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O Jornal das Famílias (1863-1878) e as leitoras do século XIX
Alexandra Santos Pinheiro (UNIOESTE)
O presente texto tem o objetivo de observar como o Jornal das famílias , periódico que circulou durante 15 anos no Brasil, França e Portugal, veiculou normas de boa conduta para suas leitoras. Editado por homem, o francês Batptiste Louis Garnier, e com a maior parte de seus colaboradores composta por escritores homens, dentre eles Machado de Assis, o jornal se auto consagrou defensor da “moral e dos bons costumes”, oferecendo às leitoras seções úteis ao cumprimento de seus papéis: Economia Doméstica, moda, poesia e narrativas com personagens femininas premiadas por seguirem as normas de boa conduta e punidas por transgredi-las.
Em carta de 1869, por exemplo, a redação do Jornal das Famílias endereça suas palavras “As nossas leitoras” para explicar o progresso do empreendimento no decorrer dos seis anos de circulação. Assim a redação dirige-se às leitoras:
Minhas senhoras. – O Jornal das Famílias tem a subida honra de se dirigir a V.V. EEx. desejando-lhes felicíssimas entradas de ano , e renova-lhes os seus agradecimentos pela extrema benevolência com que o tem favorecido.
Por esta ocasião permitem VV. EEx. que lhes digamos duas palavras sobre o modo por que temos desempenhado as nossas promessas e as esperanças que nutrimos de aperfeiçoar o nosso programa
O jornal aproveita a oportunidade para fazer uma síntese das seções:
Graciosos romances têm sido publicados em nossas colunas nos seis anos de existência que já contamos, e parece-nos que nem uma só vez a delicada susceptibilidade de VV. EEx. tem sido ofendida. Anedotas espirituosas e morais tem por certo causado a VV. EEx. o prazer que as pessoas de finíssima educação experimentam nesse gênero de amena literatura, e mais de uma vez conseguiram dissipar as névoas da melancolia que se haviam acumulado nas belas frontes das nossas leitoras.
A economia doméstica, confiada a uma senhora, reúne a utilidade ao prazer, e cremos não enganarmo-nos supondo que mais de uma receita foi aproveitada com suma vantagem pelas mães de família que nos honram com a sua assídua leitura.
Empenhamos todos os esforços para que os figurinos e os moldes, acompanhados de suas respectivas explicações, estivessem a par do que de melhor se publica em Paris, onde temos um agente especialmente incumbido deste importantíssimo objeto
É por meio dessa exposição que inferimos o perfil da leitora com a qual o jornal pretendeu dialogar. A leitora, na visão da redação, necessitava da leitura de romances; contudo, a sua “finíssima educação” “exigia” que fossem narrativas moralizantes. Por sinal, a mesma moral que era esperada na escolha das anedotas. Segundo a redação, a seção Economia Doméstica “foi aproveitada com suma vantagem pelas mães de família que nos honram com a sua assídua leitura”. Em outras palavras, o periódico destinava-se às mulheres que tinham acesso a uma educação formal (alfabetizadas) e moral e com uma situação econômica (dos pais ou maridos) que permitia a elas a assinatura de um jornal .
No livro A juventude de Machado de Assis (1971), Jean-Michel Massa define o “espírito” do periódico:
A revista trazia em cada mês um ou dois contos, cujo prosseguimento ou fim eram publicados no mês ou nos meses seguintes. Freqüentemente, a edição era completada por algumas poesias de caráter sentimental ou de inspiração religiosa. Páginas de modas, ilustradas a cores, enriqueciam cada número (...). O Jornal das Famílias , submetido à constante vigilância dos maridos ou dos pais, que fiscalizavam as leituras de suas esposas e de suas filhas , devia além disso agradar às leitoras e alimentar as suas fantasias .
Uma outra questão que nos colocamos refere-se à moral. O que era considerada uma conduta moral para a época? Quem determinava as regras da boa conduta? São várias as correntes que trataram desse tema. Com base no Cristianismo, por exemplo, encontramos uma lista de “virtudes morais”, que pregava a sobriedade, a prodigalidade, o trabalho, a castidade, a mansidão, a generosidade e a modéstia . Transferindo essa lista para o Jornal das Famílias , percebemos claramente em suas narrativas a divulgação dessas virtudes, contudo, duas delas, a castidade e a mansidão, se destinam apenas a um público, a mulher. É ela que é punida por ser entregar antes do casamento, por trair o marido ou por não se conformar com sua condição subalterna.
Da mesma forma que percebemos nas cartas da redação a preocupação do periódico em oferecer seções que zelem pelos bons costumes e pelos interesses femininos, observamos a reserva do editor quanto à questão da literatura. Ao se dirigir às leitoras para tratar do andamento do jornal, a redação utiliza a palavra recreio como sinônimo de literatura. As citações extraídas das cartas que a redação do Jornal das Famílias endereçava às assinantes demonstram como aos poucos a redação do periódico afirma o espaço dado à arte literária:
Mais do que nunca dobraremos os nossos zelos na escolha dos artigos que havemos de publicar, preferindo sempre os que mais importarem ao país, à economia doméstica, à instrução moral e recreativa, à higiene, numa palavra, ao recreio e utilidade das famílias ( J. das F. , tomo 1, 1863, p. 2).
Como observamos, a palavra “recreio” já aparece na primeira carta. Vejamos as seguintes:
Que cumprimos a missão a que nos comprometemos, prova-o o acolhimento em extremo lisonjeiro que recebemos do público, acolhimento que, a continuar, como esperamos, nos permitirá a realização de diversos melhoramentos que temos em mente, já na parte puramente material, já na parte literária ou intelectual ( J. das F. , tomo 2, 1864, p. 2).
Na segunda carta, os melhoramentos que a redação pretende efetuar dizem respeito também à parte literária do jornal. Nesta carta, o vocábulo “literatura” já não vem camuflado pelo vocábulo “recreio”. E na terceira mensagem dirigida aos assinantes:
Novos e ativos colaboradores asseguram-nos a publicação de interessantíssimos romances, narrativas de viagens, biografias de senhoras ilustres, episódios de história geral e particular, descrições de cidades, vilas, etc, que tiveram ambos os sexos, etc, etc. ( J. das F. , tomo 7, 1869, p. 2).
Assim, embora a primeira carta não seja clara quanto ao espaço que a literatura teria nas páginas do periódico, as demais, bem como o número de narrativas e poemas publicados todos os meses, asseguram sua presença. Mas por que a redação teria a preocupação em não dizer claramente sobre a existência de textos literários em seu jornal? A resposta aponta para a história do romance. Tanto para os que aprovavam a sua leitura quanto para os que a reprovavam, esse tipo de narrativa tinha a função de instruir seus leitores para o bem ou para o mal, como assegura Pierre-Daniel Huet:
A finalidade principal dos Romances, ou ao menos a que deveria ser, a que se devem propor todos aqueles que os compõem, é a instrução dos leitores, a quem é necessário fazer ver a virtude sempre coroada e o vício castigado. Mas como o espírito do homem é naturalmente inimigo dos ensinamentos, e seu amor-próprio o revolta contra as instruções, é preciso enganá-lo pelos atrativos do prazer, adoçar a severidade dos preceitos pelos exemplos agradáveis, e corrigir seus defeitos condenando-os em outra pessoa. Assim, o divertimento do leitor, que o romancista hábil parece ter por objetivo nada é além de uma finalidade subordinada à principal, que é a instrução do espírito e a correção dos costumes .
Desta forma, por querer cumprir com seriedade o papel de instruir suas leitoras, o jornal pretendeu, para não contrariar a eventual ala masculina (que era quem pagava por sua assinatura) desfavorável à leitura de romances, enquadrar a literatura, em especial os romances, numa seção próxima às anedotas, com o puro objetivo de “respeitosamente” divertir “um pouco” suas assinantes. Tal preocupação pode supor que o jornal não deu muito espaço à publicação de narrativas, o que não é verdade, já que do primeiro ao último ano do Jornal das Famílias , os gêneros literários romance e novela ocupam o primeiro lugar no índice do novo periódico. Às vezes, o número de publicação é, como no ano de 1871, de apenas 9, outras vezes, há um número grande demais para as 32 páginas mensais do jornal, como em 1874, com 25 narrativas.
Os colaboradores dessas narrativas, em sua maioria folhetinesca , criaram personagens femininas que são exemplos de boa conduta e, por isso, premiadas; personagens que morrem por não ter o amor concretizado e por personagens enquadradas no que Marlyse Meyer chama de “terceira fase do folhetim”, na qual predomina a mulher vítima, prostituta, deflorada, seduzida, abandonada, fatal, mãe solteira .
No artigo “A mulher”, de Nuno Álvares, ela se configura como um ser frágil, passivo e conformado com sua condição, já que, para o articulista, “ela não só é o ente mais puro e o mais nobre criado por Deus, como o mais delicado e sensível” (t. 1, 1863, p. 269). Ao definir o que considera por mulher, nega, conseqüentemente, esse título àquelas que “se esquecem da nobre missão que lhes confiou o senhor”:
Oh! Mulheres, maldigam vos outros, que não eu. Meus lábios nunca vos amaldiçoarão um momento: antes tenho sempre um sentimento de piedade pelas vossas faltas, um sorriso de contentamento pelas vossas virtudes, e uma oração que tímida se eleva ao céu por vós, ó mães que sabeis compreender os santos deveres da maternidade (t. 1, 1863, p. 270).
Em sua admiração, não pune as mulheres que cometem faltas, mas antes tem um sentimento de piedade. O sorriso e a oração vão para as mulheres virtuosas e para as mães, que não compreendem o prazer ou o amor da maternidade, mas sim, o dever.
Machado de Assis, ao contar a história de duas amigas, Júlia e Tereza, que se apaixonam pelo mesmo rapaz, em O que são as moças (t. 4, 1866, p. 136), destaca as “funções” da mulher - eram delicadas, bordavam, freqüentavam bailes e caprichavam no visual “quando se tratava de ver um homem pela primeira vez, ou mesmo pela segunda, ou mesmo pela centésima vez” - .
Em nome da amizade, as duas renunciam ao amado em comum. Todavia, essa renúncia, como revela o irmão de uma delas, só ocorre quando as duas têm em vista um outro pretendente. Eis o final do conto:
Com a singularidade de que a carta de desistência do coração do primeiro foi escrita depois do primeiro olhar amoroso do segundo.
As duas moças coraram e esconderam o rosto. Tinham razão de ficar vexadas.
Caia assim o véu que encobria o sacrifício no interesse pessoal; ou por outra: largavam um pássaro tendo outro na mão (t. 4, 1866, p. 167).
Nessa narrativa, a mulher, apesar de dotada de toda a delicadeza e a fragilidade mencionadas por Nuno Álvares, ganha uma nova caracterização, a de ser esperta. Em outras palavras, já se apresenta como um ser que sabe que os espaços precisam ser conquistados e, mesmo se restringindo ao aspecto amoroso, sabe brigar por ele.
O paradoxo na definição da mulher corresponde às próprias dúvidas criadas no século XIX em torno da função da mesma; o que é muito bem trabalhado por Michelle Perrot:
No século XIX, a mulher está no centro de um discurso excessivo, repetitivo, obsessivo, largamente fantasmagórico, que toma de empréstimo as dimensões dos elementos da natureza. Ora a mulher é fogo, devastadora das rotinas familiares e da ordem burguesa (...), a mulher das febres e das paixões românticas (...). A ruiva heroína dos romances de folhetim, essa mulher cujo calor do sangue ilumina pele e cabelos, e através da qual chega a desgraça(...). Outra imagem, contrária: a mulher-água, fonte de frescor para o guerreiro, de inspiração para o poeta (...); mulher doce, passiva, amorosa, quieta(...). Mulher-terra, (...) que se deixa moldar e fustigar, penetrar e semear, onde se fixam e enraízam os grandes caçadores nômades e predadores .
Outra seção destinada à educação das assinantes é a de “moda”. Com figurinos parisienses, a moda no Jornal é recomendada às moças que desejam se casar; como sugere a narrativa “Um jornal casamenteiro”, assinado por C.F. ( J.F. , 1877, p. 279-282). De acordo com a história, o protagonista Paulo, homem “refletido, frio e melancólico”, era considerado um tipo difícil de ser conquistado para o casamento. Porém, após avistar, na porta da matriz, uma moça “de seus 15 e 16 anos que arregaçava graciosamente a saia e a túnica de um vestido vaporoso”, o rapaz deixa de ser indiferente ao amor e casa-se depois de 2 meses com a mocinha dos “vestidos vaporosos”.
Com o objetivo de explicar como o jornal de Garnier influenciou na escolha de Paulo, o narrador introduz no texto o diálogo de duas moças que comentam o casamento. Uma delas diz que não foi pela beleza física que Paulo escolheu a noiva, mas pelo vestido. E explica:
-(...). O Paulo viu a Luizinha, na festa e no Te-Deum, com aqueles dois vestidos novos que ela mandou fazer pelos figurinos do Jornal das Famílias ... não te lembras? (...)
-Então foi o Jornal das Famílias quem fez o casamento.
-Está claro. E a prova é que Paulo encontrava-se constantemente com a Luizinha, e só se lembrou de gostar dela no dia da festa.
-Se o Garnier soubesse...
-Não deves dizer o Garnier, mas se todas as moças soubessem... assinavam o jornal casamenteiro!
O narrador avisa às moças que irá providenciar o artigo, que é concluído da seguinte maneira: “E a mocinha bonita que quiser casar depressa deixe S. Gonçalo de Amarante , e agarre-se com os figurinos do jornal casamenteiro, o Jornal das Famílias , do Sr. Garnier” (1877, p. 282). A partir dessa narrativa, podemos perceber, pelo menos, duas questões sobre a mulher da época. Apesar de as mulheres da elite terem acesso à educação, o autor dessa narrativa, CF, cria um narrador que em vez de sugerir que as moças escrevam sua história, prefere fazê-lo ele mesmo , como indica o texto, o folhetinista ouve a conversa e diz às moças que se encarregará de divulgar a história, sem ao menos sugerir que as próprias mulheres escrevam uma carta ao jornal.
A segunda refere-se à idade tida como ideal para o casamento. A escolhida de Paulo tinha entre 15 e 16 anos, detalhe que demonstra que esta é a idade ideal. No final, o narrador ainda reforça: “a mocinha bonita que quiser casar depressa”. A questão configura um fato bem conhecido historicamente; no entanto, lido em um texto literário, assim como está colocado nesse artigo, percebemos o quanto para a sociedade da época, representada aqui por uma visão masculina, ele apresenta-se como um fator “natural” e correto.
O sofrimento e o ideal de amor interrompido pela morte resgatam a tendência da 2 a. geração romântica. Tanto que os principais representantes desse período literário freqüentemente aparecem citados nessas narrativas. Em A Sinhazinha , por exemplo, a citação de dois versos de Álvares de Azevedo, “aquele nosso tristíssimo poeta”, já anuncia que mais um enredo do Jornal das Famílias terá um final trágico. Emma ou Sinhazinha, da história de José Ferreira de Menezes, após ser abandonada pelo noivo, que a troca por uma mulher mais velha, e após perder o pai, morre, vítima de uma profunda tristeza (Cf. A sinhazinha , por José Ferreira dos Santos. J. F., Agosto de 1863).
A respeito da propagação do conto moral entre os escritores, Raimundo de Magalhães Junior cita nomes importantes:
O conto moral foi cultivado, eventualmente, por grandes escritores, de várias nacionalidades. A missa do ateu , de Honoré Balzac, pode ser enquadrado nessa categoria, como exaltação do sentimento de gratidão e de amizade (...). Exemplo típico de conto moral é o famoso Conto de Natal ( Christmas Carol ), de Charles Dickens, sobre a miraculosa transformação do avarento Scrooge, tocado pelo sortilégio da grande noite cristã. Tolstoi escreveu, também, uma coletânea de contos morais, destinados à infância .
Alguns textos são explicitamente morais, não apenas quando trazem como título “Conto Moral”, de Machado de Assis, que, tendo a vida de um algodão como tema, ensina aos “cristãos leitores” que apenas pela paciência e pela resignação é possível enfrentar os sofrimentos da vida. Além do mais, segundo o pensamento expresso no texto, só aquele que não blasfema pode ser conduzido à vida eterna: “Sede pacientes; não vos deixeis vencer pelas tristezas passageiras desta vida. Resignai-vos: a adversidade é a seiva que faz brotar a virtude no coração humano” .
Padre Francisco Bernardino de Sousa, colaborador dos dois empreendimentos de Garnier, foi um dos que pregava a regra da boa conduta e da moral em suas narrativas. Ele parece assumir o papel de instrutor moral das moças e das senhoras, a partir de textos que ensinam e, ao mesmo tempo, demonstram como pode ser terrível a punição a quem não aprende.
O padre considera suas narrativas, que sempre são curtas e sem a presença de muitas peripécias, um alívio para o país e para a vida sofrida de seus habitantes. Nesse sentido, a moral mais usada por ele é coerente com a difundida pelos demais colaboradores, qual seja, a de que somente o martírio pode redimir o homem. Para ele, apenas quem aceita com resignação as duras provações de Deus é que pode alcançar suas bênçãos. Em suma, Bernardino é o colaborador mais empenhado em ensinar aos leitores e, principalmente, às leitoras do Jornal das Famílias a maneira mais eficaz de “ganhar o céu”.
Parece que Machado de Assis também associou o nome da mulher ao sofrimento. Em Cinco mulheres , uma seqüência de histórias de diferentes mulheres, há a de “Carolina”, uma moça de 20 anos, obrigada a abandonar seu escolhido para casar-se com um velho, a quem seu pai devia favores. Carolina aceita resignada a ordem de seu pai. Meses depois, apesar de considerar seu casamento um “túmulo”, escreve à amiga:
Deixo-te, minha Lúcia, mas assim é preciso. Amei Fernando, e não sei se amo ainda agora, apesar do ato cobarde que praticou . Mas eu não quero expor-me a um crime. Se o meu casamento é um túmulo, nem por isso posso deixar de respeitá-lo. Reza por mim e pede a Deus que te faça feliz .
A forma como o narrador conclui essa história - “foi para essas duas corajosas e honradas que se fez a bem-aventurança” - tanto enfatiza a ligação direta da mulher à resignação, quanto mostra a moralidade vinculada nas narrativas.
Não poderíamos encerrar esse artigo sem antes destacar a seção Economia Doméstica, que, com textos não ficcionais, também empenhou-se em instruir a mulher para a melhor administração da casa. A seção tinha, basicamente, duas colaboradoras Victoria Colonna (romancista, poeta, ensaísta.Blake Dic., VII, 383) e Paulina Philadelphia (não encontrada). A primeira e seus textos consistiam em receitas de culinária, de higiene e de conselhos para a educação dos filhos. O artigo mais interessante dessa parte do Jornal data de 1874, e nos permite confirmar que o periódico se destinava às leitoras oriundas das classes que podiam pagar por sua assinatura, conforme destacamos no início desse artigo, e, ao mesmo tempo, identificar o tipo de relação que existia ou deveria existir entre senhora x escrava e patroa x empregada.
Victoria Colonna dá ao texto o título de “Conselhos”, e faz a seguinte observação: “Linhas que as criadas não devem ler”. A colunista discorre acerca da necessidade de as senhoras tratarem bem aos criados, que serão os substitutos dos escravos no Brasil. Assim, aos criados faz-se necessário o seguinte tratamento :
Devemos evitar repreendê-los em público, falar-lhes não com carinho, mas com bondade sempre que não tiverem incorrido nalguma falta, lembrando-nos que, a despeito de tudo o que se fizer por eles, nunca se chegará a tornar sua sorte inteiramente feliz. É pois mister compensarmos por bons tratamentos e justas precauções os males inerentes à sua posição, e para podermos exigir deles um pouco menos de egoísmo e indiferença pelos nossos interesses, cumpre que lhes demos o exemplo .
A autora nos possibilita visualizar a mudança da situação político-econômica do país e a necessidade de a mulher, que antes tinha entre seus bens os escravos, aprender a se adaptar à nova economia de mão de obra assalariada. Ao mesmo tempo, mostra a naturalidade com que ainda era encarado o tratamento desumano dado ao negro.
Finalmente, como mencionamos na apresentação desse texto, o nosso objetivo era mostrar como o Jornal das Famílias veiculou as normas de boa conduta para seus leitores, em especial, para suas leitoras. Num debate de outra ordem, podemos discutir como as narrativas do Jornal das Famílias correspondem às leituras direcionadas a educar as mulheres para a submissão. Como são construídos os narradores, como são definidas as personagens femininas e, estabelecendo um contraponto, os personagens masculinos. São essas indagações que pretendemos responder a partir do estudo analítico das narrativas do segundo empreendimento de Garnier .
Como explica a redação: “Este artigo deveria sair impresso no Jornal das Famílias do mês de janeiro”.
Jornal das Famílias . Rio de Janeiro e Paris: Garnier, 1869, p. 2.
A contar pelo tempo de duração do periódico, é insignificante o número de narrativas com personagens que retratem pessoas não inseridas na sociedade dominante, como é o caso dos negros. Em quinze anos de circulação, apenas três narrativas dão vida a personagens femininas negras, sendo que nenhuma dá a sua personagem um final feliz.
O autor também observa a colaboração de Machado no Jornal das Famílias , as críticas que o autor recebeu quando publicou “Confissões de uma viúva moça” – considerado imoral para os padrões familiares -, a importância de suas narrativas para o sucesso do jornal e a experiência de se submeter àquilo que ele criticava: “a arte por encomenda”.
MASSA , Jean – Michel. A juventude de Machado de Assis – 1839-1870 . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971, p. 541. Grifo nosso
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia . São Paulo: Ática, 1995, p. 352.
ABREU, Márcia, Os caminhos dos livros . Campinas, SP: Mercado de Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB): São Paulo: Fapesp, 2003 (coleção História de Leitura ), p. 306.
Não existe no índice a diferenciação entre romance e novelas, apenas entre conto, fábula e lenda. Segundo Aguiar e Silva, a tentativa de distinguir os dois gêneros é principiada pelos ingleses, no fim do século XVII (Aguiar e Silva, 1976, p. 259). Desta forma, optamos por tratar a todas como narrativas, considerando a apreciação de Coutinho: “a distinção é sutil entre novela, conto e romance” (Coutinho, 1990, 986).
MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história . São Paulo: Companhia das Letras,1996, p. 206.
PERROT, Michelle. Os excluídos: operários, mulheres, prisioneiros . Trad. Stella Bresciani. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 188.
São Gonçalo é um santo português com culto permitido pelo papa Júlio III em 24 de abril de 1551. Existem muitas lendas a respeito do santo protetor das mulheres e dos casais apaixonados. Contam que ele transmite tranqüilidade e alegria a todos. Protege sempre os que amam. Ajuda as pessoas a encontrar a pessoa certa para amar e ser feliz por toda a vida (http://www.saogoncaloonline.com.br/cidade/santo_sg.htm).
MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Vida e obra de Machado de Assis: aprendizado . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981, p. 147.
Que seria o de planejar matar seu marido.
“Carolina”. In: Cinco mulheres . J. F., setembro de 1865, p. 261.