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A travessia transatlântica das gravuras da revista alemã Die Modenwelt para a revista brasileira A estação
Ana Cláudia Suriani da Silva (Universidade de Oxford)

A presente comunicação dá continuidade ao meu projeto de pesquisa sobre a história da revista brasileira A estação , publicada pela Tipografia Lombaerts, no Rio de Janeiro, de 1879 a 1904. No Segundo Congresso da História do Livro e da Leitura no Brasil , realizado na Unicamp em julho de 2003, tratei da filiação de A estação à revista Die Modenwelt , da editora Lipperheide de Berlim . Naquele momento concentrei-me na questão mais global do funcionamento dessa empresa que, criando um formato padrão para a publicação de revistas de modas e filiando-se a editores em países diferentes, fazia circular o mesmo periódico em treze línguas diferentes: em alemão, inglês, holandês, dinamarquês, sueco, francês, italiano, espanhol, português, russo, polonês, checo e úngaro.

Hoje tratarei de um questão mais específica: das xilogravuras artísticas originalmente publicadas no periódico alemão e reproduzidas na parte literária de A estação . A revista em que Machado publicou Quincas Borba, Casa velha e alguns dos seus melhores contos era ao mesmo tempo um periódico de modas, de literatura e de belas artes, sendo esta última faceta a menos conhecida de A estação . Acredito, no entanto, que o estudo de suas xilogravuras não seja menos importante do que o estudo dos artigos de fundo, dos figurinos de moda e dos textos literários, se o nosso objetivo é a determinação da inclinação ideológica da revista. Isto porque a incorporação desse material artístico estrangeiro transportou para a revista brasileira a mesma inclinação ideológica da revista alemã: uma certa admiração pela vida aristocrática, pelos assuntos relativos a membros de realezas ou de impérios espalhados pelo mundo.

Concentro-me no levantamento das ilustrações publicadas no período em que a primeira versão de Quincas Borba foi serializada: entre os anos de 1886 e 1891. Quincas Borba foi publicado mais precisamente entre 15 de junho de 1886 e 15 de setembro de 1891 na parte literária da revista A estação . Este corte se justifica porque o meu interesse mais amplo (e que foge aos objetivos desta comunicação) está em compreender o ajuste entre a temática de Quincas Borba e os valores culturais veiculados pela revista, o que faz surtir ironia do romance. Mas por ora deixemos de lado a ironia e a complexidade das relações intertextuais, porque o objetivo desta comunicação é o exame da natureza de A estação e do seu conceito editorial subjacente.

Na verdade, A estação seguia de muito próximo o conceito editorial da matriz alemã, das revistas Die Modenwelt e Die Illustrirte Frauen-Zeitung, da editora Lipperheide. Nesses dois periódicos irmãos, encontramos a fórmula utilizada por Lombaerts de conjugar uma revista de modas, de público predominantemente feminino, a um periódico literário e de belas artes, direcionado para toda família, como o nome completo da publicação brasileira já antecipava: A estação. Jornal ilustrado para a família .

Em primeiro lugar, vejamos então como Die Modenwelt , que at é 1873 era um periódico estritamente de modas, transformou-se em uma revista também de literatura e belas artes.

Die Modenwelt foi fundada em outubro de 1865 com o objetivo de ensinar às donas-de-casas como fabricar vestimentas para toda a família, bordar e decorar suas casas. Na verdade, Lipperheide havia concebido sua revista isenta de conteúdo literário, para baratear o custo da produção e diferenciá-la dos demais periódicos de moda que circulavam na Alemanha antes de 1865, como o Bazar , o Allgemeine Musterzeitung, e o Hamburger Zeitschriften Jahrzeiten. Entretanto, em 1874, Lipperheide lançou uma edição ampliada de Die Modenwelt , com o t ítulo Die Illustrirte Frauen-Zeitung , que era composta pelo mesmo conteúdo de moda, além de uma parte literária e ilustrada, entitulada “Ausgabe der Modenwelt mit Unterhaltungsblatt” . A matéria de abertura era geralmente o fascículo de uma história seriada, o qual, por si só, já era um instrumento garantido de vendagem. Depois vinham as rubricas “O mundo feminino”, “Novos trabalhos manuais”, “A moda”, “Decoração”, “Novidades da Literatura”, “Economia do Lar” e “Correspondência”.

Além dessas rubricas de interesse específico para o público feminino, Die Illustrirte Frauen-Zeitung trazia muitas ilustrações, que não se restringiam à moda, à mobília ou aos elementos de decoração em geral. Acompanhadas de uma longa legenda explanatória, essas imagens traziam material mais diverso para o cerne de um publicação essencialmente feminina. Elas parecem na verdade ter desempenhado papel importante para o sucesso da revista, assim como também é verdade que todo aumento no número de ilustrações era um indício de que a revista prosperava.

Die Illustrirte Frauen-Zeitung estampava uma grande variedade de temas, trazendo para dentro da revista as belas artes: retratos, monumentos, paisagens, costumes ou cenas da vida em família ou no campo, nos portos, nos centros movimentados das cidades. Encontramos reproduções de quadros de Franz Skarbina, Friedrich Kallmorgen, Ewald Thiel, Richard Knötel e Adolph Menzel. Encontramos também partituras: como o Minuete Louis XV para piano, acompanhado de ilustrações explanatórias dos passos da dança ( Illustrirte Frauen-Zeitung , 01.01.1886).

No meio dessa variedade, uma tema emerge repetitivamente das páginas dessa revista do século XIX: a grande admiração pela vida aristocrática, pelos assuntos relativos a membros da realeza ou do Império, independente do brasão. Nesse aspecto Die Illustrirte Frauen-Zeitung foi uma precursora de revistas, se me permitem a comparação, como a britânica Hello! ( ¡Hola! em espanhol), na qual os xilogravadores e cronistas faziam as vezes dos paparazzi e dos jornalistas de plantão. Os volumosos números de 1886 e 1887, por exemplo, com dezesseis páginas cada, trazem sistematicamente um retrato na capa: a reprodução em xilogravura do busto de uma personalidade artística ou, mais freqüentemente, de membros da aristrocacia, de famílias reais ou imperadores espalhados pelo mundo. Entre os membros da realeza e imperadores, encontramos o rei Guilherme I da Prússia e sua família; a grã-duquesa Elisabeth von Mecklenburg-Streilitz; a princesa Stephanie da Áustria e sua filha, a arquiduquesa Elisabeth; e inclusive a princesa Isabel do Brasil. Por sua vez, as gravuras internas da revista podiam ainda reproduzir objetos, palácios, salões, cenas edificantes ou exóticas ligados seja a impérios contemporâneos ou da antigüidade; ou podiam ainda ilustrar expedições européias de expansão, por exemplo, pelo continente africano. Entre as gravuras internas encontramos ainda mais retratos de figuras imperiais, como o da imperatriz do Japão Haru-ko, vestida em costumes europeus. Há inclusive uma fotografia da família real brasileira, no número de 02.02.1890, ou seja, alguns meses depois da Proclamação da República. Esta fotografia é muito provavelmente uma versão da foto que, segundo Lilia Moritz Schwarz, “ficou celebrizada como a última imagem da família no Brasil”.

O resultado dessa combinação entre caderno de modas, parte literária e ilustrada na mesma revista proporcionava à leitora o conhecimento necessário para se instruir e cuidar da família, valorizando ao mesmo tempo os costumes aristocráticos, o cultivo da alta-cultura e a arte de se vestir bem . Assim Die Modenwelt deixava de ser um publicação para atender estritamente às necessidades domésticas das donas de casa principalmente da classe média, para se transformar numa revista mais variada, que a toda quinzena proporcionava leitura recreativa e útil para um público que não era necessariamente somente feminino.

Lipperheide diversificou o conteúdo da revista Die Modenwelt, porque intencionava transformá-la em um periódico destidanado a toda família. Acredito que Lipperheide estava assim seguindo a trilha de Die Gartenlaube (1853- 1943) , o periódico da família alemã mais popular durante toda a segunda metade do século XIX. Segundo Ernest K. Bramsted, Die Gartenlaube (1853-1943) foi o jornal mais representativo e amplamente divuldado da burguesia liberal alemã entre 1850 e 1900. Die Gartenlaube foi concebida dentro do contexto de desapontamento e despolitização que decorreu da Revolução de 1848/1849. Ernst Keil, seu fundador, transformou-o rapidamente num periódico de grande sucesso entre a classe-média. Keil optou pelo tamanho in-quarto para fornecer mais espaço para as matérias e criou o formato clássico do jornal de família alemã durante o século XIX, a qual certamente também foi imitado por Lipperheide ao criar Die Illustrirte Frauen-Zeitung: a combinação entre texto e imagem para produzir um jornal ao mesmo tempo instrutivo e de entretenimento. O conteúdo de Die Gartenlaube , Bramsted escreve, “taken as whole, reflects characteristicaly the intellectual and political changes within this class”, no período compreendido pelos anos de 1866 e 1880. Examinando e comparando o conteúdo dos volumes de 1866 (ano da Guerra Civil alemã), 1871 (ano da unificação da Alemanha), e 1887 (ano do nonagésimo aniversário de William I), Bramsted constata que a consciência de classe (a atitude liberal, o fevor do esclarecimento e o orgulho burguês) se ajustou progressivamente ao sentimento nacional, uma vez que a classe-média passou a se identificar com a vitoriosa camada governante. No volume de 1871, “the old democratic burgher pride was still alive, but an ajustment to the victorious Prussian monarchy and to the new prestige of the feudal stratum was found to be absolutely necessary if the sales of the periodical within a bourgeoisie fast becoming nationalist were to be maintained”. O volume de 1888, por sua vez, “reflects with astonishing clarity how large sections of the middle-class have accepted their due place within the social order of the imperialistic Reich.”

Talvez não seja por acaso que em Die Illustrirte Fraun-Zeitung uma grande quantidade de gravuras enalteça a instituição imperial. Lembremos que essa revista foi criada em 1874, ou seja, apenas alguns anos após a unificação da Alemanha (1871). Tanto a revista de Lipperheide quanto a de Ernest Keil refletiam a inclinação do seu público ao novo sistema vigente: o Segundo Reinado alemão. Mas é preciso fazer aqui uma ressalva e destacar uma diferença importante entre Die Gartenlaube e Die Modenwelt . Ao contrário de Die Gartenlaube , a revista de Lipperheide estava longe de ser abertamente nacionalista. O afastamento de Lipperheide das disputas religiosas e políticas fica expresso em mais de uma ocasião, por exemplo, no editorial de 06.03.1887.

Na verdade, desde sua fundação, a editora Lipperheide tinha grande interesse em livrar a imagem do seu periódico de uma orientação nacional estreita, porque Die Modenwelt defendia uma moda internacional de orientação francesa e circulava em vários países. Entre os países fronteiriços, Die Modenwelt circulou inclusive na França e á ustria, países com os quais a Alemanha, por questões político-territoriais, entrou em conflito na segunda metade do século XIX. Die Illustrirte Fraeun-Zeitung era antes uma revista que tomava a instituição imperial e o glamour da vida aristocrática como valores universais. Qualquer figura relacionada a reinados, monarquias ou impérios espalhados pelo mundo poderia vir a ser assunto na revista, mesmo pertencendo a países do oriente, como o Japão. Lipperheide se mantinha distante das questões nacionalistas efervecentes na Europa, por razões comerciais, o que talvez não impedia que sua revista (da mesma maneira que Die Gartenlaube) agisse, nos limites da Alemanha, como um instrumento eficiente de integração da família burguesa ao novo sistema político regente.

Já é tempo agora de tratarmos da travessia das imagens de Hamburgo para o Rio de Janeiro e da passagem da inclinação ideológica da revista alemã para a brasileira A estação . Mas primeiro faz-se necessário uma breve comparação entre os suplementos literários das revistas associadas a Die Modenwelt que pude consultar, para podermos melhor compreender a especificidade de A estação .

Até o final da década de 1880, o modelo jornalístico de Die Modenwelt, suas ilustrações e editorial de moda eram reproduzidos em 13 línguas diferentes. Nem por isso, no entanto, as diferentes edições de Die Modenwelt eram exatamente iguais. As variações entre as revistas são maiores nos suplementos literários, os quais eram em todos os casos produzidos e impressos no país de circulação. Entre as diversas edições estrangeiras de Die Modenwelt que pude consultar, apenas La stagione não possuía um suplemento literário. Pude então comparar o suplemento literário de A estação com o de Die Modenwelt , La saison e La estación . Consultei ainda o periódico inglês The Young Ladies' Journal, listado no frontispício da revista Die Modenwelt e que por isso seu editor, Harisson, devia manter relações comerciais com Lipperheide . The Young Ladies' Journal também proporcionava moda, trabalhos de agulha e literatura aos seus assinantes, mas mantinha um formato independente do restante das edições afiliadas a Die Modenwelt .

Da comparação do conteúdo literário e das ilustrações desses diferentes suplementos literários pude perceber que Lombaerts foi o único editor que reforçou a ligação com a Alemanha, através da importação de material artístico também para essa parte da revista. Os suplementos literários de La saison e La estación , nos anos consultados, não apresentam ilustrações. E The Young Ladies' Journal contém gravuras produzidas na Inglaterra para ilustrar os fascículos dos romances populares de publicação hebdomedária.

Eu levanto a hipótese que a inclusão de gravuras artísticas e de alta literatura em seu periódico é um indício de que Lombaerts era mais ambiocioso em relação ao público que queria alcançar, para inclusive adequar sua publicação às limitações do mercado editorial brasileiro. A revista A estação atraía naturalmente as mulheres casadas pertencentes à classe comercial ascendente, da qual a personagem Sofia, do romance Quincas Borba , talvez seja o melhor exemplo literário. Para essas damas, a ostentação de beleza, cultura e estilo representavam os sinais exteriores de prosperidade econômica. Por sua vez, para as jovens solteiras em busca de um casamento acima do seu nível social, a ostentação desses sinais exteriores de prosperidade era muitas vezes o caminho mais curto para a ascensão social. Tanto as mulheres casadas quanto as solteiras não somente tinham que dominar o francês e saber tocar piano, mas também tinham que se apresentar em sociedade de acordo com a última moda francesa.

Os assinantes de A estação (e, por conseguinte, leitores da primeira versão de Quincas Borba ) estavam lendo um periódico cuja qualidade aspiratória incutia o desejo de ascensão social. Isso porque A estação promovia o sentimento aristocrático da classe dominate européia, através não só do cultivo da alta cultura e do modo de vida dos círculos aristocráticos europeus, mas também, como na revista matriz, através da exaltação de instituições e membros da realeza de vários países.

Uma vez que A estação buscava legitimação identificando-se com a cultura tradicional e aristocrática européia, a revista estava promovendo e reforçando os valores culturais prezados pela própria elite carioca. Assim Lombaerts tinha em vista não só os setores médios, mas também a classe abastada do final do Império e dos primeiros anos da República Velha. Para os setores médios, A estação alimentava as aspirações de ascenção social ao patamar da elite. Para os membros da elite, A estação expressava a fantasia de identificação cultural com a Europa.

Numa nota bibliográfica a respeito do romance A família Medeiros , de Júlia de Lopes de Almeida, percebemos que, de fato, A estação tomava como modelo as famílias mais distintas da sociedade fluminense. Valentim Magalhães, o autor da nota, deixa claro o público que a revista idealiza. Temos a impressão de que ele não se dirige necessariamente às leitoras da roda da elite, mas antes àquelas que, mesmo não pertencendo a esse grupo privilegiado, a ele tem acesso, como Sofia, personagem de Quincas Borba. Sofia passou a ter acesso a high life carioca com a criação da Comissão de Alagoas, uma entidade de natureza filantrópica cujo objetivo principal era impulsionar a projeção social de sua fundadora. Dessa nota também subentedemos que a fortuna adquirida ou a aristocracia de berço não são os únicos meios de obter distinção social. A distinção social se nota também pela elegância e educação, estas sim possíveis de serem adquiridas com o aprendizado e a prática:

 

Suas excelências contam, bem sei, entres as suas relações as famílias mais distintas da sociedade fluminense, quer pela educação, quer pela elegância, quer pela fortuna. Não quis acrescentar pela aristocracia, porque tal distinção não se compadece com o igualitarismo do regime democrático que felizmente nos rege.

Mas podia fazê-lo, tomando o desterrado vocábulo na accepção de nata ou escól social.

Acostumadas, assim, ao trato com essas famílias que povoam os bairros caros e fazem a fortuna dos empresários de ópera lírica, porque delas fazem parte, venho, como procurador oficioso de D. Júlia Lopes de Almeida, pedir-lhes a gentileza de se relacionarem com a família Medeiros.

Oh! não a procurem por Botafogo ou Laranjeiras.

Seria inútil: essa família é paulista e mora no interior do própero e rico estado de S. Paulo. ( A estação , 31.03.1893)

 

A publicação de xilogravuras artísticas européias em A Estação foi noticiada já nos primeiros números da revista. No edital de 31.03.1879, Lombaerts anuncia que “o suplemento literário do nosso jornal, deste número em diante, sairá também ilustrado, trazendo gravuras de atualidade ou sobre belas-artes, sempre escolhidas entre as obras primas dos abridores em madeira de França, Inglaterra, ou Alemanha.”

Podemos afirmar com toda certeza que as ilustrações provinham predominantemente da revista alemã. Pelo menos durante os anos da publicação de Quincas Borba , em quase todo número de A estação encontramos quadros artísticos ou retratos de personalidades aritocráticas e de figuras imperiais publicados originalmente na Illustrirte Frauen-Zeitung. Localizei apenas um número da revista cujas ilustrações provinham de um outro periódico. Esse é o caso dos desenhos do “Passe Pied de la Reine”, extraídos do jornal pariesiense L'illustration , como nos informam os editores, e publicados no número de 15.11.1890 de A estação . Além do mais, muito raramente as xilogravuras exibidas na revista eram produzidas por artistas locais. Na ocasião da publicação do quadro de Madame Lebrun e sua filha, talhado por xilogravadores brasileiros, os editores não deixaram esse fato passar despercebido. Transcrevo abaixo o trecho da nota que não está ilegível:

 

e muito nos alegramos em poder apresentar às leitoras da Estação uma obra prima de uma mulher, reproduzida talentosamente por gravadores brasileiros. Oxalá possa essa prova do que se pode fazer entre nós [sic] demonstrar que a xilogravura no Brasil não está tão atrasada como geralmente se supõe. ( A estação , 16.03.1886)

 

Não sabemos exatamente que técnica Lombaerts utilizava para reproduzir as gravuras. Lombaerts as reproduzia muito provavelmente a partir de uma matriz em metal enviada ao editor brasileiro pela própria editora Lipperheide, de Berlim. É o que nos indica algumas notas publicadas na revista para justificar o atraso na distribuição do periódico em algumas ocasiões. No número de 15.03.1880, por exemplo, a impressão teve que ser adiada devido a uma mudança no cronograma dos vapores transatlânticos. Os editores se referem especificamente aos elementos artísticos do jornal, que eram transportados até a corte por via marítima.

 

Os últimos números do jornal têm sido distribuídos com alguns dias de atraso, que foram causados por circunstâncias fora do nosso alcance. O inverno rigoroso na Europa e as quarentenas no Sul alteraram o cronograma dos vapores que trazem os elementos artísticos do jornal.

 

O que é mais interessante nessa nota é a constatação de que Lombaerts dependia de matéria importada para a composição, não só do cadernos de moda mas também da parte literária do seu periódico. O caso mais emblemático talvez seja o naufrágio de vapor Buenos Aires. Do naufrágio salvou-se a tripulação, como Artur Azevedo noticia em sua Croniqueta de 15.08.1890, mas não as mercadorias que o vapor transportava. Entre elas encontrava-se a matriz de um número inteiro do caderno de modas de A estação, como podemos concluir da seguinte nota: “Com o presente número distribuimos a parte de modas do numero de 31 de julho próximo passado, cuja entraga teve de ser adiada em consequência do naufrágio do vapor Buenos Aires” ( A Estação , 15.09.1890). Talvez também tenham se perdido com o naufrágio algumas matrizes de ilustrações artísticas que, até o final de 1890, iriam dividir com Quincas Borba o espaço da parte literária da revista. Encontramos em 31.10.1890 um indício de que os editores tiveram que substituir as ilustrações perdidas por outro material disponível:

 

Por motivos inteiramente estranhos à nossa vontade, deixamos hoje de oferecer às nossas inteligentes e amáveis leitoras as gravuras com que constumamos enriquecer o suplemento literário da Estação . Esperamos, no próximo número, preencher a falta de que se ressente o atual. Nao é, entretanto, tão sensível a falta, porque, em compensação, temos o prazer de substituir aquelas gravuras por um primor musical – a polca inédita Onde está ela? composição do jovem e bastante conhecido pianista Miguel A. de Vasconcellos.

 

Lombaerts teve que recorrer a material produzido localmente para preencher o espaço reservado na revista para a publicação das ilustrações alemães. Podemos até cogitar que sua motivação ao reproduzir os desenhos do jornal francês L'illustration, mencionados anterioremente, tenha sido a falta temporária de material artístico alemão. Vale a pena notar mais uma vez que a publicação dos desenhos franceses se deu apenas um mês depois da publicação da polca de Miguel de Vasconcellos.

Comparando a Unterhaltungsblatt de Die Modewelt com a parte literária de A estação , podemos concluir que o intervalo entre a publicação de uma mesma gravura na Alemanha e a sua reprodução no Brasil era de pelo menos seis semanas. Limitando-nos a apenas alguns exemplos, o quatro de E. Thiel, “Trem detido pela neve”, e a gravura “Uma fábrica na Floresta Negra”, publicados na Alemanha em 16.01.1887, foram reproduzidos na Estação de 31.03.1887. Dois quadros de Adolph Menzel, publicados no número comemorativo dos setenta anos do ilustrador ( 01.03.1886), foram reproduzidos em dois números diferentes da versão brasileira da revista: “Oficina de ferreiro” em 15.08.1886; e “Cena de Mercado na Itália” em 15.10.1886. O retrato da princesa Isabel teve, entretanto, que esperar muito mais tempo para finalmente figurar nas páginas da Estação . Lombaerts aguardou a libertação dos escravos para reproduzir, em 31.05.1888, o retrato da redentora, o qual havia sido publicado na Alemanha há quase dois anos, em 16.11.1886.

Encontramos assim transplantadas para A Estação as mesmas ilustrações de Die Modenwelt , que cultivavam o bom gosto artístico, por serem consideradas o melhor da artes plásticas na Alemanha contemporânea. Era assim que a cultura aristocrática européia encontrava o seu segundo canal de manifestação na mesma revista. Já havia se manisfestado na moda, nas mobílias, nos arranjos da mesa e na etiqueta de salão. E agora dividia espaço com a matéria jornalística e literária produzida prodominantemente por colaboradores brasileiros.

E não nos esqueçamos daquele o outro tipo de gravura de Illustrirtre Frauen-Zeitung presente também em A estação , que entram em direta intertextualidade com o assunto de Quincas Borba . Refiro-me aos retratos de membros da aristocracia, de figuras imperiais e aos diversos quadros que divulgavam a instituição imperial. A enumeração do título de alguns deles não substitui a apreciação da gravura, mas já fornece um forte indício do seu teor: “Palazzo Orsini em Nemi” (15.04.1885) ; “Dansas da corte de Frederico o Grande” (15.06.1885); “Um baile na corte de Berlim” (15.06.1887); “Os diamantes da coroa da França – avaliação” (30.06.1887); “Aniversário do Imperador Guilherme – Manifestação dos estudantes” (30.06.1887), “Retrato do Imperador Frederico III, Imperador da Alemanha” (15.09.1888); “O príncipe Constantino, herdeiro do trono da Grécia e sua noiva” (15.12.1888); “A futura rainha da Holanda, Guilhermina, herdeira da coroa dos Paises Baixos, filha de Guilherme III, rei da Holanda, e da rainha Emma, sua mulher” (15.09.1889); “Os oficiais de Napoleão I na Itália” (30.09.1889); “Os príncipes noivos da á ustria-Hungria: Archiduqueza Maria Valéria e archiduque Francisco Salvador” (30.04.1889); “Casa em que nasceu Maria Luiza, Rainha da Prússia” (31.12.1889); “O castelo de Cronberg, residência atual da viúva do Imperador Frederico, da Alemanha” (15.01.1890).

Essas ilustrações transportam para A estação a mesma inclinação ideológica da revista alemã: a mesma admiração pela vida aristocrática, pelos assuntos relativos a membros da realeza ou do Império, a qual se dissimina por todo o conteúdo da revista no período analisado: desde o reclame do perfume ou fazenda franceses (já que o rótulo imperial valorizava a mercadoria), passando pelos textos narrativos de interesse casual, pela Croniqueta de Artur Azevedo, até chegar ao produto mais nobre dessa cadeia construída sobre as potencialidades criativas da revista. Vale a pena notar, retomando a comparação entre os suplementos literários de A estação, Die Illustrirte Frauen-Zeitung, La estación, La saison e The Young Ladies‘ Journal, que Lombaerts foi o único a publicar narrativas de um autor – Machado de Assis – já consagrado pelos seus contemporâneos, cuja obra foi canonizada ainda em vida. Os outros periódicos publicavam sobretudo literatura popular. No inglês, por exemplo, encontramos romances da pena de Eliza Margareth J. Humphreys, Florence Marryat, Eliza Lynn Linton, Florence Warden and Gertrude Warden. Verificamos assim a tendência de se publicarem nos outros periódicos narrativas escritas sobretudo por mulheres, que só recentemente têm recebido maior atenção dos críticos, como a própria Eliza Lynn Linton, e Helene Böhlau, esta colaboradora na Illustrirte Frauen-Zeitung .

Mas não há espaço para entrar neste novo assunto. Fica para um próximo congresso, no qual tratarei da intertextualidade entre Quincas Borba e as outras rubricas da revista, principalmente as Croniquetas de Artur Azevedo. O produto mais nobre de A Estação saía das mãos de um escritor já na época consagrado, cujo nome, por constar no ról dos colaboradores, trazia prestígio à revista. Outros colaboradores, além de Machado de Assis, eram Artur Azevedo, Olabo Bilac, José Moraes e Silva, Lúcio de Mendonça, Raimundo Correa, Alberto de Oliveira, Valentim Magalhães, Guimarães Passos, Alfredo Leite, Maria Carolina Guerra Jucá, Prisciliana Duarte, Maria Clara Vilhena da Cunha e Inês Sabino Pinho Maia e Júlia Lopes de Almeida.

Nem por isso Machado de Assis deixava de participar dessa grande engrenagem, mesmo que tenha sido para tirá-la do eixo. Tratando-se do bruxo do Cosme Velho todo cuidado é pouco. Mais uma vez será preciso lermos nas entrelinhas para não cairmos na sua armadilha. Só assim poderemos compreender que, s e numa primeira vista, Machado parece se ajustar ao programa editorial da revista, uma vez que seu romance trata de aspirações sociais, o sentido oculto global da megalomania imperial de Rubião, em rela ção a esse pano de fundo, pode nos ajudar a uma melhor compreessão da ironia proeminente do romance.

 

 

“O mundo da moda” em português.

Ana Cláudia Suriani da Silva, “ Da Alemanha para o Brasil: história da revista A estação , um empreendimento multinacional”, Segundo Congresso da História do Livro e da Leitura no Brasil , Campinas: Unicamp, julho de 2003.

Zum 25jähringen Bestehen der Modenwelt 1865-1890 (Leipzig: Otto Dürr, 1890), p. 3, 5

“Jornal ilustrado da mulher” em português.

Em português, “ Edição da Modenwelt com Caderno de Entretenimento”.

“ Aus dem Frauen Welt”, “Neue Handarbeiten”, “Die Mode”, “ Kunstgewerbliches” , “Neuigkeiten der Literatur”, “Wirtschaftliches”, “Antworten”.

Ver Lilia Moritz Schwarz, As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), p. 451.

Na minha comunicação apresentada no Segundo Congresso da História do Livro e da Leitura no Brasil , discuto com mais detalhe a questão do público a que Die Modenwelt era destinado. Aqui limito-me a registrar mais uma vez que me baseio em Adelheid Rache ao afirmar que o público alvo de Die Modenwelt estava associado à classe média burguesa, na qual a mulher era a principal responsável pela vida elegante e vestimenta da família. Ver Rasche, Adelheid. Frieda Lipperheide (1840-1896). Ein Leben fur Textil und Mode im 19. Jahrhundert (Berlim: SMPK, Kunstbibliothek, 1999), p. 18-19.

Ernest K. Bramsted, “Popular Literature and Philistinism”, Aristocracy and the Middle-Classes in Germany , Revised Edition, Chicago & London : The University of Chicago Press, 1964, pp. 200-227), pp. 186.

Ver sobre o assunto Jeffrey Needell , Belle époque tropical: Sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século , São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

As datas são da publicação das ilustrações no periódico brasileiro .