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A hora da estrela: as vozes que compõem uma arena de sombras ou meu excedente de visão é minha desgraça
Fabiano Denech (UFRGS)
Duas são as teorias que contribuíram para a execução deste Trabalho de Conclusão: o dialogismo e a pragmática. Reforço a idéia de que não faz parte deste trabalho promover a articulação dos dois referidos campos de estudo. Cada uma das teorias dá conta de uma parte do trabalho. O dialogismo é convocado para definir a natureza do texto, ou seja, de que forma é possível perceber o texto como um todo. Nesse sentido, aproveito de Bakhtin a idéia de enunciado. Da pragmática, busco os métodos que me permitam investigar a intenção comunicativa de que é portador o romance de Clarice Lispector.
Reitero que não procuro investigar a literariedade do romance de Clarice. Procuro, isto sim, vê-lo como ato de comunicação inserido no debate universal que, desde sempre, procura entender os mecanismos que atuam na vida humana.
Perceber o romance como um enunciado acarreta implicações importantes. A primeira delas é que todo o enunciado, necessariamente, apresenta um enunciador - mesmo nos casos em que esse se esforça por não aparecer. E não só isso. Como não há enunciados para o vento, temos também a figura do destinatário. No romance A Hora da Estrela, o enunciador manifesto é o narrador e se chama Rodrigo. É a partir dele que temos acesso à Macabéa e a tudo o que envolve a desditosa vida da moça.
A partir do enunciador, o romance se multifaceteia em muitos debates. Rodrigo não é tão somente o narrador posto em ação por Clarice Lispector, é um "sujeito" portador de fortes conceitos sobre diversos assuntos. Rodrigo atesta, pelo menos em parte, o que Bakhtin chama de bivocalidade 1.
A bivocalidade que afirmo existir em A Hora da Estrela é função da interação entre o narrador e a realidade. Nessa perspectiva, uma de suas temáticas conflituosas, a existência de Deus e a relação Deste com os homens, é inteiramente dual, na medida em que traz para o romance um debate que transcende o narrador. A referência feita a Deus é pautada pela perspectiva do outro: "quero encontrar o mundo e seu Deus". Um Deus que ,como se percebe no trecho em destaque, é uma figura externa, como que pertencente a um outro contexto que não o vivenciado pelo narrador. O distanciamento é tão grande que Rodrigo chega a afirmar que "Deus é de quem conseguir pegá-lo".
Rodrigo, enquanto narrador/enunciador, não se limita a "contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela", mesmo que o narrador diga o contrário. Seu discurso é muito mais rico. Ele discute a própria natureza da palavra e do ato de escrever. As palavras "são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música, transfigurada de órgão". Nessa perspectiva, torna-se patente a força de provocação de que são dotadas as palavras - elas servem para promover a interação de vozes "desiguais" que se entrechocam como "pedras". As palavras tanto podem ser amargas, como podem ser doces, depende dos fatos. E os fatos em A Hora da Estrela são "pedras duras" das quais não se pode fugir. E mais do que isso "os fatos são palavras ditas pelo mundo", o que nos leva a relativizar a distância existente entre a narrativa literária e a realidade. Convém lembrar o que afirma Bakhtin - as palavras são ideológicas e acentuadas. Decorre daí, o intenso sentimento de mal-estar que perpassa toda a obra. Não poderia ser diferente, afinal, o romance composto de "pedras", é de difícil digestão - e entenda-se digestão tanto o ato de criar de Rodrigo, como o ato de leitura feito por nós.
Quanto ao ato de escrever, o narrador não tem dúvidas ao afirmar que "mais vale um cachorro vivo". É a afirmação de um sujeito perturbado com o material que molda - a "desajeitada" Macabéa. Escrever para ele, é mais do que contar uma história, e afirmar sua presença no mundo. Um mundo caótico que carece de respostas e lógica. Da inserção do narrador/enunciador no mundo, resulta um aprendizado que é construído na interação com o outro.
O outro pode ser dividido em duas categorias: o outro imediato, o leitor, e o outro distante, Macabéa. O outro imediato, convém ressaltar, é o destinatário. É preciso considerar que, na teoria dialógica, o destinatário não é um ser passivo. Ele, no mesmo momento em que entra em contato com a mensagem quer seja lida, quer seja falada, assume uma "atitude responsiva ativa" que o faz interagir imediatamente com o enunciador concordando ou refutando sua visão de mundo em parte ou no todo. Rodrigo, enquanto enunciador, parece saber do poder de que dispõe o destinatário, de tal sorte que Rodrigo invoca-o constantemente em seu discurso. No romance de Clarice Lispector, o destinatário tem status de co-enunciador. Isto é, é co-partícipe da mesma agonia, é o "outro" capaz de ouvir (e que por isso se faz ouvido). Macabéa é o outro distante, por mais paradoxal que isso possa parecer. Ela é distante porque, ainda que esteja fisicamente próxima como objeto da enunciação, é incapaz de escutá-lo: "quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse: Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém, todos mentem...". Macabéa é tão distante que não se consegue notar seu horizonte, somente seu ambiente. Aquela moça, pura simplicidade orgânica, é apenas um objeto - ela figura na paisagem, mas não interage nela.
A verdade, em alguns momentos, traz consigo uma dose de sofrimento. Nesses momentos, o melhor era ela nunca ter chegado. Rodrigo, é um desses infelizes que desperta apavorado com a chegada dessa "musa inclemente". É no confronto com o "outro" que se dá o auto-conhecimento de Rodrigo:
Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo desonesto.
É a sua percepção da realidade que o angustia. Ele sabe que a falta é conseqüência do excesso, e que, desgraçadamente, numa sociedade capitalista como a nossa, o conforto de poucos é comprado com a miséria de muitos. Rodrigo é um narrador/enunciador que está contextualmente inserido no mundo. E mais, ele sabe que o seu leitor, que ele constantemente antecipa, pertence ao seu mundo:
Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes do outro. Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente. Faço aqui o papel de vossa válvula de escape e da vida massacrante da média burguesia.
O público de que fala o narrador faz lembrar Maingueneau quando, este cita a existência de alguns tipos de públicos leitores, Notadamente, o leitor invocado e o leitor atestado. No caso de A Hora da Estrela, seus leitores representam , ao mesmo tempo, os dois tipos de leitores. O leitor invocado é aquele com que o narrador dialoga. O leitor atestado é aquele que ele prevê num exercício de lógica, especialmente, se levarmos em conta que Clarice, em função do seu modo de escrever, possui um público leitor muito seleto. Daí não causar espanto o fato de Rodrigo incluir o destinatário/co-enunciador nas formulações pelas quais ele se mostra - "A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa". E "nossa" significa realmente o narrador e os leitores do romance. Temos aí, o que Bakhtin define como sendo uma das premissas do romance - a estratificação interna da linguagem, ou seja, temos a linguagem culta do narrador, que não obstante é a mesma de seus leitores em confronto com a linguagem e a realidade singela de Macabéa. A dor de dentes que perpassa o romance é função do conflito mal resolvido entre as classes sociais que se entrechocam em A Hora da Estrela.
O narrador percorre um caminho de auto-conhecimento que se concretiza no ato de escrever: "sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino". O importante nessa descoberta é que ela se dá por contraste, ou seja, é pelo fato de Rodrigo não ver um destino para Macabéa que ele percebe o seu. É sempre a mesma fórmula. O "eu" de Rodrigo se manifesta pela percepção e/ou atuação do "outro". A própria dedicatória (múltipla) do livro é um tributo a todos aqueles que no dizer de Clarice 2"atingiram em mim zonas assustadoramente inesperadas".
Que os romances, por sua própria natureza, instauram espaços mais ou menos dialógicos parece-me não haver dúvidas. O que fascina em A Hora da Estrela é o grau e o teor deste espaço dialógico. A construção do romance privilegia o debate. Rodrigo, enquanto narrador, é a força motriz deste debate que não se esgota na leitura do livro. Na verdade, ele, Rodrigo, responde a outras obras-enunciados e permanece vivo, nas respostas que ele suscita - como, por exemplo, este Trabalho de Conclusão. É justamente o teor de sua manifestação que abriu e até mesmo exigiu que o debate se estendesse às considerações pragmáticas, uma vez que o narrador do romance problematiza intensamente o próprio ato de criação, dando-nos elementos sólidos para entender suas motivações e intenções.
A afirmação de Rodrigo, "o que me atrapalha na vida é escrever", traduz para o leitor um pouco da sua aflição. Os fatos torturam-no imensamente, assim como sua inadaptação ao mundo: "É. Eu me acostumo mas não amanso". A maneira que ele encontra para dar vazão aos seus pensamentos é o ato de escrever. Porém, Rodrigo deixa claro que sua atividade de escritor não representa uma ação voluntária. Ele é impelido pelos fatos. Escrever é uma necessidade despertada pelo confronto com a realidade. O seu objeto de observação, Macabéa, não é fruto de uma livre e descompromissada criação. Ela é, isto sim, uma pedra afiada que forçou entrada no seu mundo - "eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência". Macabéa é sua paixão e desespero. Ela é a própria desestabilização do narrador/enunciador: "antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito da minha literatura".
O romance é feito de palavras. Até aí, nenhuma novidade. O singular reside na amplitude que elas podem assumir. Rodrigo sabe que as palavras representam muito mais do que o seu significado dicionarizado. Ele afirma, inclusive, que "a palavra é ação". E, nesse sentido, deve-se atentar para o fato de que toda escolha (de palavras) implica um ato pragmático, já que elas são colhidas de um "estoque social de signos" que as têm profundamente acentuadas. Em A Hora da Estrela , a escolha das palavras não busca a beleza poética, em outros termos, as palavras não têm a função de encantar 3 . Elas, como pedras duras que são, despertam o horror e a compaixão. Não há por parte do narrador o uso de palavras com meias-tintas. A maior parte das referências à Macabéia nos causam repulsa, assim ela é comparada a "cachorros", "capim vagabundo"ou simplesmente definida como "apenas matéria vivente", "bicho", "virgem e inócua", só para citar alguns exemplos.
Convém destacar, na relação existente entre Macabéa e o narrador/enunciador, a maneira como é descrita a sua criação. A gênese da alagoana de 19 anos não é um puro ato de criação. O narrador conhece a maneira como se estabelecem os contratos literários que moldam o gênero denominado romance. Porém ele busca maneiras de transgredi-lo, instituindo um contrato singular com o leitor - "é claro que a história é verdadeira embora inventada". O que ele pretende afirmar é que ele sabe que Macabéa é uma personagem, por outro lado, ele chama a atenção para o material que lhe serviu de inspiração - a realidade.
É lógico que um ser, como Macabéa, que suscita no narrador tão horrendas percepções, acaba por desestabilizar aquele que o define. É o que acontece com Rodrigo. Ele, enquanto criador/apresentador de Macabéa, move-se num ambiente de incertezas. O romance, fazendo as vezes de válvula de escape, constitui a sua oportunidade de relacionamento com a realidade. Importa saber de que forma se estabelece esta relação. É o próprio narrador/enunciador que fornece a resposta: "enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever".
A partir do momento em que o narrador afirma que seu ato de escrever é uma busca por resposta, posso inferir que o destinatário (o leitor) é parte integrante desta busca. Como o próprio Rodrigo escreve, o romance A Hora da Estrela é um livro inacabado porque não contém respostas. Então, devemos buscá-la noutro lugar. Penso que a resposta se encontra, em parte, nas atitudes humanas; e, em parte, na realidade que nos transcende - o ser abstrato, Deus.
A busca de respostas, por parte de Rodrigo, atende a sua indignação com a realidade. Mais do que isso, ele não suporta o clima fatalista que cerca a vida da moça, ou seja, o fato de ninguém se sensibilizar com sua dor, e o fato dela não ser capaz de dimensionar o mundo em que vive. A indiferença dos outros revolta-o, de tal sorte que ele chega a acusar os próprios leitores : "Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos". Uma realidade-Macabéa não se constrói de uma hora para outra, elas são resultantes da exploração do homem pelo homem e, quem sabe, pela omissão de um Deus distante. O discurso de Rodrigo angustia, na medida em que revela a condição miserável do ser humano. E note-se que a condição miserável não se restringe a Macabéa. É miserável, também, a sociedade que cria tais imagens.
O romance de Clarice Lispector representa um grande espaço de desestabilização. É impossível travar conhecimento com a história de Macabéa, sem que disso resulte uma nova leitura da realidade. Há, inevitavelmente, a construção de dois momentos distintos: um anterior à narrativa e outro posterior a ela. Momentos que não diferem somente no aspecto temporal; o segundo instante, é, diferentemente do primeiro, é um instante de perda. E creio que as palavras de Rodrigo bem atestam o que quero afirmar: "voltarei algum dia à minha vida anterior? Duvido muito".
Por certo, havia "poucos fatos a narrar". O romance A Hora da Estrela, não é um romance de aventuras, é uma obra-enunciado na qual tem destaque, mais do que fatos, pensamentos. E note-se que, quando escrevo "pensamentos", quero dizer também ações. São tomadas de posição frente à realidade que fazem com que o narrador externe sua indignação e o seu desejo de denunciar o sofrimento por que passam as inúmeras Macabéas. E não se trata de realçar os fatos cotidianos - isso os jornais, tão ávidos por sangue, já o fazem. Trata-se de amplificar os "sussurros" que se silenciam em cada desgraça. Escrever, é como afirma Rodrigo, um ofício doloroso no qual se adivinha na carne o que ninguém quer enxergar.
Ao escrever A Hora da Estrela, Rodrigo sofre do mesmo mal que Cassandra. A filha de Príamo e Hécuba recebera do deus Apolo o dom de prever o futuro, porém, desgraçadamente, ninguém dava atenção às suas visões. A desgraça de Rodrigo, por sua vez, reside no seu "excedente de visão". A sua visão não só cobre Macabéa, como cobre tudo o que a cerca, principalmente, o que ela não vê ou não percebe. E é justamente este excedente do narrador que entra em conflito com a perspectiva, ou melhor, a falta de perspectiva da datilógrafa. No dizer do próprio Rodrigo: "e ela tanto mais me incomoda quanto menos reclama. Estou com raiva (...) Por que ela não reage?".
O excedente de visão do narrador/enunciador obrigou-o a procurar uma verdade que transcende a ele e ao próprio romance. Um conhecimento que nos obriga a refletir junto com ele o,
Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.
A palavra bivocal serve simultaneamente a dois locutores e exprime ao mesmo tempo duas intenções diferentes: a intenção direta do personagem e a intenção refrangida do narrador.
Considerar que na dedicatória do autor esta escrito entre parênteses "Na verdade Clarice Lispector".
Pelo menos não no sentido trivial de beleza. É claro que o trágico também é belo, depende do ponto de vista de análise.