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Espaços sociais: opressão e violência em São Bernardo de Graciliano Ramos
Marisa Garbieri (USP)
O espaço narrativo
O meio - como diria o húngaro Jean Hankiss -, onde se move o herói de um romance ou de um drama, não se limita a contribuir para explicar o herói, suas origens espirituais, suas ações e reações. Ele emancipa-se (...) para ocupar, na hierarquia dos fatores, um posto mais elevado do que lhe seria assegurado pelo seu caráter de suporte, de atmosfera, de verdadeiro pano de fundo 1.
Diante da perspectiva de estudo do espaço narrativo, torna-se importante a afirmação salientada por Jean Hankiss acima, citada em: Lima Barreto e o espaço romanesco de Osman Lins, pois anuncia a importância que esse elemento pode assumir na análise de uma obra. Já segundo Philippe Hamon 2, citado também na mesma obra, o espaço romanesco "confirma", "precisa" ou "revela" uma personagem. Osman Lins vai mais longe ao categorizar o espaço, apontando que há casos em que o espaço é simplesmente utilizado para situar a personagem, outros em que propicia os acontecimentos e ainda outros em que provoca a ação. O espaço romanesco pode alcançar na ficção uma importância estrutural, elevando-se à categoria de "móvel", "fulcro", "fonte da ação". É o espaço enquanto elemento que provoca a ação, transforma-se em fonte de acontecimentos e é o responsável pela inserção social da personagem que interessa no decorrer desse estudo.
O romance São Bernard o 3 já traz o elemento toponímico no título, enunciando a propriedade na própria denominação: a fazenda encravada no sertão nordestino, indicando a importância que tal propriedade assumirá no decorrer da narrativa.
Dentro dessa perspectiva do estudo da espacialidade 4, o casarão da fazenda surge dominando a paisagem. Encontra-se no alto de uma planície. Paulo Honório faz uma apresentação "de cima" da fazenda São Bernardo, a quinze metros do chão, quando sobe com Marciano à torre da igreja para resolver o problema das corujas alojadas no forro do telhado:
E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. ( São Bernardo , p.156)
O casarão construído "nas alturas" representa o poderio de seu dono, de onde visualiza suas terras, suas plantações, a água do açude, seus empregados e seus animais, deixando perceber, claramente, a estratificação social imposta a seus moradores: a família dos proprietários e seus agregados habitam a casa grande, já os seus empregados, nivelados aos animais do curral, habitam um plano inferior, em que predominam casebres pobres e miseráveis:
Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus. ( São Bernardo , p.182)
Em relação ao alicerce, é interessante notar que Paulo Honório não reformou a casa antiga que já existia em São Bernardo e que estava em ruínas; mandou construir outra casa, tornando-a, portanto, mais resistente. Assim, o narrador informa ao leitor apenas que:
Conclui-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto. Ficou tudo confortável e bonito. Naturalmente deixei de dormir em rede. Comprei móveis e diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não utilizo, porque não sei para que servem. ( São Bernardo , p.39)
A morada indica um momento novo que se impõe à estrutura social no Brasil, que está se construindo e se consolidando, tanto que Paulo Honório não quer a "casa esburacada, de paredes caídas" ( São Bernardo , p.28). Além disso, a casa dos Padilhas também pertencia a um tempo passado, ilustrando um período que já havia entrado em decadência há muito - a exploração de cana-de-açúcar: "hoje o engenho caiu, o gado dos vizinhos rebentou as porteiras, as casas são taperas, o Mendonça vai passando as unhas nos babados..." ( São Bernardo , p.24). O protagonista reformará a casa, aterrará o charco, consertará as paredes do açude, explorará a pedreira, e substituirá a exploração de uma monocultura por outra: o algodão - naquele momento, cultura mais lucrativa. Assim, a casa-grande velha e arruinada não lhe serve, pois Paulo Honório representa um momento novo na política agrária.
O protagonista é fruto de um novo tempo, entretanto, não inaugura um período de melhoria nas condições de vida e de trabalho dos empregados da terra. Ainda não é dessa vez que os camponeses conseguirão alcançar os seus desejos, pois o fazendeiro traz consigo o capitalismo avassalador, que explora e aliena, reduzindo os homens a mercadoria na obtenção do lucro certo. Mais uma vez, os homens serão oprimidos.
Portanto, em São Bernardo , pode-se dizer, encontra-se uma personagem híbrida, pertencente a um momento em que o capitalismo já se instaurou no Nordeste brasileiro, mas ainda assim sustentando vínculos com a aristocracia decadente da cana-de-açúcar. O protagonista mantém relações de trabalho na fazenda dentro dos moldes capitalistas, explorando os seus camponeses, alienando-os e transformando a força de trabalho dos empregados de "valor de uso" em "valor de troca". No entanto, dentro desse espaço da exploração capitalista, ainda é mantida a figura do capataz - pertencente à sociedade patriarcal -, ou seja, o fazendeiro também serve-se da força brutal para conseguir os seus intentos: terras, status e poder. Assim, ao mesmo tempo em que se vale do progresso promovido pelo capitalismo, também vincula-se aos procedimentos patriarcais para realizar seus intentos. Por isso, Paulo Honório pode ser considerado "o coronel sem tradição", nas palavras de Rui Mourão 5, já que age como um coronel nordestino, embora sem ter herdado nenhuma tradição aristocrática.
Há ainda dois espaços importantes que constituem a propriedade nordestina: a igreja e a escola. A primeira construção foi levantada para agradar ao padre, a segunda, para impressionar o Governador, que, em uma visita a São Bernardo havia sugerido a idéia. O proprietário executa as construções, pensando nos lucros que poderão advir: "A escola seria um capital. Os alicerces da igreja eram também capital" ( São Bernardo , p.45), já que não está sendo movido pelo fervor religioso - "dispensável num homem" - ou pela compreensão da necessidade de instrução dos empregados, como admite:
Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos?
- Esses homens do governo têm um parafuso frouxo. Metam pessoal letrado na apanha da mamona. Hão de ver a colheita. ( São Bernardo , p.44)
Como Paulo Honório havia afirmado em trecho já destacado, ao referir-se à construção da casa nova, "as partes principais apareceram ou aparecerão", percebe-se que a casa será apresentada ao leitor conforme a narrativa for se desenrolando, e alguns de seus cômodos assumirão papel revelador. Mikhail Bakhtin, ao tratar do "cronotopo do encontro", em Questões de literatura e de estética , diz que um topônimo importante para a realização das peripécias do romance, que conseguiu sua plenitude a partir do século XIX com os romances de Stendhal e Balzac, é a sala-salão de visitas, pois
do ponto de vista temático e composicional é aí que ocorrem os encontros (que já não têm o antigo caráter especificamente fortuito do encontro na "estrada" ou no "mundo estrangeiro"), criam-se os nós das intrigas, freqüentemente realizam-se também os desfechos; finalmente ocorrem, o que é particularmente importante, os diálogos que adquirem um significado extraordinário no romance, revelam-se os caracteres, as "idéias" e as paixões 6.
A "sala-salão de visitas" assume, em São Bernardo , função semelhante às apontadas nos romances dos escritores franceses. Em primeiro lugar, é ali que Paulo Honório passa as suas noites, atormentado pelo pio da coruja e pelo tique-taque do relógio, marcado pelas reminiscências trazidas pela lembrança de Madalena, já morta. É ali que executa a tarefa de escrever a sua história e é ali que vaga, à noite, à procura de algo, talvez tentando resgatar a presença da esposa. Assim sendo, é dali que apresenta São Bernardo aos leitores:
Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. ( São Bernardo , p.10)
Foi nessa mesma sala em que, oito dias depois de casados, houve a primeira de muitas contendas entre Paulo Honório e Madalena, pois, segundo o narrador, a esposa havia se intrometido num assunto que não lhe dizia respeito: o baixo salário de Seu Ribeiro. Foi nesse espaço também que, na comemoração de dois anos de casamento, Paulo Honório passou a desconfiar de Madalena, a sentir ciúme das amabilidades que a esposa dispensava aos convidados.
Nas palestras, à hora das refeições, acendia a chama do ciúme de Paulo Honório, entrevendo gestos dúbios de Madalena para com o Dr. Nogueira ou para com o juiz Dr. Magalhães e até mesmo para com o Padre Silvestre. Assim, como pode ser percebido, na sala de visitas ou na sua extensão, a sala de jantar, ocorreram os diálogos tensos, deram-se os nós das intrigas, surgiu o ciúme doentio de Paulo Honório.
É também na quietude desse cenário, à noite, que o protagonista mostra-se desesperado, solitário e perdido:
As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.
Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente. ( São Bernardo , p.184)
É interessante notar que ao apresentar outras casas, no decorrer da narrativa, a sala é o lugar privilegiado, já que representa um espaço social, da convivência entre as pessoas que habitam a moradia, as pessoas "de dentro" e as visitas, as pessoas "de fora". Assim, quando o narrador-protagonista apresenta cenas ocorridas nas casas do Mendonça, do Dr. Magalhães ou mesmo na casa onde moravam D. Glória e Madalena, em Viçosa, a sala de visitas era o local desses encontros.
E, por último, é da sala que o protagonista encerra de forma melancólica a narrativa:
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos. ( São Bernardo , p.188)
As questões financeiras da fazenda eram tão importantes que havia um cômodo, dentro do casarão, reservado ao escritório, onde trabalhava o guarda-livros Seu Ribeiro e onde Madalena passou a trabalhar na execução da correspondência. Por lá também sempre se encontrava D. Glória a conversar e a amolar, segundo Paulo Honório. Lá era um lugar de trabalho: "aqui trabalha-se", dizia Paulo Honório irritado com as conversas de D. Glória. O proprietário irritava-se com pessoas como a tia de Madalena que, além de não ter uma função definida, atrapalhava o serviço realizado no escritório:
Ora as horas de folga de D. Glória eram quase todas.
Dormia, almoçava, jantava, ceava, lia romances à sombra das laranjeiras e atenazava Maria das Dores, que endoidecia com a colaboração dela. Queixava-se de tudo: dos ratos, dos sapos, das cobras, da escuridão. Afetava na minha presença uma atitude de vítima. Não se cansava de gabar a cidade, fora de propósito. Passava parte dos dias no escritório. ( São Bernardo , p.111)
Assim, o escritório, embora fosse marcado pelo âmbito do trabalho - negócio -, também apresentava momentos de palestras amenas - ócio. Esse binômio negócio/ócio presente no escritório incomodava o fazendeiro, que acreditava que esses interesses não pudessem ocupar o mesmo espaço. Talvez se incomodasse tanto porque ele mesmo não sabia o que era ócio, pois em nenhum momento da narrativa é flagrado em uma atividade de lazer. Apenas chega a aventar uma possível viagem, em sua última conversa com a esposa, ao tentar fazer as pazes. Entretanto, a viagem não se concretiza, pois Madalena suicida-se.
Para o protagonista, não havia espaço para o lazer e, muito menos, para lazer no local de trabalho. Dessa forma, o leitor intui a reificação das relações, através das palavras de Madalena, ao referir-se, no mesmo episódio, a D. Glória: "D. Glória vê máquinas e homens que funcionam como as máquinas" ( São Bernardo , p.117).
Depreende-se que Paulo Honório, proprietário capitalista e escravo do capital acumulado, pervertido pela idéia de posse, alienou/reificou a todos que o cercavam. Entretanto, também sofreu o mesmo processo - como se percebe no desfecho da narrativa -, tornando-se um ser alienado, desumanizado: "Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins ". ( São Bernardo , p.187).
Nesse espaço de trabalho, também aconteceram alguns diálogos tensos e uma das piores brigas entre Paulo Honório e Madalena, chegando quase à agressão física. Lá também Madalena escreve sua carta derradeira a Paulo Honório. É mais um espaço da casa marcado pelos conflitos.
Outro espaço fechado, marcado pela tensão e pela angústia, era o quarto do casal. Paulo Honório, cego de ciúme, ouvia ruídos de passos ou de assovios que julgava serem dos amantes de Madalena, "seus parceiros que andam rondando a casa" ( São Bernardo , p.152). Atormentava-a, discutiam e embora o narrador apresente essa cena apenas no capítulo 30, percebe-se que essas desconfianças noturnas continuaram por um ano e extenuaram Madalena, pois o capítulo seguinte narra o seu suicídio. É nesse espaço, também, que ocorre o suicídio de Madalena e, conseqüentemente, deflagra-se o desespero de Paulo Honório. É aí que Paulo Honório rola no colchão toda a madrugada, primeiro corroído de ciúme e ouvindo vozes ou assovios que supõe ser de amantes de Madalena, depois, atormentado com a perda da esposa. Portanto, quando o quarto aparece em cena, apresenta uma atmosfera bastante carregada.
O quarto considerado um espaço de intimidade, aconchego e proteção, é marcado pelo conflito, pela discórdia, pela agressão. Entre as quatro paredes, o protagonista revela seu ciúme doentio, chegando ao delírio, tentando arrancar da esposa uma confissão de culpa. O quarto é o contraponto da sala, pois aquele representa o espaço privado e, esta, o espaço público. Os sentimentos de Paulo Honório, calados no espaço público, são escancarados no espaço privado. O proprietário sofre porque quer dominar o espaço privado como domina o público, ele deseja conhecer os mais recônditos pensamentos da esposa, já que esta o pertence. Como isso não é possível, desespera-se.
O casarão que já havia se tornado um ambiente desagradável desde o início do casamento com Madalena, devido às constantes discussões: "no interior da minha casa tudo era desagradável" ( São Bernardo , p.121); passou a ser triste, quando foi deflagrado o sentimento de ciúme por Paulo Honório: "na casa-grande, que Tubarão e Casimiro Lopes guardavam, a vida era uma tristeza, um aborrecimento" ( São Bernardo , p.133); acabou sucumbindo ao abandono, depois da morte da esposa: "O jardim, a horta, o pomar - abandonados; os marrecos de Pequim - mortos; o algodão, a mamona - secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam" ( São Bernardo , p.181).
Vagando pela casa, o leitor verifica que todos os cômodos estão marcados pela tensão, pelos conflitos, pela atmosfera sombria, pela solidão, imposta por Paulo Honório. A idéia de "atmosfera" desenvolvida por Osman Lins 8 é uma designação ligada ao espaço, que não decorre necessariamente dele, mas consiste em algo que o penetra e envolve, de maneira sutil, as personagens. Percebe-se que a atmosfera sombria e escura provém da personalidade das personagens que o habitam e não propriamente do espaço em que se encontram. O ambiente sombrio é evidenciado na narrativa no momento em que Paulo Honório começa a discorrer acerca das discussões com Madalena e, conseqüentemente, do suicídio da esposa.
Paulo Honório era um homem ativo: caminhava, percorria as terras de São Bernardo, traçava o seu percurso - carregava o signo do movimento. O romance deixa entrever que o protagonista estava preocupado com a manutenção de suas terras e com a luta pela sobrevivência.
Entretanto, os índices da mobilidade do fazendeiro invertem-se nos capítulos finais de São Bernardo . Nesse momento específico, tem-se um Paulo Honório inerte, não mais o homem da ação (aniquilado pelo processo de reificação), solitário, esmagado e imobilizado pelas lembranças de Madalena e pelo remorso do suicídio da esposa, mas não inteiramente passivo, já que encontra forças para vagar pelo casarão abandonado e escrever a sua tragédia pessoal.
Paulo Honório simboliza um self-made-man (pelo menos, na primeira parte do romance), homem que, apesar das adversidades, lutou e conseguiu quase tudo o que queria. De origem extremamente pobre, não aceitou passivamente sua condição social. Persistente, astucioso e, não poucas vezes, até desonesto, demonstrou grande ambição que o levou a buscar riqueza, domínio e ascensão social - o sentido para a sua vida. Segundo Carlos Nelson Coutinho 9, na primeira parte do romance, vê-se a "construção de um burguês". Paulo Honório é o símbolo da sua classe: um capitalista contraditório - fruto da modernidade, mas ligado à mesquinhez de uma sociedade arcaica -, avassalador, cruel. Sua trajetória é norteada pela obtenção da sua realização pessoal, ou seja, de riqueza, status e poder.
Esse homem vive para suas terras; assim, quando é golpeado pelos acontecimentos, entra em processo de degeneração; similarmente, a propriedade que lhe pertence também entra em decadência.
Nota-se que embora a propriedade encontre-se em declínio ao final da narrativa, a trajetória de Paulo Honório é marcada pelo estereótipo da ascensão.
O fazendeiro nordestino é dinâmico, egoísta, inescrupuloso, explorador, faz de tudo para "subir na vida". É o homem que sozinho trilhou o seu caminho e com sua força brutal chegou lá. No entanto, nem por isso escapa ao processo de destruição, gerada, sobretudo, por seu trato violento em relação às coisas e às pessoas. Da violência praticada contra os homens e as coisas nasceu a fazenda e da violência contra ele mesmo nasceu a "autobiografia": ambos surgiram da sua derrota.
Paulo Honório, quando de posse de São Bernardo, despreza a antiga casa-grande arruinada, constrói casa nova com alicerces sólidos. Não só ergueu uma casa, levantou uma escola primária, uma igreja, a serraria e o descaroçador, reformou o açude, explorou os trabalhos na pedreira, adquiriu um rebanho, introduziu novas culturas nas terras; assim, externamente, a fazenda reflete a ascensão de seu proprietário. Entretanto, a solidão, os conflitos, o abandono apontam a degradação no interior da casa, intensificado pela atmosfera sombria e marcado pela presença da esposa morta. Verifica-se que a ambigüidade da personagem também está presente no espaço que a circunda. As terras, o status e o poder não trouxeram a felicidade. Sem se conhecer completamente, apartado de sua essência, marcado pela culpa, a auto-realização tornou-se impossível. A ruína invadiu o espaço.
Essa personagem "em busca" nada encontra além de sofrimento, desolação, solidão e destruição. A ligação homem/espaço é vital, portanto a ruína de um deles implica a destruição do outro. Assim, todos os sonhos estão desfeitos: proprietário e camponeses não alcançam os seus desejos, pois um período de exploração se foi, outro período de exploração virá ainda mais arrasador - aristocratas ou capitalistas, alienaram e continuarão alienando os lavradores, no Nordeste. Portanto, não há lugar para a esperança.
A destruição arrasadora que se impõe ao final do romance, diante de uma fazenda marcada pelo abandono, deflagra uma mensagem velada: a impossibilidade de realização nesse sistema econômico vigente. São Bernardo apresenta, assim, a trajetória de uma personagem alienada.
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco . São Paulo: Ática, 1976, p.67-8.
Todas as referências a essa obra foram retiradas de: RAMOS, Graciliano. São Bernardo . 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.
Ver também a esse respeito: CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. In: O discurso e a cidade . 2 ed. São Paulo: Duas Cidades,1998, p.17-152.
MOURÃO, Rui. Estruturas . Belo Horizonte: Tendências, 1969, p.137.
BAKHTIN, Mikhail. Observações finais. In: Questões de literatura e de estética : a teoria do romance. Trad. : A . F. Bernardini, J. Pereira Jr., A . Goés Jr., H.S. Nazário, H.F. de Andrade. 4. ed. São Paulo: UNESP/Hucitec, 1998, p.349-62.
A respeito do tema da reificação ver: GOLDMANN, Lucien. A reificação. Trad. : L. F. Cardoso. Revista Civilização Brasileira , Rio de Janeiro, ano III, n. 16, nov - dez, 1997, p.119-158; LAFETÁ, João Luiz. O mundo à revelia. In: RAMOS, Graciliano. São Bernardo . 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986, p.49-70 e LIMA, Luiz Costa. A reificação de Paulo Honório. In: Por que literatura? Rio de Janeiro: Vozes, 1969, p.49-70.
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco , opcit, p.76.
COUTINHO, Carlos Nelson. Graciliano Ramos. In: Literatura e Humanismo , opcit., p.153.