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Nélida Piñon em "A República dos Sonhos" - Tempo e memória
Thanaide Hadassa Nogueira Felix (FASB- SP)
No presente trabalho busca-se revelar a memória, historicidade e imaginário na obra de Nélida Piñon a partir dos fatos relembrados pela escritora, assim como o mecanismo e objetos desta memória. Jogando, para o primeiro plano da narrativa, a escritora transformou sua vida em memória tornando-se o seu romance A república dos sonhos em verdadeira expressão de arte. Desta forma, mostra-se como Nélida Piñon tece a efabulação romanesca visceralmente orientada pelo tempo-emoção, que pode servir de material rico e maravilhoso para a construção de uma obra de ficção. Fundamenta-se esta pesquisa com os postulados teóricos Heidgger, Bergson, Chauí , Thompson , Pritchard, Massaud Moisés e Benedito Nunes.
Nélida Piñon transformou a partir da idéia-chave de que o sentimento de ser só é experimentado na ação consciente ou na profunda consciência do fazer ou do sentir, isso é desdobrado em seu universo, como uma gama variada de enfoques que iluminam seus seres em ação. Nisto a, a psicanálise está envolvida pelo modo de que as imagem fluem e são multifacetadas e contraditórias que continuam a nos desafiar depois que se fecha o livro.
" (...) o que sobra de um povo sem o seu imaginário? Deve ser por isso que o primeiro ato das ditaduras é proibir imaginação. Nada asfixia mais que nos vermos privados de inventar".
Romance impregnado de brasilidade, ou melhor, das forças do fictício e da ação que se juntaram nas origens e construção da memorável história brasileira, A república dos sonhos (prêmio APCA/1984) é dos livros que vêm para permanecer. É imposto desde cedo, não só como um marco na obra até atualmente produzida pela autora, mas como também um dos pontos mais supremos da ficção que tem tentado domar, com a palavra poética, a complexa realidade brasileira de ontem e de hoje.
Jogando, para o primeiro plano da narrativa, o espaço utilizado pela memória ancestral na construção e colocação da vida e da história, Nélida Piñon tece a efabulação romanesca profundamente orientada pelo tempo-emoção. Tempo que marcaa estrutura labiríntica dos gestos, das falas, dos seres, de situações, de momentos ou até mesmo paixões domados nesse amálgama vivo que nos vai revelando a saga da família Madruga e que, simultaneamente, instaura seu histórico de um Brasil-em -processo.
Já em torno de um eixo-motriz (a emigração vista como elemento transformador e construtor da realidade brasileira) vão se enredando os vários planos narrativos - o do presente, ou do passado e futuro, o individual e o coletivo, o dos fatos ou dos sonhos, o de Madruga, do avô Xan, de Breta, dos demais personagens ou até mesmo o da narradora... Embricados uns dos outros tais planos resistem a uma ordenação lógica quando se pretende delimitar com exatidão onde cada qual começa ou acaba.
Além disso, dos diferentes focos narrativos acabam se misturando em perfeita coerência com a fragmentação das memórias que ali se falam. Esta tal mistura, todavia, não impede a compreensão de tudo aquilo que ali vai se revelando. Pelo contrário, é desta base desse aparente labirinto que a verdade maior da realidade e do imaginado pode ser atingida até o íntimo. Um exemplo, nada mais verdadeiro ,compreensível de ser longe e linear(como a do realismo histórico) que a imagem do Brasil caótico, vivido febrilmente pelos personagens de A república dos sonhos , é uma imagem fluida, multifacetada econtraditória que continua a nos desafiar depois que se fecha o livro.
Romance empapado de vida e paixão, Nélida Piñon é, simultaneamente, a escritora consciente de si mesma que, à medida que forja as realidades humanas a seres reveladasao leitor, fala de sua própria tessitura verbal, algo tão vivo, sensível e poderoso com a própria vida ali representada pela ficção.
Em A república dos sonhos , Madruga (emigrante galego que funde a própria vida com a do Brasil) é o ser ativo, a força-em -ação que, fecundada pela memória, constrói a historicidade. Embora seja também aquele que pretende ser consciente da ação e da verdade nela contida para através dela conhecer ser verdadeiro Eu e o real valor de seus gestos, é um personagem que tem a ação dos fundadores e tem o espírito no lugar. Esse ser-de-ação é um dos arquétipos obsessivos na obra da autora, e Madruga o realiza com grande força e beleza.
Expressão de arte em criatividade e paixão, A república dos sonhos é dos livros indisénsáveis que a juventude brasileira deve ler e reler, para achar a realidade nacional como paixão, fé e atitude interior que revela certas faces do povo híbrido que a população brasileira é, com nossas grandezas e misérias também. E diz-se indispensável porque o momento de hoje não admite mas esperas: cada vez mais estamos virando uma nova página ou folha de nosso país. Para que a nova era em que estamos, neste avanço, é dever dos jovens se sintonizarem com o espaço geográfico-histórico-existencial em que lhes foi dado nascer (ou para qual vieram, trazidos pelas situações-problemas). Não se deve atuar fecundamente no presente sem o lúcido e consciente conhecimento do passado e o sonho/esperança de um futuro mais justo e mais belo para todos os homens.
Uma bela lição de paixão pela vida, " pelo sonho intenso que seja símbolo " pela terra onde nascemos ou estamos fixados, pela criação literária reconhecida como forma de realização existencial , é o que A república dos sonhos tem a nos apresentar.
Nélida Piñon usou muito os fatos a serem expressados no livro como a saga de Madruga e sua época do século que se apresentava a guerra, desta forma convém a ressaltar que Nélida Piñon transformou o personagem Madruga como forma em memória e essa memória tornou-se em trajetória de expressão de arte em vida. Acreditamos e aceitamos que a leitura e análise deste livro de Nélida Piñon em relação ao tempo irão demonstrar, no decorrer desta pesquisa, como o resgate da memória de uma vida (o personagem Madruga) pode servir de material rico e maravilhoso para a construção de uma obra romancista.
Na Literatura Brasileira, encontramos uma variedade muito grande de escritores renomados, contudo, o interesse pela análise deste livro "A República dos Sonhos" surgiu em memorian de meu pai, ao qual a saga do personagem me maravilhou pela sua valorização do cotidiano, da estória retratada por uma pessoa idosa que demonstrou que todos íamos capazes de produzir e recordar de um modo próprio e individual, que caracteriza a maioria das histórias contadas por pessoas idosas, uma memória rica e marcada pela cumplicidade, com idas e vindas a passadas mais remotas do próprio contador (infância) e fatos mais recentes da região.
O que se pretende estudar o tempo na obra de Nélida Piñon não é como e em a obra foi escrita, mas o tempo que reúne as recordações de fatos passados que se conservam na memória com o das histórias contadas.
AS FACES DO TEMPO NA OBRA DE NÉLIDA PIÑON
A república dos sonhos já foi objeto de estudo de alguns críticos contemporâneos, mas são escassas tais análises.
Em sua obra, Nélida Píñon utilizou o tempo passado que revela-se contundente: as vivências da meninice, as dificuldades da ordem material e emocional.
Segundo Thompson (1920), a medição do tempo esta comunente relacionada com os processos familiares, no ciclo do trabalho ou das tarefas domésticas.
Para Pritchard (1999) que analisou o senso do tempo para a sociedade nuer¹, as horas do dia e a passagem do tempo são basicamente a sucessão de tarefas, como cuidar do gado e a rotina das tarefas pastoriais e a sua relação mútua.
Afirma ainda que em Madagascar, o tempo pode ser medido pelo " cozimento do arroz" o pelo fritar de um gafanhoto. O que se pretende dizer com estes exemplos é que a noção do tempo para cada sociedade não é uma medida exata, surge de diversos contextos e sua passagem pode ser descrita de diversos modos.
Na temporalidade literária, salientam-se as relações presente/passado/futuro, criando tempo. Segundo Massaud Moisés(1987), o homem tem a sensação de superar a brevidade da existência e de identificar-se com o tempo cósmico, eterno e em termos de análise literária , podemos classificar o tempo em cronológico, psicológico, mítico e histórico.
O tempo psicológico não apresenta um tempo absoluto, mensurável, subjetivo, situando-se no nível da experiência individual, como pensamentos, emoções e sentimentos.
"o mar é a minha memória" Madruga
O que vivemos, está guardado em nossa memória, é passado, presente é a realidade e o futuro é uma incógnita, e que de acordo com HENRY BERGSON (19990) o passado e o presente, preparando para o futuro unem-se num movimento progressivo, ou seja, o movimento que avança o passado para o presente e do presente para o futuro, e a passagem de cada instante, é que perfazem o tempo. Ele afiança que " O homem não vive no tempo, mas o tempo vive no homem.". (BERGSON,1958, p. 243)
Madruga um dos nosso personagens que é mais ativo, podemos concluir que ele participou do presente que foi construído por experiências, ao qual é ponto de sua
¹ Povo do Sudão meridional, agrupamento pastoril que dedica-se à pesca e à agricultura. O seu modo de existência dispensa lideranças de qualquer espécie.
existência, com alegrias, tristezas, fraquezas, o passado é o arquivo destas experiências são passadas desde o seu avô Xan em contar ao neto Madruga as histórias dos ancentrais celtas e galegos, a fim de que estes por sua vez um dia as contasse
A outros, e estes a outros... perpetuando-se assim o espírito do lugar e cumprindo-se a vida. Não é outra a obsessão de Madruga quando começa a envelhecer: contar para a neta Breta as histórias que iluminaram / aqueceram sua infância na Galícia e sua vida madura no Brasil, para que elas as preservasse do esquecimento quando ele se fosse.
Em decorrência dessa visceral ligação com a grandeza do passado, na vigorosa personalidade de Madruga, duas realidades que se chocam: a dos ideais heróicos que empenhavam o homem por inteiro em uma ação superior e livre, e a dos ideais civilizados que, impusionando uma engrenagem pré-determinada (avessa aos gestos livres), desembocam na ação pragmática / progressista que abriu caminho para esta nova e imprevisível era em que estamos entrando. (Como conciliar ambos os ideais a fim de que a vida se torne mais digna de ser vivida é um problema ainda em aberto e solucionado por poucos...).
Recuperar a noção de tempo em sua obra é reunir as experiências de sua vida descritas nos fatos e casos relembrados. Experiências transformadas em memória de vida e expressão de arte.
MEMÓRIA: O SENTIDO E AS RECORDAÇÕES DE UMA VIDA EM FORMA DE ARTE
Bernardo Tanis (1995) diz que a memória nos conecta com a origem, como por exemplo as fotos de família, que se estabelecem um caminho de continuidade com o presente. As imagens guardadas na memória permitem tocar emoções que escapam a linguagem verbal, como as lembranças de músicas, cheiros, comidas ou paisagens da infância.
Muitas vezes escutamos uma música e nos lembramos de momentos, ou quando sentimos o cheiro de uma comida, lembramo-nos da casa de nossos pais ou avós. O perfume de uma flor ou de alguém que foi importante também podem fazer com que a nossa memória seja ativada.
Quantas vezes olhamos uma foto de alguém que já partiu e nossas lágrimas temiam em rolar pelo nosso rosto, fazendo-nos reviver o momento da perda, trazendo-nos fortes lembranças.
Dividido entre a legitimidade e o equívoco de seus atos na vida, Madruga ambiciona se perpetuar na memória da neta através das histórias de um tempo essencial que ele herdara e tentara perpetuar em si como orgulhoso elo entre as eras bárbaras/ heróicas e o tempo-de-transformação que lhe coubera viver.
Tanto o avô Xan como o menino Madruga viviam no estágio dos sonhos, tão importantes para fecundar a ação construtora que a vida exige. Da mesma forma, a situação se repete com Madruga e a neta Breta. Filhos e pais não são tocados pela magia desse imaginário porque, evidentemente, vivem o tempo-da-ação e da busca do autoconhecimento através da própria força a ser transformada em ato.
Breta opta por uma nova forma de memória: a criação literária. Não será fala mediadora da memória ancestral, tal como o foram seus antepassados. Sua mediação se fará pela escrita. Ao se perguntar:
"(...) quem no futuro assumiria a minha alma? A quem deixá-la sem testamento para que seu dono a recolha na hora aprazada?"
Ela mesmo responde, quando decide escrever o livro:
"(...) sobre aqueles imigrantes que venceram o Atlântico em épocas distintas, com o intuito de aportar no Brasil para sempre. Uma história, entretanto, precária, a que faltarão pedaços preciosos. Afinal, e volto a repetir, a quem devo fidelidade? Ninguém deve fidelidade à vida. Ela nos embaraça e nos embarga o tempo todo. (...) Ainda assim escreverei o livro."
A vida filtrada pelo sonho, pelo imaginário, é o que tece a escritura e a trama romanesca de A república dos sonhos, cujas últimas linhas "(...) sei que amanhã começarei a escrever a história de Madruga" remetem para as primeiras "Eulália começou a morrer na terça-feira". Fecha-se o círculo e esta completa a saga da família de Madruga, feita de esperanças, vitórias e derrotas dos que, emigrando para o Brasil, "a república dos sonhos", o enriqueceram com a doação de seus seres, de seus sonhos e de seu trabalho transformador.
Sendo assim, a hipótese confirmada neste trabalho é demosntrado como um resgate das memórias de Breta, Madruga e até mesmo da escritora puderam mostrar a trajetória de uma vida, repleta de sensações e sentimentos flui a própria história brasileira destes últimos 50 anos, registrando convulsões político-sociais internas desde o fim da velha República, a guerra civil na Espanha entre muitos conflitos resultou em expressão de criatividade e paixão no livro A República dos Sonhos deve ser um dos livros que a juventude brasileira precisa ler e reler com urgência para entender a realidade nacional como fé e atitudes que desvenda certas faces do povo que somos, com nossas grandezas e misérias. Uma lição de amor pela vida, pela terra onde nascemos ou até mesmo vivemos, e pela criação literária identificada como realização existencial A República dos Sonhos é o que tem a nos oferecer.
Referências:
BELCHIOR, Mendes, Lauro. Mémórias do presente. Belo Horizonte,2000
BOSI, Ecléa . Memória e sociedade: Lembranças dos Velhos.
CALLUF, Emir. Sonhos, complexos e personalidade. Editora Mestre Jou
CHAUÍ, Marilena Convite a filosofia. São Paulo: ÁTICA
CUNHA,Alcides, Jurema. O que Freud realmente disse. Porto Alegre: Globo,1972
DANERI, Antônio de Pádua. A água e os sonhos : ensaios sobre a imaginação da matéria. 1ªed, São Paulo: Martins Fontes,1998
GEERTZ,Clifford .Pessoa, Tempo e Conduta, In: A interpretação das Cultura. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A,1989
HALBAWACHS, Maurice. A memória coletiva. Trad. Laurent Leon Schaffer, São Paulo: Vértice,1990
MASSAUD, Moisés. A criação literária - Poesia. 14ª ed. São Paulo: Cultrix, 2000
-A análise literária . 13ª ed. São Paulo: Cultrix, 2002
PIÑON, Nélida. A república dos sonhos (rom.). Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1984
PRITCHARD, E.E.Evans. Tempo e espaço, In: Os Nuer. 2ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva S.A -1999
PROUST, Marcel , Em busca do tempo perdido. Trad. Lúcia Miguel Pereira. 12ª ed. Rio de Janeiro, Editora Globo. S/d
São Paulo: USP,1979
TANIS, Bernardo. Memória e Temporalidade; sobre o infantil em psicanálise. S ão Paulo, Casa do psicólogo,1995
THOMPSON, E.P . Tempo, disciplina de trabalho, In: Costumes em Comum. São Paulo, Editora Companhia das Letras ,1999