tecnologia informática, em que o computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e não apenas como simples armazenador e transmissor de informação que é o seu uso corrente. 4
Pedro Barbosa, já em outro artigo, intitulado Ciberliteratura, Inteligência Artificial e Criação de Sentido , cria uma fórmula para esquematizar o processo criativo: artista (responsável pela criação) + computador (responsável pela execução) = obra (s) ( que seriam os múltiplos). Assim, o artista conceberia o modelo da obra a realizar, a máquina desenvolveria e executaria as múltiplas realizações desse modelo dentro de um campo de possíveis textuais.
Há quem diga só conseguir iniciar um texto a partir de certas circunstâncias inspiradoras. Para tanto, necessitariam de ambientes adequados e determinados instrumentos específicos para escrever: caneta, pena, máquina de escrever, computador etc. Este último é o instrumento a ser utilizado na construção da ciberliteratura. Uma questão surge daí: não haveria um certo temor, por parte de determinados escritores de, com a nova tecnologia, serem trocados pelas máquinas, num processo que já aconteceu com profissionais de outras áreas - a substituição do humano por um braço mecânico? Para Joaquín Romero, em seu texto A incidência das redes de comunicação no sistema literário (ROMERO: 1998, 39),
O temor à máquina não faz pensar que os computadores substituam os livros, mas sim que cheguem a substituir os próprios autores. Conforme as máquinas ser convertem em elementos mais complexos, o medo de ser substituído por elas aumenta.
As conseqüências dessa dinamização da vida, torna a busca pela velocidade uma necessidade cada vez maior. Para Lúcia Santaella, em A arte no século XXI: a humanização das tecnologias (SANTAELLA: 1996, 56),
No termo máquina está implicado algum tipo de força que tem o poder de aumentar a rapidez e a energia de uma atividade qualquer.
No entanto, o ser humano não parece estar interessado em ser substituído numa questão primordial: a do poder de criação. Talvez aí haja uma grande força para continuar no comando da criação literária. Para Baudrillard em Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem
O homem, ao mesmo tempo que sonha com todas as suas forças em inventar uma máquina mais forte do que ele mesmo, não pode admitir a possibilidade de não ser o mestre de suas criaturas. 5
O CETIC, Centro de Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura da Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, criou um programa que relaciona o texto virtual, enquanto estrutura literária, com um motor informático que a põe funcionando. Esse software é denominado Sintetizador de Textos e é um protótipo do que Pedro Barbosa chamou de Literatura Gerada por Computador. Eis um exemplo, retirado do site de Barbosa, de frases criadas por esse Sintetizador,
O poeta, puramente humano, segundo Pedro Barbosa, diz: "este paraíso é de víboras azuis." E a máquina, laborando sobre algoritmos provenientes dos sonhos primordiais da Inteligência Artificial, gera:
Este poeta é de grutas azuis
Este silêncio é de flores azuis
Este soneto é de jubas azuis
Este poema é de noites azuis.
E assim até o infinito do dicionário e da sintaxe.
Para José Augusto Mourão, em A criação assistida por computador (MOURÃO: 2001, 55), o texto hiperficcional constituiria um novo gênero literário, pois
Sua tecnologia, as suas formas e a sua recepção diferem significativamente dos outros gêneros.
Dois outros conceitos serão discutidos neste trabalho, o de hipertexto e o de hiperficção. O hipertexto aproxima-se do processo de elaboração mental do ser humano, pois funciona por meio de analogias ou por associação de idéias, assim como ocorre com o pensamento das pessoas. O conceito de hipertexto, apesar de estar intimamente relacionado com a estrutura textual informática, não é particularmente novo. Por hipertexto, segundo Mourão,
Entende-se simplesmente, desde Ted Nelson, que cunhou a palavra, a escrita não seqüencial: livro dentro do livro escondido debaixo do texto. 6
Pierre Lévy, em seu livro As tecnologias da inteligência - o futuro do pensamento na era da informática , diz, num conceito aparentemente ligado apenas ao ciberespaço, que
Hipertexto é um conjunto de nós (links) ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, imagens, gráficos ou parte de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa, portanto, desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira. 7
Raquel Wandelli Loth, em Hipertexto: o passado rejuvenescido , discorda de que o conceito de Lévy esteja relacionado apenas ao mundo digital:
O conceito formulado por Lévy não se limita à forma eletrônica. Refere-se antes a uma forma de escritura em teia, anti ou multilinear e dotada de uma rede de conexões internas que pode ou não ser automatizada. Nesse corpo marcado pela fragmentação e pela multiplicidade de percursos de leitura, os textos associados são preponderantemente visualizados na obra e não apenas sugeridos por referências ou metáforas. Isso porque faz parte da construção hipertextual tornar palpável a intertextualidade, presentificando os textos com os quais o autor dialoga e que em uma obra tradicional normalmente estão apenas intuídos. 8
Hiperficção, por sua vez, seria a junção de hipertexto com ficção. Há, claro, a possibilidade de se falar em hiperpoema, obviamente, relacionando hipertexto + poema. Um aparte nessa discussão: é importante ressaltar que, a simples mudança de suporte não irá transformar um poema tradicional, ou seja, não basta digitar um poema de Drummond, gravá-lo num CDROM ou numa página da Internet para afirmar que essa poesia se tornou um hiperpoema. Para ser considerado como tal, o poema deve ser concebido utilizando-se dos inúmeros recursos disponíveis no ambiente virtual proporcionado pelo computador. Afinal, conforme palavras de Pedro Barbosa, o texto informático deve ser móvel, engendrável, instantâneo, interativo e deslocalizado.
Na hiperficção, não se impõe um caráter linear, pois essa literatura se desenvolve por meio de links utilizados pelo leitor em sua travessia individual de leitura. O leitor participa, assim, da elaboração da própria obra. Dessa forma, a construção do sentido na narrativa hiperficcional dependerá do percurso a ser seguido pelo leitor. Tal percurso terá uma estrutura labiríntica, segundo Barbosa, e cada caminho será único por causa da intervenção do receptor que irá determinar a totalidade dos trajetos possíveis no campo da leitura.
Portanto, em tempos onde, segundo Baudrillard, "a realidade foi expulsa da realidade e talvez apenas a tecnologia reúna ainda os fragmentos esparsos do real", época em que esse mesmo real vive o seu deserto, segundo Zizek, ou para Ballard, no prefácio de Crash
é um mundo onde cada vez mais os papéis de realidade e ficção vêm sendo invertidos pois a ficção já existe e cabe ao escritor inventar a realidade. Será que o escritor ainda pode utilizar as técnicas e perspectivas do romance tradicional do século XIX, com sua narrativa linear, sua cronologia uniforme, seus personagens imponentes habitando seus domínios dentro de um espaço e de um tempo amplos? 9
Assim, torna-se inevitável repetir a pergunta de Jenaro Talens (TALENS: 1994, 1)
Haverá algum lugar ainda para a literatura e sua reflexão sobre o mundo neste suposto novo paraíso surgido das cinzas do que Fukuyama chamou de "o fim da história"?
Há quem diga que enquanto houver momentos de espera, a literatura não morrerá, pois tais ocasiões proporcionariam a ociosidade necessária ao ato de ler. No entanto, será que os momentos de espera existirão no futuro? Um exemplo de momentos de espera são as filas de bancos para pagar contas. Como eram sempre longas, tais filas proporcionavam grandes momentos de espera e, assim, um bom espaço ocioso para desenvolver a leitura de livros. Atualmente, no entanto, quem quiser, pode optar por pagar suas contas pela Internet a partir de seu próprio computador em casa. Sem se levantar da cadeira.
Todavia, a literatura sobrevive. Hoje há várias ficções navegando pela Internet. Um exemplo é o livro brasileiro Tristessa , criado virtualmente por um autor anônimo, que assina "The Passenger". Romances como Tristessa , criados para serem lidos exclusivamente num contexto virtual, demonstram que a literatura tem fôlego suficiente para sobreviver nesse mundo virtual de velocidades extremas.
Para terminar, prefácio de Tristessa 10:
Todo processo de transformação social tem um epicentro, que é o momento em que a revolução efetivamente acontece.
Os personagens desta história vivem no epicentro da transição entre a era industrial e a era digital, em uma sociedade em permanente processo de descontinuação.
Eles vivem um momento em que a pobreza, a Aids, as guerras religiosas e o desemprego contrastam cada vez mais com o desenvolvimento da tecnologia da informação e com o crescimento do indivíduo no ciberespaço.
E dentro desse processo todo eles vivem o presente, olham para o passado, sonham e deliram, dando prioridade ao eu . Passam a maior parte do tempo olhando para dentro de si mesmos, às vezes sem perceber a revolução da qual estão fazendo parte.
Bem-vindos a este grande teatro da informação.
A entrada é franca para todos que estiverem presos nesta imensa teia de bits.
Esta novela não é apenas para raros e loucos, se bem que um pouco de cada um desses atributos pode ajudar bastante na loucura da viagem.
Não haverá instruções de navegação. No auge do desespero, use o back , o go , ou apele para o navegador.
Fasten your seat belts e boa viagem.
Eu lhes desejo um selvagem vôo por dentro de vocês mesmos em direção ao futuro.
TALENS, Jenaro. Escritura contra simulacro . Valencia: Centro de Semiótica y Teoria del espetáculo, Universitat de Valencia & Asociación Vasca de Semiótica. EUTOPÍAS, 2ª época, Documentos de trabajo, vol. 56, 1994.
ANTÔNIO, Irati. Autoria e cultura na pós-modernidade. In: Ciência da Informação. Brasília, 1998. p. 25.
GAGGI, Silvio. From text to hypertext: decentering the subject in fiction, film, the visual arts, and electronic media. Philadelphia , University of Pensylvania , 1997. p. 78.
BARBOSA, Pedro. A renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador.
Disponível em http://www2.ufp.pt/~pbarbosa/artgonline.htm . Último acesso em 25/8/2004.
BAUDRILLARD, Jean. Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem . Porto Alegre, Editora Salina, 1997. p. 78.
MOURÃO, José Augusto . Ficção interativa: para uma poética do hipertexto . Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas,2001. p.55.
LÈVY, Pierre. As tecnologias da inteligência - o futuro do pensamento na era da informática . Rio de Janeiro, Editora 34, 1993. p. 85.
LOTH, Raquel Wandelli. Hipertexto: o passado rejuvenescido. Disponível em http://www.cce.ufsc.br/~wandelli/literatura/index.html . Último acesso em 25/8/2004.
BALLARD, J. G. Crash: estranhos prazeres. Rio de Janeiro, Record, 1997, páginas 5 e 6.
THE PASSENGER. Tristessa . Disponível em www.quattro.com.br/tristessa . Último acesso em 25/8/2004.