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De Inaiá a Maria Flor: a mãe da mãe de sua mãe e suas filhas
Veridiana Almeida (UFSC)

Mulher, ficção e história. A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas 1 - da escritora Maria José Silveira (romance publicado em 2002, pela editora Globo) - assinala em si a reunião desses três potenciais. Nessa tríade, mostra-se a preocupação com as configurações complexas e evolutivas das relações humanas, políticas, religiosas, sociais, marcadas em cada tempo e consolidadas com o embate entre a vida e a morte numa tessitura narrativa de vinte mulheres que permeiam o romance, as quais emergem numa construção ficcional e, ao mesmo tempo, histórica. Por isso, a leitura do romance nos proporciona diferentes ângulos de abordagem, os quais podem ser vistos como um romance que conta 500 anos de História do Brasil ou 500 anos de história das mulheres no Brasil ou 500 anos de um Brasil construído por uma história feminina. Nos 500 anos de História do Brasil a autora/ narradora faz uma reconstituição da chegada dos portugueses em 1500 até o Brasil do século XXI; nos 500 anos de história das mulheres no Brasil é narrada a vida das mulheres que são remetidas a épocas, sociedades e com vivências diferentes, mas que, através de mapeamento literário, protagonizaram situações relevantes contrapondo-se à dominação masculina. Elas "tiveram de conciliar valores em conflito e inventar novas configurações de sentido para poderem criar para si próprias um lugar que antes não existia." 2 E nos 500 anos de um Brasil construído por uma história feminina, essa noção nos é repassada através da condição proporcionada ao leitor de visualizar o panorama histórico em que está sendo representado o drama individual feminino e a sua participação na construção do Brasil, pois segundo Maria José Silveira "as mulheres ajudaram a construir quase do nada este país." 3

Diante do que já foi exposto, acrescento que o romance, para obter tais resultados, erige-se numa relação entre ficção e história, num jogo bem undido pela narradora/ autora. Tema que será priorizado para a discussão, pois Maria José Silveira faz alusão aos fatos históricos com uma certa minúcia para que nenhum deles seja visto com distorção. Há, portanto, a preocupação com a não-corruptela da História. História da qual há registros e comprovações científicas, apreendida não como verdade única, mas como a qual chegou mais perto do conhecimento dos grandes estudiosos. A autora fez pesquisas para se certificar de que os detalhes históricos contidos em seu romance estavam corretos, ainda que esses detalhes não fossem imprescindíveis para o enredo. Afinal, eles soaram apenas como um pano de fundo para relacionar a vida das mulheres com o momento histórico em que elas estavam vivendo. Isso pode ser afirmado devido ao fato de haver na obra em estudo a relação dos livros consultados para a elaboração do enredo (trata-se de uma vasta pesquisa historiográfica - um romance com bibliografia ). Nas palavras de Edgar de Decca, "a forma do narrar vem toda respaldada com provas documentais, opiniões de outros historiadores sobre os eventos narrados, que criam um efeito de real, produzem a sensação de que o que está sendo narrado, de algum modo, aconteceu." 4 E é isso que a autora faz.

Essa preocupação com a verdade histórica parece-nos um ponto relevante, visto que, para a literatura, os enredos não precisam de provas documentais para adquirirem significado.

Será que poderíamos encaixar o romance de Maria José Silveira, por suas pretensões realistas, como uma história que dá crédito à verdade? De acordo com Valéria de Marco, os escritores "valem-se de elementos históricos para dar força maior aos aspectos ficcionais de um enredo." 5 Acredito, então, que os fatos históricos ao serem absorvidos pelo romance em pauta "perdem a capacidade de significação, posto que os significados da ação humana encontram-se no enredo que se tece um fundo histórico." 6 Pois, como já foi dito, a prioridade é dada à vida das mulheres. Sendo aí onde a diferença reside: através da individuação de alguns personagens, especialmente as personagens femininas. O contexto histórico serve para relacionar a conduta das mulheres com a época. Assim, nesse entreato literário, todo o conceito de história se mantém e também se dilui quando a temos como objeto de ficção.

De acordo com Claudiany Pereira, a relação entre ficção e história presente na obra, deve-se ao fato da aproximação entre as duas modalidades, que por seu caráter discursivo, tornam-se facilmente permutáveis, sem que percam sua identidade. É contra o status da verdade, no sentido positivista da história, que se levanta a moderna ficção. Ao aproveitar o material histórico no romance, tendo em vista a lógica da ficção, o que se verifica quando pensamos no papel da literatura é o aproveitamento crítico desse passado. 7 Diante disso, Linda Hutcheon acrescenta que a literatura e a história parecem ser igualmente intertextuais, desenvolvendo os textos do passado com sua própria textualidade complexa. 8

E, sobre o aspecto de Maria José Silveira ser vista muito mais como historiadora do que romancista, apoio-me nas idéias de Paul Veyne que nos fala que a imparcialidade vai mais adiante do que a boa-fé, que pode ser partidária e geralmente é difundida, ela consiste no fim a que se propõe do que no firme propósito de dizer a verdade, ou melhor, no fato de não se propor a todos os fins. Portanto, o papel da historiografia é o da investigação "científica", baseada em documentos e visando o esclarecimento e explicação do ocorrido. 9 Porém, não é isso que Maria José Silveira faz. Ao deslocar a ênfase do enredo para a história das mulheres, ela está desestabilizando todas as certezas das verdades factuais. E, ainda vale lembrar que, para Márcio Seligmann Silva, não existe historiografia imune à questão aparentemente banal do "ponto de vista":

A historiografia trabalha em um campo tão infinito quanto o da memória, pois nunca haverá coincidência entre discurso e "fato", uma vez que a nossa visão de mundo sempre determinará nossos discursos e a reconstrução da história. 10

Moema de Castro e Silva Olival também nos coloca que ainda que o escritor se apodere de um fato histórico, será pela lente crítica e imaginativa da verdade ficcional que ele nos transmitirá sua visão da realidade, sendo esta a função principal de sua condição de escritor. 11 A obra de arte literária é o único espaço cedido ao registro de opiniões divergentes que não tem o objetivo de sufocar as divergências, mas de enfatizá-las. Mas, se a diferença entre ficção e história pode estar relacionada à liberdade de expressão possível em uma e a censurada na outra, Maria José Silveira parece aproximar as duas, pois a produção de qualquer texto é um ato histórico. Assim, ficção é História e História também é ficção.

Portanto, a ficção constitui a melhor forma de revisão do passado, uma vez que permite a liberdade de expressão negada pela História. Por exemplo, os muitos livros historiográficos não nos dirão, num determinado período ou fato da História, se o céu estava azul, se a chuva era calma e fina, se a terra era macia, enfim, detalhes que podem fazer parte de qualquer narrativa de ficção. São recursos utilizados para ilustrar a História do Brasil em A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, na qual a autora recheia sua narrativa com aquilo que para a história poderiam ser pormenores inúteis, 12 residindo aí a diferença entre a História que registra e a ficção que narra.

A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas não será aqui classificado como um romance histórico, mas, através da representação das mulheres brasileiras, será considerado um romance que reflete sobre a História do Brasil. Maria José Silveira procede a essa reflexão valendo-se dos seguintes recursos narrativos: faz alusões freqüentes e sistemáticas aos acontecimentos históricos, alguns ela reproduz e, entre as personagens que permeiam o romance, há a presença de figuras "históricas" contracenando com as personagens fictícias. Aproxima-se (embora não se enquadre) no que Linda Hutcheon designou como sendo metaficção historiográfica, pelos seus recursos contemporâneos em escrever a História: "sugere que reescrever ou reapresentar o passado na ficção e na história é - em ambos os casos - revelá-lo ao presente, impedi-lo de ser conclusivo e teleológico." 13 Ou seja, trata-se de um conceito que serve para designar características essenciais a uma facção da literatura contemporânea, assinada por romancistas populares que incitam à auto-reflexão e se apropriam, direta ou indiretamente, de personagens ou contextos históricos.

A veracidade histórica poderá ser confirmada pelos estudiosos, já que o narrado aproxima-se do verossímil. Entende-se por verossimilhança um discurso que se assemelha ao real: o verossímil finge preocupar-se com a realidade objetiva, mas como uma "máscara" que a emoldura. 14 Ou ainda, para ratificar a afirmação, diz-se que algo é verossímil quando guarda semelhança com a verdade. A construção desse efeito se baseia em grande parte na redução das incertezas e surpresas da história. Ele se baseia fundamentalmente na clareza e na justificação do encadeamento das ações, e não naquilo que as contesta e interrompe.

É desse modo que Maria José Silveira nos coloca frente a frente com a história documentada. No romance não há contradições com historiografia brasileira, sendo o enredo preenchido com a presença de personagens que são os estereótipos de pessoas que poderiam ter realmente existido. A caracterização dos personagens é estilizada e construída conforme a época narrada, sem fugir dos parâmetros históricos. Vejamos o exemplo da personagem Sahy, a terceira geração de Inaiá, em A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas : essa é uma personagem indígena que foi capturada pelo seu futuro homem, Vicente Arcón. O castelhano a escolheu pelo simples fato de possuir inúmeras semelhanças com sua já falecida esposa. Viu em Sahy a possibilidade de ter novamente em seus braços a sua mulher. Esse acontecimento foi por volta de 1549, quando havia chegado Tomé de Souza. Eis um trecho:

 

Havia chegado Tomé de Souza, o primeiro governador-geral nomeado por Dom João III, rei de Portugal, trazendo a primeira grande leva de soldados, artesãos, funcionários da Coroa, padres, degredados, mulheres e crianças para povoarem o país. As ordens de Dom João III eram claras: já era tempo de garantir a posse da nova terra e organizar a produção para o bem de Portugal. Isso significava controlar os nativos e fazer deles a fonte da mão-de-obra para construir o país. Então, a procura por escravos indígenas aumentou. 15

Por esse fragmento, comprovamos a existência de um fato histórico documentado, preenchido com uma personagem fictícia para ilustrar a trama narrativa. Maria José Silveira construiu minuciosamente essa personagem com o intuito de trilhar para ela, um destino sem mudanças, certeiro, sem consternações. Sua condição como escrava, notada dentro do cenário histórico era até de grandes privilégios, pois foi catequizada por jesuítas e tinha como "status" a liderança da cozinha. Sahy, portanto, foi moldada aos padrões da época.

A reconstituição dos fatos históricos através da ficção literária é vista como uma espécie de convite ao leitor para que se reflita sobre a memória nacional, pois fica claro que esse subgênero tem especial relevância para o estudo da vida cultural brasileira. E, para essa (re)construção ficcional do passado, a autora ancora-se em artefatos culturais diversos, recorrendo a lembranças sobre as festas religiosas e populares, rituais, os hábitos e costumes familiares, os modos de vida no campo e na cidade etc - identificados como elementos ficcionais da memória coletiva - que se inscrevem na ordem do tempo histórico, cronológico e linear. Para tanto, há na íntegra, um certo grau de complexidade. (Re)construir a história é um grande desafio, pois construir um texto que não deixe de revelar a capacidade de análise e interpretação sem que sejam distorcidas ou minimizadas as visões de mundo, principalmente no que diz respeito à relevância dos fatos, concepções e explicações é, realmente, desafiante. Sendo assim, de todo o romance, desde Inaiá até Maria Flor, pode-se fazer uma leitura ficcional ou histórica - porém, a romancista não faz história - "O motivo é histórico, as vertentes são factuais, mas o texto resulta em literatura." 16

 

1 SILVEIRA, Maria José. A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas . São Paulo: Globo, 2002.

2 DUBY, Georges e PERROT, Michelle. (orgs.). FRAISSE, Geneviève e PEROT, Michelle. (direção). História das mulheres no Ocidente . Vol.4. São Paulo: Ebradil, 1991, p. 323. Trata-se de cinco volumes, divididos cronologicamente e intitulados como Antigüidade, Idade Média, Tempos Modernos, Século XIX e Século XX.

3 SILVEIRA, op.cit., p. 11.

4 DECCA, Edgar de. O que é romance histórico? In: Gêneros de Fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. SP: Xamã, 1997, p 200.

5 MARCO, Valéria de. A questão do romance histórico. In: Gêneros de Fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. SP: Xamã, 1997, p. 200.

6 Ibid, p, 201.

7 A complexidade desta questão serviu como motivador para :PEREIRA, Claudiany. Balada da praia dos cães: metaficção historiográfica, de José Carlos Pires . CECLIP/ CPGL/ PUCRS.

8 HUTCHEON, op.cit., p. 141.

9 VEYNE, Paul. Como se escreve a história . Brasília: Edunb, 1982, p.41

10 SILVA, Márcio Seligmann (org). História, memória, literatura . São Paulo: Editora da UNICAMP, 2003, p. 17.

11 OLIVAL, Moema da Costa e Silva. A voz narradora e a liberação de criação em O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago . Signótica (UFGO) n. 5. 1993, p. 133.

12 BARTHES, Roland. O rumor da língua . Tradução Mario Laranjeira. In: "O efeito do real". São Paulo: Brasiliense, 1998, p. 131.

13 HUTCHEON, op.cit., p. 147.

14 FURLAN, Stélio. Agosto: os (d)efeitos do real . Florianópolis, UFSC, 1995, p. 9. Dissertação defendida em 08/1995. Orientadora: Tânia Regina Oliveira Ramos. O objetivo é a análise do romance Agosto , de Rubem Fonseca, publicado em 1990, que marca um espaço privilegiado da suspensão dos limites entre o vivido e o inventado, o que nos coloca ante a questão da representação do real. Este trabalho procura como uma maneira de armar produz uma forma de ler o corpo, a cidade e a História, enquanto fragmentação, labirinto e circularidade.

15 SILVEIRA, op.cit., p. 47.

16 BRASIL, Luiz Antonio de Assis. In: Gêneros de fronteira, op.cit., p. 386.