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A hora da estrela e a vez da crítica da cultura
Marta Francisco de Oliveira (UFSM)
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento."
Clarice Lispector
Quando em 1977, época de grandes acontecimentos no cenário brasileiro, Clarice Lispector escreve A Hora da Estrela , destacando uma personagem nordestina que, de alguma forma chegou ao Rio de Janeiro e ali vive, ou sobrevive, fica evidente que a questão social , bem como a questão cultural, a preocupam enquanto escritora consciente das diferenças e desigualdades existentes no país, assim como o poder manipulador exercido pela mídia sobre os indivíduos, que ela mesma pôde observar e presenciar.
Segundo um consenso crítico, A Hora da Estrela é o primeiro livro de Clarice que aborda de maneira explícita a questão social, ao apresentar Macabéa, uma alagoana que pode ser considerada uma alegoria, vivendo desajustada em uma cidade que não a recebe, por ser "toda feita contra ela" (p. 29 ). A moça agrega em si a história de todo e qualquer retirante nordestino que atravessa a literatura, a cultura brasileira, além de espelhar, com não menos intensidade, a história de todos aqueles que se encontram na condição de margem, socialmente e culturalmente falando.
Assim, Macabéa representa a figura de um sujeito isolado, segregado, marginalizado por um sistema social que o conduz a um exílio, excluído, mesmo que geograficamente se encontre dentro de sua cultura, de seu país. Ou seja, pertence por não pertencer. É um estar dentro que espelha um ser fora. Literalmente à margem. Clarice, mais do que escancarar tal condição, a questiona, quando não se esquece de dizer que Macabéa é um subproduto, um mero rebotalho social, isto é, uma pária da sociedade e, por extensão, da cultura oficial.
Macabéa demonstra a índole passiva de alguém inadaptado e despreparado para a vida em uma grande cidade, mas que precisava adaptar-se para viver "satisfatoriamente" em um lugar diferente, inusitado e pouco receptivo. Na verdade, que espaço, que lugar não o seria para ela, não é mesmo? Aliado a isso, ela própria era "incompetente para a vida", "faltava-lhe o jeito de se ajeitar"(p. 39) e, talvez por essa condição, como nordestina, conformava-se, não reagia, não percebia sua infelicidade; era, antes de tudo, paciente, sem ambições; chegou mesmo a dizer que achava que não tinha que vencer na vida, contente que estava com apenas seguir vivendo. Era isso: ela vivia, e só. Não é `a toa que a autora dialoga com toda uma tradição da literatura e da cultura brasileiras ao nos dizer que o sertanejo é antes de tudo um paciente . Macabéa, em nenhum momento do livro, dá-nos a impressão de ser uma forte , como o sertanejo retratado por Euclides da Cunha em Os Sertões . Muito pelo contrário, essa anti-heroína padece da falta de esperança, sofre de um mal social incurável, desprotegida que é e, como se não bastasse, literalmente improdutiva (tinha ovários secos). A raça-anã da qual Macabéa faz parte, e que é assim retratada, desenhada no livro por Clarice, não possui ainda o direito ao grito reivindicador tão esperado. A escritora, enquanto intelectual e sabedora de tais problemas, almeja, vislumbra o direito ao grito pelos marginalizados, mas, por nenhum momento da narrativa, sequer ventila a idéia de que Macabéa, ou qualquer outro, abra a boca. Em outras palavras, o interdito não carece de ser dito no livro. Essa, pelo menos, parece ser a proposta crítica inicial de Clarice Lispector.
Além de toda a problemática social do grupo marginalizado ao qual pertence Macabéa por sua total falta de recursos, condição que lhe permite um ou outro "luxo" de vez em quando, como ir ao cinema, e porque, como já dito, não esperava nada da vida, culturalmente (considerando o que diz Raymond Williams ao analisar a história e os usos do termo cultura , como nome de um processo , a saber, o cultivo ativo da mente humana 1 )
esta alagoana também encontra-se à margem: não é uma "pessoa culta", "de cultura", em "um estado mental desenvolvido" e, sendo assim, tampouco é detentora dos meios e "processos desse desenvolvimento". A nordestina não é exatamente uma personagem leitora, sua paixão não são as belas-letras, mas os anúncios que desde cedo começou a ler e colecionar. Estes despertam seu desejo, como deixa claro a delícia que sente ao imaginar poder algum dia possuir o que anuncia seu recorte mais precioso: um pote de creme para pele, que anseia, não usar, mas comer ( "Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, às colheradas, no pote mesmo." - p. 54). Nesse aspecto, seu despreparo a torna , como aos demais retirantes, presa fácil dos meios de comunicação que disseminam uma cultura voltada para as massas, a indústria cultural que necessita vender seus produtos e manipular hábitos de consumo.
Se essa crítica à cultura industrializada, massificada é pertinente, por outro lado é inevitável. Basta lembrarmos que a ascensão da cultura de massa no Brasil se dá por volta da década de 70. Desse modo, a escritora, por estar pensando e escrevendo o livro nesse contexto, não poderia deixar de fora tais diferenças culturais tão importantes, sobretudo para o descentramento de uma cultura letrada da época. Daí ser altamente significativo, no livro, considerar fatos aparentemente insignificantes, como Macabéa ouvir a Rádio Relógio, ir ao cinema, e sonhar em ser como as estrelas hollywodianas Marilyn Monroe e Greta Garbo.
O desejo de Macabéa reaparece em outras ocasiões, como quando cobiça um livro de seu chefe e um homem bonito que um dia vira em um botequim. Porém , como
flashes ou anúncios sucessivos rapidamente substituídos, são vistos, desejados e descartados; o título do livro - Humilhados e Ofendidos - a fez pensar, para logo em seguida concluir que não o leria porque não se enquadrava, por jamais ter sido ofendida por alguém e que não há porque lutar se não há luta possível, uma vez que as coisa são como são; e o homem, bonito demais, "além do possível equilíbrio de uma pessoa" (p. 57) , já casado, a deixaria envergonhada. O desejo passa pela impossibilidade material de realização, e é substituído por outro, também irrealizável , como o de ser Marilyn Monroe, que certa vez confessara a Glória.
O título do livro de Dostoievski posto dentro de A hora da estrela acaba revelando mais um retrato de sua protagonista. Diríamos que a autora não o insere ali por acaso (aliás, o que seria por acaso em se tratando de Clarice Lispector); além de todo um diálogo literário e até mesmo biográfico que se instaura, a presença material do livro russo denuncia a condição miserável na qual se encontra Macabéa. Seria, grosso modo , um mundo do qual ela pertencia (o dos humilhados e dos ofendidos) mas do qual não sabia, não tinha consciência que pertencia. O pensamento de Macabéa ao ver o livro do patrão sobre a mesa é significativo, e permite a contemplação do momento em que ela própria se situa no mundo: "Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e pensou!" (p. 56), para mais adiante esquecer e, em todos os sentidos, 'perder-se na multidão'. Parece-nos que o que a salva é sua alienação permanente.
Digno de nota é o fato de que, exatamente no momento em que a cultura de massa avança no país, como já dissemos, Clarice trata explicitamente da questão cultural em sua obra. Como escritora, realmente está atenta às transformações que ocorrem a sua época, como a urbanização acelerada que se transforma em desumana, reflexo de um processo industrial com as mesmas características, o que contribuiu para a formação de grupos de miseráveis e esquecidos, porém expostos à ânsia do consumo, muito embora não possam realizá-lo por total falta de recursos, esmagados que estão pelo "capitalismo selvagem" e predatório, pela invasão de multinacionais, pelo sistema de inculcação de valores e comportamentos levados a cabo pela mídia, sobretudo a televisão. A partir do final dos anos 60 e durante os anos 70, percebe-se certo aumento de interesse pela cultura popular, e as artes e a educação buscam, de alguma forma, exprimir as aspirações da massa, bem como suas reivindicações. Essas questões não podem passar ilesas a qualquer leitura de A hora da estrela .
Por ser uma na multidão, Macabéa é alegoria da sociedade brasileira dentro do contexto acima descrito, reflexo de uma maioria exatamente porque não se dá plena conta de suas condições de vida. Marginalizada, ignorante, miserável, já nascida com "maus antecedentes", sua "herança do sertão" (p. 43), dividindo um quarto de cortiço com outras quatro moças, todas de nome Maria e balconistas das Lojas Americanas, faminta a ponto de às vezes mastigar papel antes de dormir e ouvinte da Rádio Relógio, concentrava-se em pequenos prazeres, os anúncios principalmente. Permanecia atenta ao que era dito na rádio e guardava as informações - talvez tivessem uso no futuro. Influenciável e fácil de ser manipulada, obedecia, à sua maneira, ao que ouvia, como 'arrepender-se em Cristo e receber assim a felicidade' (p. 53). Várias vezes, porém, deparava-se com palavras cujos significados lhe eram desconhecidos.
Tudo isso torna-se evidente , e bastante pertinente, quando conversa com seu namorado, Olímpico, a quem julga inteligente e dono de vasto conhecimento. Diz a ele:
"_ Nessa rádio eles dizem essa coisa de 'cultura' e palavras difíceis," (p. 66).
E 'essa coisa' a incomoda, a intriga, pois não pode compreendê-la:
"A Rádio Relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?" (p.67)
A Macabéa escapa o conceito cultura, principalmente considerando o conceito elitista e dominante. Não se percebe, nem se concebe como possuidora de alguma cultura e não consegue distinguir - entre os elementos que compõem a sua própria vida, sua trajetória no Rio de Janeiro, ou no que ouve na rádio - algo que demonstre ser um traço de uma 'cultura' diferente e interessante. Escapa-lhe, não apenas o reconhecimento da palavra em si, mas o conteúdo semântico da mesma. E não percebe em sua vivência o que possa ser caracterizado como tal. E tampouco Olímpico pôde dizê-lo. Emburrado, responde que "cultura é cultura". Você também vive me encostando na parede." (p. 67); e a autora , ao não responder à pergunta através de um de seus personagens ( até porque este não era objetivo de seu livro), oportuniza a seus leitores desconstruir o conceito de "cultura" canônico, elitista, vigente no Brasil.
Daí podemos dizer que o livro leva seu leitor à busca da resposta deixada em aberto. Entendemos, na verdade, que tal conceito precisa, sobretudo a partir de então, ser repensado, de forma a desconstruir a visão dualista entre cultura e incultura , por exemplo. Parece-nos que Clarice quer nos dizer que o conceito de Cultura (com C maiúsculo) precisa ser descentrado, dilatado, para que nele também se insiram as culturas das minorias, como a "cultura de massa" e a "cultura popular". A título de ilustração, tão-somente lembramos que um dos 14 possíveis subtítulos do livro obriga-nos a lê-lo como literatura de cordel .
Jonathan Culler, ao tratar da importância dos Estudos Culturais nos dias atuais, alerta-nos também para uma compreensão melhor do funcionamento da cultura:
"compreender o funcionamento da cultura, particularmente no mundo moderno: como produções culturais operam e como as entidades culturais são construídas e organizadas, para indivíduos e grupos, num mundo de comunidades diversas e misturadas, de Poder do Estado, indústrias da mídia e corporações multinacionais." . 2
Em A hora da estrela é possível perceber como a questão cultural permeia o texto e influencia sua escritura, desde "as pistas abertas... pelos sinais bibliográficos" da própria Clarice Lispector, que em muitos aspectos pode ser identificada com a nordestina, aos "traços deixados por imagens sociais coletivas nas figurações textuais ", presentes em Macabéa. Os elementos da cultura judaica, a relação de analogia com os Macabeus (livro bíblico apócrifo sobre um povo de mesmo nome), a migração dos nordestinos para as grandes cidades do sudeste brasileiro, suas dificuldades na nova cidade, a crescente utilização dos meios de comunicação e sua conseqüente influência na vida das pessoas servem, em maior ou menor intensidade, mesmo que quase imperceptivelmente, de pano de fundo na criação textual, demonstrando claramente a ligação cultural existente entre autora e texto, vida e literatura, que juntos contribuem para uma visão de mundo tecida no livro.
Ao buscar tal compreensão, é preciso considerar que a própria escritora, quando põe na boca do personagem Olímpico que 'cultura é cultura' como resposta à pergunta de Macabéa, pondera duas questões: (1º) que eles, Olímpico e Macabéa, encontram-se fora do que abarca o conceito de cultura dominante, marginalizados que são, e (2º) que se pode pensar que tudo é cultura , até mesmo aquilo que estava fora do conceito geral de cultura. O que quer dizer que podemos pensar na Cultura como sendo culturas, no plural
Renato Ortiz 3 , ao analisar o que é e quais os efeitos e influências do processo de mundialização e da cultura, chama a atenção para a importância da cultura de massa para o mundo atual. Como um mosaico, o mundo é composto por elementos que são interligados e ao mesmo tempo independentes entre si e a cultura resultante ou produzida por esse mosaico apresenta uma dimensão pluralista. Assim sendo, o que se chama de cultura mundializada corresponde a uma globalização da civilização, a uma civilização que está globalizada, mas que de nenhuma maneira homogeneizou os hábitos e os pensamento humano. Embora a cultura sofra um processo de fabricação industrial que lança seus produtos padronizados no mercado mundial, formando um modelo comum, Ortiz nos leva a considerar que sempre há uma base comum compartilhada por todos à qual se vincula o comportamento individual, mas "uma sociedade é um conjunto de subgrupos cujos modos particulares se distinguem no interior de um modelo comum." (p. 32)
Em qualquer tipo de abordagem sobre o assunto fatalmente inserem-se fatores de ordem política e social, que a literatura, por ocupar-se daquilo que é produção humana, não pode desconsiderar. Se estes não estão presentes no texto que não tem, a princípio, função documental, de expor fatos da vida real, são ao menos determinantes da produção cultural e intelectual de uma sociedade em determinada época. O que ocorre no meio social determina comportamentos, como pode ser visto, de acordo com esta leitura cultural aqui realizada, em A hora da estrela . Como diz Canclini (1996) 4 , o público recorre aos meios de comunicação como o rádio e a televisão em busca de algo que não consegue de outra maneira, e aqui refere-se precisamente àquilo que não é obtido através das instituições cidadãs, compreendidas como órgãos públicos responsáveis por serviços, justiça, reparações ou simples atenção.
Na realidade, esta busca nos meios de comunicação de massa daquilo que não encontram nos órgãos competentes é de certa forma simbólico, porque estes não são mais eficazes em fornecer o que falta do que as instituições, porém exercem seu fascínio devido ao fato de que , de acordo com o tipo de programa veiculado, escutam reivindicações (ou dão esta impressão), movimentam-se mais rapidamente para encontrar uma possível solução em prazos menores e sem transferência burocrática de responsabilidades e necessidades. Se há lentidão e formas opacas na cena institucional, na televisão tudo é rápido, as cenas são como flashes e tudo é transparente. Parece haver, com esta outra forma de olhar, uma reestruturação geral, um reordenamento e remodelação da vida urbana, cotidiana, transformações estas suscitadas pelas indústrias culturais.
Macabéa apega-se ao rádio. É seu prazer de todas as madrugadas ouvir os pingos de som, gotas de minuto que passava. A rádio perfeita, pois entre pouca música, gotas de tempo e anúncios comerciais, ouve curtos ensinamentos, que quase nunca sabe explicar. Mas para ela, importava viver, o que ultrapassa o entendimento, como afirma Clarice Lispector.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela . Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 22 ed., 1993.
FERREIRA, Teresa Cristina Montero. Eu sou uma pergunta : uma biografia de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
HELENA, Lúcia. Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector. Niterói: Eduff, 1997.
IANNACE, Ricardo. A leitora Clarice Lispector . São Paulo: Edusp, 2001.
PORTELLA, Eduardo. O grito do silêncio. In: A hora da estrela . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.
CÂNDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios . São Paulo: Editora Ática, 1989.
CHIPPIANI, Ligia. Pelas ruas da cidade uma mulher precisa andar. In: Literatura e sociedade I , 1996. DTLLC- FFLCH- USP.
CULLER, Jonathan. Teoria literária : uma introdução. São Paulo: Becca, 1999.
SARLO, Beatriz. Paisagens imaginárias . São Paulo: Edusp, 1997.
OLIVEIRA, Marta. O que quer dizer cultura? Cultura é cultura. Projeto de pesquisa em andamento.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura . São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
WILLIAMS, Raymond. Cultura . São Paulo: Paz e Terra, 2000.
1 WILLIAMS, Raymond. Cultura. Paz e Terra. São Paulo, p. 10-11, 2002.
2 CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução , Becca, São Paulo, p. 49, 1999.
3 ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura ,2 ed., Editora Brasiliense, São Paulo, p.13-33, 1994.
4 CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos ,2 ed., Editora UFRJ, Rio de Janeiro, p.26, 1996.