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Quando o feminino não encontra seu lugar (Uma análise da condição feminina no romance Desmundo de Ana Miranda)
Marly Catarina Soares (UFSC - UEPG)
Subjugação, dominação, deslocamento e diáspora são experiências que determinam a situação do indivíduo no mundo e as diferenças culturais. Para definir esta situação Homi Bhabha apresentou conceitos tais como entre-tempo, entre-lugar, ex-cêntrico. Para ele a metáfora da linguagem traz à tona a questão da diferença e incomensurabilidade culturais, não a noção etnocêntrica, consensual, da existência pluralista da diversidade cultural. Ela representa a temporalidade do significado cultural como "multi-acentuada", "rearticulada discursivamente". É um tempo do signo cultural que desestabiliza a ética liberal da tolerância e a moldura pluralista do multiculturalismo. Cada vez mais o tema da diferença cultural emerge em momentos de crise social, e as questões de identidade que ele traz à tona são agonísticas; a identidade é reivindicada a partir de uma posição de marginalidade ou em uma tentativa de ganhar o centro: em ambos os sentidos, ex-cêntrica. (Bhabha, 1998, p.247)
Neste ensaio apresento uma análise da situação das mulheres personagens do romance Desmundo de Ana Miranda, que de alguma maneira se encontram numa posição de marginalidade. Para tanto utilizo no ensaio termos como deslocalizadas, desterritorializadas, deslocadas, destes acredito que o primeiro melhor define a condição das mulheres personagens do romance em questão.
O romance Desmundo de Ana Miranda foi publicado em 1996 pela Companhia das Letras, com ilustrações produzidas pela própria autora, com 213 páginas. Divide-se em 10 partes seguindo uma trajetória que vai da partida de Portugal, a longa travessia do Atlântico, o casamento até um final que não tem uma definição. A história do romance gira em torno da personagem Oribela, portuguesa, órfã, destinada (ou obrigada) a casar-se com um cristão que vivia no Brasil, juntamente com outras tantas órfãs; para tanto deveria enfrentar a travessia Atlântica para tal empreitada. O ano é de 1555. Casamento realizado, a sorte de cada uma delas dependia do marido ao qual foi destinada, de acordo com as palavras de Oribela "quem vai ao longe casar ou vai enganado ou vai enganar" (Miranda, 2003, p.61). E assim começa a história de Oribela que mesmo, digamos, "bem casada" seu principal objetivo era retornar a terra, para cumprir promessa. Duas fugas mal sucedidas complicam seu relacionamento com o marido, a última empreitada resulta em uma gravidez, cujo filho não se tem muita certeza quem seja o pai, Francisco Albuquerque ou o mouro, Ximeno. Abandonada pelo marido que lhe roubou o filho, sente-se perdida numa terra estranha, apesar de todos os pesares causados por ele deseja a sua volta.
O triste destino das mulheres órfãs da coroa portuguesa
Ana Miranda utiliza-se de um trecho de uma carta enviada ao rei de Portugal por Manoel de Nóbrega como epígrafe do romance, ao que me parece ter o valor de testemunho para a história que vai contar. Pelo que tudo indica a prática de enviar órfãs para a terra em plena colonização era real, ficando por conta da ficção a personagem ou os personagens criados para veicular essa prática existente. A autora cria uma personagem feminina, Oribela, narradora da história, que era uma das órfãs mandada pela rainha para casar com um cristão que habitava no Brasil e parir filhos cristãos. As experiências, linguagem e visão de mundo de Oribela nos levam a conhecer um mundo desconhecido e distante no tempo e uma sociedade em formação, um Brasil que se organiza logo após seu descobrimento .
O romance é ambientado no ano de 1555, portanto cinqüenta e cinco anos após o descobrimento. Por esta época, a literatura praticada era relatos de viagens, crônicas, epistolografia, enfim o que pudesse dar conta de informar a corte sobre a terra recém-descoberta (sobre os aborígenes, colonos e riquezas a serem extraídas). O que se conhece de literatura daquela época é o olhar do homem que aqui esteve, observou e registrou. Ana Miranda criou, então, uma personagem feminina que pudesse registrar sob a ótica do feminino a famigerada viagem, a chegada, o encontro com o desconhecido, o propósito da vinda destas mulheres à esta terra - desmundo.
No relato de Ana Miranda podemos perceber a presença de alguns escritores da época. Na carta de Pero Vaz Caminha encontramos esta passagem: "aly am dauam antreles tres ou quatro moças bem moças e bem jentijs com cabelos mujto pretos conprjdos pelas espadoas e suas vergonhas tam altas e tã çaradinhas e tam limpas das cabelereiras que de as mujto bem olharmos nõ tijnhamos nhuua vergonha" (Caminha, 2002, p.43); em Desmundo quando Oribela se depara com a nudez das naturais é esta a sua reação: "por meus brios e horrores, não despreguei os olhares das naturais, sem defeitos de natureza que lhes pudessem pôr e os cabelos da cabeça como se forrados de martas, não pude deixar de levar o olhar a suas vergonhas em cima, como embaixo, sabendo ser assim também eu, era como fora eu a desnudada, a ver em um espelho." (Miranda, 2003, p. 39). Para duas situações semelhantes dois pontos de vista que divergem: na carta de Caminha num primeiro momento é o olhar de desejo do macho frente a nudez das mulheres aborígenes, que depois se transforma no olhar do colonizador que vê a necessidade urgente de se iniciar o processo "civilizatório"; no romance Desmundo a mulher, no caso Oribela, vê na aborígene a sua projeção num misto de curiosidade, pudor e vergonha; é o outro como um espelho que reflete ela própria. Neste romance percebe-se o papel da mulher no processo de colonização, em se tratando da corte portuguesa, com propósitos econômicos extrativistas e de alargamento do cristianismo. Sob a tutela da rainha as órfãs de Portugal, viviam em conventos, mosteiros, e tinham seu destino arranjado pela tutora:
"(...) como se diz desse tipo de mulher que ninguém quer, tesoura aberta, martelo sem cabo, alfinete sem ponta, que como o cão sorrateiro morde o cavalo e mata o cavaleiro. Filhas das pobres ervas e netas das águas correntes. As enjeitadas, as fideputas, que nem se rapta nem se dota, mulher da cafraria. Que teve a rainha de dotar e o rei de dar ofício. Mulher de pele branca e fala de bom português." (Miranda, p.52)
Se possuíam bens estes eram solapados por tutores mal-intencionados, sem ter como prover o seu sustento ou qualquer outro motivo era suficiente para as meninas órfãs serem excluídas do convívio familiar e social, consequentemente o destino era o mesmo. Em suma elas não se pertenciam, em seu próprio país eram mulheres deslocalizadas (deslocadas, desterritorializadas). A condição de órfãs lhes imputava a situação de estar fora do centro, o que Bhaba chama de ex-cêntrica (Bhabha, 1998), qualquer tentativa de ganhar o centro ou reivindicar a identidade fora dele não lhes salva desta situação. Nada mais restava a elas senão cumprir o destino de órfã: atravessar o oceano para casar com um dos cristãos, que segundo ordens da rainha seriam "uns gentilhomens"
As órfãs faziam sinal da cruz, iam arranjar marido bom e principal, ou então uns fideputas desdentados, trolocutores surdos, furtamelões, bêbados, cornos, condes das Barlengas, bem-me queres mal-me-queres, lobo nas ovelhas, caminho de espinhos azemel de estrebaria, mulo namorado, fosse o que fosse, desde que dissesse: Senhora, quereis companhia? Mas ordenara a rainha, que seriam uns gentilhomens. (Miranda, 2003, p.21).
Observamos que essa deslocalização, por assim dizer, pode ocorrer em diversos níveis, tomando Oribela como modelo deste processo:
Deslocalizada dentro da instituição familiar: pelo pai : com a morte da mãe Oribela perde a primeira referência feminina, que a menina teria nos primeiros anos de sua vida, ficando o pai responsável pela educação da filha. Perdido no jogo e na bebida que educação ou tratamento poderia lhe dar senão apenas mal tratos, chamando-lhe de puta, mal agouro? Não bastasse isso o pai lhe computa a culpa da morte da mãe: "me dizia ter feição de puta, por meu nariz afilado e a minha rebeldia na língua e o estar sempre sonhando, coisa de mulher pública. Que morrera minha mãe de desgosto por adivinhar a filha. Que meus chifres da cabeça rasgaram o ventre de minha mãe." (Miranda, 2003, p.75) pelo marido : este se apropria do título de propriedade com o casamento, exercendo sobre ela poder absoluto; se ele tivesse posses, ela teria uma vida confortável, rodeada de escravos, se não tivesse, teria uma vida miserável. Com o casamento a mulher deveria mudar seus hábitos e costumes: a maneira de postar-se, vestir, comer, falar, arrumar os cabelos.
Deslocalizada pela instituição governamental: como propriedade do governo (da rainha), é transformada em mercadoria tipo "exportação", remessa especial com o objetivo de legitimar a união cristã, com homens cristãos portugueses da colônia.
Deslocalizada pela instituição eclesiástica: a igreja é responsável pela intermediação cujo papel nesse processo é o de patrulhamento, guarda e preparação até a entrega efetiva ao marido. As órfãs no mosteiro, ainda em Portugal eram responsáveis por afazeres domésticos. Estando no Brasil eram trancadas em celas sob vigilância ininterrupta até o casamento. A preparação para a cerimônia, higiene, vestimenta, era feita pela Velha que também era responsável em dar-lhes conhecimento do contrato como portar-se, o que lhe caberia de bens após consumada a união.
Para a mulher nas condições em que estas se encontravam aceitar a imposição do casamento significava garantir juridicamente um lugar, um local, um espaço, afinal teria sua casa, seus escravos, um lar, tendo como "únicos" compromissos gerar filho e saciar os desejos do marido. Não aceitar a imposição do casamento, se rebelar, poderia implicar em castigos físicos terríveis: "Soube de uma mulher que se negou a casar e teve suas mãos e pés cortados, foi mandada ao mosteiro. Arrastava a pobre sua carcaça nos pedregulhos do pátio, sem coisa alguma sobre suas carnes, arrancando compaixão de todas, uivando, ganindo. cadela brava e triste de ódio servia a mais de nós as fêmeas . (Miranda, 2003, p.75) Para as órfãs não havia outra saída a não ser submeter-se ao casamento.
No romance Desmundo as personagens femininas passam pela condição de deslocalização como veremos a seguir.
Mulheres deslocalizadas
A personagem principal Oribela encabeça esta condição. A partir de seu ponto de vista relata com riqueza de detalhes a sua história e a das outras mulheres com as quais direta ou indiretamente se relaciona. Desde muito cedo havia em Oribela uma necessidade e consciência de reivindicar sua identidade, pois sentia-se fora do centro, sabia intuitivamente que sua condição era de marginalizada. Mesmo casada, num certo sentido, localizada, possuía uma casa, escravos, terras, sentia-se deslocalizada, persegue-a com insistência a vontade de retornar a terra, não para a vida que levava antes, desta não tinha nenhuma saudade, mas como forma de tentar uma reconstituição, ou ainda buscar algo que se perdeu ou que nunca teve, a identidade: "alembrasse eu de meu desígnio e de minha esperança, embarcar na nau, rija e direita, fortemente levada com ventos a ir guiar pelo meu desrumo a terra minha. E a dizer, sem mais, meu desejo torcido com amarguras." (Miranda, 2003, p. 105).
Oribela sente falta da experiência de um estilo de vida metropolitano mesmo estando à margem dele. Na tentativa de buscar, ou ainda de voltar para encontrar o que nunca teve empreende duas fugas, ambas mal sucedidas. A primeira fuga resultou na perda da liberdade, em humilhação e na aproximação dela com Temericô, escrava indígena, também uma mulher que classifico como deslocalizada, ou ainda desnacionalizada, pois era de um gentio muito antigo que fora lançado fora da sua terra das vizinhanças do mar por outro gentio seu contrário que descera do sertão pela fama da fartura da riba do mar e seus pais e avós perderam as terras que tinham senhorado muitos anos e lhes destruiram as aldeias, roças, matando os que lhes faziam rosto. (Miranda, 2003 p.119) Ela era uma das naturais que servia na casa de Francisco Albuquerque, servil, obediente, a mais esperta que falava a língua dos brancos. Temericô foi uma figura importante e decisiva no processo de intercâmbio de culturas que ocorre entre ela e Oribela na parte seis, quando há um estreitamento nas relações e a conseqüente efetivação desse processo com o início da troca cultural entre as duas, tanto uma quanto a outra tem muito a ensinar e aprender: língua, costumes, vestes, hábitos. Ocorre entre elas o que Bhaba chama de transmissão de cultura de sobrevivência. Segundo este autor a cultura se adianta para criar uma textualidade simbólica, para dar ao cotidiano uma aura de individualidade, uma promessa de prazer. Oribela passou por uma terrível experiência quando foge de casa para ir atrás do seu passado ou ainda do que acha que seria seu passado. Para sobreviver às conseqüências de seu ato tresloucado dedica-se a essa nova experiência que é o contato com a representante de uma cultura diferente da sua. Tão representativa e intensa é essa troca que Oribela começa a agir feito as naturais como fumar ervas, pintar o rosto com urucum, tomar banho desnuda, experiência nova para ela pois quando pequena o pai mandava colocar leite na água do banho para ela não ver o próprio corpo. Esse processo de troca apresenta como resultado um desvanecimento da vontade, do desejo dela em voltar para a terra. O mundo metropolitano vai desaparecendo de suas lembranças, entretanto este ainda não está completamente apreendido, ela se sente num entre-mundos, entre-lugar - por isso desmundo, não está mais lá, mas também ainda não está aqui.
Oribela reescreve sua história na segunda fuga quando o mouro Ximeno Dias a encontra desfalecida e lhe dá guarida. Para ela significa encontrar o desconhecido, o demoníaco. Educada sob os auspícios da Igreja católica em Portugal, Oribela, assim como a grande maioria dos europeus, tinha uma pré-concepção recheada de superstições sobre o povo oriental cuja cultura, hábitos, costumes e religião são tão diferentes da sua ou pelo menos daquela que ela pensava conhecer tão bem. O encontro das duas culturas a ocidental e a oriental significa no romance um desvendamento ou mesmo um esclarecimento da cultura discriminada pela preconceituosa Europa. Ximeno transmite à Oribela valores importantes relativos a sua cultura: a educação dos pais, a sabedoria dos livros, valores espirituais, o conhecimento adquirido pelas viagens que empreendeu pelo mundo, o respeito pelo ser humano.
Na escuridão da ignorância em que Oribela vivia, Ximeno representava a luz que iluminava e esclarecia seus temores, suas angústias, suas superstições, mostrando-lhe a possibilidade da convivência harmoniosa com outra cultura mesmo sendo uma tão diferente da outra. Outra lição que fica de Ximeno é o respeito pela mulher demonstrada durante todo o tempo em que ela esteve em sua custódia, causando-lhe estranhamento pois era acostumada com brutalidades, desrespeito, violência de toda ordem pelo simples motivo de ser mulher:
Mas se estava prisioneira do mouro, por que não metera ele cordas em minhas mãos e pés e atara à cama? Podia alevantar, abrir a janela, a porta, descer a escada, tudo estava ao redor, no que fiquei repartida entre as interrogações dos motivos do Ximeno, nunca me ajudara ninguém em minha vida, por que ia querer ele nada em troca de tão arriscada empresa? Ainda mais sendo da maldita raça, de mafamede, se é que era e da tal religião de paganismo. (Miranda, 2003, p. 169)
Outra personagem interessante na história é Bernardinha, pois materializa na história duas exclusões, uma pelo fato de ser órfã e outra por apresentar tendência ao lesbianismo (por diversas vezes a narradora faz referência ao prazer de Bernardinha pelas carícias femininas): "sua mulher lhe parecia macha, querendo mostrar que era a ela forçado a amar e com ela vivia contra ciência, não sendo nem por feitiços vencido, que recitava aos berros de cabra..." "me doía de dona Bernardinha, que gostava de afetos e de roubar uns brincos e as bocas das moças em beijos". (Miranda, 2003) . Antes de tornar-se órfã tinha uma vida tranqüila, confortável, pois seus pais eram de muitas posses que foram surrupiadas pelo tutor. Ela e as irmãs tiveram o mesmo destino de Oribela, ou seja a deportação para casar na Colônia. Entretanto para ela o casamento significou perda total de identidade, ter uma vida miserável, ser obrigada a prostituir-se, sofrer os mais abjetos tipos de violência sexual. Mata o marido para livrar-se do opressor, mas acaba enlouquecendo. Voltar a terra significaria deixar de sofrer, a libertação, deixar de ser estrangeira, desterrada, voltar a ser localizada, a recuperar o seu lugar. Por diversas vezes expressava como se sentia neste mundo tão cruel: este mundo é um desterro e nós, estrangeiros. (Miranda, 2003, p.180)
A Velha é outra personagem que encarna uma outra forma de deslocalização, o exílio. Era freira do mosteiro de Anunciata, tinha lugar, posição, status; perde todos os direitos por ter ficado grávida. Como forma de minimizar o castigo foi banida do reino. Com 40 anos já era considerada muito velha. Sem Pátria, sem família, exilada sem direito à maternidade, tendo como remissão do seu grande pecado cuidar das órfãs, é nesta função que parece ter encontrado seu lugar. Era ela que servia como guardiã, guia, instrutora das órfãs até que fossem entregues ao matrimônio. A velha era o único elo de Oribela com o mundo ao qual ela pertencia antes de sofrer os reveses que a vida lhe reservou.
D. Branca de Albuquerque, mãe de Francisco de Albuquerque, é outra personagem feminina que representa uma outra forma de deslocalização, pois de senhora absoluta do lar, era a que mandava e desmandava na casa e nas escravas do filho, perde sua posição para Oribela, esposa deste e passa a ser somente a mãe. Essa condição Francisco de Albuquerque deixa claro na primeira entrevista que ela tem com a nora. No romance pouca notícia se tem de suas origens e sua história não é muito esclarecedora. Deduz-se que se submete a uma relação incestuosa com o filho por se encontrarem em um lugar tão selvático onde ética e moral não existem e comete-se o incesto; nem a religião podia contornar essa situação, pois a necessidade do macho nesse fim de mundo determinava o que era certo ou errado. A presença de Viliganda, apesar de ser filha de Branca não parece ser irmã de Francisco, reforça a suspeita de que havia muito mais do que uma relação mãe - filho. A chegada de Oribela representa à Branca não somente ter que dividir as atenções do filho, mas a perda do lugar de esposa.
Em Desmundo o feminino participa do processo de colonização, empreendimento do homem branco, como mais um objeto subserviente. Os homens brancos, cristãos podiam relacionar-se com as naturais, mas não podiam constituir família com amparo legal. As mulheres brancas, órfãs, propriedades do governo eram destinadas à colônia para legitimar a constituição familiar. Imperava a vontade da rainha que tinha mando e voz, para garantir a pureza da raça e a legitimidade da filiação. Filhos mestiços não eram legítimos; a finalidade das órfãs nesta empreitada era sobretudo: "a fazer filhos abençoados de alvura na pele".
As órfãs não estão nem lá e nem cá. Juridicamente lhes é oferecido um lugar, um espaço, mas como sujeitos não há identificação com estes locais, então se sentem deslocadas, porquanto deslocalizadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad.: Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1998.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil. Martin Claret, São Paulo, 128 p., 2002.
HALL, Stuart. Quem precisa de identidade. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais . Tomaz Tadeu da Silva (org.). Ed. Vozes, Petropólis, 2000.
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SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottman. Companhia das Letras,
São Paulo.
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