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Um crime delicado ou a obscura lógica da verdade alheia
Silvana Martins Bayma (Colégio Pedro II - RJ)

Há mais de dois séculos, os filósofos iluministas, por intermédio da Enciclopédia , reafirmavam a crença na razão a qual, filiando-se a uma tradição que remonta a Platão e passa por Descartes, torna-se, a partir do Iluminismo, instrumento por excelência da modernidade. A razão teria como característica natural o fato de, livre de qualquer coação, sempre irromper. Tal premissa dominou o Ocidente até poucas décadas.

Entretanto, um primeiro questionamento vinha se solidificando: a razão sempre surge, mas através da verdade de quem? Essa pergunta foi respondida de diferentes formas ao longo dos tempos, até que, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, fez-se a travessia : cresce no ser humano a suposição de que não há razão em abstrato, mas verdades sustentadas por pessoas concretas, com diferentes interesses, desejos, receios. Ao se perceberem como não portadores de uma verdade única, homens e mulheres desacreditaram da soberania da razão. Surge, assim, uma corrente de pensamento - por muitos chamada, não sem problematização, de pós-moderna - a qual acredita que tudo o que se possa dizer do mundo passa necessariamente pelo crivo de nossas subjetividades, sendo portanto construtos , elaborações por elas construídas.

É dentro desse contexto que se manifesta uma espécie de crise na literatura, a partir do discurso filosófico sobre o "inevitável fim de tudo": a liquidação do sentido da História, a morte do sujeito, o esgotamento da literatura, a inviabilidade da crítica.

O presente estudo, partindo desse universo contemporâneo e sua problematização, deseja refletir sobre Um crime delicado , romance em que a relativização da verdade e o questionamento do cânone se fazem de variadas formas, até culminarem praticamente explicitados pelo protagonista que, crítico de arte, mostra-se ao leitor como possível estuprador da arte , (in)delicada metáfora para alguém que viola modelos...

O livro de Sérgio Sant'anna, refletindo nossa sociedade de valores relativos por meio de uma espécie de ironia cínica que beira o humor negro, incomoda, sendo por vezes até desagradável ao incorporar o kitsch, ao questionar os limites entre o bom e o mau gosto: a "mocinha" do romance, mulher manca e modelo de um quadro que explora sua deficiência física, é supostamente estuprada pelo "herói" da história.

Afinado com um certo apelo comercial típico da literatura pós-moderna, o romance configura-se, pois, como uma mistura de erotismo, memorialismo e novela policial, em que o possível crime do narrador-personagem deverá ser desvendado pelo leitor através de "pistas" fornecidas pelo suposto criminoso.

Assim é que o protagonista, o crítico de teatro Antônio Martins, vai tentar reconstituir, em flashback , os desdobramentos de sua estranha relação com Inês, mulher bonita, misteriosa e coxa, que ele conhece casualmente no metrô e por quem se apaixona. Inês é modelo - e não se sabe se também amante - do artista plástico "divergente" Vitório Brancatti, que monta um bizarro apartamento para ela e a mantém financeiramente. Após comparecer a uma exposição na qual se depara com um quadro de Vitório exibindo Inês e seu defeito físico na intimidade, o crítico de teatro Antônio Martins se deixa tomar por reflexões teóricas sobre os limites, o valor e o real da arte - questões que, aliás, permeiam todo esse metaromance - enquanto o homem Antônio Martins sucumbe de ciúme e desejo.

Convidado por Inês a um chá em seu apartamento - que aos poucos, vai se configurando, ele próprio, aos olhos do leitor, como uma obra de arte in progress , uma espécie de instalação - surge um clima sedutor e se consuma entre eles uma relação sexual, após a qual, porém, Inês chora e Antônio Martins se retira.

No dia seguinte, ele é acordado, perplexo, com uma acusação policial de estupro, crime sobre o qual, embora ele afirme não ter cometido, a narrativa não fecha questão, construindo, retrospectiva e contraditoriamente, diversas possibilidades de interpretação do ocorrido, desde a veracidade do estupro até a visão deste como uma armadilha de Inês e Brancatti para promoção de sua obra. O próprio Antônio Martins colabora para o clima ambíguo: "Pois eu mesmo me perguntava se era de todo inocente. Ou melhor, se desejava essa inocência completa" 1. Sim, porque o episódio ambíguo servirá de base à criação da obra do crítico Antônio Martins - seu relato em livro, simbioticamente construído nos limites entre crítica, memória e ficção, já que o "novo autor", ao rememorar o ocorrido, parte de suas lembranças algo frouxas, ficcionaliza-as e as recheia com reflexões críticas sobre arte e vida.

Na verdade, Antônio desejava ser absolvido do pretenso crime, como de fato o foi, mas em seus próprios termos:

elevando-me da mera condição de fantoche manipulado pelo pintor e sua modelo à de ator consciente dentro da obra [...] procurando iluminá-lo um pouco melhor em minha própria obra: este relato

 

O que deseja, então, é ser julgado e absolvido pelos seus leitores, mas não apenas sob o ponto de vista jurídico,conforme veremos.

Isso posto, falemos do leitor, primeiramente. Há aqui no mínimo dois tipos de leitores, sugeridos pelo próprio texto. O leitor-espectador comum e pagante da peça de teatro: leitor comum do romance que a ele teve acesso franqueado, pois a obra é intencionalmente não hermética; e o leitor-espectador especial, convidado e crítico da peça de teatro: o estudioso do romance, especialista em Literatura. Evidentemente, o texto que aqui se escreve é o do leitor convidado a fazer a análise de Um crime delicado . É o narrador que convida o leitor a ser o leitor especial - aquele que, como o crítico, deseja mesmo é criar uma obra ao lê-la:

o crítico é um tipo muito especial de artista, que não produz obras, mas vai apertando o cerco em torno daqueles que o fazem, espremendo-os, para que eles exijam de si mais e mais, na perseguição daquela obra imaginária, mítica, impossível, da qual o crítico seria co-autor.

 

Desse modo, o leitor está sendo convidado não só a avaliar, mas também a ser co-autor da obra - o relato - de Antônio Martins e, por extensão, da obra de Sérgio Sant'anna: o "relato" do relato de Antônio Martins. Se o que é retratado numa obra de arte não corresponde ao real, mas a uma visão desse real , um simulacro dele, o relato artístico de outro relato nada mais é do que um simulacro de segundo grau. Na verdade, há, aqui, uma discussão sobre o real da obra de arte. E que discussão é esta?

Se a realidade de um estupro pode ser discutida através da análise de um quadro, o romance se dispõe a discutir a realidade enquanto mera possibilidade: narra um acontecimento que em si mesmo parece ter, no mínimo, duas realidades - a do acusado e a da vítima, através do questionamento implícito no lugar marcado do narrador-personagem. No caso um crítico de teatro, que se reconhece finalmente como "estuprador da arte" , pois seu "exacerbado racionalismo" não o impede de ter sentimentos que podem liberar-se "através do crime" . Crime cometido contra a obra, contra o artista ou contra o modelo da obra?

Se Antônio Martins "é um exemplo vivo e eloqüente dos extremos patológicos a que pode ser conduzida uma personalidade" contida pelo racionalismo, o crítico está sendo visto como um criminoso potencial. Seu crime talvez seja contra a arte em geral, pois sua crítica é uma construção subjetiva, mediatizada pela linguagem, que aponta uma opinião como a Verdade, quando a arte - e a vida - apresenta verdades, no plural. Uma reflexão tal supera a tendência simplista de se afirmar que o mundo não tem sentido: os sentidos são inúmeros e qualquer sentido existente passa por nossa própria criação.

Isso nos conduz ao que parece ser o tema central do(s) livro(s), nas palavras do autor: "uma busca apaixonada, tanto interna como externamente, da verdade , com tudo de escorregadio e multifacetado que o seu conceito implica" (grifo nosso)

Ora, essa "busca da verdade" acaba por colocar "em evidência os conflitos entre verdade e mentiras, diferentes percepções da verdade, fatos e crenças e verdade e ilusão" . Porque, assim como não existe uma só Verdade, tampouco existe a Mentira: apenas verdades alheias. Assim, Um crime delicado , antenado com o universo contemporâneo, questiona de quem é a verdade que prevalece sobre as demais, examinando também o processo pelo qual ela se constitui. Nesse jogo, a estratégia narrativa de Sérgio Sant'anna acaba por envolver o leitor, conduzindo-o ao reconhecimento das verdades plurais.

A mesma relativização que se tematiza é também construída em nível formal: o "romance" incorpora o discurso ensaístico, memorialista, realista, dramático, numa hibridização que dá o último golpe na já superada questão dos gêneros literários. Na verdade, a problematização dessas fronteiras é ainda mais radical: questionam-se os limites entre ficção e não-ficção e, por extensão, entre arte e vida, pois é como se as palavras "criassem a verdadeira realidade" :

na obra de Brancatti e neste relato encontra-se o absurdo, a loucura da arte, essa tentativa ansiosa, desesperada e às vezes vã, de [...] registrarmos [...] nossa passagem pela vida.

 

Analisado o leitor, passemos ao narrador.

Antônio Martins é o que, nas categorias canonizadas da teoria do romance, chamamos de pseudo-autor. É aquele que - tendo uma visão pessoal dos fatos - apresenta a realidade de dentro dela, mas na perspectiva mesma desta visão. Ocupa um lugar privilegiado, comparável ao lugar da poltrona especial do crítico de teatro, mas o seu tom é o da parcialidade, uma vez que ele responde/age como personagem também movido pela ação de outras personagens. É interessante observar, no texto do romance, como o narrador busca o sentido deste lugar que ele ocupa:

Mas antes que o meu corpo desaparecesse por inteiro no subterrâneo - e vejo a mim mesmo enquanto narro - tive a idéia de olhar para trás .

 

Ver-se a si mesmo: esquizofrenia do narrador-personagem que se quer narrador de 3ª pessoa? Na verdade, o texto pós-moderno recusa a onisciência e onipresença da 3ª pessoa, como o romance em questão, que prefere a provisoriedade de um ponto de vista parcial - e talvez cínico - mas que acaba por se transformar em ambíguo face os lapsos de memória de quem narra. Senão vejamos.

Sou crítico. Tal declaração [.] me faz rir por todas as conotações da palavra. Mas foi justamente por essa ambigüidade que quis definir-me assim, já que poderia ter esclarecido, desde logo, que sou um crítico profissional de teatro [...]. Mas a profissão talvez explique muitas coisas em meu comportamento e na minha forma de viver, em minha personalidade .

 

Que conotações de "crítico" poderiam interessar a essa definição de si mesmo, como personagem e narrador? Pela função sintática que exerce em"Sou crítico" - o termo tanto pode ser um adjetivo como um substantivo; sobretudo se levarmos em conta que o narrador pretendeu a ambigüidade como autodefinição. Durante a sessão de uma peça de teatro, o crítico "desaparece por inteiro no subterrâneo da platéia" . Não há luz sobre ele: "...não houvesse eu, resguardado pela penumbra, sentido uma emoção e prazer secreto ao assistir a ela" . É este o lugar do crítico: ele está na sombra. E, sem contornos definidos, busca uma posição/função/papel para si mesmo. Nas três páginas seguintes, discorrerá sobre a crítica que faz à peça "Folhas de outono", deixando ao leitor alguns indícios - a que chamaríamos pistas - através dos quais poderemos nos aproximar dele: "ser crítico é um exercício da razão";"o que não significa que estejamos imunizados contra a sedução das emoções . ";"Mas devemos estar em guarda contra elas."; "não estaria me perdendo em digressões teóricas e teatrais que só têm cabimento aqui à medida que se relacionam com o caso Inês?";"Era, dei-me conta, um elogio[.]Mas não se encontraria aí o dedo, ou melhor, a imagem de Inês, cuja figura insistia em pairar, no decorrer da peça, em meu palco interior ?

Perceba-se como é que o crítico (puro exercício da razão) pode também exercer a crítica não do objeto criticado ou a partir dele, mas de algum sentimento que, não estando nele pode tomá-lo como metáfora para se expressar. O texto que, afinal, sai publicado nos jornais é um recado para Inês. Fala do "palco interior", do crítico que o concebeu. E não só do palco onde se passou a peça. Terá o crítico traído a razão ao ceder ao sentimento? O fato é que a vida sentimental norteou a crítica. Diz o narrador: "Mas existe algo mais forte que a razão, aniquilando o crítico dentro de nós." Quem mais saberia disto no momento da publicação do texto de Antônio Martins sobre a peça, no jornal? Certamente, os "outros personagens Antônio Martins", que vão pôr em relevo um dos paradoxos típicos do pós-moderno: a problematização da subjetividade, simultaneamente afirmada e estilhaçada em Antônio Martins: Um crime delicado diferencia as vozes dialogizantes e depois as mistura ou dispersa. E aqui o jogo de espelhos se faz dentro: narrador = crítico = personagem central. Os papéis se confundem propositalmente diante do leitor que deve julgar essa obra: "Eu estava vivendo em dois planos " (grifo nosso). O leitor precisa estar atento para saber, a cada momento da narrativa, em que plano está o narrador. Mas, se ficar por aí, preocupado em nomear os planos, perderá outras pistas igualmente interessantes. Mais do que provar alguma coisa ou chegar a algum lugar, o leitor - se quiser ser audacioso - deverá, à maneira do narrador, seguir como um bêbado que se esqueceu do que aprendeu sobre categorias de personagens:

Sofro de amnésia parcial, às vezes quase total, depois que bebo em excesso[...]. Mas o álcool costuma romper minha timidez, levando-me a certos ímpetos de audácia[...]" .

 

Continuemos com a audácia.

Inês é modelo. O crítico apaixona-se pelo modelo. Como estar livre para criticar estando-se apaixonado pelo que é modelo? Vejamos o que diz o crítico-narrador:

". continuo a exercer o meu ofício com a serenidade a isenção que sempre me guiaram, excetuadas as duas ocasiões a que me referi neste relato, quando das matérias sobre "Folhas de outono" e "Vestido de noivas", em pecadilhos cometidos direta ou indiretamente por causa de Inês.

 

Se o leitor - tal qual o especialista que forjou as suas críticas a partir de uma situação emocional que feria a sua racionalidade crítica - está se deixando envolver pela narrativa, não estará também sendo tocado por algo extrínseco ao texto? Não estará abandonando o common sense do bom gosto para aderir ao kitsch? Na verdade, o narrador parece pretender, ao narrar o que realmente aconteceu , criar uma espécie de confronto entre categorias mais ou menos canonizadas no discurso literário e certo modelo narrativo. Quem é o narrador? Quem é a personagem? Qual a obra de arte que se está construindo? O romance? O quadro? A instalação? A peça de teatro? Qual o conflito da narrativa? Será o estupro do que é modelo? Inês estaria no lugar daquilo que precisava ser estuprado (o paradigma canônico) para que a obra (o quadro e/ou o romance) pudesse surgir em toda a originalidade? Quem criou a ficção? Ou não há ficção? Existem apenas versões da realidade e a obra de arte é mais uma delas?

O fato é que, se o "sexo [é] transgressor entre atriz e crítico" , como Antônio Martins opinou com relação a uma atriz com quem mantivera relações sexuais, também o é entre crítico e modelo. Sobretudo se metaforiza a violação do cânone... Seja como for, o pseudo-autor acredita que

se estupro houve, rigorosamente falando, ele teria acontecido dentro de um quadro, cenário, instalação - ou seja lá como se queira classificar aquela obra - fazendo parte da mesma" .

 

Se a violação cometida - "sem dúvida que eu rompera certos limites demarcados, a princípio por Brancatti e Inês, não apenas penetrando na obra e na modelo, mas fazendo com que esta se rendesse a mim..." - , se o "estupro ao modelo" "faz parte da obra", ele também é arte. Estaria o pseudo-autor legitimando seu próprio modelo narrativo face às categorias literárias canonizadas com as quais se confrontou desterritorializando-as para afirmar sua arte? Talvez sim.

Na verdade, uma arte híbrida, sem limites rígidos, parece bastante coerente com um mundo globalizado, de fronteiras móveis e conceitos relativizados. Todas as "obras" dentro do "romance", desde a "peça escrita" por Antônio Martins (no limiar do relato factual e da ficção) até a instalação de Brancatti no apartamento de Inês (uma obra tridimensional, extensão da escultura que dela extrapola para trabalhar a semiologia do espaço), passando pelo "gênero impuro" de Sérgio Sant'anna, são produtos de arte híbrida que só vêm ratificar a relativização dos conceitos a que nos temos sistematicamente referido.

As últimas palavras de Um crime delicado encerram uma espécie de convite do pseudo-autor para seus leitores julgarem a obra de Brancatti e o narrador:

E para escrever[.] sobre tal obra, expondo-a, e o que existencialmente a circundou, em todas as suas contradições, truques, ambigüidades e divergências , jamais poderia lográ-lo no espaço crítico de um jornal e sim gerando minha própria e pequena obra. Que por ela tentem avaliar melhor a de Brancatti - e conseqüentemente julgar a mim, tanto criminal quanto profissional e, ouso dizer, literariamente - os leitores e também os críticos, meus pares.

 

Sérgio Sant'anna "traz", portanto, seu leitor para dentro da narrativa, fazendo-o não só participar, mas acumular papéis: de leitor passa a "personagem", co-autor e, por último, crítico, pois só após "conhecer" o quadro de Brancatti será possível, talvez, avaliar o narrador, conforme lhe foi pedido. Mas que espécie de julgamento pretende o narrador? Na verdade, aqui, não mais o do estupro de Antônio contra Inês, pois, no tribunal, foi absolvido por falta de provas e, no texto que escreve, fornece ao leitor as mesmas provas apresentadas no tribunal. O que, enfim, ele deseja é o julgamento literário do leitor e dos críticos, seus pares , e não qualquer outro. Afinal, "o que realmente aconteceu" no romance é invisível aos olhos do leitor, ainda que este "entre" na narrativa, pois a Verdade não existe: existem verdades, ainda que obedeçam a obscuras lógicas .

Resta, ainda, uma questão: tendo Brancatti colocado Antônio dentro de sua instalação, também este pretende pôr Brancatti como personagem dentro de seu romance, incorporando tudo o que a ele se refere em sua "própria pequena obra" . Ora, se o quadro de Brancatti é uma espécie de tributo ao "mau gosto", como deverá(ão) ser lido o(s) romance(s)?

Com efeito, o que Sérgio Sant'anna realiza aqui é outra travessia imaginária - a superação do que Andreas Huyssen chama de O Grande Divisor : "o tipo de discurso que insiste na distinção categórica entre alta arte e cultura de massa" 2. Essa divisão "foi sendo cada vez mais posta em xeque pelos recentes desenvolvimentos das artes, do cinema, da literatura, da arquitetura, da crítica" 3, como se pode atestar em Um crime delicado , que questiona os limites entre "bom gosto" e "mau gosto" ao incorporar, em sua exegese, o kitsch.

Desse modo, Sérgio Sant'anna, aliando a diluição das fronteiras entre alta arte e cultura de massa à qualidade literária - traduzida numa narrativa coerentemente urdida, num bom trabalho de linguagem e numa convincente construção de personagem - e incorporando a essa fórmula reflexões sobre o universo contemporâneo, logra, a despeito de trabalhar o "contragosto", seduzir o seu leitor. Assim, Um crime delicado coopta o leitor a questionar, à maneira pós-moderna, não "qual é a verdade que se onta, mas de quem é a verdade contada" 4, uma vez que a literatura "não é o reflexo do real" 5, mas o real de um reflexo . Um dentre tantos.

 

SANT'ANNA, Sergio. Um crime delicado .São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.119. A partir dessa citação, usaremos itálico sempre para iluminar, no próprio corpo deste texto, os trechos do romance-objeto desse estudo a que precisarmos aludir.

HUYSSEN, Andreas. Memórias do Modernismo . Rio de Janeiro: UFRJ, 1997, p.9.

Ibidem, p. 9

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago,1991.

BADIOU Alain. Autonomia do processo estético , in Estruturalismo: antologia de textos teóricos, Eduardo Prado COELHO (org). Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1970,p.2.