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A escritura crítica de O amanuense Belmiro
Keila Mara Sant'Ana Málaque (UNESP-Assis)
Inúmeros foram os trabalhos que apontaram para uma crise do romance, ou pelo menos, uma transição profunda, que começou a ocorrer a partir do final do século 19.
Para Julio Cortázar, o que caracterizou o romance dos séculos 18 e 19, foi uma riqueza e variedade de temas assombrosas. O problema era de escolha e preferência: o que narrar, quando havia tantas coisas narráveis. Um problema de excesso, portanto. De outro lado, se a variedade de temas e intenções era infinita, a linguagem de suporte para os romances era basicamente uma: linguagem de reflexão, produto de vigília e lucidez, empregando-se técnicas racionais para expressar e traduzir os sentimentos. O que contar era mais importante do que como contar , de forma que o romance dos séculos 18 e 19 não teria alterado, de maneira fundamental, seus recursos de expressão.
Ao final do século 19, porém, parecia não haver mais caminhos para o desenvolvimento desse gênero, o que configurava, já, o final de uma era. Por força de tal estado de crise é que começou a aventar-se a hipótese de uma morte do romance .
Se, ao final desse processo, como sugere Cortázar, tema e conteúdo saíram prejudicados, o mesmo não ocorreu com a linguagem que resultou em uma riqueza e liberdade infinitas e tomou um lugar central no romance moderno.
É assim, pois, que a obra voltou-se para si própria, para a própria forma: eis a metamorfose pela qual passou o gênero romanesco. Na medida em que inventa um modo peculiar de compreensão do real, a auto-referencialidade transformou-se em uma das saídas do escritor moderno à questão do esgotamento da representação da realidade. E ela só se fez possível pela metalinguagem, que pode ser definida como um processo de reflexão lingüística sobre o código que serve de instrumental para a nomeação da realidade.
A linguagem submetida à operação metalingüística é aquela que, dobrada sobre si mesma, conduz o leitor a interrogar o próprio código utilizado. Tal atitude envolve uma postura de destruição e o que se destrói é a própria linguagem de representação da realidade. O real serve apenas de pretexto: escrever é verbo intransitivo (Barthes). A literatura é sempre irrealista, não pode explicar o mundo; quando se fabrica um mundo, semelhante ao real, faz-se não para copiá-lo, mas para torná-lo inteligível. A postura moderna implica, pois, um novo modo de articulação da realidade e sua representação.
Pensando na idéia de crise e superação, destruição e construção, vale citar o próprio Barthes em colocação que nos parece extremamente elucidativa quanto aos novos caminhos tomados pelo romance no século XX:
E precisamente, como essa interrogação - o que é Literatura - é levada adiante, não do exterior, mas na própria literatura, ou mais exatamente na sua margem extrema, naquela zona assintótica onde a literatura finge destruir-se como linguagem-objeto sem se destruir como metalinguagem, e onde a procura de uma metalinguagem se define, em última instância como uma nova linguagem-objeto, daí decorre que nossa literatura é há vinte anos, um jogo perigoso com sua própria morte, isto é, um modo de vivê-la; ela é como aquela heroína raciniana que morre de se conhecer mas vive de se procurar.. 1
Na medida em que o ato criador incorpora a metalinguagem, a escritura moderna se pensa e se critica. Criticar é pôr em crise, é voltar-se para e contra a linguagem originária. A crítica é a essência da modernidade (Octávio Paz) e seu papel é fundamental na literatura moderna. Tal importância, no entanto, aumenta, na medida em que essa postura é assumida no interior da obra, como elemento constitutivo desta. Ela - a obra - é linguagem também submetida à distinção lógica.
A crítica é a tentativa de construção de um discurso sobre o discurso de um outro, linguagem construída da linguagem. A moderna literatura se constrói, pois, a partir da crítica constante em sua própria linguagem. Podemos pensá-la, também, como atividade de tradução: um objeto traduzido em outro objeto.
No romance O Amanuense Belmiro , publicado por Cyro dos Anjos em 1937, é possível observar o tratamento metalingüístico relacionado ao seu aspecto criacional, um procedimento facilitado pela forma do diário, que chama a atenção para a natureza fictícia da obra. Tal tratamento há de se ampliar na atividade reflexiva, diríamos mesmo crítica , que se opera no interior dela. A crítica, como afirmou Haroldo de Campos, é linguagem referida, e seu ser é ser de mediação. Ela se coloca no espaço intermediário entre a obra - a criação - e o leitor.
No capítulo 76 ( Ora bolas), referindo-se ao personagem Silviano, Belmiro - o narrador-protagonista - faz uma colocação que parece figurar bem a relação entre esses dois momentos - o criativo e o crítico: "Descobri o segredo de Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste". 2
Se, ao primeiro olhar, essa colocação remete-nos à personalidade e caráter do personagem - aquele que sofre e estiliza o sofrimento - aponta também para o caráter da obra literária: a literatura dividida, nas palavras de Barthes, em objeto olhante e olhado, fala e fala dessa fala, literatura-objeto e metaliteratura. A mesma literatura que é criação é, simultaneamente, crítica ou reflexão. Por meio do diário, a literatura realiza seu teatro interior.
Alguns críticos apontaram para o caráter reflexivo da obra, registrando o fato de que ela traduz a si própria. José Augusto Pereira, em 1947, observou que O Amanuense Belmiro , assim como Abdias, é desses livros que, de certo modo, criticam a si mesmos. Não quanto ao julgamento artístico, pensava ele, mas quanto à compreensão: compreendem-se a si próprios, não necessitam de interpretação para ser entendidos.
Também Nelly Novaes Coelho apontou para o caráter auto-explicativo do livro:
O Amanuense Belmiro não é um romance "difícil", pelo contrário. Seu autor nos conta tudo, nos explica tudo... e assim o leitor, aparentemente, não tem nada a vencer, para a compreensão geral do livro. Dessa facilidade vem, talvez, a certa dificuldade que os alunos encontram quando trabalham com esse autor. Interpretar o que? Analisar o que? 3
Parece-nos interessante observar, pois, como se dá o fazer crítico em O Amanuense . Se atentarmos para o quadro de personagens, observaremos que, nesse sentido, Silviano assume um papel especial, na medida em que, a todo tempo, dá indicações para a compreensão da obra - e o faz na medida em que traz luzes sobre o próprio criador dela. A relação entre ele e Belmiro possui intensa força caracterizadora. É Silviano, por exemplo, quem descobre, nas considerações sobre a Donzela Arabela, um ressurgimento do mito fáustico. No capítulo 20 ( Silviano e o problema fáustico), ao ler a síntese de Salvador Albert, o personagem nos dá uma importante indicação: "En efecto, el problema de Amiel, como el de tantos hombres, era la estrangulación del amor por el conocimiento: el problema de Fausto" (p.49).
O próprio diário de Silviano (um segundo diário, ou um diário que acontece dentro de outro) poderíamos chamar metalingüístico, uma vez que possui uma função tradutora em relação ao diário de Belmiro, sintetizando os problemas de vivência do herói: refere-se ao problema fáustico, a Maranõn e ao "journal intime" de Amiel, a Freud e ao esquecimento. O mesmo há que se dizer com respeito às notas que Silviano entrega para Belmiro, no capítulo 67 ( Nova luz sobre Silviano) , abordando temas como a aspiração do homem pela totalidade, a busca pelo sentido da vida, o destino do homem, todas essas inquietações do próprio personagem- escritor veiculadas no diário.
A função assumida por Silviano, a partir daí, afigura-se como a de um intérprete, em relação ao personagem protagonista. É aquele que encontra as palavras pomposas para a realidade ("Grande coisa é encontrarmos um nome imponente, para definir certos estados de espírito. Não se resolve nada, mas ficamos satisfeitos. O homem é um animal definidor" - p. 50).
Ora, a tarefa crítica é tarefa definidora, e tal preocupação revela-se bastante presente em O Amanuense . A importância de Silviano advém do fato de que um outro precisaria vir com a tradução - palavra acadêmica - já que Belmiro é simples amanuense.
Creio, pois, ser possível registrar uma função metalingüística do personagem Silviano em relação a Belmiro, no sentido de que explicita, elucida, traduz o personagem principal (e, via de conseqüência, sua criação).
Como romance que se auto-analisa, O Amanuense enquadra-se bem naquilo que Malcolm Bradbury e John Fletcher, referindo-se ao romance moderno, chamam de "prática de introversão". O romance aproxima-se de sua natureza de construção verbal, na medida em que a própria arte é tematizada, e a reflexão sobre o processo de elaboração torna-se parte da própria história.
Os questionamentos sobre a construção da obra acontecem em diversos momentos. A passagem do gênero memorialístico para o diarístico, por exemplo, por mais de uma vez, é objeto de reflexão:
Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. Outras se sucederam com largos intervalos. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas, repelindo as solicitações de um presente que se insinuava, sob mil formas, no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. Depois, o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos, impressões, ingênuos pensamentos, loucas fantasias.(p.171)
Tecem-se elocubrações, também, sobre as intenções com respeito à obra: "Só conhecemos, aliás, a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjectura ou romance. Não tenciono escrever romance."(p.171)
Dá-se, pois, em O Amanuense , fato corrente em alguns dos grandes romances modernos, personagens de ficção que são elas próprias conhecedoras de ficção. Elas participam do próprio ato de criação do romance, integram o plano técnico. Belmiro lê o romance no qual está inserido e reflete sobre ele.
O capítulo 93, já ao final da obra, apresenta-se, igualmente, como um capítulo explicativo, tradutor. E o aspecto mais interessante é que essa crítica ou tradução se faz através de um tipo de linguagem oposta à linguagem conceitual - a onírica.
Quando Emília bateu na porta do meu quarto, acordei assustado. Já eram dez horas. Bocejando, pus-me a lembrar do sonho que tive, e que dirão literário, mas posto em mim deixa de o ser. Eu fazia longa viagem, e o calor e o cansaço me derreavam. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam, cresciam, como a querer invadir todo o espaço. Três passageiros que iam, silenciosos, em poltronas da frente, se levantaram, a certo momento, colocando-se em torno de mim.
O primeiro disse: sou o poeta irônico
O segundo disse: sou o poeta místico
O terceiro disse: sou o poeta sem nome (p.186)
O sonho descrito parece cair muito bem como penúltimo capítulo da obra. Na medida em que retrata o artista, ele sintetiza os diferentes processos de construção do romance: o analítico- configurado nas digressões de cunho racional - e o simbólico - no apelo aos mitos, sonhos, etc. Quanto ao terceiro processo/ terceiro poeta (o anônimo), creio que possa sugerir o aspecto inclassificável da obra, no sentido de remeter àquilo que foge a enquadramentos e classificações rígidas.
Em O Amanuense , conforme nos empenhamos em observar, correndo paralelo ao questionamento sobre "quem sou eu", feito pelo personagem principal, apresenta-se o questionamento da própria literatura, que indaga sobre seu ser e caráter. Lembro aqui a colocação de Barthes segundo a qual a literatura, na busca de auto-conhecimento, joga com sua própria morte.
Fato é que a pergunta que encerra a obra não é da ordem do ser, mas do fazer - Que faremos, Carolino amigo?- e, penso se ela não poderia ser atribuída à literatura que indaga sobre seus rumos futuros. Refiro-me, mesmo, à literatura nacional, pensando aqui na colocação de Graciliano Ramos em carta destinada a Cyro dos Anjos, segundo a qual O Amanuense encerraria um ciclo na literatura brasileira: "....estou pensando que o seu livro encerra o ciclo dos romances nacionais. A expressão é um pouco pedante que o Zé Lins utilizou; aplica-se agora a toda literatura de ficção - o romance morre, já começou a morrer. Que acha?" 4
O tom final do diário de Belmiro é fúnebre. Se o capítulo 90 ( Lagoa Santa), já anunciava, usando o linguajar médico, um estado comatoso ("Fiquei outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. Creio que já não tenho mais nada para escrever, pois a vida se torna vazia, vazia" - p.183), o último capítulo parece conter o suspiro final ("...a vida parou e nada há mais por escrever" - p.187). Paralela `a morte da experiência apresenta-se a morte da escrita.
Resgato, ainda, uma afirmação de Donald Schüler sobre a hipótese de morte desse gênero: "o romance está morrendo e deve continuar a morrer; um gênero que perdeu a possibilidade de morrer é que realmente está morto...Alimentando-se de suas muitas mortes, é que o romance se mantém vivo" 5.
O diário também implica uma experiência de morte. A crítica, a reflexão e a excessiva auto-análise são formas de aniquilamento, e o que se aniquila é a própria vida. É o que nos lembra o mito fáustico: o amor - vida - estrangulado pelo conhecimento. Ao contemplar-se nas águas, Narciso acaba por submergir no abismo que sua imagem oculta.
O diário é espaço de perigo, mas também de oportunidade. Ao mesmo tempo em que se liga à morte, liga-se também à vida : "Este caderno, onde alinho episódios, impressões, sentimentos e vagas idéias, tornou-se, a meus olhos, a própria vida, tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância". (p.74)
Ele traz também a conotação de salvação: "Quem quiser, fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico". (p.161)
Penso que o diário permite um mergulho expiatório, uma morte simbólica: batismo e ressurreição.
Talvez Belmiro não contasse com a possiblidade de vida e romance - assim como Fênix - renascerem das cinzas.
BIBLIOGRAFIA
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COELHO, Nelly Novaes. O Amanuense Belmiro. In. O Ensino da Literatura. Ed. F.T.D, S. A., S.Paulo, 546 p., 1966.
CORTÁZAR, Júlio. A Situação do Romance . In . Valise de Cronópio. 2 ed. Ed. Perspectiva, S.Paulo, 257 p., 1993.
BARTHES, Roland. Crítica e Verdade . Ed. Perspectiva, S.Paulo, 234 p., 1970.
BRADBURY, Malcolm, FLETCHER, John. Modernismo: Guia Geral. Trad. de Denise Bottmann. Companhia das Letras, S.Paulo, 556 p., 1989.
PEREIRA, José Augusto. O Romantismo de Cyro dos Anjos. Folha da Tarde . Porto Alegre, 31.01.47
SCHÜLER, Donald. Teoria do Romance . Ed. Ática, S.Paulo, 88 p., 1989.
BARTHES, Roland. Literatura e Metalinguagem. In. Crítica e Verdade . Ed. Perspectiva, S.P, 234 p., 1970. p.28
ANJOS, Cyro dos . O Amanuense Belmiro . 12 ed. Ed. José Olympio, R. Janeiro, 187 p., 1989. p.161.
COELHO, Nelly Novaes. O Amanuense Belmiro. In. O Ensino da Literatura. Ed. F.T.D, S. A., S.Paulo, 546 p., 1966. p.461
Carta de Graciliano Ramos a Cyro dos Anjos, datada de 13.03.38 (Correspondência passiva de Cyro dos Anjos)
SCHÜLER, Donald. Teoria do Romance . Ed. Ática, S.Paulo, 88 p. 1989. p.9