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A poética impressionista de Clarice Lispector -
Uma leitura de "Perto do coração selvagem"
Jairo Justino da Silva Filho (CEFET-MG/UnB)
O objetivo deste trabalho é contribuir para uma possível relação simbiótica entre a poética de Clarice Lispector e a narrativa de cunho impressionista, postura artística que contaminou a obra de nomes célebres como Flaubert, Proust, Sartre, Gide, Edgar Allan Poe, Joyce, além de pintores como Cézanne, Degas , Monet, entre outros.
Romance de estréia, Perto do coração selvagem contempla-nos com uma narrativa cuja linguagem possui uma indisfarçada capacidade de plasmação do instantâneo, como se observa nesta seqüência:
O dia tinha sido igual aos outros e talvez d aí viesse o acúmulo de vida.
Acordara cheia da luz do dia, invadida. Ainda na cama, pensara em areia, mar, beber água do mar na casa da tia morta, em sentir, sobretudo sentir. Esperou alguns segundos sobre a cama e como nada acontecesse viveu um dia comum. Ainda não se libertara do desejo poder milagre, desde pequena. A fórmula se realizava tantas vezes: sentir a coisa sem possuí-la. Apenas era preciso que tudo a ajudasse, a deixasse leve e pura, em jejum para receber a imaginação. Difícil como voar e sem apoio para os pés receber nos braços algo extremamente precioso, uma criança, por exemplo. Mesmo só em certo ponto do jogo perdia a sensação de que estava mentindo e tinha medo de não estar presente em todos os seus pensamentos. Quis o mar e sentiu os lençóis da cama. O dia prosseguiu e deixou-a atrás, sozinha. Ainda deitada, quedara-se silenciosa, quase sem pensar como às vezes sucedia. Observava ligeiramente a casa cheia de sol, àquela hora, as vidraças altivas e brilhantes como se elas próprias fossem a luz. Otávio saíra. Ninguém em casa. E de tal modo ninguém dentro de sei mesma que podia ter os pensamentos mais desligados da realidade, se quisesse.(1980:22-23) 1
O ambiente no qual divisamos Joana está inundado pela luz que vem do dia, do sol que, sem pedir licença, derrama o seu reflexo entre as quatro paredes do quarto, a ponto de tornar as vidraças tão reluzentes quanto a sua luminosidade. A personagem tem todas as condições de enxergar a realidade que a circunda com os olhos da lucidez, da razão. Mas não é isto que ocorre. N esse cenário onde poderia reinar a inteligibilidade,quem se faz presente é o seu lado sensível aguçado pela emoção da água do mar na casa da tia morta. Esse estado de completa sujeição às coisas ausentes plenifica-se como um ritual religioso : "Apenas era necessário que tudo a ajudasse, a deixasse leve e pura em jejum para receber a imaginação" .
Para Joana, essa obsessão era muito antiga, remontava à infância, e consistia acima de tudo em"sentir". Essa sua sintonia fina com o indizível, ajustava-se tão bem aos seus momentos de "abstração" quanto um artifício, como um meio de deformar a realidade pelo encantamento, como um encontro com a outra dimensão do real. Na personagem, sobrevivia o "desejo poder milagre" que a acompanhava desde a meninice.
Recorremos a este registro de Kronegger na tentativa que fazemos de relacionar a escritura clariciana à poética impressionista:
O impressionismo nasce da idéia fundamental de que nossa consciência é sensível e passiva. A consciência do homem encara este mundo como mera passividade, um espelho no qual o mundo se inscreve ou se reflete. Como um espectador distanciado, o indivíduo considera o mundo sem ter um ponto de vista fixo sobre ele. A realidade é uma síntese de impressões de sentido. A arte impressionista sugere uma realidade emocional. O impressionismo significa uma atitude nova diante da vida.
(Impressionism is born from the fundamental insight that our consciousness as sensitive and passive. Man's consciousness faces this world as pure passivity, a mirror in which the world inscribes or reflects itself. As a detached spectator, the individual considers the world without having a standpoint in it. Reality is a synthesis of sense impressions. Impressionist art suggests an emotional reality. Impressionism means a new attitude towardlife.) (1973:14) 2
Analisando-se os comentários precedentes, dir-se-ia que o romance clariciano evidencia uma certa compulsão para submeter o espaço narrativo à deveniência da impressão. Eis uma passagem de Água viva:
Quando se vê, o ato de ver não tem forma o que se vê às vezes tem forma, às vezes não. O ato de ver é inefável. E às vezes o que é visto também é inefável. E é assim certa espécie de pensar sentir que chamarei de"liberdade", só para lhe dar um nome. Liberdade mesmo enquanto ato de percepção não tem forma. E como o verdadeiro pensamento se pensa a si mesmo, essa espécie de pensamento atinge seu objetivo no próprio ato de pensar. Não quero dizer com isso que é vagamente ou gratuitamente. Acontece que o pensamento primário enquanto ato de pensamento já tem forma e é mais facilmente transmissível a si mesmo, ou melhor, à própria pessoa que o está pensando; e tem por isso por ter forma - um alcance limitado. Enquanto o pensamento dito "liberdade" é livre como ato de pensamento. É livre a um ponto que ao próprio pensador esse pensamento parece sem autor. (1980:90-91) 3
Uma breve discussão acerca da diegese deste fragmento deixa transparente um modo de pensar que se pretende lógico, racional; o pensamento primário. Em contrapartida, temos um pensamento que "devém" , porque este, o pensamento-liberdade, é livre a um ponto que ao próprio pensador, esse pensamento parece sem autor. Nesse caso, o sujeito desse processo acompanha a dinâmica de transição do seu mundo.
Indomável, o pensamento-liberdade aspira ao estranhamento do objeto, nivelando percepção e contemplação. O "ato de ver" do sujeito ultrapassa as fronteiras da lucidez. A sua visão capta, apreende a realidade ausente, o "nada" que fecunda os períodos de indigência do poeta. Ao privilegiar o nada, o pensamento-liberdade invade o espaço poético, o lugar onde o sentido emerge, pois
O poetar do poeta se concentra e recolhe na pura liberdade da espera de nada. Ser poeta é se deixar fazer todo ressonância à música inaudita do ser, perfeita transparência à luz invisível do nada, pura sensibilidade à vigência do inefável, plena liberdade para a desestruturação das estruturas, inteira disponibilidade para o advento à linguagem do mistério do silêncio. (1972:82) 4
Neste ponto da nossa abordagem, algumas reflexões se impõem como forma de vincular dialogicamente o estudo ao qual nos propomos ao pensamento dos precursores da arte impressionista. Num primeiro momento, iremos nos referir a um breve e, ao mesmo tempo, esclarecedor comentário em que Kronegger faz alusão a uma opinião de Proust acerca de Flaubert:
Proust é um dos primeiros críticos a descobrir que Flaubert, em "A educação sentimental", substitui a ação pela impressão, e desse modo realiza uma inovação revolucionária no romance como forma de arte.
(Proust is one of the first critics to discover that Flaubert, in L'Education Sentimentale, replaces action by impression, thereby accomplishing a revolutionary innovation in the novel as art form)(1973:73) 5
É impossível deixar de incorporar à poética clariciana o mesmo princípio revolucionário que , na narrativa flaubertiana, substitui a ação pela impressão. Enquanto na obra do escritor francês, as cenas remetem o leitor para "ações" que se traduzem em grandes espaços vazios nos quais reina a quietude, a vaguidade; em Perto do coração selagem , o ato de ver da personagem não tem forma, é "inefável".O leitor está ininterruptamente em contato com blocos de impressões de uma existência fluida:
Uma porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde... E de repente, sim, ali estava a coisa verdadeira. Um retrato antigo de alguém que não se conhece e nunca se reconhecerá porque o retrato é antigo ou porque o retrato tornou-se pó esta sem- intenção modesta provocava nela um momento quieto e bom. Também um mastro sem bandeira, ereto e mudo, fincado num dia de verão rosto e corpo cegos. Para se ter uma visão, a coisa não precisava ser triste ou alegre ou se manifestar. Bastava existir, de preferência parada e silenciosa, para nela se sentir a marca. Por Deus, a marca da existência... É que a visão consistia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas. (1980:46-47) 6
Nesta seqüência, o primeiro indício de que a realidade projetada no texto é "fisgada" pelo sensação, pela impressão, materializa-se na aura mística que envolve a porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde... Nesta cena fica explícito que tudo está por acontecer. E será já, como numa fantasia. O clima de reserva, de expectativa velada, que domina as imagens, quase que por encanto começa a se desfazer pelo aparecimento instantâneo da "coisa verdadeira". Assim, a visão quimérica de Joana fotografando o retrato de uma pessoa que nunca existira, e que de tão desgastado pelo tempo tornou-se pó. Tão evanescente quanto a lembrança do retrato é a imagem de um mastro sem bandeira, ereto e mudo, firmado num dia de verão. A personagem tinha plena convicção de que essas "coisas" existiam mesmo que não fossem concretas. A referência a Deus em tom de espanto, de surpresa, intensifica ainda mais o momento de irrealidade.
Como se fosse vazada pela impressão, a realidade cedia à imaginação abundante (o registro nós recuperamos de Henry James) da personagem. O método, muito simples, não necessitava de tanta genialidade, importante era que a mente surpreendesse os objetos, com a mesma sensibilidade de quem acredita operar milagres, pois a visão consisitia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas. O real era apreendido num momento de extrema excitação da mente de Joana.
Um detalhe conclusivo. No texto em estudo, invariavelmente surpreendemos a personagem nos seus instantes de contemplação diante do mar. Eis uma destas cenas:
(...)Lá embaixo o mar brilhava em ondas de estanho, deitava-se profundo, grosso, sereno. Vinha denso e revoltado, enroscando-se ao redor de si mesmo. Depois, sobre a areia silenciosa, estirava-se...estirava-se como um corpo vivo. Além das pequenas ondas tinha o mar - o mar. O mar- disse baixo, a voz rouca.
Desceu das rochas,caminhou fracamente pela praia solitária até receber a água nos pés. De cócoras, as pernas trêmulas, bebeu um pouco de mar. Assim ficou descansando.Às vezes entrefechava os olhos, bem ao nível do mar e vacilava, tão aguda era a visão - apenas a linha verde comprida, unindo seus olhos à água infinitamente. O sol rompeu as nuvens e os pequenos brilhos que cintilaram sobre as águas eram foguinhos acendendo e apagando.(...)1980:39-40 7
A imagem da água é um componente acentuadamente pictórico na elaboração da arte impressionista. Na concepção de Kronegger:
Desse modo, parece que os artistas impressionistas são mais seduzidos pela água, pelo sol, pelo por do sol do que pelas pessoas. Para o pintor impressionista, um rio é uma superfície pontilhada de muitas cores. A intensidade dos seus tons, a importância dada ao reflexo das cores, foram os estudos prediletos dos pintores, dos músicos, e dos escritores impressionistas. Todavia, a imagem da água é menos utilizada para cantar a harmonia de luz e cor do que para estabelecer uma relação básica entre o relato inicial de uma emoção e o relato final de uma emoção, projetando o personagem para os seus desejos e sentimentos.
(It seems, then, that impressionist artists are more attracted by water, sky, and sunsets than by people. A river is for the painter an animated surface of many colors. The river's intensity of tones, reflection of color values, were favorite studies of impressionists painters, musicians, and writers. In literature, however, the water image is used less to sing the harmony of color and light than to be the basic connection between an initial emotional state and a final emotional state, controlling the protagonist as to his wishes and feelings.(...) (1973:81) 8
Lispector,Clarice. Perto do Coração Selvagem. 7ªed.Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 1980.
Kronegger, Maria Elisabeth. Literary Impressionism. Conn. New Haven : 1973.
Lispector, Clarice. Água Viva, 6ªed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro: 1979
Leão, Emanuel Carneiro. A poesia e a língua linguagem. Tempo Brasileiro. Rio,1972.p.82.
Kronegger, Maria Elisabeth - op.cit.
Lispector, Clarice . Perto do coração Selvagem (op.cit.).