VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Uma leitura de relato de um certo oriente: alteridade e representação sinestésica.
Kátia Cilene Corrêa Klassen (Universidade Federal do Paraná)

Os narradores neste romance de Milton Hatoum 1 bordejam um cosmos e tentam resgatar sua conformação e funcionamento a partir do fio da memória. A construção dos cenários, dos personagens, do enredo se dá de modo difuso, pouco pontual: nesta narrativa parecem concorrer descrição e memória como legitimadoras da internalização do enredo. Há momentos em que a descrição figurativa parece prolongar-se e até confluir numa estrutura discursiva porosa, lacunar e que dá a impressão de que vai se esboroar. Milton Hatoum transpõe o sistema irregular de funcionamento da memória (contemplando até a provisoriedade e instabilidade que marcam este funcionamento) para o mundo narrado, de forma a estabelecer uma homologia entre memória e escrita - o texto é todo ele marcado pela oscilação do relato, pela alternância de vozes e de cenas enunciativas, pela multiplicação de imagens, pelo desdobramento dos episódios narrados, pela costura não-retilínea dos tempos.

Neste processo de reprodução na escrita de mecanismos da memória, Hatoum registra a memória não como devaneio e forma de evasão, nem apenas como duração de conteúdos internos dos personagens, ou como suspensão dos sentidos, ao contrário, é inflacionando os sentidos que ele faz com que aquele impreciso universo da memória, concretize-se aos nossos olhos e se firme como conhecimento. A ausência de dados claros sobre o mundo narrado, a obscuridade de alguns fatos da narrativa e este jogo entre ausência e presença é que dá aos fragmentos daquela realidade a compleição de tela, de relato.

Nesse sentido, a relação que os sujeitos da obra têm com o mundo exterior pode ser pensada a partir do que propõe Bergson em Matéria e Memória 2, no capítulo sobre a seleção das imagens e o papel do corpo, que objetos exteriores, embora não possam criar imagens, mesmo porque são imagens, "marcam a todo momento, como faria uma bússola que é deslocada, a posição de uma imagem determinada, meu corpo, em relação às imagens que o cercam."(BERGSON, p.4). Relato de um certo oriente coloca o leitor diante deste ajuste dos personagens com a realidade circundante, na tentativa deste encontro com o mundo rememorado. Os personagens buscam orientar-se no mundo concreto através de suas lembranças. Aceitaremos, portanto, nesta leitura a proposição de Bergson de que a memória "representa, precisamente o ponto de intersecção entre o espírito e a matéria" (BERGSON, p.14). A memória dos personagens que narram suas experiências serve de ancoragem entre o espírito e o mundo concreto.

Percebemos no texto de Milton Hatoum duas possibilidades de abordagem da memória: a) o gênero textual, ou a "escolha" enunciativa dos diferentes sujeitos, já que as vozes transpassam-se na narrativa e; b) a linguagem dos personagens, que evidencia, sobretudo, as diferentes estesiaspresentes nos discursos dos narradores. Trataremos, portanto, do como veiculam suas memórias e a caráter de seus relatos.

Num primeiro momento, Relato de um certo oriente coloca-nos diante de uma inquietação: será que poderíamos reconhecer neste texto um gênero? A resposta é não. Não temos um gênero único. Temos uma variedade de relatos que se alinham às vezes aos relatos de viagem - na voz de Dorner e seu olhar estrangeiro; diário - na perspectiva da irmã; conto - na prosa de Mentaha (marido de Emilie); carta - na correspondência dos irmãos; novela - na dicção de Emilie; ou como parece explicar a narradora principal do relato, um misto de tudo o que se socorre à memória e que se vale da multiplicidade:

Nessa época, talvez durante a última semana que fiquei naquele lugar, escrevi um relato: não saberia dizer se conto, novela, ou fábula, apenas palavras e frases que não buscavam um gênero ou uma forma literária. Eu mesma procurei um tema que norteasse a narrativa, mas cada frase evocava um assunto diferente, uma imagem distinta da anterior e numa única página tudo se mesclava: fragmentos de tuas cartas e do meu diário, a descrição da minha chegada a São Paulo, um sonho antigo resgatado pela memória, o assassinato de uma freira, o tumulto no centro da cidade, uma tempestade de granizos, uma flor esmigalhada pela mão de uma criança e a voz de uma mulher que nunca pronunciou meu nome. Pensei em te enviar uma cópia, mas sem saber por que rasguei o original, e fiz do papel picado uma colagem; entre a textura de letras e palavras colei os lenços com bordados abstratos: a mistura do papel com o tecido, das cores com o preto da tinta e com o branco do papel, não me desagradou. O desenho acabado não representa nada, mas quem o observa com atenção pode associá-lo vagamente a um rosto informe. (HATOUM, p.163)

 

Neste trecho da narrativa podemos nos aproximar do modo escolhido por Hatoum para trabalhar as assimetrias, os acidentes individuais que são a matéria da obra: registrar a memória em diferentes diapasões, imitando o processo de armazenamento e registro da memória, confere verossimilhança à cena dos enunciadores.

Além da não-delimitação do gênero, em favor de uma hibridização da narrativa, outro elemento a que a memória parece ligar-se é o gesto da escrita. A memória reapresenta, pois que presentifica as percepções do passado, atualiza as imagens e a escrita, por sua vez, representa esta memória. Na narrativa, a escrita serve como tradução da percepção. Em sua materialidade, visibilidade, elemento desenhado no papel, grafia mesmo a escrita por si só conquista o lugar da memória:

Em seu encontro com a narradora Dorner passa a escrever num papel os versos que ela recita. É ela quem nos diz que Dorner:

passou a rabiscar palavras esparsas, em português, e pareceu-me um tanto aleatória a posição dessas palavras na superfície branca: um céu diminuto pontilhado de astros cinzentos, formando uma espessa teia de palavras que às vezes desapareceria, pois o grafite de ponta finíssima desenhava letras invisíveis, sulcos sem cor, linhas d'água. E, de repente, a inclinação do grafite ou o atrito deste com o papel fazia ressurgir volutas pardacentas ou escuras, criando passagens bruscas e inesperadas do invisível ao legível. (HATOUM, p.132)

 

Tanto o percurso textual escolhido para reordenar as memórias dos enunciadores, como o gesto destes indivíduos de escrever, concorrem para estabelecer uma ponte entre matéria e memória. Milton Hatoum parece nos dar uma visão clara, do ponto de vista da forma da obra como do conteúdo, do quanto é oscilante o sistema da memória e a impossibilidade de reduzi-lo a um único indivíduo: a memória perpassa outros, desdobra imagens, faz nascer outras, estabelece vínculos com a realidade e a ela se refunde infinitas vezes. O registro escrito, no entanto, não garante a apreensão integral do outro, pois os seres são descontínuos. Escrita-cometa, escrita-bricolage, escrita inacabada, tosca, testemunho, fotos, relatos, só se afirmam como apreendedoras do mundo circundante, pois são vínculos entre tempo e espaço, corpo e matéria - mas reservam em si a precarieddade desta apreensão. Hatoum nos oferece um romance símile da memória: composto de intervalos e lacunas, de horas imprecisas, de irregularidades. História que, em suas páginas, consegue imobilizar momentos e isto através da sinestesia.

Diferente de outros romances que acionam a memória como projeção de um personagem-narrador, personagem que tem condições para se enunciar, que tem um percurso, uma história mais ou menos linear, uma noção de individualidade, de um ser em discurso; o romance de Milton nos coloca diante de uma situação constrangedora que é o de apresentar a realidade da interexistência e até de um "entresentir" possível quando entramos no território da configuração do outro. Não a individualidade, mas a alteridade é o que descobrimos ser o centro destas memórias.

Daí a segunda parte de minha leitura que diz respeito à linguagem utilizada por Hatoum para nos colocar em contato com estas individualidades, que me parece ser a via das sinestesias.

São várias as estesias, como o são os sujeitos da obra. Cada personagem parece privilegiar um sentido quando nos relata sua percepção do entorno. Naturalmente que há várias sensações implicadas, mesmo porque o termo sinestesia dá conta disso, mas prepondera, às vezes um sentido sobre o outro. Estas várias estesias, pontuáveis nos vários relatos, dos vários personagens, juntas parecem apontar para uma maior, que perpassa toda a obra, que estabelece um único locus , o locus da sensação, da imagem e da memória: uma memória quase sempre luminosa, mas que também causa o ofuscamento de algumas imagens. Há, por meio da construção das alteridades, uma coincidência de estados que são o estado geral da obra.

Deste universo, percebemos apenas sua pulsação e permanência, mas pouco de seus contornos, pouco de sua figuração, muito de sua indefinição. Vozes inseguras, de tempos diversos que entretecem aqui e ali o fio da memória: vozes que apontam sempre para a presença de um outro e de um eu desterritorializado. O imigrante, filhos que não conhecem a mãe, um vidente na floresta, o estrangeiro alemão, a volta para um lar desfigurado, o isolamento numa clínica, o irmão na Europa, a filha surda, um homem-arbusto - situações e figuras intervalares dão a este universo narrado a feição do incompleto, transitório, do fugidio.

Nas primeiras páginas é o olhar da narradora que abre para o leitor, já sob o a influência do despertar do sono a percepção da realidade: sono, luz indecisa, nebulosa, registros em um caderno das impressões de um vôo noturno.

Quando abri os olhos , vi o vulto de uma mulher e o de uma criança. As duas figuras estavam inertes diante de mim, e a claridade indecisa da manhã nublada devolvia os dois corpos ao sono e ao cansaço de uma noite mal dormida. (HATOUM, p.9, grifos meus)

 

O autor parece testar os sentidos e a relevância de cada um deles para cada situação diferente. Para Soraya a filha surda de Samara, o olhar era "suficiente para interpretar ou reproduzir o mundo" (p.18). O mundo inaudível para ela se tornava muito concreto quando se ocupava de mimetiza-lo em gestos, caretas, gestos simiescos. O mundo no olho de Soraya e nossa inclusão neste olhar e no olhar que os outros destinavam a esta menina.

Na voz de Hakim, ao rememorar irmã, os silêncios de Samara, além da incomunicabilidade da filha, eram o estigma dela. Ela mesma vivia de imagens e possuía uma única foto da filha, vivia cercada de silêncios para não ouvir nem os que a cercavam e nem si mesma: não falar para não se culpar pela vida e pela morte da filha. Não falar, não ouvir, desconectar-se era o modo de permanecer. Diz Hakim:

Nesse encontro, o que mais nos exasperava eram os anos silenciosos, o tempo que vivemos alijados um do outro. Falar disso era tabu, embora soubéssemos que esse longo desencontro nos marcaria para o resto da vida. Sabia que ela estava à espera de um comentário ou julgamento , e eu reagia consultando o relógio, fingindo estar com pressa. Fiz, então, uma reflexão que me ajudou a calar a ânsia de comentar um assunto que me desgostava: todo este tempo em que trocamos poucas palavras e alguns olhares, acabou nos aproximando, pois o silêncio também participa do conhecimento entre duas pessoas . (HATOUM, p.117, grifos meus)

 

A memória, além de registro é sensação. Hakim, por sua vez ao lembrar, do espaço vivido, resgata a presença de Anastácia e da mãe através dos aromas:

A lavadeira me agradecia perfumando minhas roupas; depois de esfregá-las e enxágua-las, ela salpicava seiva de alfazema nas camisas, lenços e meias, e, quando eu punha as mãos no bolso das calças, encontrava as ervas de cheiro : o bejoim e a canela. O odor de mistura de essências em acompanhava nos passeios pela cidade e desprendia-se do guarda-roupa aberto durante a noite, como se ali, fumegando em algum canto escuro, existisse um incenso invisível . O odor não estava ausente da conversa entre as duas mulheres.O aroma das frutas do sul vaporava , se colocadas ao lado do cupuaçu ou da graviola, frutas que, segundo Emilie, exalavam um odor durante o dia, e um outro, mais intenso , mais doce , durante a noite. "São frutas para saciar o olfato , e não a fome", proferia Emilie. "Só os figos da minha infância me deixavam estonteada deste jeito". O aroma dos figos era a ponta de um novelo de histórias narradas por minha mãe. (HATOUM p,89)

 

Difusão e convergência de sensações - estas palavras poderiam definir um pouco da dinâmica do romance. São estas propriedades, oriundas da memória que se sobrepõem, inclusive sobre o relato fotográfico. Dorner, aquele que parece ser o personagem que privilegia um olhar mais objetivo sobre a realidade, sabe que "o olhar não se decide por nada." (p.64). Que também o olhar é subjetivo e traz consigo a dimensão do outro ou do circundante, traduzido pela junção de percepções: é o que notamos quando da morte de Emir, na descrição do vulto sobre a água (mais difuso) e antes, na descrição do próprio Emir carregando a orquídea (mais pontual, mas menos impressionante).

A comparação inicial entre Trípoli e Manaus (p.28), a descrição do bairro infanticida (p.123), a travessia da cidade em uma canoa (p.124), a vista aérea de Manaus (p.164), esse mesmo objeto, sendo contemplado em diferentes momentos do dia, à luz das águas, à sombra da floresta, concorre para uma percepção que privilegia não o objeto em si mas o modo como é visto e entendido. As percepções se misturam quando temos um único narrador, mas quando um mesmo objeto é contemplado por outros personagens-narradores, as impressões se multiplicam e perdemos o foco, dissipam-se as fronteiras da realidade e do mundo das sensações. Por extensão, um determinado comportamento, uma experiência é sacada do interior da memória como uma pista. E as sensações é que nos dão conta das lacunas no relato: como se soubéssemos de algumas presenças pelas ausências.

Detalhes esparsos sobre compleição física, caráter, filiação, nomes e atitudes no interior da narrativa só confirmam um procedimento do autor de uma narrativa de rudimentos.

O que nos propusemos a mostrar nesta comunicação é um modo de tratar a memória, com um exemplo da recente narrativa brasileira e, indicar, que Hatoum consegue captar no corpus narrativo o sentido da flutuação da memória e a noção de encontro de seres desiguais, evidenciando que fazer a travessia em direção ao outro é preciso.

 

HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. Companhia das Letras: São Paulo, 1989.

BERGSON, Henri. Matéria e memória - ensaio sobre a relação do corpo dom o espírito. Martins Fontes: São Paulo, 1990.