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Em defesa de Dickens contra seus admiradores
Daniel Puglia (USP)

Infelizmente a obra de Charles Dickens ainda tem algo a nos dizer. Isso pode soar como provocação, quando em verdade deveria ser motivo de lamento. Uma vez que tal relevância, se estivermos corretos, procede do potencial de revelação da forma literária a que determinada configuração histórica deu ensejo, somos incentivados a abordar sua obra como historiografia inconsciente e a perceber nela, no modo como responde ao processo social, índices de algo que está para além da sua fatura. Consumação de tendências e categorias gestadas em séculos anteriores e adquirindo uma particular constelação no século dezenove, a arena de conflito e antagonismo social – cuja matriz o texto dickensiano reverbera – acarreta conseqüências até os dias de hoje. Nesse sentido, nos princípios deste século e no país que ainda nos cabe, nosso caminho de apreciação crítica é forçosamente sugerido pelo recrudescimento em nível mundial das iniqüidades sistêmicas, pelo aprofundamento dos véus retóricos redivivos e pela conseqüente desesperança mais ou menos latente, mas até certo ponto manifesta, não por acaso, em soluções pontuais e efêmeras sob a égide do coração.

Talvez pouco à vontade na ordem do dia e na boa etiqueta dos balcões de negociação das modas literárias, talvez até mesmo anacronicamente reducionista, tendenciosamente pouco afeito a dimensões mais elevadas do Ser e do apuro estético, esse caminho crítico é, contudo, modestamente determinado pelas possibilidades materiais de nossa época. Aos eventuais leitores dos romances de Dickens caberá a tarefa de julgar a pertinência ou não do esforço em decifrar como a sociedade atua na obra, como as fissuras desta revelam índices históricos significativos e, finalmente, como já ali estavam presentes disposições do que efetivamente vivemos hoje. Seja como for, lembremos apenas que perceptivelmente não estamos no melhor dos mundos e, portanto, a obra de Dickens ainda merece outros usos que não apenas o de peça de ideologia.

O romancista inglês ocuparia, segundo alguns, uma posição se não única ao menos extremamente particular entre aqueles que formam o vistoso e louvado cânone dos autores que tiveram e têm a sorte de escrever em inglês, uma língua economicamente respeitável e politicamente relevante: Dickens permaneceria, para deleite da crítica especializada, como um item que desperta interesse tanto da pesquisa acadêmica como da cultura popular. Não por acaso seus admiradores gostam de descrevê-lo algumas vezes como o “Shakespeare dos romances”, o que seria uma suposta homenagem à sua capacidade de atrair a atenção dos eruditos e da escumalha inculta. A amplitude de penetração de sua obra e o apelo de sua arte no mundo de fala inglesa poderiam, assim, ser medidos não apenas pela presença constante nas listas de leituras escolares e em cursos universitários, mas também pela freqüência com que seus romances continuam a ser adaptados para teatro, televisão e cinema.

Na Inglaterra, onde sua imagem apareceu em selos postais e na nota de 10 libras, Dickens se tornou um marco da cultura nacional, uma mercadoria disponível para exportação assim como para circulação interna. Tais informações são reconhecidas pelos comentadores em registro solene e condescendente, como que para neutralizar indícios reveladores, a saber, a desagradável constatação de que o totem impoluto e pudico da cultura é estampado e passa de mão em mão, repetindo materialmente a impureza e a promessa representada pelo papel-moeda, o caráter a um só tempo real e ilusório da mercadoria, bem como reproduzindo seu poder de imagem condensada de manifestação do capital. Para além disso, talvez não seja redundante sublinhar a carga de energia psíquica nacional envolvida nesses processos de circulação da mercadoria e, portanto, seu potencial de evocação e afirmação ideológica. Com referência aos Estados Unidos, alguns especialistas escrevem que A Christmas Carol , o mais famoso dos contos natalinos de Dickens, teria atingido virtualmente uma posição mítica no imaginário local. Exageros e desejos de supervalorização das grifes culturais à parte, não deixa de ser interessante a menção feita ao sem-número de paródias, adaptações e representações anuais baseadas no original do escritor inglês. Para nosso propósito, fiquemos apenas com um episódio, infelizmente não mencionado pelos admiradores, decerto por desatenção: em fins da década de oitenta, enquanto o presidente de uma grande montadora de automóveis lia sua mensagem de natal para um auditório de acionistas em Nova Iorque, dezenas de famílias eram retiradas de suas casas na cidade de Flint, antiga sede da empresa. A montadora decidira fechar sua fábrica e transferir as atividades para locais com custos de mão-de-obra menores. Sem o apoio da indústria automobilística, a atividade econômica na região fora reduzida de modo drástico e, como conseqüência expressa pelo jargão econômico, não só os antigos funcionários como também os trabalhadores em toda a cadeia produtiva ficaram impossibilitados de honrar seus compromissos financeiros relativos a moradia, saúde e alimentação. Ações de despejo, alta nos índices de criminalidade e até uma patética visita de Ronald Reagan compuseram o triste cenário ao qual foi lançada a cidade.

Mas o que tudo isso teria a ver com a obra de Dickens? Nada ou quase nada, se estivermos apenas interessados em literatura, e só nela. Se, no entanto, lembrarmos que o discurso do presidente da montadora estava recheado de citações natalinas de Dickens, citações estas que falavam da solidariedade, da compaixão, contra a indiferença e contra o desrespeito, e ao mesmo tempo recordarmos o desespero das famílias que naquele instante eram desalojadas, veremos que a nota hipócrita em nada obscurece a violência das correlações, que existem e são nítidas. Ocorre que, vivendo sob o império do pensamento único, nossa perspectiva de análise sofre o risco do embaralhamento típico das épocas regressivas e, como conseqüência, o estabelecimento de tais conexões pode parecer disparatado, principalmente se, com olhos conformistas, não quisermos divisar que o mundo dos interesses e o das representações estão interrelacionados e são interdependentes .

Embora tenha acontecido há pouco mais de quinze anos, a sinistra combinação de anúncio oficial de lucros globais, demissões na antiga matriz e uma mensagem de natal baseada em Dickens pode, se estivermos corretos, iluminar aspectos tristemente atuais tanto para a literatura quanto para a sociedade. Nossa digressão, é certo, talvez pareça descabida e exagerada aos leitores interessados em literatura, e só nela. Lembremos apenas que antes de derramar uma lágrima de comoção estética, seria um saudável exercício, até mesmo para a mais afinada das sensibilidades, perceber os sofrimentos da vida real. Afinal, talvez seja possível aos adoradores da arte como instância redentora da essência humana perceber, quem sabe, as correspondências entre a estrutura social e a elaboração artística e, num gesto magnânimo e benevolente, abdicar de seu ato de violência para com a arte. Tarefa difícil, uma vez que, como sabemos, desejam em verdade eliminar o objeto de sua defesa, seja esse objeto a arte, seja a vida.

É nesse sentido que os leitores interessados em literatura, e só nela, eventualmente poderão sentir diminuído seu capital cultural, pois muito já se investiu em Dickens, tanto em curto prazo quanto em longo prazo, com eventuais oscilações inerentes à lógica da suposta mão invisível que guia a arte e, no geral, o retorno das quantias aplicadas nunca apresentou grandes possibilidades de risco, ou seja, os investidores de perfil conservador sempre puderam contar com a segurança de um autor sólido quanto aos fundamentos da respeitabilidade no mercado literário, bem como com ganhos medianamente ininterruptos no volátil fluxo das transações de convenções estéticas e reputações artísticas.

Dito isso, o rebaixamento de sua obra ao nível das condicionantes históricas de sua produção pode significar o correlato rebaixamento de sua cotação na bolsa de valores culturais, o que não é pouco para o leitor apenas interessado em literatura, e somente nela. Vale lembrar, por outro lado, que os eternos formalismos da arte que se quer autônoma, respeitado o vaivém temporal do a propósito de suas manifestações, são hábeis em reciclar o já requentado biscoito fino de sua própria importância. Nessa construção nada ingênua e pouquíssimo desinteressada ressurge, então, a defesa contumaz da elaboração, da escolha, da seleção e do comedimento no artefato que deve ser a pura obra de arte. Infelizmente, por esses padrões, Dickens mostra passos demasiado trôpegos para os amantes do Belo artístico, ou seja, torna-se um produto com inegável margem de lucro mas, ao mesmo tempo, uma mercadoria de aura esvaecida.

Entretanto, para alívio estético e satisfação filistina, volta e meia se processa um outro fenômeno: sem nunca terem propriamente saído de cena, os arremedos de melodrama e os simulacros de sentimentalismo, assim como os apelos à compaixão, ressurgem travestidos com roupagem readaptada, de suposta ousadia formal e auto-aclamada pirotecnia estilística. Evidentemente o aspecto final do figurino dá a conhecer o pouco-à-vontade do conjunto, revelando a despeito de si mesmo propriedades de fundo regressivo e conservador. O esforço inconfessável é o de manutenção da ordem vigente, aliando reformismo e acomodação. Sendo assim, a reboque desse fenômeno e num processo que varia da completa alienação crítica até a má intenção propositada, os admiradores de Dickens perdoam o que julgam ser imperfeições em prol de uma causa maior: a capacidade de lidar com diagnósticos pertinentes oferecendo resoluções palatáveis. Dito de outra forma, espertamente reconhecem a conveniência de escrever com a mão esquerda o que a mão direita não tarda em apagar.

Se entendermos, contudo, a obra de Dickens nessa chave reacionária e conservadora, teremos compreendido pouco e mal. Alguns comentadores têm valorizado o que chamam de “não somente o lado documental e jornalístico” de seu trabalho, mas as próprias qualidades do excesso – caudalosos enredos melodramáticos, personagens excêntricos e extravagância verbal – que críticos anteriores costumavam identificar como fraqueza artística. A valorização acontece, porém, no fértil mercado dos tratamentos cosméticos da obra considerada apenas como fetiche, estimando os romances na medida em que forneceriam um fértil campo de testes para novas teorias e metodologias. Todavia, ao examinarnos a variedade dos recursos oferecidos por Dickens e uma vez dominado nosso apetite pelas vantagens e oportunidades que a degustação cultural nos oferece, podemos perceber formalizações estéticas e princípios generalizadores de real interesse. Fosse apenas um fenômeno restrito aos clubes das teorias tradicionais e a suas agremiações mais ou menos partidárias das novas modas e correntes críticas, o resultado ainda seria prejudical porém menos incômodo. Infelizmente – talvez até como efeito colateral da deturpação levada a cabo pelas inúmeras abordagens resignadas que se alastraram no universo da crítica inglesa, tendo como conseqüência o surgimento tardio de estudos relevantes – infelizmente, assim, uma certa imagem de Dickens como o escritor humorista, preocupado em oferecer entretenimento e pacificado porta-voz de uma classe, parece ter contaminado mesmo exames não conformistas, diagnósticos os mais argutos e interpretações filosoficamente as mais responsáveis.

Não se trata, evidentemente, de fazer uma defesa pura e simples da obra de Dickens, uma vez que ela se presta, num determinado nível, a tais leituras, fomentando imprecisões e desvios interpretativos. Nem muito menos advogar uma pretensa superioridade dela em relação a seus críticos, superioridade esta cuja dimensão acaso escapasse até aos mais astuciosos comentadores. Isso posto, vê-se que estamos no campo do reconhecimento de que a história cobra suas dívidas, ou seja, o enfoque de nossas perguntas ao passado é determinado por nossa vivência presente.

Ao tempo de sua escrita e durante o quase um século de recepção até que os primeiros estudos relevantes surgissem, a obra dickensiana teve de conviver com um sistema cuja gênese e desenvolvimento mostravam múltiplos entroncamentos, com possíveis ramificações à esquerda e à direita, na falsa imagem que o viés econômico conservador gosta de emprestar ao capitalismo: a de árvore frondosa com crescimento robusto. Entretanto, nos dias de hoje, todos somos mais ou menos forçados a experimentar goela abaixo o fruto proibido da forma mercadoria. O problema é que a planta não possuía raízes tão profundas, nem os galhos eram tão sólidos, e as ramificações e os entroncamentos, em perspectiva histórica, delinearam a erva daninha que já carregavam em semente. E já podemos perceber que ervas daninhas não sustentam durante muito tempo frutos pesados como a mercadoria, ou seja, os desequilíbrios e as compensações têm de ser arrancados a custos cada vez maiores. Se os que estamos no meio desse fogo-cruzado não conseguirmos identificar as conexões entre produtos culturais, desequilíbrios sistêmicos e responsabilidade crítica, cumpre renunciar a qualquer tentativa de resistência. Descontado o ligeiro fora de propósito da analogia biológica, aliás também ela determinada historicamente, cabe a ressalva: em nossos dias não é possível a aproximação da obra vista como inofensivo documento de cultura. Como tais documentos de inofensivos não têm quase nada, é necessário não menosprezar quaisquer indícios, marcas ou nódoas da realidade que eles dialeticamente mimetizam.

Sabemos que reconhecer a dialética da forma literária e processo social “[t]rata-se de uma palavra de ordem fácil de lançar e difícil de cumprir” . Por outro lado, quando a reflexão acontece somente no nível da literatura, corre o risco de não ser relevante nem mesmo sob um ponto de vista estritamente literário, o que, aliás, não deve ser motivo de preocupação para os que dizem estar apenas interessados em literatura, sobretudo se lembrarmos que eles têm, de fato, outros interesses. Algo reducionista, repetitivo e desatualizado como o desejo de liberdade seria, em sua visão amodernada, apenas um recurso passadista e retórico dos que teimam em dizer sempre as mesmas coisas.

Estaríamos num mundo mais confortável se, por acaso, a obra de Dickens mostrasse apenas e tão-somente aspectos residuais do que seria passível supor como fase já superada do capitalismo, o que em muitas frentes de revelação e em várias de suas características intrínsecas de fato ocorre. No entanto, com o reordenamento dos aspectos hegemônicos a que agora estamos expostos, existe a alternativa de que os ditos aspectos residuais não sirvam apenas de museu para enriquecimento erudito, mas para o diagnóstico de formas emergentes às quais não estamos completamente despertos.

A força e atualidade da obra de Dickens, nesse sentido, estariam em trazer em ponto renovado e compasso atualizado discussões esquecidas, posto que em certa medida anacrônicas, porém reveladoras, uma vez que nossos progressos podem ser um atraso. Em suma, o ovo da serpente pode insinuar uma incômoda advertência e sugerir um traço de esperança.

 

A expressão está em Roberto Schwarz, “Anatol Rosenfeld, um intelectual estrangeiro”. In: O pai de família e outros estudos. Paz e Terra: São Paulo, 1992, p.108.

SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem'”. In: Que horas são?. Companhia das Letras: São Paulo, 1987, p. 129.