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Bioficção: a travessia ao pós-humano
Cinthya Costa (UnB)
"Pela morte, participamos da tragédia cósmica; pelo nascimento, participamos da aventura biológica; pela existência, participamos do destino humano. O ser mais rotineiro e a vida mais banal participam dessa tragédia, dessa aventura, desse destino."
Edgar Morin
Vivemos, segundo Georges Ballandier, o período dos apagamentos, dos desaparecimentos, das formas em vias de se fazer. Presenciamos as mortes de Deus e do sujeito que proporcionaram nossa inserção em mundo considerado pós-histórico, pós-humano e pós-biológico. A revolução genética possibilitou a clonagem da ovelha Dolly e o desvendamento do genoma. A partir de então, a comunidade científica debruça-se sobre questões de bioética, em que as fronteiras do humano suscitam questionamentos filosóficos, jurídicos, antropológicos. A literatura, por seu turno, antecipara este estado de coisas com as obras Admirável Mundo Novo (1932) do inglês Aldous Leonard Huxley, Os meninos do Brasil (1976) do norte-americano Ira Levin e O sorriso do lagarto (1989) do brasileiro João Ubaldo Ribeiro. Romance contemporâneo que também aborda a biotecnologia como temática é Partículas Elementares (1999) do francês Michel Houellebecq.
Estas obras, aqui intituladas de bioficção, ficção científica biotecnológica, empregam a biotecnologia como elemento problematizador de seus universos ficcionais. Estas fabulações promovem a construção de universos ficcionais distópicos, em que a ciência é percebida no paroxismo de suas contradições. Em O sorriso do lagarto, a produção de seres transgênicos promove a contestação dos limites de intervenção do homem na natureza. Em Os meninos do Brasil, a tentativa de replicação genética de Hitler faz emergir o estranho ideário da eugenia. No epílogo de Partículas Elementares, a sociedade pós-humana de seres biologicamente transformados relata a evolução do estágio humano para o período do além-do-humano. Em Admirável Mundo Novo, o Estado ordenado por meio do controle biogenético, em que todos os indivíduos são produzidos em massa no laboratório, é apresentado como universo da distopia científica.
É digno de nota que a biotecnologia tenha suscitado a produção de obras literárias em diversas nacionalidades, sendo três delas elaboradas antes da possibilidade efetiva de clonagem ou do mapeamento do genoma. Todavia, embora a tecnologia de manipulação genética seja agenciadora de sentidos, retoma-se temas clássicos da literatura, fundados no anseio de aprimorar o corpo, de atingir a imortalidade e no receio de confrontar-se com o outro eu, o duplo biotecnológico.
Essas variáveis adensam-se na composição literária, na qual a representação simbólica da realidade faz emergir desejos e temores próprios à condição humana. Neste sentido, é que o signo da ciência e da invasão dos sistemas maquínicos insere-se na narrativa como elemento que promove a confrontação mítica do ser humano consigo mesmo e com o divino. O maravilhoso reveste-se do aspecto instrumental e tecno-científico e converge como problemática no discurso literário.
Na realidade, desde o estágio mítico, a tecnologia insere-se no imaginário coletivo por meio dos mitos. Prometeu, mito grego, narra como o titã insufla vida ao homem e lhe fornece o fogo; o Golem, mito judaico, conta a história do ser criado por meio de palavras mágicas. Estas narrativas são o foco embrionário das narrativas tecnológicas futuras.
Em decurso histórico de desenvolvimento técnico-industrial, a criação deixa de se fundamentar em operações mágicas e passa a inspirar-se no imaginário maquínico da ciência mecânica. O século XIX presencia a emergência das narrativas de autômatos que se fundam na mesma problemática mítica: a usurpação da potência divina pelo ser humano-demiurgo. Neste contexto, o conto de E.T.A. Hoffmann promove a confrontação entre o orgânico e o artificial, mesmo substrato que trafegará a problemática do ciborgue, definido por Donna J. Haraway como um organismo cibernético, no qual há a fusão entre o orgânico e o técnico.
Neste crescente de tecnificação, a última fronteira, o ser humano, é invadida pela biotecnociência, a qual promove a dessacralização definitiva da natureza humana. Os romances de Huxley, Levin, Ribeiro e Houellebecq partilham, então, do imaginário tecnológico e embebem-se do manancial mítico elaborado na literatura no decorrer dos séculos.
Assim, segundo Northrop Frye, o imaginário, enquanto fonte de produtividade psíquica, enriquece-se da qualidade esquemática e mítica da própria ciência, confirmando o que disse Jorge Luis Borges em Labyrints "a literatura não só começa como termina com um mito" 1. Aos velhos temas da humanidade agrega-se toda a imagística do progresso e da tecnologia, desmascarando a falsa querela entre mentalidade científica e imaginário.
Então, corrobora-se o que Fredric Jameson defende, em A Guinada Cultural , ao afirmar que as transformações da contemporaneidade não são somente modificações estéticas, mas também um pacote tecnológico. Com o advento da decifração do código genético e a ascensão do bioconstrutivismo, parte-se da realidade seca dos artefatos mecânicos para a realidade úmida dos artefatos biológicos.
O imaginário bioficcional alia a força das imagens à magia tecnológica, compondo um quadro de superação, em que o homem contemporâneo adquire possibilidades incomparáveis de escapar, pela imaginação de aportes científicos e técnicos, de sua "condição humana". A possibilidade biotecnológica de manipulação de corpos possui, assim, função mítica e explicativa, utópica e epifânica, científica e filosófica.
Nesse sentido, as bioficções revestem-se de um certo caráter fantástico. Esse domínio, trabalhado por Tzvetan Todorov em Introduction à la littérature fantastique , fundamenta-se na ocorrência do estranho ou do sobrenatural em um ambiente familiar. "O fantástico implica, pois, não somente a existência de um fenômeno estranho, que provoca uma hesitação no leitor e no herói, mas uma maneira de ler. 2" Dessa forma, o fantástico não dura mais que o tempo de uma hesitação, comum ao leitor e ao herói. Ao ver o narrador duvidar daquilo que ele mesmo narra, o leitor hesita e não sabe que postura adotar: acreditar ou refutar a história. O fantástico elabora-se, então, sobre um discurso ambíguo.
A bioficção, por seu turno, embora também se estabeleça no limiar entre o familiar e o sobrenatural tecnológico, não promove a indecisão. Na verdade, postula a existência do universo ficcional como real, natural e normal. A partir de premissas sobrenaturais, os fatos desencadeiam-se de maneira lógica. A ciência é utilizada como garantia de verdade dos eventos narrados, na busca de confundir o verossímil, elemento tipicamente literário, com a veracidade, elemento comprobatório em consonância com a realidade factual. O estatuto lógico assume importância fundamental na confecção discursiva que se apropria dos signos e léxico científicos, tentando legitimar o que se conta como pura verdade.
Essa estratégia discursiva tem como principal objetivo acautelar, exercendo a função mítica de orientar, de resguardar e precaver a contemporaneidade de seus avanços e retrocessos científicos. Esses romances biotecnológicos assumem a função profética que reivindica e ambiciona antecipar o futuro. Essa orientação é a que demonstra Huxley no prefácio de Admirável Mundo Novo:
" Porém o Admirável Mundo Novo é um livro sobre o futuro e sejam quais forem as qualidades artísticas e filosóficas, um livro sobre o futuro só nos pode interessar na medida em que suas profecias nos pareçam originalmente capazes de virem a realizar-se" 3
Desta maneira, Aldous Huxley pretende não somente fornecer elementos que dêem aporte à verossimilhança, mas também lançar mão de um discurso profético que desvende um futuro possível. Por meio de um pacto entre narrador e leitor, o primeiro desenvolve a narrativa de forma a apresentar uma antecipação do devir. Toda a estruturação romanesca é confeccionada sobre a plausibilidade dos eventos narrados, como um enorme teorema que se desenvolve para provar uma tese. O leitor, por sua vez, percebe o artifício do narrador, mas não se abstém da sensação de inquietante estranheza, promovida pelo insólito da clonagem e da hibridação dos seres.
Essa sensação de estranhamento foi abordada por Sigmund Freud no artigo O estranho de 1919. Neste texto, a inquietante estranheza, unheimlich em alemão, é empregada no campo da teoria estética para apontar a ocorrência de algo desconhecido e incomum.O autor elabora considerações desde a etimologia do termo unheimlich à reflexões sobre o conto fantástico de E.T.A. Hoffman, O homem de areia. A mesma estranha sensação que perpassa o texto de Hoffman, quando o personagem Nataniel apaixona-se pela boneca Olímpia, é a que assalta o leitor ao se deparar com as figuras dos clones, híbridos e transgênicos da bioficção.
As narrativas de bioficção se sustentam, então, nos anseios e nos temores referentes à expansão da tecnologia como força transformadora de paradigmas, em que há a possibilidade de se empreender desde a modificação parcial da espécie, como ocorre em O sorriso do Lagarto, até a extinção total da raça humana, como em Partículas Elementares . A convivência de duas raças também proporciona a sensação de estranheza. Em Os meninos do Brasil, as noventa e quatro cópias genéticas de Hitler, distribuídas pelo mundo, são o mote da sensação de unheimlich . Por sua vez, a replicação infinita de Admirável Mundo Novo faz como que o personagem John sinta-se apavorado em meio a um grupo de cento e sessenta e dois indivíduos idênticos:
"...reconheceu com uma desalentadora sensação de horror e repugnância, o delírio incessantemente renovado de seus dias e noites, o pesadelo da pululante mesmice indistinguível. Gêmeos, gêmeos, gêmeos (...) 'Como há aqui seres encantadores!' As palavras cantantes vergastaram-no com seu sarcasmo. 'Como é bela a humanidade! Oh! Admirável Mundo Novo!" 4
O mesmo horror e repugnância que acometem o personagem John também assaltam o leitor. As bioficções promovem essa sensação por meio de uma estruturação discursiva que, fundada no léxico científico, promete fornecer a pura verdade, mas a excede, de tal maneira que aumenta, multiplica e perpetua o estranhamento.
O estranho, para Freud, relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador. Assustador precisamente porque não é conhecido e tampouco familiar. Por isso, a ficcionalização da transgressão da ordem natural da vida provoca a sensação de deslocamento do terreno do sólido e do corriqueiro ao ambiente móvel e incomum das novas biotecnologias. Desse modo, promove-se uma travessia simbólica em que a transposição das margens do humano ao pós-humano é o exercício da perplexidade que assoma nas narrativas.
Assim, as mazelas provocadas pela fé inabalável no progresso científico tipificam o mito do destino humano, em que a situação social problemática, apresentada nas bioficções, aponta para o fim da espécie humana. A afirmação de Butor de que a ficção científica representa a forma normal de mitologia de nossa era, assume toda sua significação no estudo temático da bioficção.
A literatura do pós-humano emerge, então, com a poetização da tecnologia e de seus aspectos dissonantes, como oposição ao cientificismo alienado que pretende transformar o homem em um paradigma tecnológico. Por isso, quando os signos da ciência e do progresso ressoam como elementos condutores do futuro humano, a literatura apresenta-se como força de resistência. A bioficção estabelece-se como o reduto de problematização da vida humana no contexto de fetichização da ciência, suscitando o questionamento acerca do estatuto do ser humano frente à dissolução dos paradigmas referentes ao corpo, à morte, à sexualidade, à subjetividade e à própria humanidade.
Neste contexto, é interessante observar o que afirma Blanchot em A conversa infinita- a palavra plural :
"Os Deuses e Deus nos ajudaram antigamente a não pertencer à terra onde tudo desaparece e, com olhar fixado sobre o imperceptível que é o supraterrestre, a organizar, entretanto esta terra como residência. Hoje, quando os deuses faltam, nós, cada vez mais, nos desviamos da presença passageira de nos afirmar num universo construído à medida do nosso saber e livre deste acaso que nos dá sempre medo, porque ele esconde a obscura questão." 5
Em um mundo em que os deuses faltam e a ciência assume o estatuto de valor transcendente, o temor, derivado do poder criador e transformador de Deus, desliza para o medo de que a ciência furte o simbolismo da criação mítica e o esvazie em um tecnologismo narcisista. Assim, depois de transposto o portal que separa a realidade dos artefatos mecânicos da realidade úmida da biogenética, resta à bioficção uma inquietante estranheza e o prenúncio de uma era pós-humana.
Apud FRYE, Northrop. O caminho crítico . São Paulo: Editora Perspectiva, 1973, p.168.
Tradução própria do texto : « Le fantastique implique donc non seulement l´existence d´un événement étrange, qui provoque une hésistation chez le lecteur et le héros, mais aussi une manière de lire » TODOROV, Tzvetan. Introduction à la littérature fantastique . France : Édition de Seuil, 1970, p. 37.
HUXLEY, Aldous Leonard. Admirável Mundo Novo . São Paulo: Abril Cultural, 1981, p.14.
HUXLEY, Aldous Leonard. Admirável Mundo Novo . São Paulo: Abril Cultural, 1981, p.254.
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita- a palavra plural . Tradução de Aurélio Guerra Neto. São Paulo: Escuta, 2001, p.74.
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