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O Pintor De Retratos: O Olhar Estrangeiro Sobre O Brasil
Marta Lia Genro Appel (UNIFRA)

Luiz Antonio de Assis Brasil em O Pintor de Retratos (2001) estabelece relação entre dois espaços particulares - a Europa e a América, em pleno século XIX. O personagem Sandro Lanari, menino simples, italiano, nascido na pequena cidade de Ancona, porto do Adriático, vai a Paris com o objetivo de melhorar a qualidade de sua arte: a pintura. Passados alguns episódios, o protagonista viaja para o Brasil e se estabelece em Porto Alegre, a capital da Província. Desde as primeiras impressões do personagem acerca do novo espaço, a América, percebe-se a temática do olhar estrangeiro, que busca desvendar o mundo brasileiro, sua força, sua gente, suas limitações e expectativas.

A força motriz do romance está no personagem que visa atingir o reconhecimento profissional, como pintor, e na mediocridade de sua real potencialidade. Seu pai pintava telas (um tanto rudes), mas desejava que o filho pudesse superar as sua próprias limitações artísticas. Presenteou, então, o filho, com a obra clássica de "Cenino Cenini Il libro dell'Arte" com receitas para o bom pintor.Era um exemplar amarelado, com respingos de tinta, e várias dobras nos cantos das páginas. Pertencera aos artistas Lanari desde que vieram para Ancona..." (ASSIS BRASIL, p.18). O pai envia o filho a "cidade luz" - Paris, para que possa aprimorar seu talento. "Sandro levava as economias familiares, e com elas poderia viver meio ano" (p.18).

O grande drama do personagem toma corpo quando, já em Paris, depara-se com uma fotografia do famoso Nadar, retratista francês que viveu durante o século XIX, faleceu aos noventa anos - em 1910. Ele foi autor da primeira foto aérea do mundo, que foi registrada de um balão de hélio. Fotografou figuras muito imponentes, como: Charles Baudelaire, Vítor Hugo, D. Pedro II (o Imperador do Brasil) e Sarah Bernhardt, a "retratada" que tanto despertou o interesse de Sandro Lanari.

Grande diva do teatro internacional, Sara Bernhardt, exerce uma espécie de fascínio sobre Sandro. Durante longo tempo ele permaneceu imóvel, encantado com a força que emanava do retrato. Daí a certeza do talento de Nadar, que conseguiu sensibilizar Mesmo o irritadiço Baudelaire, que dissera ser a fotografia capaz de arruinar o que restava de divino no espírito francês, mesmo Baudelaire posou para seu amigo Nadar. São as fotos mais expressivas do poeta (p.21).

A referência aos nomes de Nadar, Sara Bernhardt, Baudelaire e D.Pedro II permitem ao leitor a clara localização do tempo histórico: o século XIX. A fotografia causa um certo furor, pois a arte do retrato era até então papel do pintor, do artista, que se depara com uma nova possibilidade de registro do homem, em seu tempo: a fotografia.

Sandro, em Paris, foi ter aulas com um dos mestres dos pincéis, René La Grange e sente-se diante de um talento grandioso. Contudo, ao relatar o encantamento pela fotografia, deparou-se com uma reação de indignação, conforme segue:

 

- Se você pensa que a fotografia é uma arte, está equivocado quanto ao que seja arte. Nós, os pintores de retratos, somos insubstituíveis, e sabe por quê, sabe? - e René La Grange já gritava. - Porque nenhuma fotografia conseguirá captar a psique do modelo! E isso porque a fotografia é uma máquina, tem a mesma natureza da locomotiva a vapor. Como pode um processo químico e físico substituir a emoção? E La Grange não terminou, porque já estava fora de si. Desamparava-se, cambaleava ( p.26).

 

Neste momento do romance o discurso do personagem acima é o registro do estranhamento causado pelo debate entre dois mundos contraditórios: o antigo e o novo. A arte tradicional, como a pintura, por exemplo, sofreu forte influência dos novos tempos. Depara-se, na narrativa, com a Europa e o mito das origens; a América, como utopia do futuro. Assim, o papel do pintor e do retratista. As imagens - pintadas ou fotografadas - são o puro registro da vontade do homem de perpetuar-se no tempo. A ficção atrela as duas possibilidades. Conforme Tzetan Todorov, "a atribuição conferida à ficção é superior à da história, visto que a primeira é mais verdadeira que a segunda: se mantém a distinção, mas se inverte a hierarquia" (1993, p.119).

Assis Brasil referenda em O pintor de Retratos a vontade de muitos estrangeiros de buscar novas possibilidades de condições de vida mais digna. O Brasil era a promessa desta possibilidade, conforme a passagem que segue:

 

Curzio contava, repassado de indignação, que um parente de Vicenza viera para o Rio Grande do Sul, Brasil. Aliás, todo mundo emigrava: seleiros, agricultores, sapateiros, Lapidadores de vidro, artesãos de agulha e linha, chapeleiros, qualquer ofício, até artistas, todos iam para aquela selva. O que iam fazer no Brasil? Queriam ser devora - dos pelas feras? ( p.47).

 

Até mesmo "artistas" emigravam, ou seja, havia esperança para todos. E a concepção de que no Brasil as condições de vida eram inóspitas são marcas evidentes da condição de colônia e de terra recém povoada. Segundo Regina Zilberman no texto Natureza, lucro e paraíso (In.: A terra em que nasceste) no imaginário europeu, desde Américo Vespúcio e Cristóvão Colombo corria a idéia de "jardim do Éden", paraíso perdido, terra que necessita ser explorada e conquistada. A narrativa pontua que a todos é possível a realização do sonho de riqueza e fartura. As artes, de modo geral, passavam por sérias transformações, a partir da segunda metade do século XIX, principalmente. As correntes de pensamento que tomavam fronteiras e conquistavam adeptos chegou aos trópicos. O Positivismo, de Auguste Comte, o Evolucionismo de Darwin, o Determinismo de Taine culminaram com o advento do Realismo - período que a narrativa contextualiza - e, possivelmente, dispõe o leitor naquele mundo, através de cenários, personagens, nomes, locais específicos, cuidadosamente retomados,mas sutilmente imbuídos de tramar intrigas que indicam como funcionava a sociedade daquele período. O Rio Grande do Sul (então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul) foi resgatada, na narrativa, através do pampa, dos estancieiros, das cidades mais importantes e dos personagens da história local, como Garibaldi, por exemplo.

 

A presença da água: símbolo de purificação e passagem

 

Em O Pintor de Retratos a presença da água é muito significativa. Há a descrição da beleza do rio Guaíba: E parava-se, mãos às costas, segurando o chapéu,à frente deste rio tão belo. A certas horas, as águas transformavam-se numa chapa incandescente, refletindo o fulgor do sol.... Aqui era o rio Guaíba. (p.55). Sandro relembra a antiga Ancona (cidade natal), onde as "paisagens aquáticas foram palco e cenário de batalhas decisivas para a Humanidade". "E ele, Sandro, era um artista que trazia nas costas a Europa e seus séculos". A história não pertence, então, à América, mas sim, à Europa, onde tudo parece ter começado. A condição histórica do Brasil e de seus habitantes é severamente pontuada por Assis Brasil.Há uma marca que é determinante ao país: sua particular maneira de abarcar o estrangeiro e suas tradições, aqui adaptadas. Sandro Lanari, então, representa,na narrativa, a condição do estrangeiro recém chegado : mais civilizado, com diferentes aptidões de trabalho e pronto a apresentar ao novo mundo o que na Europa já se sabia bem : a arte. O pintor de retratos passa a exercer sua profissão, procuravam-no "desde o Fiscal de Rendas da Alfândega ao juiz da Primeira Vara".

Lanari, instalado em Porto Alegre, viveu sua primeira relação amorosa no aconchego do quarto da hospedaria onde estava. A moça, Violeta, era filha dos proprietários do local onde Sandro morava. As noites, envoltos pelo frio e pela antiga figura de Sara Bernhard (retratada por Nadar), que é fonte de inspiração à imaginação do personagem, os encontros amorosos acontecem: Violeta era um picante mistério a ser desvendado. Passou a fantasiá-la perfumada, recém-saída do banho, envolta na veste romana, como no retrato de Nadar (p.75). Contudo, quando os amantes são descobertos, o pai de Violeta o ameaça de morte e Lanari foge para o interior gaúcho. Deixa a capital e dirige-se a Rio Pardo, conhecendo, assim, um espaço mais remoto da Província.

Inicia-se a terceira e penúltima parte da narrativa. Mais uma vez há a referência à água. O rio Jacuí é o condutor de Sandro ao novo rumo, Rio Pardo. As águas do rio, "de margens imprecisas", são testemunhos do percurso que o acompanha e revela, aos poucos, a força da natureza e a insistente presença da água que, mais uma vez, lhe possibilita a revelação de outro espaço, alhures. A água suscita o devaneio e remete o personagem a Ancona, sua terra natal. O destino o conduz, pelas águas, pelo mundo, atravessa o oceano e os rios marcam presença no seu trajeto. Segundo Gaston Bachelard (1997) a água, rito de passagem, do útero materno e do batizado, simbolicamente, aponta para a possibilidade de purificação. Sandro joga ao rio o livro de arte que seu pai lhe dera , Il Libro dell'Arte , de Cenino Cenini. Ao despedir-se do mesmo ele profere:... jogando-o num arroio de águas confusas: vai-te, petulante, que não tens nenhum valor nesta parte do mundo. (p.118). A água é, mais uma vez, referência de mudança no estado de ânimo do personagem e receptáculo do vínculo afetivo representado pelo livro. Ao desfazer-se do mesmo, Sandro conclui que a distância entre sua terra natal e o Brasil implica numa mudança de valores, atitudes e concepções. A água, em muitas circunstâncias,na narrativa, é o registro da condição de movimento - a troca de espaços, as viagens apreendidas pelo personagem. Conforme Tânia Carvalhal Lanari apresenta um discurso que revela dois espaços: um interno, o Brasil; outro externo, a Europa, atuando assim na perspectiva da "teoria do molho", de Machado de Assis, onde se lê que o "artista pode ir buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o molho de sua fábrica"( Carvalhal, 2001, p.152).

 

A ficção como configuração da história

 

A obra O Pintor de Retratos retoma o contexto do Brasil Império, durante o século XIX. O personagem Sandro Lanari representa o estrangeiro recém chegado ao novo mundo. As diferenças culturais constituem uma releitura daquele período. As aventuras de Sandro, desde a ameaça de morte que sofreu em Porto Alegre e a sua saída às pressas para Rio Pardo são indicadores de que a adequação ao novo deixa suas marcas, como a passagem que segue: ". .. Subiam até a colina em que se vê a união do rio Pardo com o Jacuí, e se perguntavam como um rio pode mudar de nome. Ao voltar, Sandro detestava o seu quarto abafado, em que esperava Lídia desvencilhar-se dos fregueses" (p.104-105). A inadaptação está evidente. Assim como rio, ao mudar de nome, parece conter resquícios do que foi, Sandro sente-se pouco a vontade com a nova condição. Há uma certa degradação,que pontua sua trajetória no interior, tanto do homem quanto do artista.

Atividades cotidianas são referendas, em suas particularidades, como:

 

Nessa noite, antes de a casa abrir, ela o ensinou a fritar peixes e a beber vinho no Gargalo. Dois dias mais tarde, depois da sesta, ela o levava ao comércio,mostrando-lhe como distinguir o morim do percal. Deram muita risada juntos. Beberam cerveja quente até caírem num barranco, rasgando as roupas nas touceiras de unhas de gato. Sandro comprou-lhe um despertador com duas campainhas semelhantes a cogumelos metálicos e,ainda, um espanador de pó com as pernas amarelas (p.104).

 

Mas a terra nova também possui lá seus atrativos. Sandro deleita-se com o prazer carnal, tão marcante nas relações que marcam suas viagens. A proximidade com mulheres que vivem de explorar seus corpos, atribui uma certa degradação à figura do personagem. Ele diverte-se em companhia de Lídia, mas o ambiente lhe é hostil. Ao hospedar-se no prostíbulo ele está exposto ao cotidiano daquela vida.

Sandro transforma-se em artista ambulante, pinta retratos de fazendeiros, homens rudes, simples. Ele é contratado para pintar, inclusive, defuntos . Era um falecimento notável, ele se deu conta ao entrar na casa da estância. O morto, um coronel fardado,de barbas negras, jazia em seu improvisado esquife de tábuas grossas, no meio da sala cheia ( p. 106).

O coronelismo é retratado, por Assis Brasil, como um marco no que tange ao domínio exercido pelos mesmos,no século XIX. A passagem acima informa que o "morto,coronel fardado", era a figuração do poder, no meio da sala, velado e observado, respeitosamente.

A presença do estrangeiro suscitava a curiosidade nos habitantes, ". .. os parentes sentaram-se para apreciar. As criadas espiavam por detrás do reposteiro. O vigário de Cachoeira precisava do retrato para adornar a sacristia, dada a alma generosa da estancieira, responsável pelos cálices, ostentórios e patenas de ouro..." (p.111). Além da figura do coronel, os estancieiros representavam e ostentavam poder. O vigário estava a serviço daqueles que melhor colaboravam com a sua igreja. Há uma crítica marcante aos quadros acima citados.

Segundo Pedro Brum Santos (1996), o romance, pelo fato de possuir um cunho narrativo e de consistir num discurso que incide sobre uma realidade vivida, recuperando aspectos da vida corrente, passa a dividir com a historiografia a função de organizar os fatos em uma ordem discursiva. Assis Brasil estabelece uma ponte entre a história e a ficção, em O Pintor de Retratos. Contudo, sua escrita não se exime de relacionar a atualidade, pois ninguém consegue ser totalmente imparcial ao produzir um texto. Há várias passagens, na narrativa, que conduzem o leitor à atualidade, tais como: ". .. Procurava uma sombra na fresca umidade dos umbus. No século 19 a praça era muito arborizada" (p.55) e "... Rio Pardo não lhe apresentava nenhum atrativo, exceto pelas curiosas igrejas, coloniais e malcuidadas, nas quais imperava o aroma do cedro...." (p.103). Nas duas passagens citadas é possível identificar a passagem do tempo, presente e passado se fundem: o primeiro, com impressões da atualidade; o segundo, com referenciais do que era, como a igreja em Rio Pardo, que em pleno século XIX, estava em bom estado, já que era uma construção nova. A praça da matriz, em Porto Alegre, também foi alvo de observação com o olhar do presente "era arborizada no século XIX"; hoje, não é como naquela época.

Segundo Tzetan Todorov * (1993) a verossimilhança não é a verdade,mas ao construir uma verdade artística, ficcional, o efeito de verdade é o efeito de realidade. A ficção, assim, pode retomar dados históricos, quadros passados e atribuir-lhes uma verdade. O Pintor de Retratos está ricamente associado às considerações de Todorov, que crê nos efeitos que o texto ficcional causa no leitor. Há uma clara interpretação dos fatos, o que não implica na existência real dos mesmos.

Alguns episódios,como as revoluções que marcaram a história do Rio Grande do Sul, são cuidadosamente apontadas na narrativa, como lê-se a seguir:

No Rio Grande do Sul as revoluções ocorriam sem que as causas ficassem claras. Houve Muitas revoluções. Significavam disputas de poder entre os senhores da aristocracia bovina. Na infância da República aconteceu um dos mais selvagens conflitos da história. As partes digladiavam-se nos campos sem fim. As pelejas eram travadas com fuzis e baionetas, lanças facões, sob o comando de proprietários rurais improvisados em coronéis. Eles levavam seus servos para a luta, formando esquadrões de cavalaria ... (p.120).

 

Há uma referência clara à Revolução Farroupilha, tão conhecida entre os gaúchos e brasileiros (1835 a 1845). Algumas informações, como o procedimento adotado pelos soldados, com seus prisioneiros, constituem uma verdadeira barbárie na história do sul do país, como descreve a cena abaixo:

 

Como resultava caro manter os prisioneiros,matavam-nos. Esses infelizes eram organizados numa fila, e um homem cruel, chamado degolador, rasgava-lhes as carótidas com uma faca. O agonizante, entregue a si mesmo, levava as mãos à garganta, tentando estancar o fluxo de sangue. Dava alguns passos trôpegos, as pernas cediam e ele tombava. Já era um cadáver que contemplava o céu. Suas pupilas refletiam as nuvens, muito lentas. Após a agonia e a dor, instalava-se a serena beleza da morte (p. 120 -121).

 

Os episódios acima apontados indicam que as relações entre a civilização e a barbárie possuíam um fronteira limítrofe muito tênue. O romance privilegia alguns enfoques interessantes, como por exemplo, a importância que a fotografia e a pintura constituíam, na medida em que conseguiam representar a realidade no final do século XIX. Sandro, o protagonista da narrativa, fotografou cenas da degola. Os estudos científicos sobre a questão indicam que a fotografia, na época, era vista muito mais como uma máquina capaz de representar o real e não como arte (visão atual). Acreditava-se ser mais fidedigna à realidade do que a pintura. Considere-se, então, que a fotografia capta somente um instante do real e não o seu movimento (o cinema é capaz de tanto). Já a pintura, por sua vez, era vista como arte, portadora de uma possibilidade de revelação da subjetividade do artista. Desse modo, Assis Brasil revela que não é possível representar a realidade por inteiro.

Apontado por Assis Brasil como "exercício de essencialidade", O Pintor de Retratos apresenta as diferentes realidades: a da Europa e a da América, a partir da biografia de um homem, faz lembrar que foi o olhar estrangeiro que pela primeira vez interpretou o Brasil. Regina Zilberman comenta que o desembarque dos europeus no novo mundo suscitou "diferentes reações, desde o maravilhamento e o entusiasmo com que Cristóvão Colombo celebrou o encontro com os indígenas, até os menos entusiastas alertas provenientes dos cronistas portugueses" ( 2001).

Sandro Lanari (protagonista), representante do mundo europeu, queria conquistar o reconhecimento profissional, seja pela pintura ou pela fotografia. Casado, com filhos, prospera, engorda e retorna à Europa. Procura Nadar - o mestre da fotografia - e lhe mostra a foto magistral, a cena da degola, que captou a agonia do fotografado. Para sua surpresa, Nadar mostrou-se chocado com a violência e o acusou de ter permitido que a morte fosse imputada, sem a intervenção de Sandro. Sente-se frustrado, rasga a fotografia e desfaz-se da imagem ao jogar fora os restos do retrato. Alguns meninos tentam reunir as partes da fotografia. A cena final da obra é uma culminância da compreensão de que a realidade pode ser captada não por inteiro, mas fragmentada.

Assis Brasil, o autor, declara:

 

Só pela história se entende um povo e sua cultura. Mas não sou um escritor de romances históricos. O que me interessa é entender os personagens, o que está por baixo. As pessoas, mais do que o fato histórico, que é o pano de fundo. Muitos acham que tenho vocação para destruir mitos, mostrar os podres dos personagens históricos e grandes famílias. O que quero é trazer à luz a paixão, o desespero, a tragédia pessoal de cada um.. O mito é revisitado para se descobrir sua humanidade ( Jornal do Brasil, sábado 03 jul. 1993, p.6).

 

Assim, tem-se, na história, o ímpeto do personagem protagonista em se firmar artisticamente, contudo, sua falta de escrúpulos acabou por impedi-lo de entender a responsabilidade ética da arte. Ao tentar retratar a realidade do século XIX, sob a ótica da arte, quando a ciência dizia-se a única detentora da verdade, Sandro ignorou as premissas do mundo artístico, que primam pela revelação de questões mais profundas, que dizem do homem e de seu intelecto, a partir do que lhe vem da alma.

 

Bibliografia

 

ASSIS, BRASIL, Luiz Antonio de. O pintor de retratos. Porto Alegre: L&PM, 2001.

---. Rompi com a grande família. Jornal do Brasil , 3 jul. 1993, p.6.

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos . Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

CARVALHAL, Tânia Franco. Culturas e contextos: um recorte no tema das relações Europa/América latina. In.: COUTINHO, Eduardo (Org.). Fronteiras imaginadas . Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001. (p.147-154).

SANTOS, Pedro Brum. Teorias do Romance : relações entre a ficção e a história . Santa Maria: UFSM, 1996.

TODOROV, Tzetan. Las morales de la historia . Barcelona: Nova-Gráfik, 1993.

ZILBERMAN, Regina. A terra em que nasceste : imagens do Brasil na literatura . Porto Alegre: UFRGS, 1994. (Síntese Universitária, 41).