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A representação do espaço e a construção de uma identidade nacional em Mongólia
Fernanda Müller (UFSC)

Em nossa sociedade há uma crescente fascinação pela diferença e pela mercantilização da alteridade: o impacto do global despertou um novo interesse pelo local 1. Esse fenômeno deu um novo fôlego às narrativas de viagem e vem gerando a publicação de obras ambientadas em lugares distantes, capazes de proporcionar uma relação aparentemente direta com outros povos e culturas. Essas narrativas deixam transparecer uma série de valores, tais como a criação, o reforço ou a ruptura de estereótipos e de outras formas de juízos valorativos e constituem representações dos lugares de que tratam ao sugerir identidades nacionais.

Mongólia demonstra figurar entre tais obras. Publicado em 2003, esse romance resultou de uma encomenda da editora portuguesa Livros Cotovia que, em parceria com a Fundação Oriente , de Lisboa, criou uma bola, permitindo que o autor viajasse para um lugar no Oriente a sua escolha, em 2002. Embora Bernardo Carvalho não estivesse disposto a escrever um diário de viagem, suas impressões, colhidas ao longo de dois meses por cinco mil quilômetros no interior da Mongólia, foram posteriormente incorporadas em dois diários ficcionais que vão sendo expostos alternadamente.

Através desse processo o autor obteve um romance capaz de oferecer uma leitura do estrangeiro que se opõe à idéia do mundo como aldeia global, na qual as informações estão inteiramente disponíveis e são, de certa forma, familiares. A representação do espaço no deserto é feita a partir da interação com seus povos nômades e constitui a chave de uma identidade nacional singular conferida à Mongólia. É na tentativa de averiguarmos como e quais recursos foram empregados para a obtenção desses efeitos que propomos nosso trabalho.

O espaço é uma das coordenadas básicas de todos os sistemas de representação, visto que todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos 2. Envolvendo a noção de deslocamento geográfico e podendo interferir diretamente nos estados físico e psicológico das personagens, ele já ocupava um papel de destaque na Literatura Brasileira, sobretudo nos períodos romântico e realista, visto que, nas palavras de Candido:

 

O nosso romance tem fome de espaço e uma ânsia topográfica de apalpar todo o país. Talvez seu legado consista menos em tipos, personagens e peripécias do que em certas regiões tornadas literárias, a seqüência narrativa inserindo-se no ambiente, quase se escravizando a ele. Assim, o que se vai formando e permanecendo na imaginação do leitor é um Brasil colorido e multiforme, que a criação artística sobrepõe a realidade geográfica e social. 3

 

Embora com uma presença sempre marcante em nossa literatura, o tratamento espacial recebe novo enfoque a partir do modernismo, cujo interesse parece ecoar até nossos dias. Se durante o romantismo houve uma preocupação com a constituição de uma identidade nacional própria, o que se nota hoje é a influência dos interesses do mundo contemporâneo que, com o advento da globalização, redireciona o olhar do escritor e o interesse do leitor para o estrangeiro. Na constituição de uma nação em relação a outra, o exótico deixa de ser característica nacional passando a designar o outro: o desconhecido, o distante.

Tratando-se de uma narrativa de viagem que, como é próprio do gênero, conta a história das personagens através da descrição de suas aventuras, seria natural que o espaço se sobressaísse na obra de Carvalho. Entretanto, ele atua em consonância com a ambientação: aquela complexa atmosfera constituída pelo escritor e percebida através da perspicácia e familiaridade do leitor com a literatura. 4 Isso fica evidenciado nos climas de encantamento, medo, ansiedade, suspense, alegria ou solidão que são conferidos a cada local, o que equivale a dizer que a paisagem é capaz de despertar uma série de sensações nas personagens e no próprio leitor, como é o caso da passagem: "As nuvens correm pela estepe. Não há arvores em lugar nenhum. Mas, ao contrario do que acontece em Pequim, dá vontade de sair andando e não parar nunca mais, não há obstáculos, e as grandes distâncias, por se assemelharem a um gramado imenso, convidam ao movimento, às andanças e cavalgadas sem fim." 5

Se a ambientação atinge sua forma ao longo das páginas, o espaço fica evidenciado antes mesmo da leitura da obra ser iniciada, visto que, logo ao abrir o livro, o leitor se depara com um mapa, cuja importância é esclarecida com o desenvolvimento da trama: ele não apenas situa o leitor geograficamente, permitindo uma visão mais ampla dos caminhos percorridos, mas também funciona como eixo central da narrativa que permitiria ao leitor traçar aquelas linhas imaginarias apenas com a leitura do texto, caso elas já não estivessem demarcadas ali.

Analisando o espaço segundo essa óptica, notamos que o texto aproxima o leitor daquelas escalas, desenhos e pontos do mapa, uma vez que os diários que formam a trama narrativa trazem não só os desabafos de seus autores, mas também apontamentos históricos, socioculturais, arquitetônicos e naturais do país que é cenário da viagem:

 

No dia seguinte, logo depois do café-da-manhã, seguiram para Tonkhil, onde um importante mosteiro do século XIX tinha sido destruído, no verão de 1937, durante o Grande Expurgo. O vilarejo fica num vale onde há um lago de água salobra, celebre pelos pássaros, até mesmo cisnes, que o procuram no verão. As colinas vermelhas ao fundo se refletem no lago como num espelho, como num mundo duplicado. 6

 

Quando começa sua narrativa rumo ao passado e à distância, o narrador é um homem resignado e solitário, que já está aposentado de seu cargo de embaixador e vive na cidade do Rio de Janeiro, conduzindo a narrativa a partir de um ponto fixo: seu apartamento. Muito embora ele não deixe esse recinto até o final da obra, um espaço aparentemente restrito, sua memória o leva aos vários caminhos trilhados por um jovem fotógrafo que se perdeu na Mongólia e um funcionário da embaixada que fora em resgate desse rapaz cinco anos antes, tendo como ponte mnemônica que liga o presente ao passado os diários deixados por eles e há muito tempo guardados e esquecidos em uma gaveta qualquer.

A ação do romance não é externa e sim interna, já que é situada a partir das memórias de papel dos viajantes e mediada pela do embaixador que ora as interpreta e ora se deixa simplesmente guiar por elas. Sua condição de narrador passivo, imobilizado pelas distâncias temporal e espacial, é apenas aparente e mentirosa, visto que também nessa obra a leitura desencadeia o que Dimas chamou, a propósito de As imaginações pecaminosas, de Autran Dourado, "um tropel de sensações, reminiscências e emoções que não respeitam nem o lugar, nem o espaço demarcado, misturando-se presente e passado, interior e exterior." 7

Apesar de as categorias de lugares evocados corresponderem aparentemente às do mundo real, são pouco exploradas as imagens urbanas que se ofuscam frente ao interior desértico. Essa ênfase no deserto, que recai sobre as várias tribos de nômades, cria um aparente aspecto de variedade entre as regiões sem que elas percam características comuns, o que permite a exposição de uma variada gama de cores de onde se pensaria existir apenas o tom ocre da areia e da rocha.

O modo de construção dos lugares fica na maior parte do texto implícito na narrativa, quer dizer, com o desenrolar da viagem o narrador vai descrevendo os obstáculos encontrados e a paisagem que vai se abrindo a sua frente. Todavia, essa descrição não suspende o relato, gerando um vazio narrativo ou se limitando a emoldurar as ações, mas antes influencia e determina os estados de espírito e as atitudes tomadas pelos viajantes, como ocorre nesse trecho:

 

Choveu a noite toda, o caminho está ainda pior do que ontem. Pegamos outra tempestade no meio da tarde, dentro da floresta. Os cavalos estão escorregando. Somos obrigados a apear e a puxá-los montanha abaixo nos trechos íngremes. Minha égua se assusta com a minha capa de chuva, se empina e dá coices. Qualquer coisa é motivo para deixá-lo apavorada. Tenho ganas de matá-la. 8

 

Como podemos notar, quase todos os atos das personagens, como a difícil relação do narrador com seu temperamental meio de transporte, vão surgindo do que os cercam, numa harmonização altamente satisfatória entre o espaço e a ação. Osman Lins define que é "como se o espaço nascesse de seus próprios gestos" 9, o que ainda define a fixação realista da história.

O espaço não só ancora a narrativa no real a partir das informações obtidas pelo autor na viagem que realizou antes de compor a obra, como confere ao texto indicações precisas correspondentes ao nosso universo, sustentadas por descrições detalhadas e elementos típicos, tudo isso remetendo a um saber cultural assinalável fora do romance, na realidade, nos tratados antropológicos, nos guias e nos mapas.

Nessa viagem à Mongólia, observamos uma busca das personagens em descrever não apenas a cultura que forma um país, mas o Oriente de um modo mais amplo; a partir da confrontração com o Ocidente, ora mais, ora menos, direta. Esse Outro aparece sempre como um ser vagamente ameaçador, a espreita para nos destruir em sua ignorância primitiva, ao mesmo tempo que reflete a nós mesmos, já que também somos o Outro para alguém.

Como forma de representar mais de um ponto de vista sobre a Mongólia, em sua maior parte discordantes, o autor fez uso de três vozes narrativas distintas que lhe permitiram uma grande mobilidade. Primeiramente temos o jovem fotógrafo, menos presente, mas com singular papel por evidenciar ao longo de seu caminho um olhar ingênuo, curioso, impulsivo e mais livre de pré-conceitos. Em seguida, temos o funcionário da embaixada apelidado de Ocidental por reforçar a linha imaginária, mas bastante evidente em nossa sociedade, entre os valores e a cultura daquilo que se trata por Ocidente e se opõe a um certo Oriente. Essa personagem se coloca como detentora de uma visão desconfiada e não apenas crítica, mas em diversos momentos injusta e radical, frente à terra, ao povo e aos costumes com os quais se depara. Finalmente, opondo-se diretamente ao Ocidental temos o embaixador, um homem viajado, culto, especialmente compreensivo e um tanto resignado que fará uma espécie de mediação entre os pensamentos, idéias e valores dos outros dois narradores a medida em que os expõe.

Lendo a obra de Carvalho, informamo-nos que os mongóis sempre foram nômades e no século XIII chegaram a constituir o maior e mais temível império da história da humanidade, o qual se estendia do Oceano Pacifico à Europa. As muitas perseguições políticas, os massacres da população e a fragmentação da religião resultaram (após a desarticulação do bloco soviético na década de 90, o qual a ajudara a libertar-se de uma dominação chinesa de duzentos anos), no fato de a Mongólia ter se tornado uma imensa incógnita, ainda em busca de sua própria identidade. Tentando preencher essa lacuna, o autor criou uma identidade nacional a partir da supremacia das regiões desérticas sobre as urbanas, que permitiram um tratamento mais detido sobre os nômades, que, no texto, constituem a verdadeira população da Mongólia, cuja história se confunde com a do próprio país.

Apesar disso, o nomadismo não é descrito como um modo de vida alternativo e libertário: "Os nômades não são abstrações filosóficas. Levam uma vida fixa e repetitiva. Qualquer desvio pode acarretar a morte. Todos os movimentos e todas as regras são determinadas pelas exigências mais fundamentais de sobrevivência nas condições mais extremas" 10.

Aos povos nômades é dirigido um olhar sempre desconfiado, mas que procura os representar em sua diversidade de sistemas rígidos, que compreende desde os nômades ricos, com suas antenas parabólicas e mastro de energia eólica ao lado das iurtas, até as mães solteiras do deserto de Gobi que trabalham sozinhas, cercadas de filhos, cada um de um pai diferente, ajudado-as com o rebanho e as tarefas domésticas, na tentativa de compensar as funções que em sua cultura caberiam ao homem ausente.

Se a Mongólia é tratada como um país de nômades e foi seguindo entre essas comunidades que o jovem fotógrafo se perdeu, o caminho a ser percorrido pelo Ocidental para encontrá-lo deixa de ser por lugares, montanhas, vilarejos, desertos, para se tornar a busca por pessoas: pelos acampamentos em constante peregrinação. Desse modo, a uma geografia física mongol se sobrepõe uma geografia cultural, antropológica, constituída por grupos de pessoas. A única alternativa para encontrar o fotógrafo desaparecido não era procurar passos deixados na areia e seguí-los, mas buscar pelas tribos nômades que o rapaz visitara, o que o Ocidental só vem a entender após a explicação do seu guia: "Você me pediu pra fazer o mesmo percurso que fiz com ele há seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar." 11

A fim de concluir nosso trabalho lembramos que a viagem configura uma forma de (re)invenção do Outro e até do Mesmo , além de ser uma parte integrante de um tipo de saber: o antropológico 12. A viagem constrói intersubjetividades que compreendem o ato de viajar e a narrativa da viagem, o texto , de cuja intersecção resultou Mongólia .

Embora Said afirma acerca do discurso cultural e do intercambio no interior de uma cultura, que "o que costuma circular não é 'verdade', mas representação" 13, e mesmo os textos que presumem conter o conhecimento sobre algo "real" podem criar, não apenas o conhecimento mais a própria realidade que parecem descrever, a idéia de país distante e distinto conferida por Carvalho a esse lugar chamado Mongólia pode ser justificada pelas asserções de Geertz, afinal, "o que é um país se não é uma nação?" e "o que é uma cultura, se não é um consenso?" 14. Foi essa nação e esse consenso que Carvalho buscou representar ao explorar as imagens de povo nômade e de paisagens desérticas em prol de uma aparente coerência capaz de conferir à Mongólia uma identidade nacional e cultural.

 

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade . 7ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p. 72.

Idem , p. 71 .

CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. São Paulo: Martins: 1959. p. 114.

DIMAS, A. Espaço e romance. São Paulo: Ática, 2000. p. 20.

CARVALHO. B. Mongólia. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. pp. 114-115.

Idem , p. 126.

DIMAS, op. cit ., p. 24.

CARVALHO, o p. cit ., p. 46.

Apud DIMAS, op. cit ., p. 26.

CARVALHO, op. cit ., p. 43.

Idem , p. 115.

LEITE, I.B. As fronteiras do exótico: o antropólogo e o viajante. In: ANTELO, Raúl (org.). Identidade e representação . Florianópolis: Ed UFSC, 1994. p. 365.

SAID, E. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente . São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 33.

GEERTZ, C. Uma nova luz sobre a antropologia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.